
Minha vida escorre por entre os meus dedos. Eu sinto, ela escorre como se uma força a puxasse para um ralo qualquer desta casa. Não tenho forças para agarrá-la, não tenho forças para segurá-la junto a mim.
Na verdade, não... Não... A força... Sempre procuramos por ela. Mas não é a força que... Não, não tenho ânimo; agilidade... Não sou hábil o suficiente para impedir que a minha vida escorra pelo chão e se espraie e siga seu rumo. O caimento a levará para onde ela tem mesmo de ir. É tão fluida que nem parece mais que a toco. Não sinto mais nada. Estou anestesiado.
A vida é isto mesmo, uma anestesia geral! Mas posso muito bem representar um papel, acreditar nele e ir em frente. Se não for de uma figura muito imponente - pois assim logo me tachariam de louco - todos os outros acreditariam também. É fácil convencer.
Curioso. Essa profusão de imagens que me vem à cabeça. Isso vez por outra me ocorre. Vejo rostos que há muitos anos não avisto sequer de longe. Vejo lugares onde só pus os pés uma única vez. E já passou tanto tempo... Vejo pessoas que nunca vi, como se fossem as mais conhecidas. Vejo pessoas que sempre encontro, como se fossem desconhecidas. Vejo lugares estranhos. Locais misturados. Móveis, cômodos, pátios, ruas, estradas, montanhas, praias... Quase tudo ao mesmo tempo. Uma mistura de cores. É uma beleza estonteante. É uma beleza estonteante!
Essa é a verdadeira beleza estonteante e não essas que a todo momento exibem vulgarmente seus corpos pré-fabricados em capas de revistas, jornais, TVs...
Mas de repente... Tudo o que é belo se transforma... As belas cores se vão e ficam cores mais escuras, preto, cinza, verde musgo, verde musgo... O fundo tem cor de sangue pisado, mistura-se uma terra preta com sangue, esperma... Esperma, a única coisa clara deste pesadelo. E ele fica ainda mais aterrorizador depois de um belo sonho. Fico jogado num chão imundo tentando me levantar, tentando fugir, mas quanto mais força faço, mais me prendo a esse pequeno quarto fétido em que meu corpo mal cabe. Vejo insetos de todos os tamanhos e tipos me cercando, passeando pelo meu corpo nu... Estou todo arrepiado... Horrorizado... Há baratas, minhocas... Gongolos... Gongolos que penetram em todos os buracos do meu corpo, lacraias... Formigas imensas, imensas, milhares delas... Cupins fervilhando pelas paredes, larvas de todas as espécies, lesmas...
Mas será que isso tudo foi imaginado ou aconteceu mesmo? Será que foi real? É; é verdade... Tudo virou verdade absoluta! Tudo o que está publicado é verdade... Todos eles têm razão. Todos! Essa tinta pintando palavras de todos os tamanhos diariamente nos muros, nas bancas... Essas palavras... Também há a tinta virtual... Existia um homenzinho com um baldinho na mão, lembra-se? É, tenho vontade de chutar o balde também... Mas não tenho forças, não tenho... Tudo virtual. Sim, a vida virtual agora é concreta. Ou quase. E as palavras? As palavras perderam o sentido, perderam sua força, parecem também escorrer para um ralo qualquer, estão ficando cada vez mais esmaecidas. As palavras estão foscas, pálidas... As palavras ficaram sem valor, sem brilho. As palavras se corromperam, Mestre Niezstche!
Os jornais estão cheios de palavras repetidas, de frases que já foram publicadas e republicadas milhões de vezes. Todo dia vejo um título “não sei o quê à beira de um ataque de nervos”, “Não sei o quê é de vida ou morte”, “Não sei o quê revolucionário”, “O amor de não sei o quê por algo, alguém ou alguma coisa”. E os feitos históricos! Tudo é histórico hoje em dia. Qualquer punzinho na esquina vira uma saga histórica! Nossa, se fosse mesmo tudo verdade, faríamos parte da geração mais privilegiada de toda a caminhada humana, pois estaríamos presenciando tantos feitos históricos, tantos... Muitos mais do que qualquer outro, desde o Homem de Neanderthal! As palavras estão se apagando...
