
Minha irmã se matou por minha causa. Minha irmã se matou por minha causa, ela se matou por mim... Sim, culpa minha. Por quê, meu Deus, por que fui lhe contar, por quê? Deveria ter me calado, deveria ter me omitido, ficado na minha. Pensei tanto, me torturei tanto por não saber se deveria ou não falar, para no fim tomar uma atitude, ser honesta com ela e comigo mesma, para encarar a vida de frente, e o que acontece? Ela dá de cara com a morte e se fascina por ela. E no fim só nela vê a saída. Da desilusão com a minha revelação ela se vingou da vida com essa fascinação avassaladora, mórbida. Antes nada tivesse falado. Estaria com a consciência pesada, não conseguiria dormir direito pensando em tudo, mas não seria a primeira nem a última vez para mim. E ela estaria ainda viva, aqui, aqui. Cornuda, mas viva!
Tão jovem, tão jovem... E agora, minha cabeça roda, roda, roda... Sinto-me gelada, com o corpo pesado, preso a esta cama. E tudo por culpa desta culpa. Desta imensa, inebriante, estonteante culpa que me atormenta. É uma dor tão grande na alma, que chego a quase senti-la no corpo. É tão difícil descrever esta dor... Será que vai me acompanhar para o resto da vida? Vai, vai, tenho certeza de que vai. A dor fustiga, mas não se mostra por inteira; ela me cerca, mas não me invade a ponto de arrancar-me as vísceras; ela me mastiga, mas não me engole. Sinto-me ruminada pela dor da culpa. Levei minha irmã à morte. E a quem devo pedir perdão, a quem? Não há perdão, porque quem poderia me perdoar não está mais aqui. E de que serve meu arrependimento? Pra quem ele serve? O arrependimento é ácido, arde tanto. Eu a matei, porque não soube guardar um segredo, não soube o momento certo de me calar.
Há certos momentos em que precisamos nos calar, usar a sabedoria do silêncio. E, para isso, já me disse certa vez um velhinho, é preciso aprender a ouvir. Mas como, num mundo tão competitivo, em que se exige aos berros atitude, ousadia, competitividade... Um mundo que grita ininterruptamente em seus ouvidos até quando dormimos. Talvez, por isso, me sinta sempre tão tonta, tão perdida. Minha irmã não! Não, não! Ela sempre foi mais decidida que... Bem, decidida não seria a palavra certa. Ela era mais fácil de se entender, simples, ela era complacente, portanto não tinha dúvidas, ou pelo menos não aparentava tê-las, pois quase tudo aceitava, sem discussões, sem brigas. Sou mais complexa do que ela, é isso, sou mais complexa.
Mamãe gostava mais dela do que de mim. Também, se pareciam tanto! Papai? Papai não gostava de ninguém, nem dele mesmo. E, além do mais, morreu cedo: às cinco da manhã de um domingo. O médico havia proibido a bebida e o cigarro, mas ele passou a noite de sábado e a madrugada daquele dia fatídico enchendo a cara de goró e o pulmão de fumaça. Deu no que deu! Ei, peraí, de certa forma papai se matou! Ééé, ele quis se matar. Já não gostava da mamãe mesmo, e nem de nós. Vivia reclamando que não tinha grandes oportunidades no trabalho. Vivia se lamentando e enchendo a cara e o pulmão. Dizia que fazia de tudo para agradar o chefinho, mas que nem assim conseguia um cargo melhor. E olha que empenho para isso nunca lhe faltou! Com que empenho o velho lutou por um lugar ao sol na empresa, com que disposição! Que coisa, tive um pai que foi um puxa-saco frustrado, tenho uma mãe sofredora e submissa e acabo de perder uma irmã que herdou a beleza e a complacência da mãe e o instinto suicida do pai. Que sina, meu Deus, que sina!
