sexta-feira, 14 de maio de 2010

DESJEJUM


Não sou flor que se cheire
sou flor que se abocanhe
que se tatue
num púbis liso e perfumado
em pele com textura
de uma pétala rósea
O aroma de cor suave
e viva vulva
desabrochando
nesta manhã,
que nasce atrás da translúcida cortina,
véu que baila
revelando sol ameno mas claro
a tingir folhas
e suas gotículas cintilantes
O céu de nuvens esparsas, alvíssimas
reproduz alto-relevo
arbustos, plantas, gramados
a penugem do seu corpo
como um trigal de Van Gogh
Os poros em silenciosa festa
germinam minhas sementes,
respiram, suam,
fabricam seu pólen
e cuidadosas mãos de jardineiros
fincam-se, entrelaçam-se
unhas como espinhos
desferem seus lentos golpes
e numa estocada mais firme
a sangria leitosa de meu caule,
a seiva quente deste dia de outono,
servirá na cama
o nosso desjejum.

Ilustração: Trigais, quadro de Vincent Van Gogh
Veja também:
Profano conquista corações
Monólogos (O Jogo de Espelhos)
Samba Matéria
Croniqueta da Madrugada Readmitida
Crônica da Cidade
Tristeza Tropical (ou Mortandade)
Sorte ou Azar
Beleza e Caos: Arte em Toda Parte Plástico

2 comentários:

Dra. Denise disse...

Fiquei sem fôlego...lindo de viver...

Eduardo Lamas disse...

Obrigado, linda!
Beijão.