Estou delirando? Não, não... Perceba! Que sentido tem hoje... Vou dar dois exemplos bem claros. Que sentido têm hoje as palavras amor e revolução? Veja, há amor em tudo: amor ao próximo, amor à primeira vista, amor à camisa. Mas será que ainda existe? É preciso inventar outra palavra que a substitua para que o que ela significava volte a florescer. Que tal ódio? Grande vingança! Não, daria confusão. Clamo já por uma palavra qualquer que salve o verdadeiro amor, se é que ele ainda existe! Mas para quê ressuscitar algo tão piegas? Somos todos tão piegas! E tão cruéis...
E revolução? Hoje tudo é revolucionário. Todos os dias vemos promessas de revolução na informática, revolução na medicina, revolução no mercado financeiro, nas bolsas, nas artes. E tudo isso só me causou uma revolução no estômago. Essa palavra gastou de vez, não tem mais volta. O que ela significou já está sedimentada no limbo do passado, tão distante que a mente humana jamais poderá alcançá-la. Um tempo que parece ao mesmo tempo tão próximo e tão distante.
Os poetas, os poetas... Os filósofos... As revoluções sempre precisaram deles. E hoje, onde eles estão? Nenhuma liberdade existe sem a expressão artística. O inverso também - ou até mais: não existe expressão artística sem liberdade. A democracia não passa de uma medíocre ilusão. A ditadura? A ditadura é a mais burra forma de dominação. Pode espalhar por aí: a democracia é a mais inteligente forma de dominação! Estamos nos sofisticando. Os canalhas de nosso país se sofisticaram, adotaram a democracia. Quem foi mesmo para a cadeia? Quem? Nunca ouvi falar. Soltaram? Já? Pois é... Mas como dizia não há mais qualquer possibilidade de haver qualquer tipo de revolução. Se disserem que houve alguma, duvide. Duvide, duvide! É mentira, deslavada mentira. Não houve, nem nunca haverá mais qualquer revolução. As guerras pelo poder, sempre o poder... O homem adora o poder, adora dominar, mas não passa de um rato, um porco amante da guerra, um porco bélico... Quem tem razão? Quem está com a razão: judeus, muçulmanos, cristãos? Todos eles têm razão apenas quando se acusam... Somente quando se acusam... Quando se defendem equivocam-se redondamente! Mentem, mentem e mentem...
Nos sonhos, nos meus sonhos... Vejo crianças fugindo de bombardeios da Otan, rostos assustados, já sem lágrimas... Fogem correndo a pé, com suas mães... Fogem dentro de jipes, caminhões... Elas formam um exército desarmado, indefeso, inocente... Inocente? Não, a inocência também não existe mais! A pessoa hoje já nasce em meio a um tiroteio... E isso já é tão antigo, se lembrarmos de Einsestein. O bebê perde a inocência no momento em que deixa a barriga da mãe. Talvez até antes! Inocência, outra palavra para ser cortada do dicionário, anote aí.
Heróis, sim heróis... Temos tantos, não é? São tantos que há mais lobos que cordeiros... Embora os cordeiros com a pele de lobos sejam bastante numerosos... Não, não é o contrário, foi isso mesmo que eu quis dizer: cordeiros com pele de lobos. Alguns nem percebem, nem percebem... É apenas um sistema de auto-defesa. É, aquele clichê mesmo: a melhor defesa... Mas falava dos heróis, sim dos grandes e cada vez mais numerosos heróis. Todos nos salvam de algo, nos elevam, nos dignificam, nos emocionam... Mas nós mesmos não fazemos nada disso por nós, não fazemos nada por uma causa gloriosa. Estamos aqui parados, esperando a morte chegar. É, uns esperam sentados, outros parados de pé, mas a maior parte não pára, corre de um lado para o outro como se tivesse uma imensa pressa de que ela chegasse logo. Pensam estar fugindo dela, mas correm em direção aos seus largos braços. Quando menos esperam, ao virar uma esquina qualquer, lá está ela, com seus dentes podres, encostada num poste, de braços cruzados, encarando a vítima, rindo dela sem dizer uma palavra. Mas, zombeteira, é como se dissesse: “Te pegueei, te pegueei... Te PEGUEI!”
