domingo, 23 de maio de 2010

GRAJAÚ REVISITADO

A Mauro Cunto (in memoriam)

Numa tarde ensolarada de inverno
como tantas outras
de 30 anos atrás
percorri tuas ruas
e vi surpreso as mesmas
feridas e cicatrizes
fendas, aclives e declives
Casas paradas no tempo
como se muros e paredes
não tivessem envelhecido
apenas transportados
de uma época para a outra
Meu nome escrito
com insegura grafia
junto ao de amigos -
alguns que já se foram -
continuam impressas
em tuas calçadas
como se o cimento
ainda estivesse fresco
Fresca é a memória
sem nostalgia
dos tempos em que
deixava pegadas
menores e mais apressadas
a marca das bolas sujas de lama
em muros e portões
transformados em redes e balizas
e as promessas de amor eterno
nos troncos de suas árvores
Os riscos das rodinhas de rolimã,
dos pneus das bicicletas,
dos peões e das bolinhas de gude,
as solas dos velhos tênis -
aqueles mesmos dependurados nos fios
junto às velhas pipas –
em meio aos nossos nomes e apelidos
me mostram que a poesia infanto-juvenil
ainda está escrita
em linhas tortas no teu chão.
Ilustração: quadro "Pipas" (1941), de Candido Portinari.
Foto: Eduardo Lamas.
Veja também:
Profano conquista corações
Monólogos (O Jogo de Espelhos)
Samba Matéria
Croniqueta da Madrugada Readmitida
Crônica da Cidade