Mas minha irmã, minha irmãzinha se foi e a culpa foi minha. Tá certo que o Juan, o marido dela, fez tudo sempre muito bem feito, afinal ela nunca desconfiou de nada. Era bobinha, bobinha... Coitada da minha irmã. Foi chifrada pelo marido durante anos e nunca desconfiou de nada. Ponho minha mão no fogo por ela. Ah, ponho! Tenho certeza que nunca, jamais sequer ousou pensar em sair com outro cara. Ela amava o marido com uma submissão fria, meio mecânica até! Ao Juan ela entregou apenas este amor silencioso e obediente, não existia paixão nem da sua parte nem da dele. Ele praticava o ardor juvenil que tinha no corpo em outros endereços... Mas para ela, que de nada desconfiava, parecia que no mundo o único homem que existia era ele. Ela não o exaltava ou o idolatrava. Ela simplesmente seguia religiosamente um dever que se impôs: o de servi-lo. Não reclamava de nada, obedecia tudo o que ele mandava, era melhor que a Amélia, a mulher de verdade. Tinha um carinho enorme por ele e nem ligava quando ele estava irritado ou cansado do trabalho. Cansado do trabalho ou exausto do expediente extra-casamento? Ela nada perguntava, apenas fazia com que ele se sentisse bem. Essa era a sua missão: fazer o maridinho sempre se sentir muito bem. Servia-o, massageava-o, tirava o paletó dele, sempre com o cuidado de não incomodá-lo. Eu deveria ter deixado tudo como estava há anos: ele feliz, a enganando, e ela feliz, sendo enganada. Mas fui contar e estraguei tudo. Acabei com todas as ilusões dela, fiz desmoronar todos os seus castelos, fiz ruína de todos eles – e não eram muitos, pois nunca exigiu nada demais da vida. Arruinei a vida dela e a minha. A realidade é muito dura. Muitas vezes a mentira é o melhor remédio para se viver bem. Sabia desde sempre disso, mas somente agora, com a morte estúpida de minha irmã, é que tomo a plena consciência disso. É melhor mesmo uma mentira bem contada, do que uma verdade mal contada.
O que chamamos de vida real, essa que enfrentamos todos os dias, numa rotina cansativa, mecânica, sempre de olho no relógio, nada mais é do que um sonho compartilhado por todos nós. E se uma mentira é contada várias vezes, sem contestação, acaba virando verdade. Acho que é nisso que empresários, políticos, advogados e jornalistas se fiam tanto. Meu pai se frustrou tanto no seu puxa-saquismo, muito provavelmente porque nunca conseguiu perceber isso. Fico sonhando às vezes em inverter essa história. Isso, fazer uma verdade virar mentira. É só combinar a brincadeira com um montão de pessoas. Quantas mais, melhor. Seria assim: a gente passaria a não acreditar mais nas determinações do governo, nos preços dos produtos e nas notícias dos jornais. Ia ser muito legal, pois para o pessoal que topar a brincadeira, aquilo tudo que eles inventam pra gente não seria mais verdade. Tudo o que eles dissessem, a partir do momento que a gente decidisse, não valeria mais nada. Poderia convocar o pessoal para essa brincadeira pela Internet, distribuindo panfletos nas ruas ou de boca em boca mesmo. Eu ia me divertir bastante e acho que as pessoas ficariam mais felizes. Se bem que muitas, muitas mesmo, se sentiriam órfãs. Bom, mas já estou divagando demais. O tempo é o senhor de tudo e é nisso que eu preciso me agarrar não para esquecer, mas sim atenuar a minha dor. Será que eu consigo? Mas o tempo também pode jogar tudo contra mim, aliás é a ordem natural das coisas. Vou envelhecer, meu deus, vou envelhecer. Não consigo me imaginar com a pele enrugando, as coisas despencando aqui e ali. Vai ser horrível. Mas é melhor do que fazer plástica. Detesto as coisas artificiais. Além do mais, quando ficar velhinha vou ter muitas histórias pra contar. Porém, tem uma que não contarei jamais a ninguém, mas que não vai me sair da cabeça nem quando tiver 90 anos, se chegar até lá.
Oh, minha irmã, por que você se foi assim tão nova, tão bela? Você bem que podia ter adiado um pouco mais esse encontro com a morte, não é? E tem mais: nenhuma pessoa merece que se morra por causa dela não, viu!? Ainda mais o Juan, ainda mais o Juan. Tá certo, ele é muito bonito, galante, envolvente, mas é muito machista, minha irmã! Você deveria ter dado tempo ao tempo e iria entender que a fidelidade é uma utopia inalcançável para a grande maioria da população mundial. Até o Papa trai, tenho certeza! Mas você não, não é minha irmã? Você não. Você era tão fiel, tão fiel que parecia uma cadelinha. Opa, desculpe. Mas é que me lembrei da coleirinha que uma atriz ou modelo exibiu com o nome do marido gravado certa vez por aí. Atriz ou modelo? Não me lembro bem, mas no fundo hoje em dia é tudo a mesma coisa. Não faz diferença. Pois é, acho que você gostaria da idéia, se tivesse visto.
