quarta-feira, 16 de março de 2011

UMA NOITE NO RIO

Encontrei-me com amigos que não via há muito tempo e eles me levaram a vários lugares freqüentados pelos cariocas ávidos por diversão. As imagens de belas jovens exibindo seus corpos em uma passarela ou na rua em troca de um punhado de dinheiro e de outras não menos belas e um pouco mais jovens balançando seus corpos perfeitos em uma coreografia pobre e vulgar, ao som de músicas igualmente pobres e vulgares, ficaram retidas em minha mente. Teria eu de ficar eufórico como muitos homens, inclusive meus amigos, com o que via? Não sei se deveria, mas o certo é que não fiquei.
Essa fumaça de sons e danças absurdos passeando pela minha cabeça não conseguem esconder a minha desesperança, a minha frustração, a minha impotência. Mas, teria eu, aos 30 e poucos anos de idade, de me sentir assim? Serei tachado de chato, de não saber aproveitar a vida, de pouco sorrir etc. No entanto, não consigo separar sentir de pensar e de tudo o que vi na noite anterior só uma coisa me deu esperança, por mais parodoxal e estranho que possa parecer.
Essa esperança, que não sei avaliar exatamente em que seja, reside em um olhar. Um belíssimo e muito triste olhar. É difícil, mesmo para quem está habituado a fazer isso, expressar com palavras certos sentimentos. Mas ocorre que o olhar dirigido a mim, por não mais que dois segundos, de uma linda mulher com rosto de menina que fazia ponto na Avenida Atlântica, atraída de brincadeira pelos amigos, foi o que fez a minha madrugada.
Não só o olhar era belo, o par de olhos de um castanho muito claro (de um claro não vulgar) era igualmente lindo. Minha esperança, que continuo sem saber muito bem no que seja, é inexplicável, só pode ser sentida. Aquele triste olhar fez-me arrepender de não ter dito nada na hora. Mas o que dizer quando não se tem palavras para expressar o que se sente. Talvez tenha sido sábio em ficar apenas a observar da janela no banco traseiro do carro, a admirar. Depois senti vontade de procurá-la, mas pra quê e por quê? É melhor ficar com a esperança daquele olhar, mesmo que triste, acariciando-me por brevíssimos segundos eternamente dentro de mim.

Vídeo: "Down em Mim", Barão Vermelho no Rock in Rio (1985)
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