Todos esperam pela morte. Uns esperam dançando. Todos a esperam. Não? Não acredita? Perecemos, meu caro, perecemos! Do dia em que saímos do aconchego materno em diante, cada segundo que passa, mais próximos estamos da morte. Um epitáfio pra mim? Não, não quero ser enterrado e ficar confinado, apertado entre quatro paredes de madeira e toda a terra que jogarem por cima, pesando, envolvendo-me. Mas se quer uma frase, aí vai: “Este a nada se prendeu, apenas ao seu corpo, porque não havia outro jeito. Agora que não depende mais dele, baila por todos os cantos, por todos os corpos, por todas as mentes e almas inquietas, questionadoras. Voa e baila sem rumo, mas feliz. Livre, enfim!”
Eu envelheci, sim envelheci muito nos últimos anos. Tenho 25, mas minha aparência denuncia uma idade muito à frente do que conto a partir do ano em que nasci. Veja as olheiras... Passei os últimos cinco anos tentando me defender, tentando ser o que pensei verdadeiramente ser. Tentei não me submeter a ordens estúpidas, a treinamentos imbecis, a aulas de como dar um bom dia, boa tarde... Um simples alô ao telefone se transformou em matéria de cursos nas empresas. A gente se vende por muito pouco. Não nasci para isso, mas quanto mais combati, mais me enfronhei nesta vida. Ou melhor, neste tipo de morte. É a morte do caráter! Caráter, caráter...
Uma vida é ao mesmo tempo tão pouco para mim e ainda assim me parece tão pesada de carregar... Sinto-me hoje, com a experiência acumulada por tantas tristezas em tão pouco tempo, como um velho. Cansado, contemplativo, calado. Um velho que angariou para si alguma sabedoria e muita ingenuidade. Sim, a inocência dos frágeis corpos que já não se movem com a mesma desenvoltura de antes, embora já não se movam mais em vão. Um velho que espera que haja mesmo outra vida, pois o que será se tudo acabar de uma hora para outra? É isso: a inocência só nos vem nos últimos momentos de vida. Aguardo uma escuridão que não me assombre, e sim me envolva e me carregue. Tirarei de meus ombros o peso da vida...
Espero uma outra vida sem razão nem porquê. Portanto, sem as dores ou as mágoas do existir. A consciência do existir, mesmo que jogada num canto qualquer da memória, é o grande fardo do ser humano. Um cão não tem qualquer consciência de sua existência. Ele existe, faz o que toda a história de sua espécie manda fazer e, por instinto de sua raça, faz. O ser humano não pode, por mais superficial que seja, agir da mesma forma. Nem que quisesse babar na gravata o resto da vida conseguiria se esquivar dessa lembrança eternamente lhe saltando aos olhos: você existe e sabe disso!
E pra quê? Esta é a pergunta que tem todas as respostas possíveis, porém nenhuma que convença totalmente. Só uma, por enquanto, parece ser a mais plausível: existimos para nada! No fundo, no fundo, é isso, não há qualquer motivo, qualquer função para exercermos aqui. Sabemos que estamos aqui, por isso é que não nos contentamos com o simples estar, queremos ser. E a língua inglesa ainda aglutina os dois verbos num só. Quanta falta de percepção!
E, em querendo ser e não tendo suficiente paciência, nem inteligência para isso, quase todos passaram a imaginar que o ter, o possuir, o acumular é que atenuará toda a dor de existir. Nada mais imbecil, nada mais tolo, nada mais perverso. Ter ou não ter, eis a questão! Afinal de contas, ser ou não ser não faz a menor diferença, porque existimos hoje e amanhã deixaremos de existir. Portanto, deixaremos de estar, ter e ser. Ou não? Sim, sim. Não temos outra alternativa, meu caro, não temos... Vivamos, pois! Vivamos! Vivamos, então!!!
