quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

MONÓLOGOS 7

O Inevitável Caminho da Solidão

Há pessoas que mergulham no esgoto e de lá jamais deveriam sair. Borbulham em merda a vida toda por opção. Não tenho pena, não aceito posições sociológicas demagógicas e hipócritas. Há vítimas das circunstâncias, mas como explicar que ainda floresça algo em meio ao lodaçal? Não foi opção? Pois então. Lembro-me na casa em que morei na infância que um dia para surpresa de todos um belo e imenso tomate nasceu quase de dentro da caixa de esgoto. Essa imagem está guardada em mim como um imenso, valioso exemplo. Ditadores só sobrevivem porque há os submissos a obedecer-lhes. Definitivamente não tenho pena de ninguém. Ninguém. Que as flores mais belas nasçam em meio ao caos, rompendo com a hipocrisia e a imbecilidade reinantes.
No Brasil e talvez em muitos outros países tropicais tudo o que remete à interiorização é encarado como tristeza. Uma música que não tenha um ritmo “balançante” é interpretada como triste. Se tiver poesia então, mais ainda. Tristes daqueles que não sabem enxergar a beleza e se encantar e se alegrar com ela. Quantos filmes trágicos vi e me fizeram sair do cinema com a sensação de leveza, com uma vontade louca de sair pulando e gritando para todo mundo assisti-lo. Já fiz isso com amigos e conhecidos. Indiquei filmes com um entusiasmo tão grande que os convenci a assistir, mas os comentários posteriores foram chocantes para mim. Melhor eu mesmo aproveitar e guardar esses momentos comigo. Vou em direção ao noturno, profundo, necessário e inevitável caminho da solidão...


Ilustração: Capa do álbum "Casually Dressed & Deep in Conversation", da banda inglesa Funeral for a Friend (que não conhecia. Ouvi duas músicas no youtube e achei bem fraquinha, mas o que vale é a ilustração), inspirada pelos quadros da série "Os Amantes", de René Magritte.
Vídeo: "Maracatu", de e com Egberto Gismonti
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Monólogos 14

1 comentários:

Idoca disse...

Eu não sabia que você tem tanta força nas mãos.
Que tapa bem dado...
Beijo,
Ida