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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ANIMA, A MÚSICA DESPERTA

A matéria jornalística abaixo foi feita em meados de 2001 para o extinto site Papo Carioca, mas nem chegou a ser publicada. Pela primeira vez ela vai ao ar, já com o Anima em formação muito distinta daquela época, com mais três CDs lançados (Amares, de 2003, Espelho, de 2006/2007, e Donzela Guerreira, de 2010) e ainda mais premiado. Estive pessoalmente com o grupo logo após a apresentação que fizeram no iniciozinho do primeiro dia do Rock in Rio daquele ano. Por acaso, eu os vi saindo detrás do Palco "Raízes", me aproximei, me apresentei e peguei os contatos de Valeria Bittar e Luiz Fiaminghi, que são os únicos remanescentes. Meses depois, após alguns contatos por telefone, em meio à agenda cheia de shows deles, obtive os depoimentos do casal por intermédio do e-mail. 
Aos que são fãs do grupo - e os que se tornarão - finalmente aqui está um trabalho que adorei fazer e que - creio - não poderia se perder ou ficar guardado em meus arquivos:
 
     Em linhas gerais, o ANIMA se apresenta nos cuidadosos livretos que acompanham, ou melhor, envolvem os seus dois CDs (as produções independentes "Espiral do Tempo", de 1997, e "Especiarias", de 2000) como um conjunto de músicos que surgiu com a intenção de interpretar música renascentista e barroca européia, mas que com o tempo foi incorporando um cheiro popular próximo e distante. Unindo instrumentos aparentemente incompatíveis, como o imponente cravo à popularíssima e brasileiríssima - mas não menos bela - viola caipira, a alma híbrida desses músicos se mostra formada por seus sons ao mesmo tempo espantosos e belos, sofisticados e simples.
     De todos os textos encontrados nos livretos, o que melhor define a música do ANIMA talvez seja o mais subjetivo, o assinado por Rubem Alves no primeiro CD: "A música do ANIMA faz despertar uma beleza adormecida que morava no meu corpo sem que eu soubesse".
     Na estrada (em todas as possíveis e imagináveis) desde 1988, o grupo que tem sede em Campinas, mas olhos, ouvidos, coração e alma em locais e tempos tão distantes e tão próximos, passou no início deste ano pela experiência inédita de encarar um festival de rock: o Rock in Rio, em janeiro. E, mesmo com todas as dificuldades que encontraram, agradaram em cheio a um público carente de coisas novas, diferentes. Ou, como bem diz Rubem Alves, ávido por descobrir sua própria beleza adormecida por décadas de pasteurização industrial da música em rádios e TVs.
     Com atividades profissionais paralelas e apresentações do ANIMA passando por Campinas (SP), João Pessoa (PB) e Paraty (RJ) nos últimos meses, os seis componentes atuais do grupo não puderam se reunir para responder em conjunto as perguntas da entrevista feita por intermédio do correio eletrônico. Mas o casal formado pela flautista Valeria Bittar e pelo rabequeiro Luiz Henrique Fiaminghi atendeu simpaticamente ao nosso pedido para que ela fosse publicada antes que viajassem para os Estados Unidos, onde participarão de um festival na Califórnia (ver no fim da entrevista).

Ivan Vilela, José Gramani, Luiz Fiaminghi, Dalga Larrondo,
Patricia Gatti, Valeria Bittar e Isa Taube. (animamusica.art.br)