Mas eu, eu estou trancado neste apartamento há dias e estou trancado em mim há anos. Não, não quero ver ninguém, não quero pensar em ver as pessoas de manhã caminhando apressadamente para o seu matadouro. Engraçado que mesmo não olhando umas para as outras, as pessoas procuram se aglomerar, parecem precisar umas das outras. Elas se juntam inconscientemente enquanto andam correndo e só se desviam das que vêm em sentido contrário. As pessoas gostam de se aglomerar, claro que gostam. No carnaval, no futebol, nos comícios, nas festas, na praia... E aqui faz tanto calor! Será que é só aqui no Brasil? Não, não, não creio que seja um fenômeno exclusivo nosso, há futebol por toda parte, festas, comícios... Ah, e o papa deve se sentir o próprio Deus, falando lá de cima, com toda a sua autoridade e pompa, em várias línguas para ser entendido pelo maior número de pessoas possível... E aquela multidão imensa espremida na Praça de São Pedro como se fosse uma coisa só. Amorfa, colorida, contrita e obediente. Que cena épica! Que cena épica!
Tenho visto muitos filmes, lido muitos livros. Bons, ótimos, excelentes... Sabe, há mais verdade na ficção do que na nossa realidade. O quê? Eu fujo da realidade? Mas como, se a verdade está mais lá do que cá. Nos sonhos, na imaginação, na loucura... Para quem eu falo? Não, não falo, isso tudo é só pensamento, tudo isso é fruto única e exclusivamente da minha fértil imaginação. Sim, eu sou muito criativo, sou muito imaginativo, meio louco até! Mas tenho esse dom de ver coisas, acontecimentos, criar pessoas que não existem ou juntar várias delas numa só. E muito disso sai daqueles sonhos estranhos que falei... Mas procuro fazer as coisas sempre bem feitas... Eu tenho muito bom gosto, muito bom...
Mas nenhuma mulher me amou... E amei tantas... Na verdade, alguma deve ter se interessado por mim, mas nem percebi. Acho que se tivessem me amado mesmo, eu teria percebido. É assim que concebo. Do amor? Não, não sinto falta do amor. Sinto falta apenas do carinho e do sexo. Mas isso eu resolvo de alguma forma, imolando-me ou alugando um corpo qualquer quando há dinheiro de sobra.
Tenho comido tão pouco... Mas tenho me alimentado relativamente bem. Uma injeçãozinha de vez em quando me levanta... Mas me deixa muito ativo, não consigo ler, não consigo escrever... Sim, eu escrevo! Sou poeta. Revolucionário? Que isso... Claro que não, não zombe de mim. Isso não existe mais, você sabe. Hoje há escritores que ganham milhões e os poetas se escondem na dúvida se arte é ou não diversão, se é ou não comercializável. E lucro? Muito lucro; mais para os editores do que para os artistas, obviamente. Mas esses escritores se satisfazem e fazem sucesso no mundo inteiro. São traduzidos, são traduzidos... E ganham até prêmios... Nada mais arrogante quando dizem “fui traduzido, fui traduzido... Em mandarim, em japonês, alemão, javanês, aramaico...” E ninguém traduz o tamanho da imbecilidade humana! Seja em que língua for.
Não fui batizado, não... Não limparam meu pecado original. E também para quê, se muitos outros pecados haveria de cometer pela vida? Muitos semelhantes ao tal pecado original, fique sabendo. Adoro o pecado original! Calma, não se ruborize, desta vez não vou falar de minhas aventuras sexuais. Não mudam muito, são basicamente as mesmas. Chegam a ser meio entediantes. Mas o tédio só vem depois, você me entende? Claro que não entende!