Lembro-me várias vezes, quando éramos crianças, que eu fazia uma arte qualquer e botava a culpa em você. Mamãe até tentava defendê-la, como sempre, mas não tinha qualquer força com papai e com ninguém. E quando papai estava bêbado ele batia forte. Confesso que muitas das pancadas que ele deu em você doeu em mim, mas nunca senti culpa. Só agora entendo o que essa palavra significa. Só agora!
Você sempre foi mais bela do que eu. Sempre, desde que nasceu. Eu tinha cinco anos quando você nasceu e fiquei com um ciúme danado. Eu não sou feia, mas comparada a você as coisas ficavam bem difíceis pra mim. Sempre tentei compensar isso com uma volúpia que inexistia em você. Às vezes você parecia tão apática, tão apagada. Será que era o seu momento de ócio criativo? Não sei, mas você escrevia muito, passava horas trancada no quarto com o seu diário ou, como você mesma dizia, assistindo ao lento e quase imperceptível, porém constante, movimento da natureza. Agora que você morreu é bem capaz de a mamãe abrir o seu diário. Por enquanto não teve coragem. Está tão abatida, acho que ela não vai durar muito sem a sua presença por aqui. Em breve, ela deve estar embarcando para reencontrar a filhotinha querida. Será que há qualquer menção ao suicídio em seus diários? Ai, meu deus, tremo só em falar esta palavra. Acho que sou meio como Nelson Rodrigues, também tenho simpatia pelos suicidas. Mas tremo só em pensar. Não tenho vocação para tal. Mas já são tantos na família, agora me lembro. Além de você, minha irmã, o papai... É, o papai se matou de certa forma, né? Ou se deixou morrer, dá no mesmo... E um irmão mais novo dele que se matou aos 19 anos, após escrever os versos mais mórbidos que já li. Ele achava que era Rimbaud, mas no mínimo acreditava que não valia a pena viver até os 37 anos se o que de melhor poderia fazer já havia sido realizado. Lembra-se, minha irmã, quando lemos, escondidas no quarto a poesia que ele deixou como despedida? Lembra-se do nosso deslumbramento, da nossa excitação, do nosso pavor? Tinha um nome bastante sugestivo: A Dança da Morte. Ficamos espantadas com tamanha morbidez, mas percebi um encantamento no brilho de seus olhos enquanto você a lia para mim. Seria o prenúncio do suicídio? É, talvez o seu suicídio tenha sido forjado antes mesmo do seu nascimento, minha irmã. Antes mesmo do nascimento do papai... Parece que a única paixão que você teve em vida foi mesmo pela morte. Ainda me lembro perfeitamente do dia em que você leu pra mim aqueles versos.
“Minha irmã, achamos um tesouro. Este é um momento especial, pois encontramos a última poesia de nosso tio Artur, que não ousou suportar a vida que o esperava após os 20 anos. Ele morreu feliz, pois se apaixonou pela morte e a ela se entregou de corpo e alma. E nos deixou estes versos que aqui tenho em mãos para que não esqueçamos que, se há beleza na vida, somente na morte é que podemos tocar no sublime de toda a existência. Agora preste atenção, pois vou ler somente uma vez esta poesia, que tanto nos encantou, tanto nos excitou, tanto nos apavorou.
“O corpo ofegante/ estendido em seu leito de morte/ espera sem esperança./ Um fiapo de vida, a vela acesa/ e seus delírios de morte./ A frágil chama,/ o tênue fio de fumaça./ A dança da morte,/ o bumbo e seu compasso marcado,/ a voz de mulher,/ canto mouro, sensual,/ leva o corpo.// O corpo sai do corpo:/ nu,/ hesitante,/ transfigurado.../ O riso da morte:/ alto, forte,/ agressivo,/ sarcástico!// O corpo dança,/ bailado sexual:/ joga-se ao solo,/ rola, roça,/ reveste-se/ de grama e saúvas/ (o corpo dormente),/ de terra e vermes/ (a pele ferida)./ O falo ereto,/ os poros abertos,/ os pêlos eriçados/ e o último gozo de vida/ no baile da morte.
