quarta-feira, 1 de julho de 2009

O TORCEDOR DE VÍDEO-TEIPE

Djalma era um sujeito pacato e trabalhador. Adorava uma roda de samba, participava de todas, mas sempre discretamente. Era muito querido em todos os lugares por onde passava: na rua em que morava, nos pagodes e no trabalho. Além do samba, Didi, como era carinhosamente chamado pelos amigos e colegas de trabalho, tinha uma outra paixão: a seleção brasileira. Era um verdadeiro torcedor, mas não daqueles de ficar discutindo escalação, nem pedindo fulano, beltrano e sicrano no ataque do escrete canarinho, como ele ainda se referia à seleção. Didi era avesso a discussões sobre futebol e, por isso, poucos se davam conta que ele amava o famoso esporte bretão.
Às vésperas da Copa de 1994, porém, a sua fama de torcedor fanático se espalhou. A história começou quando ele resolveu comprar uma antena parabólica com o 13º ganho no fim de 1993 para instalar na sua casinha lá em Vila Kennedy. Com muita dificuldade, ele fez a alegria de dona Guiomar, sua esposa, e das crianças, que tiveram assim mais opções de divertimento. Didi, porém, só ligava a televisão para ver jogos da seleção brasileira, que se preparava para a Copa do Mundo dos Estados Unidos. Ele pouco sabia dos campeonatos disputados no Brasil, não tinha clube do coração e muito menos se interessava em ir ao estádio, a não ser que a seleção jogasse. Como jogo do Brasil no Maracanã naquela época era muito raro, é fácil deduzir que Didi não ia ao Mário Filho mais com a freqüência dos anos 60 e 70, quando quase sempre o escrete se apresentava no Maraca.
A televisão com a antena nova tinha ficado praticamente esquecida por Didi, até que numa noite ele perdeu o sono e resolveu ir à sala para arriscar um canal para ver se passava algo chato para fazê-lo pegar no sono. Muda daqui e dali até que ele se deparou com algo muito familiar. Em um canal que ele guardou o número, mas que jamais saberá de que país pertencia a tal emissora, ele viu a seleção canarinho toda perfilada cantando o hino nacional, momentos antes da estréia na Copa de 70, contra a Tchecoslováquia. A partir daí ele não conseguiu mais dormir, vibrando, chorando, torcendo, esperneando, socando o chão e o ar e xingando, tudo isso em sussurros, com o máximo cuidado para não acordar sua família e a vizinhança.
Ele não entendia patavinas do que o narrador falava, mas sentia a emoção que o locutor procurava dar ao jogo realizado 24 anos antes. Emoção que Didi não pôde sentir na época porque estava preso. Após os 4 a 1 sobre os tchecos, Didi ficou eufórico e pôs uma bandeira empoeirada da seleção na janela e saiu feliz da vida para o trabalho, vestido com uma velha camisa da seleção. Todos acharam que ele já estava entrando no clima da Copa. De 94, a que se aproximava. Na noite seguinte, no mesmo horário, lá estava ele diante da televisão roendo as unhas, enquanto toda a cidade dormia. Ao fim da vitória sobre a Inglaterra, depois de ter se segurado na hora do memorável gol de Jairzinho, ele não se conteve e explodiu, acordando a casa inteira. Envergonhado, desligou rapidamente a televisão e deu a desculpa que havia chutado a mesa na hora em que fora beber água.
No dia seguinte foi ao pagode comemorar a classificação antecipada da seleção para as quartas-de-final da Copa de 70 e tomou um porre. "A seleção é demais. Pelé, Tostão e companhia jogam muito". Ninguém levou muito a sério porque ele e os outros estavam completamente embriagados, mas prosseguiram falando dos bons momentos do futebol brasileiro. Ele chegou em casa a tempo de assistir tranqüilo e sonolento os 3 a 2 sobre a Romênia. Ele apenas sorria nas grandes jogadas dos brasileiros e fazia uma careta nas falhas que deixaram os romenos fazerem dois gols.
