quarta-feira, 9 de setembro de 2009

MONÓLOGOS 6

MUITO PRÓXIMOS DA LUCIDEZ E DA LOUCURA

Eu vo-lo digo: É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. (F. Nietzche)

Nas viagens diárias (diárias?) às vastidões férteis de uma mente em constante ebulição, encontro-me espantado com certos locais inexplorados e perigosos. Tão perigosos que explicam-me de pronto por que inexplorados. Não ouso sequer entreabrir as portas destas habitações cercadas de densa floresta. Ou de mergulhar tão fundo nessas fossas abissais. São essências animalescas, instintivas, algo tão antigo que reside em mim muito, muito antes de meu primeiro antepassado ser concebido.

É lugar muito escuro, onde só se vasculha com tato, paladar e olfato, nada de visão e audição. Entrar nestas habitações sem janelas – ou nessas Fossas Marianas da mente – é arriscar-se profundamente a se deparar com o que pior possuímos. Não ouso fazer aflorar tanta sordidez, por isso o máximo que me permito, embora a curiosidade inerente ao meu ser infantil me empurre sempre adiante, é parar à frente da porta desta habitação.

Há lá dentro – eu bem sei – monstros que não desejo alimentar, fantasmas que volta e meia conseguem escapar só rapidamente, pois os envio de volta para esses locais inóspitos assim que os pressinto. Não é fácil ter a noção e a consciência que ser humano é uma construção em terreno lodoso em bases movediças, que num sopro pode vir abaixo. Seria um trabalho de Sísifo, velho Camus?

Cada patamar construído torna o prédio mais belo e admirável, porém, nos sótãos estão escondidas nossas corrosões, as ferrugens, os vermes, as teias mais densas de aranhas gigantescas, os seres abjetos, que gostaríamos que jamais viessem à tona ou tomassem conta deste prédio aparentemente tão belo.

Mas é o fio da navalha na qual caminhamos. No primeiro vacilo, na primeira desatenção, eles se soltam, eles invadem, nos perpassam: o que há de mais monstruoso em nós, nossos demônios e fantasmas se libertam. E fazê-los retornar para o lugar de onde vieram é muito mais difícil do que mantê-los nas nossas profundezas. Exorcizá-los é tarefa impossível, aqui a ingenuidade não cabe.

Ter a noção de que eles existem podem nos tornar mais inteiros, conscientes, potentes, melhores até, mas também muito mais próximos do que de pior possuímos. Muito próximos da lucidez e da loucura.

Ilustrações: Francis Bacon

Veja também:
"Profano Coração" no Grajornal
Monólogos 5 (O Espírito dos Insensatos)
Monólogos 4 (O Negro Crepúsculo - Gerações e Gerações)
Monólogos 2 (O Negro Crepúsculo)
Monólogos 3 (O Negro Crepúsculo - continuação)
Monólogos (O Jogo de Espelhos)
A Arte Transgressora
Despedidas
O Fim de Tudo
Monólogos 7

1 comentários:

Ecio Pedro disse...

Edu, você estava mesmo inspirado nesse "Monólogos 6". Suas reflexões sugerem uma alma inquieta e verdadeiramente empenhada no conhecimento da natureza humana, sem concessões de qualquer espécie. O texto é denso e algo perturbador, mas o que importa é que revela uma sincera busca interior. Na verdade, já perdi a conta das vezes em que me senti assim.
Um forte abraço !!