Bela, minha irmã, esses momentos ficarão para sempre guardados em minha memória. E esses, como a culpa que sinto agora, o tempo pode até embaçá-los, amarelá-los, porém jamais os apagará. Essas lembranças me trazem à cabeça agora o velho retrato de nossos avós na sala de nossa casa. Papai o cultivava com um cuidado e um carinho que nunca teve com mamãe. As marcas do tempo estão lá cada vez mais nítidas, porque, apesar de papai ter morrido há anos, ela não teve coragem de tirá-lo de lá. Até hoje ela respeita papai, como se a sombra dele, envolta em fumaça e exalando um cheiro forte de álcool ainda a perseguisse, ainda a envolvesse, a bolinasse... Mamãe, quando ainda conseguia dizer algo compreensível - antes da sua morte, Bela - contava que às vezes sentia uns arrepios esquisitos. Eu sempre brinquei dizendo que era a morte passando, e ela me repreendia, se benzendo três vezes em seguida. Lembra-se, você sempre tapava o riso, com sua timidez natural, exatamente como mamãe fazia nas raras vezes em que ria. Recordo-me agora que você vivia dizendo que detestava o cheiro do papai. Mas eu não, eu sempre adorei aquele aroma de sabonete barato, água quente, fumo vagabundo e aguardente. Ele fazia tudo em exagero: bebida, fumo e banho. Tomava de cinco a seis banhos por dia, sempre quente, muito quente. Gostava mesmo daquele cheiro dele. Sempre fui selvagem; você, sempre bucólica. Você sempre se deu mesmo melhor com a mamãe. Questão de afinidade, de temperamentos parecidos. Eu não! Sempre assustei vocês três com minhas opiniões, meus gostos, minha ética própria – que aliás mudavam de tempos em tempos, mas sempre foram mesmo meio extravagantes para os padrões de vocês. Eu jamais cheguei das festas na hora marcada, mas você jamais ousou passar um minutinho sequer do horário determinado pelo papai. Até nisso você se parecia com a mamãe. Até nisso, meu deus! Fisicamente também. Confesso mais uma vez que tinha uma certa inveja da beleza de vocês. Mas só um pouquinho, porque sempre gostei mais do meu jeito de ser. Afinal, nunca obedeci a ninguém e nunca fui passada pra trás. Você, minha irmãzinha, quantas vezes, quantas vezes...Preciso mesmo me penitenciar com você, não é verdade? Eu já a deixei mal muitas vezes, Bela, muitas vezes, admito. Lembra-se quando roubei aquele seu namoradinho? É, aquele riquinho que só andava com o carro importado do pai, lembra? Pois é, não senti culpa alguma, mas fui sincera com você e confessei tudo. E ele, como todos os homens, não era nenhum santinho, não, você bem sabia. Mas você queria se casar virgem e eu nunca liguei pra essas coisas... Nem sei por que você namorou com aquele cara. Será que por um momento de sua vida, um momento pequeno, porém significante, você rompeu a barreira de sua capa ética e pela primeira vez prevaricou namorando um carinha só por vaidade, por interesse, por exibicionismo, hein, hein? É, mas se foi isso durou muito pouco porque você até me agradeceu quando eu lhe contei que estava saindo com ele. Aquilo sim me doeu, viu! Ah, doeu, tirou todo o tesão da conquista, brochei e me desinteressei logo por ele. Afinal de contas, ele era muito almofadinha pro meu gosto. Bela, e aquele gato com pinta de intelectual que você um dia se interessou. Pois é, fez cada poesia linda. Pra mim, claro! Afinal, fui eu quem ficou com ele. Lembro de uma que tenho guardada até hoje no meu armário, que se chama Sol Nascente:
Sol nascente,/ chamo-a assim/ em homenagem/ à natureza// Filha que orgulha a mãe,/ cria de toda beleza,/ ilumina, hipnotiza,/ irradia a vida// Toda a alegria/ faz você/ o amanhecer do dia// Como o sol no Oriente,/ o belo transcendendo o belo,/ é você no meu libelo.
Relendo agora fiquei meio encafifada com uma coisa, Bela. Não entendi muito bem por que ele me relaciona com o Oriente se tenho estes cabelos encaracolados e olhos grandes? Aaaaah, safado! Você tinha os cabelos lisos, escorridos, olhos puxadinhos, claro. O desgraçado fez a poesia pra você. Que nojento! E eu boba, achando que era pra mim! Você morreu e nem soube dessa, minha irmã. Nem eu, só agora me toquei. Que burra!
