terça-feira, 5 de abril de 2011

O LADO OBSCURO DA BELA CIDADE

Assim que a horda de trabalhadores e empresários se despede apressadamente de suas salas e escritórios, derramando-se pelas calçadas e pelo asfalto como uma enxurrada em busca de escoadouro, eles pouco a pouco tomam conta das ruas do Centro do Rio de Janeiro. Surgem, e sem pressa, como viessem dos esgotos, vão se acomodando embaixo das marquises dos enormes prédios que se ombreiam, como se se apoiassem cansadamente uns nos outros após mais um cansativo dia de trabalho. E os que encerraram seus expedientes vão embora rapidamente, porque as noites no Centro do Rio são dos mendigos. Jovens, adultos, velhos e crianças, como se todos pertencessem à mesma família. Uma família de igno-rados, formando a paisagem obscura da bela cidade.
Poucos sabem o que se passa nas noites do Centro do Rio, mesmo aqueles que saem mais tarde - menos sabem os que se enfurnam nas casas de luz estroboscópica e lixo musical. Pois é de lixo que também vivem os ignorados. Há uns, em especial, que vêm me chamando a atenção ultimamente: os catadores de lixo da Rua Dom Gerardo.
Bem no meio do caminho que leva do religiosíssimo e conceituadíssimo Colégio São Bento ao mais suntuoso e moderno - no que de pior tem esta palavra - prédio do Centro, o RB1, eles se deslocam com a desenvoltura de ratos e baratas atrás de restos de comida ou algo de útil por cima de papéis, latas e sacos de lixo despejados pelos mesmos que naquele instante já não mais freqüentam esta região da cidade. Lá estão jovens, adultos, velhos e crianças se amontoando em busca da única coisa que lhes é concedida: o lixo.
* Este texto foi escrito no fim dos anos 90.

Vídeo: "Bichos Escrotos", Titãs.
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