Também sou um ser religioso, sabe? Surpreso? Não fique. Eu comungo todos os dias após me fazer uma série de confissões. Sou meu próprio padre, meu próprio confessor. E minha hóstia é o meu alimento diário de idéias, pensamentos, questionamentos... Minha religião é minha arte! Só a ela pertenço, só a ela me prendo, porque não existem paredes, portões, grades, crucifixos que a confinem, muito embora os homens modernos queiram tanto transformá-la em mais uma lucrativa seita. Sou um santo pecador, sou um anjo grave. Um anjo violoncelista... Adoro o som grave do violoncelo. Bach! Johann Sebastian Bach!
Sim. Procurei emprego, procurei, procurei... Até achei... Mas como disse não visto bem a pele de cordeiro, nem sou lobo, e os chefetes viviam me falando de coisas abstratas que não me diziam nada, absolutamente nada. O que são “call center”, joint ventures”, que são “marketing”, “paper”, “release”, criatividade? O que é criatividade para aquela gente? Taí outra palavra que não faz mais o menor sentido. Até nos campos de futebol ela não comparece mais. Raramente, raramente... Mas basta sair um gol mais bonito para os locutores urrarem: “gol de placa”, “esse é craque”, “gol histórico”... Os feitos históricos ocorrem todos os dias nesta época virtualmente gloriosa.
Vejo, vejo futebol sim... Cada vez menos. Não me interessa mais. Me sinto uma besta quando vejo um jogo do meu time... Me pego torcendo, distorcendo tudo... E me igualo aos imbecis que se espancam e gritam raça, raça, raça nas arquibancadas. Se voltasse ao estádio um dia gritaria sozinho – e fatalmente seria linchado como se tivesse vestido com a camisa do arqui-rival: talento, talento, talento! Bom, é bem provável que eles entendessem que eu estava reclamando por mais velocidade em campo e me poupassem. Quem sabe até me apoiassem! Aí seria a minha derrota total! Melhor ficar em casa e esconder essa vergonha que é torcer para um time de futebol. É um vexame se dizer torcedor. Não acha? Pois eu acho. Já viu como eles se matam? Nem assistem ao jogo...
Sofre-se mais na derrota do que se comemora nas vitórias. Aliás, as vitórias parecem que foram feitas apenas para o escárnio dos derrotados. Vou torcer para o Bonsucesso, vou torcer para o Bonsucesso! Ou para o América, quem sabe. É quase a mesma coisa. Com todo o respeito? Não, sem respeito algum. Já torci muito para o América, mesmo não sendo seu torcedor. E sofria junto com aqueles 18 abnegados na arquibancada lá naquele campinho que se transformou num shopping center. Será que hoje ainda existem tantos torcedores para gritar Sangue, Sangue, Sangue? Nossa, quanto mau gosto. Pior, você talvez não saiba... Pior era quando os torcedores adversários, para provocar, gritavam em coro de onde provinha tal sangue... Não imagina? Pense na parte mais íntima da mulher, pelo menos uma vez na vida, padre! Ah, o futebol me cansa...
Não, não vou mais sair daqui. Vou ficar aqui dentro para o resto da minha vida, seja lá quanto tempo for. Não quero ser reintegrado à sociedade. Não a essa sociedade, não a essa! Sou fruto dela e por isso mesmo cultivo essa misantropia que carrego dentro de mim como se fosse uma orquídea rara. Quero ser marginal! Um marginal que reconstitua o valor exato desta palavra: viver à margem. Sim, aí estarei dando a minha contribuição à humanidade. Estarei devolvendo a uma palavra o seu verdadeiro significado, a sua verdadeira dimensão. E poderei ser lembrado para todo o sempre pelos filólogos e os dicionaristas pelo bem que os fiz. Isso talvez preserve a espécie por um bom tempo. Quem sabe viro um santo. O Santo Padroeiro dos Filólogos e dos Dicionaristas! Ah! Ah! Ah! Ah...
Blasfêmia? Se assassinos podem virar santos, por que não um marginal que dignifique o seu rótulo? Sim, se alguém quiser me pôr um rótulo já tem: marginal. É melhor e não faz mal!
Doido? É, um pouco sim. Preciso rir, padre, preciso rir um pouco. Mesmo que seja de mim mesmo. Aliás, de quem mais poderia rir atualmente? Só de mim.