Quando você começou a namorar o Juan eu não estava por aqui. Mas logo que o conheci eu avisei a você que ele tinha uma cara de anjo, mas não prestava. Você não acreditou, achou que eu estava com ciúmes, inveja, sei lá. Além do mais sempre foi muito convencido, achando que a beleza física supera tudo na vida. Por isso nunca se interessou muito por ler, estudar. Ele ignorava seus escritos e só prestava atenção em sua beleza, mas não resistia a todas as outras que passavam à sua frente, mesmo as que nem chegavam aos seus pés. Mas você estava cegamente apaixonada por ele. Depois que você se casou nos vimos poucas vezes, afinal levamos vidas tão diferentes. Eu não me casei até hoje e nem pretendo. Já você: sempre família, voltada para o lar, embora não tenha podido ter filhos. Dedicou-se muito a ele, mas não tomou conta direito. Ou ele é esperto demais. Não, nem tanto assim. Será que o desgraçado está chorando a sua morte? Será que está sentindo algum tipo de remorso? Será? Ai, só sei que fico relembrando de tudo o que vivemos juntas e não me esqueço do que fiz de mais estúpido. São coisas banais que passaram, lembranças, saudades, muitas saudades e uma culpa imensa. Chego a ter medo de uma vingança do destino. Por quê, pergunto sempre e jamais encontrarei resposta, por que resolvi contar pra você que seu marido a traía? Você ficou tão chocada, paralisada, pálida. Em nenhum momento duvidou do que eu falava, só dizia e repetia insistentemente, quase sussurrando uma palavra: cinismo! Cinismo! Cinismo! Nunca me passou pela cabeça, embora a conhecesse muito bem, que aquela decepção fosse fazê-la definhar tanto. Você, como sempre, nada me perguntou. E se tivesse mentido? Minha dor seria ainda maior pela desastrada brincadeira, mas não faria isso, você sabe bem. Era verdade: Juan sempre a traiu. Você nada contestou, calou-se tão profundamente, parece que estava se abraçando à morte. Sim, seu silêncio após o meu relato – você parecia pronunciar a palavra cinismo em silêncio – foi mórbido. Você fitava fixamente o nada, o ambiente ficou pesado, fiquei triste, mas disse ingenuamente que você saberia superar tudo. Nem me ouviu. Você nunca superou nada, essa é a verdade, sempre se conformou, mas guardou tanto sofrimento dentro de você, tantas decepções, tantas opressões, que resolveu se voltar contra a vida. Essa vida que levava sem desabafos, sem explosões, sem múltiplos orgasmos...
Estou me corroendo em culpas. Você se foi e me deixou assim: culpada. Como nunca pensei que um dia fosse ficar. Se fosse como você e papai e o tio, me mataria também de tanta dor, de tanto sofrimento. Vou tentar suportar tudo porque não tenho coragem de me matar. Sou covarde para isso, admito. Covarde! Fui condenada a viver com essa culpa e a carregarei como uma cruz a pesar-me sobre o corpo e a alma até a morte. Acho que nem depois me livrarei dela. E se provoquei a sua morte, você, com sua morte, me matou em vida, Bela. E nem tive tempo de lhe dizer que a amante de Juan era eu. Sim, era eu! Eu! Não pude curtir com sua carinha angelical mais uma vez. Não pude. Você se vingou de mim da forma mais brutal, mais desumana, mais violenta. Tenho ódio de você, minha irmã, ódio! Perdi até o interesse pelo Juan, ele não vale mais nada pra mim depois de sua morte. Nada! Odeio perder, odeio! Nunca soube perder, nunca. É por isso que pra mim a dor de uma derrota é sempre muito maior que a alegria de uma vitória. Por que você fez isso comigo? Por que se vingou assim de mim? Não teve pena da sua irmã, Belinha? Não posso nem reagir. Estou acorrentada, de mãos atadas. De tanta dor que sinto agora, estou condenada a viver. A viver, a viver, viver...* Este é o texto (sem as rubricas) da única peça de minha autoria a ser encenada até o momento (entre março de 2002 e maio de 2003), graças ao talento e à determinação da saudosa Cristine Cid, que a produziu e dirigiu. Não posso deixar de citar as excelentes Denize Nichols (atriz) e Cátia Vianna (cenógrafa), que também tornaram possível a realização do espetáculo. Outro agradecimento que merece ser feito é a Sóter França Júnior, que foi o primeiro a acreditar no texto depois de Cristine e seria o diretor da peça não fossem alguns imprevistos.
Vídeo: O Fortuna (Carmina Burana, de Carl Orff), regida por Andre Rieu
A arte das ilustrações (banner, folder e ingresso) acima é de Marcos Cid.
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A Midiotização
1 comentários:
Agora pegou pesado...um show! Gostaria de ter visto...sugiro um "vale a pena ver de novo" em única apresentação!
Bjs.
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