
Soam os campanários
aos brados vibrantes
sacudindo cidadelas,
vilarejos e megalópoles
Adentra em cada
canto do mundo
o ser repaginado,
recauchutado, xerocado
A novidade é o ressurgimento do velho,
a ressurreição reinventada
cria de máquinas e laboratórios
Soam agora com escândalo
trombetas sintetizadas
anunciando um Apocalipse apoteótico
Lá vem a temporada
das flores de plástico
semeadas pela discórdia
Lá vem a temporada de pássaros
de asas amputadas e bicos calados
Lá vem a manada
de fetos com caras
de avós abortados
Lá se vê a constelação
de astros e satélites
eletrônicos virtuais
Lá se vê o firmamento
tombado como
patrimônio histórico universal
Lá se vêem os museus
apresentando as notícias
dos últimos gritos da moda
A humanidade está exausta
se maquiando para ser exaurida
por tão oca, tão barulhenta,
por tão fosca, ofuscada
quanto mais cintilante
imagina ou deseja ser
Os homens não se agüentam de tédio
e inventam passatempos de mau gosto
e brinquedos perigosos
para uma platéia embevecida
Com olhos esbugalhados
e uma baba demente
escorrendo-lhe pela boca podre
de estupendo mau hálito
o homem cospe balas e bombas
inventa valores e papéis
molda bonecas de plástico
cruza palavras
E não bastasse criar Deus
e vendê-lo em opulentos castelos
a almas desamparadas,
envergonhadas, humilhadas
encarrega-se ele mesmo
de assumir responsabilidades
de Todo-Poderoso
onisciente, onipresente,
onipotente,
estupidamente.
Ilustração: "O Último Julgamento", tríptico de Hieronymus Bosch (1450-1516)
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1 comentários:
Isso ficaria lindo num palco...nossa!
De.
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