Medo de morrer só? Não, não tenho medo de morrer só, tenho medo de morrer mal acompanhado. Falo sério... Calma, não é o seu caso, absolutamente! Confio muito em você, padre. Tanto que estou a falar tudo isso que despejo em cima de você. Você é bom, é paciente. Mas não entende as diferenças, não compreende ainda como posso ser tão diferente e tão parecido com você. Sim, somos semelhantes, irmãos, como você gosta de dizer. Mas, muitas vezes o que pensa ser o bem pra mim, na verdade é o mal. Sei que sua intenção não é me empurrar para o abismo, mas nele já estou: criei asas, criei asas... E posso morrer em paz.
Viver sem Deus não é pra qualquer um não, padre! Viver sem ter em quem jogar suas frustrações, sua esperança, sua desesperança, suas culpas, suas desculpas... Sem ter outro ser acima de você para despejar toda a carga de vida que carregamos nos ombros não é fácil. Só os fortes vivem sem Deus! E é preciso coragem para isso, muita coragem, uma força interior que só um deus poderia ter. E é isso que busco... Não, não ser Deus, longe de mim. Busco essa força de caráter, essa coragem de enfrentar de frente, cara a cara, a vida. E tirar dela o que há de melhor. E dar a ela o que tenho de melhor. Por isso crio, imagino, observo, absorvo e repilo, invento e recrio a vida. A minha, pelo menos. Quem quiser que faça o mesmo.
Não, não serei jamais um professor. Ensinar o quê? Ensinar às pessoas a serem exatamente o oposto daquilo que elas estão tão comodamente sendo? Não quero chocar ninguém. Nenhum colégio me aceitaria, não resistiria a desviar do programa estabelecido e seguir um caminho traçado por mim naquele momento. Não, não quero que ninguém seja como eu. Ou melhor, não quero transformá-las em algo que elas não são. No mundo, basta eu. Se me julgo diferente? Sim, sou diferente de todos. Nem melhor, muito menos pior. E me orgulho de não ser tão semelhante como gostariam meus pais. Se fosse, escolheria uma profissão qualquer, de preferência uma bem tradicional. Dá status, dá poder. E o que menos quero é ter poder sobre as pessoas. Mas também não me venham com discursos políticos, nem com palavras de ordem. Sou só e estou muito bem acompanhado. Egoísta? Sim, todos somos, mas não nego solidariedade. Mas odeio a palavra caridade. Ela é sinônimo de pena. E não tenho pena de ninguém, de ninguém. Ajuda, já precisei de muita, mas não pedi. E você veio mesmo assim. Por isso o admiro tanto, apesar de tão diferente de mim.
Já estendi a mão a vários, inclusive a muitos que não mereciam, mas de nenhum ganhei amizade. No máximo, uma superficial amizade. Outra palavra que está se gastando, padre, outra. Mas cá estamos para engrandecê-la com a força de nossas diferenças, de nossos caminhos tão distintos. Lá na frente eles se encontram, é isso que nos une. Amigos, amigos... São tantos que aparecem e desaparecem de nossas vidas... Tinha muitos, padre, muitos... Quando mais precisei, desapareceram todos... E foi preciso que você aparecesse, sabe-se lá de onde, para me provar que ela ainda existe. Mas é rara, rara. Os verdadeiros amigos são poucos, pouquíssimos. Amizade é outra palavra que está ficando amarelada com o tempo.
Se eu não penso em ser feliz? O que é a felicidade? O que é? A felicidade não faz parte dos meus planos. Mais uma palavra vilipendiada, padre. Mais uma. Vamos conversando e descobrindo várias delas.
Relação, por exemplo, percebi outro dia... É, na rua, um cara falou num maldito celular a palavra e ela dançou em minha cabeça como uma bailarina louca. Padre, relação tanto pode ser uma lista interminável como uma intimidade! Difícil entender a amplitude dessa palavra tão sem importância aparentemente. Ela é dúbia e traiçoeira, como os próprios significados dela. Sou triste sim, mas tenho senso de humor. Isso me manterá vivo por algum tempo.
