sábado, 22 de novembro de 2008

MONÓLOGOS 4

O Negro Crepúsculo (Gerações e gerações)

Haverá um tempo em que todas as melodias, todas as frases, todos os versos, todos os traços, todos os planos, todas as cenas, todos os gestos já terão sido experimentados ao menos uma vez e não haverá mais como fugir da reinvenção, tudo terá cheiro de clichê, à repetição de velhas fórmulas, jamais haverá autenticidade, espontaneidade, originalidade. Nada mais chocará, não haverá mais indignação, nem encantamento, tudo estará gasto, recauchutado, pasteurizado.
Será que essa época já não nos abateu? Será que não é ela que vivemos já nesses dias modorrentos e violentos? Bom, o tempo e a ignorância apagarão da memória dos homens muitas dessas criações e sempre será possível parecer autêntico. Porém, somente os que verdadeiramente foram os pioneiros é que perdurarão para sempre, enquanto o sempre existir.
E uma multidão teve de trepar para que nós nascêssemos. Até chegar ao pai e à mãe que nos geraram, um longo e tortuoso caminho foi percorrido. Fomos concebidos por gerações e gerações, passando por gloriosos e perdidos, nobres e plebeus, encantadores e desprezíveis, virtuosos e desvirtuados.
Estão todos aqui em mim, todos doidos para ganhar vida. Estão socando as paredes do meu ser, fazendo um panelaço nas vias das minhas veias e artérias, um buzinaço nos meus ouvidos, cantam gritos de liberdade ao ritmo retumbante do meu coração, sacodem as grades de minha mente e escapam por meus poros, minha boca, meus olhos, nariz, pau. Estão sendo ejaculados e paridos de volta, mas não da mesma forma, da minha forma.

Veja também:
Monólogos 3 (O Negro Crepúsculo - continuação)
Monólogos 2 (O Negro Crepúsculo)
Monólogos (O Jogo de Espelhos)
Oceano de Memórias
As Velhas Senhoras do Campo de Sant'Anna
Tristeza Tropical (ou Mortandade)
O Espírito dos Insensatos
Monólogos 6 (Muito Próximos da Lucidez e da Loucura)

2 comentários:

idalena disse...

Melhor que finalmente conseguir acesso, é ler esse texto arrebatador.
Parabéns, moço.

rai2007 disse...

Essa pós modernidade pode nos levar à loucura. Ainda bemque ossonhadores artistas e poetas, estão a postos nas esquinas, a desenhar flores e compor novascanções.Parabéns.