Passados os 4 a 2 sobre o Peru, pelas quartas-de-final, Didi, cada vez mais eufórico, incentivou a criançada a pintar a rua e enfeitá-la, colorindo tudo de verde e amarelo. A seleção de Parreira já estava nos Estados Unidos e a Copa começaria poucos dias depois. Mas, para Didi, o importante era o jogo com os uruguaios. O fantasma de 50 ainda pesava e depois que Cubilla fez o primeiro gol do jogo ele quase entrou em desespero. Mas o genial passe de Tostão para Clodoaldo empatar fez Didi dar um berro que ultrapassou os limites da casa. Desta vez,
porém, ele se antecipou e foi logo dizendo que tinha dado outra topada na mesa. A vitória e a classificação para a final vieram depois. Didi acompanhou tudo nervosamente.
No resto da sua casa, da rua, do bairro, da cidade, do estado, do país só se falava de Bebeto e Romário e se Raí deveria ou não continuar no time. Muitos pediam três atacantes com a entrada de Ronaldinho, mas Parreira e Didi não ligavam. Parreira apreensivo com a estréia contra a Rússia na Copa dos Estados Unidos e Didi nervoso com a final contra a Itália. Chegou o grande dia para Didi: a final entre Brasil e Itália, no Estádio Azteca, México. Djalma estava em frente à televisão com sua farda verde e amarela e a expectativa era grande. Durante o jogo, que todos já sabem de cor e salteado como foi, Didi teve de dar várias vezes a desculpa da topada.
Para dona Guiomar e o resto da casa, naquele dia, o patriarca estava com muita sede e cada vez mais distraído. No fim do jogo, já na manhã da estréia do Brasil na Copa de 94, Didi foi para a rua com bandeira na mão e levou a vizinhança ao delírio com aquele espírito de Copa do Mundo e a confiança demonstrada na seleção. Ninguém nem podia desconfiar o motivo de tanta euforia. Os mais jovens reverenciavam seus ídolos e gritavam: "Brasil, Brasil, Brasil". A festa não parou, porque a seleção brasileira venceu a Rússia por 2 a 0, fato completamente ignorado por Didi, que só pensava em reverenciar Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Pelé; Jairzinho, Tostão e Rivelino e mais Paulo César, Marco Antônio, Roberto Miranda, Zagallo... Com a bebedeira e o pagode ninguém ligou para o fato de Didi só falar naqueles jogadores aposentados há tanto tempo - um inclusive já falecido (Everaldo). Didi comemorava o tri e a galera, a perspectiva do tetra.
A cada vitória da seleção nos Estados Unidos a euforia aumentava e todos iam para a rua comemorar e, principalmente, bebemorar. Didi, no entanto, não apareceu mais e só se deram conta que havia desaparecido quando ele se juntou ao pessoal para assistir à final entre Brasil e Itália. Desta vez, porém, pela Copa de 94. Ele dava a desculpa a todos que estava doente e que por isso havia sumido, quando o jogo começou. Ele começou a achar o jogo muito monótono, ficou com sono e foi para casa dormir, coisa que ninguém percebeu, pois todos estavam de olhos grudados na TV. Ele acordou com a barulheira pela comemoração do chute de Roberto Baggio para o alto. Foi arrancado de casa e carregado para a rua, mas não conseguia se animar muito. Perguntaram para ele por que não tinha a mesma euforia de antes, se estava doente etc e tal. Didi não se abalou com toda aquela curiosidade e sua resposta deixou todo mundo sem nada entender: "Quem sabe daqui a quatro anos, quando passar novamente na televisão..."


Esta história foi inspirada em Djalma, contínuo adorado por todos, com quem tive o prazer de trabalhar por 4 oportunidades diferentes no extinto Jornal dos Sports.
Veja também:
tudo o que foi postado em julho de 2008
"Profano" conquista corações
Futebol-Arte: Os Maiores Jogos de Todos os Tempos
Gasolina no Incêndio 8