quarta-feira, 1 de abril de 2009

MONÓLOGOS 5

O ESPÍRITO DOS INSENSATOS


A felicidade é o estado de espírito dos insensatos. Sim, é verdade, vez por outra sou acometido pela falta de bom senso. Mas o que tenho visto mesmo antes da insensatez e muito aquém da falácia que camufla as verdadeiras intenções, esta verborragia que mascara personalidades fracas e vazias, é a inconseqüência travestida de coragem, a displicência travestida de tranqüilidade, o excesso travestido de produtividade, a estupidez travestida de inteligência, a afetação travestida de sensibilidade, a promiscuidade travestida de sensualidade.
Vejo um mundo repleto de seres felizes, sorrindo e acariciando suas infantis desculpas e adiamentos, e a pieguice descomunal com que se maquia diariamente diante de um espelho opaco ou fosco ou côncavo ou estilhaçado. Ter uma imagem distorcida de si mesmo é ver o mundo, a natureza, os monumentos, as pessoas, a arte de forma equivocada.
Mas, claro, a vida tem as cores e as formas que lhes emprestamos com nossos sentidos, mesmo quando nos anulamos e nos esforçamos, ou simplesmente nos deixamos enxergar pela ótica de outro. Distorção, espelho com rachaduras, imagens fragmentadas e disformes.
E eu que já quis ser mais rápido que a minha imagem no espelho? Sim, tentei inúmeras vezes fazer um movimento tão veloz que a imagem refletida não conseguisse me acompanhar com a mesma velocidade. Olhei para o lado de lá e quis saber como era, quem era aquele que me imitava e que mundo era aquele que reproduzia fielmente invertido o que estava aqui, do meu lado, à minha volta. É, eu sonhei...
Narciso olhou-se no lago e se apaixonou pelo que viu. Ele não voltou a olhar quando as águas se agitaram. Hoje, os narcisos miram-se nesse espelho d’água diariamente e mesmo que as águas estejam extremamente revoltas jamais conseguem enxergar os seus esgares, suas faces mais horrendas. Só conseguem captar sempre a mesma imagem: a do riso embasbacado da felicidade pré-fabricada.



Ilustração: Narciso, de Caravaggio
Vídeo: "A Queda", Lobão

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O que foi publicado em abril de 2008

Baile das Chamas
Marchons! Marchons!
Gasolina no Incêndio 7

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Monólogos 6 (Muito Próximo da Lucidez e da Loucura)
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8 comentários:

Dra. Denise disse...

Como já conversamos várias vezes, a felicidade verdadeira não vem de nada que esteja fora, ela é interna e de nossa total responsabilidade. Coloco-me então a pensar se não seriam os insensatos vítimas da ilusão ou ainda dos personagens criados pela sociedade...Insensatos e mascarados. É triste não reconhecer-se iludido.O Espírito dos Insensatos é tema para um longo papo numa mesa de bar... Como sempre, adorei!
Bjks.

Mireide disse...

Concordo com a Denise...a felicidade não vem de nada que esteja fora MESMO... Até a maneira de encarar determinadas situações faz com que você fique bem, mal ou péssimo...Não estou defendendo a Pollyanna, mas depende de nós este estado de felicidade.
Prefiro reconhecer-me iludida, mas tirar forças desta ilusão para seguir em frente. Afinal, de que adianta se sentir infeliz o tempo todo, ver o lado negro de tudo e não poder fazer nada para mudar?
Determinismo e livre arbítrio coexistem , por mais opostos que possam parecer... Cada um escolhe a maneira que mais lhe convém de lidar com esses opostos. Será pieguice ? Será auto-defesa? Será insensatez? Será falta de vergonha na cara? rs Não sei, mas se a sua maneira não interfere na vida de niguém mais, além da sua...que assim seja. Lamento que muitos não tenham esta consciência, confundindo sua imagem e assim fazendo, prejudiquem outros e a si mesmos.

"Somos o que fazemos para mudar o que somos."
Eduardo Galeano

PS: Gostei da idéia sobre a mesa de bar...rs Quando este papo acontecer, vocês podem me chamar...rs

Anônimo disse...

Caro Edu, antes de entrar no mérito da questão, gostaria de dizer que é com satisfação que li mais um dos seus trabalhos. Num país onde a maioria esmagadora escreve, fala e lê mal, "O Espírito dos Insensatos" me deu até "onda".
Pois bem, o interessante em ler "O Espírito dos Insensatos" foi perceber que há quase oito anos vivo em meio a uma sociedade, onde aparência, poder aquisitivo e futilidade reinam irresponsavelmente, deteriorando os relacionamentos de um modo geral. Algo totalmente contrário à tudo aquilo que sempre acreditei. Porém, precisamos nos sacrificar por algo maior, e é aí que me encontro.
Outro fator interessante foi o reconhecimento de que já estive em alguns momentos "travestido" na minha vida. Mas como diz o velho ditado, vivendo e aprendendo... e após ler algo como este texto, posso afirmar "lendo e aprendendo". Pois não há algo mais irritante do que perder tempo lendo coisas insignificantes e vazias.
Valeu pela experiência.
Grande abraço,
Gustavo.

Anônimo disse...

Vejo uma diferença entre a artificialidade da felicidade pré-fabricada, que não é uma busca do que genuinamente nos faz feliz, e a ilusão, por vezes filha da ignorância, mas tb dos sonhos que propulsionam as mudanças em nossa forma de sentir, viver e buscar. A nascente da felicidade está em nós mesmos.
Como vc mesmo disse, "a vida tem as cores e as formas que lhes emprestamos com nossos sentidos"... que o excesso de bom senso não nos impeça de ousar colorí-la!
Beijão
Rô.

Dra. Denise disse...

Passei para uma releitura de um texto que indiquei e dei de cara com o vídeo...ficou 1000! Como te disse: fechou!
Beijos, poeta!

Pat Rocha disse...

Consegui assistir ( e ouvir ) o vídeo, finalmente...

"...para não perceber a velocidade terrível da queda..."

Complementar , né?.. Mais o quê?...
beijo

Roberta Baptistelli disse...

Edu, hoje li " O espírito dos Insensatos", e pude constatar que vc. nasceu com o dom de fazer as pessoas refletirem em seus posicionamentos na vida! Realmente...a vida tem as cores e formas que lhes emprestamos com os nossos sentidos e com o nosso estado de espírito!
No que se refere a "nos deixarmos enxergar pela ótica do outro" achei perfeita a sua colocação, até porque, quando isso acontece, deixamos de ser nós mesmos e passamos a ter outra identidade...isso é assassinar o ego e as nossas vontades...isso é vegetar; é deixar de viver e de se expressar...
Viver a vida sob a ótica do outro, ao meu sentir, é escravidão...o que só traz tristeza e escuridão!
Parabéns amigo! Vc se supera a cada texto que escreve!!!
Beijossssssssss

Doroni disse...

Interessante e reflexivo texto

E nessas imagens retorcidas vemos cada vez mais estranhos no espelho, porque geralmente ele reflete nossa maquilagem e não nosso espírito.
" A felicidade é um estado de espírito"
bjs
Doroni