O que penso que é a morte? Ressurreição, talvez. E aí, neste ponto, a gente possa resvalar as nossas crenças, padre! Mas não há um encontro de todo, você vê tudo com outros olhos. Vê tudo com esperança. Sou desesperançado... Peço licença a Clarice Lispector para citar um trecho de um livro seu:
“Mesmo para os descrentes há o desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Sou inquieto e áspero e desesperançado, embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieto é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e vive – o gosto da comida.”
Conhecia isso? Não? Bonito não é? Precisa ler essas coisas lindas, padre. Não é só na Bíblia que se encontram ensinamentos... É de “Água Viva”. Linda, maravilhosa Clarice. Até o nome dela é belo. O Deus, a tal musa inspiradora, a criação, a tal indefinível e encantadora arte. Não existe momento mais sublime na vida de um ser humano do que o momento da criação, que bem pode ser a comunhão perfeita de dois corpos, duas almas... Ou mais de dois, duas, não sei, ainda não experimentei todo o delicado da vida. Você não crê nisso, não é? Crê? Mas não pode ousar sequer pensar nisso... Que pena! Limita-se. Você me perguntou sobre a felicidade ainda há pouco, não foi? Pois é, me sinto imensamente feliz quando crio minhas coisinhas, minhas poesias, meus contos...
Sim, esse encontro que você diz ter ocorrido entre você e Deus é o mesmo que tenho com minha musa. E quando descobri a minha vocação fiquei arrepiado dos pés à cabeça. E pulei, como criança. Foi uma revelação. Mas a minha religião, padre, a minha religião é a arte! Quando termino uma poesia exulto, vibro, danço, canto, brinco, pulo, gozo... É felicidade pura. Só isso já me basta para viver. Pode ficar sossegado, não vou me matar, nem me deixar morrer. Claro que não! Isso tudo estava meio adormecido em mim, mas renasce agora, com esse desabafo. Percebo que isso é suficiente para que continue minha busca, mesmo desesperançado, mesmo triste. Estou forte, tenho coragem para enfrentar tudo. Meu mundo quem cria sou eu, sou eu, sou eu... Sim, tenho muito senso de humor. E também a minha religião, que é o meu alimento. E também você, meu amigo padre. Sim, meu irmão. Tão diferente de mim, mas que um dia vai aprender a conviver com este quase extremo oposto que eu sou em relação a você.
Sou o único que o chamo de você? Pois é, porque pra mim você é um irmão. O amigo é o irmão que a gente escolhe. Temos esta liberdade, pelo menos esta. E, como disse, criei asas. Por isso, convivo bem com você, mesmo pensando tão diferente de mim, mesmo tendo uma vida tão distinta da minha. Ouça padre, tenha a humildade de aprender com um pagão. A mesma que tenho para ouvi-lo, embora hoje só eu tenha falado. É que você é mais paciente que eu. E precisava desabafar. Você me ajudou a me manter de pé, de cabeça erguida... Agora terá de me aturar. Está rindo? Um dia terá a necessidade de se confessar a um pagão e pedir-lhe uma palavra de conforto. Diante da necessidade, a humildade se impõe, meu caro padre. Tenha a certeza disso.
Precisa ir? Uma pena que tenha de ir, uma pena. Mas volte. Volte sempre.
Até breve! Até breve...
Vídeo: "Que o Deus Venha" (Cazuza/Roberto Frejat/Clarice Lispector), com Cássia Eller.
Veja também: Profano conquista corações
O Espírito dos Insensatos
O Papa do Ateísmo
Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado)
1 comentários:
o que mais me admira meu caro,,é sua habilidade em conseguir chegar ao extremo,,decorrendo de tudo em um tudo ...vc toca a ferida sem medo,sem vacilo,,começou e termina,,vai doer??então vc grita,,enfrenta ,,e não se cala,,isso assusta???confesso: um pouco,,mas ta ai exatamente o que me exalta..
abçss..Tatiane Rubim
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