Dá para fazer uma comparação do trabalho de vocês com o idealizado e promovido por Ariano Suassuna com o Quinteto Armorial. Porém, nota-se que vocês foram além nas pesquisas musicais. Gostaria que vocês fizessem uma avaliação sobre essa afirmação (inclusive se procede!) e citassem outras referências pelo mundo afora para a música de vocês.
Com certeza, o trabalho desenvolvido pelo Armorial e Suassuna na década de 70 é uma grande referência para todos que trabalham com cultura brasileira agora, e será por muito tempo. A valorização de instrumentos típicos brasileiros, como a rabeca e a viola caipira, além da utilização da linguagem modal como um dos meios de ligação entre a Idade Média ibérica e as raízes brasileiras, que é uma das bases para a criação da sonoridade do ANIMA, já eram também utilizados conscientemente pelo Movimento Armorial. Também nos anos 60/70 estava ocorrendo na Europa um dos mais importantes movimentos de revitalização da “performance musical” no Ocidente. A música antiga tocada com os chamados “instrumentos
originais” ou “instrumentos de época”, movimento que está muito bem estudado por um de seus principais integrantes, Nikolaus Harnouncourt, em seu livro “O Discurso dos Sons”.
O ANIMA foi um grupo que se propunha, em suas origens há quinze anos enfocar a prática da música antiga por este viés. Depois de alguns anos, a partir de 1992, o grupo caminhou para outras direções, incorporando outras práticas musicais, principalmente a da música brasileira não direcionada para o grande mercado fonográfico, sempre passível de uma grande pasteurização para enquadrar-se nas regras do mercado.
Outra vertente importante do trabalho do grupo é a pesquisa da música de tradição oral e o elo  destas tradições, notadamente a brasileira e a medieval ibérica,  como fator de criação de arranjos coletivos onde a experiência musical de cada integrante do grupo é fundamental para um trabalho que se propõe realizar sem uma direção musical centralizadora.
Acreditamos que cada instrumento que é incorporado ao nosso instrumental, carrega em si mesmo um emblema da cultura de onde provém, mesclando-se com outros diferentes, muitas vezes até aparentemente antagônicos, como é o caso do cravo e da viola caipira (cultura erudita/corte versus cultura popular/praça), mas que dentro da linguagem do grupo se completam, criando um novo patamar de conexões sonoras. Se examinarmos como se foi desenvolvendo a linguagem do grupo, verificaremos que acreditar neste valor intrínseco de cada instrumento (e é claro no músico que o faz falar), foi fundamental para o estabelecimento de elos que intuitivamente os músicos estavam procurando: quando o nosso querido  Zé Gramani, integrante do grupo, falecido em 1998, trouxe a sua primeira rabeca ao grupo, imediatamente abriu-se vários pontos de conexão com diversas tradições musicais que até hoje servem de guia para nosso trabalho. Muitos destes encontros acontecem por acaso ou talvez nem tanto assim, a sincronicidade existe.

Como e onde vocês buscam essas músicas que muitas vezes ficaram esquecidas e perdidas no tempo (algumas delas passadas oralmente de geração para geração)? Vocês pretendem ampliar o espaço de composição própria nos próximos CDs?
As fontes são várias. As pesquisas de Mario de Andrade são sempre uma grande referência para nós, um exemplo. Do lado da música européia, existe muito material publicado por medievalistas nos últimos 30 anos. Cada um do grupo contribui muito também. Não somos muito de buscar tudo nos livros, mesmo porque o que nos interessa é levantar material para criar outras coisas a partir daquilo. O Ivan Vilela e agora o Paulo Freire, trouxeram, como violeiros, toda a vivência que nos aproxima da tradição popular, e esta transmissão direta foi muito importante para o grupo.


    De "Espiral do Tempo" para "Especiarias", além da perda de José Gramani - a quem o grupo dedica o segundo CD - o ANIMA trocou de violeiro, com a saída de Ivan Vilela e a entrada de Paulo Freire. A importância de Gramani para o ANIMA, como o introdutor das rabecas no lugar dos violinos, está no texto que Valeria assina em "Especiarias" em homenagem ao companheiro:
     "... O Zé Gramani era um grande violinista. Dizia que aprendeu música nas pescarias com seu pai, procurando minhocas para isca, e com sua mãe, colhendo flores para fazer arranjos.
     "Quando o Gramani começou a tocar as rabecas brasileiras no ANIMA e a compor música para cada uma delas, fomos percebendo que estava tudo lá: nas minhocas, nas flores, no riacho, nas rabecas, no zarb, nos seus contrutores (de instrumentos), no Zé, no ANIMA, em cada um de nós..."

Como vocês  superaram as mudanças ocorridas no grupo do primeiro para o segundo CD?
Cada mudança é um desafio. Considerando somente a parte musical da questão, elas contribuem para que o grupo cresça em busca de uma identidade não rigidamente associada aos músicos que participam deste ou daquele trabalho, mas que se desenvolva para uma linguagem de grupo, sem desconsiderar a individualidade de cada um, que é tão marcante ao ponto de que, cada mudança, transforme o grupo em um novo grupo. Dá pra entender? Talvez cada espetáculo seja um passo de superação, mas é preferível pensar em mutação.

Vocês foram muito prejudicados pelo som na apresentação do Rock in Rio, mas a receptividade do público foi muito boa. Que avaliação vocês fazem da participação no festival?
Num evento desta natureza, com proporções fora do comum, é previsível que alguns problemas ocorram. O que não esperávamos, no entanto, é que tantos problemas com o som ocorressem ao mesmo tempo. Retorno, PA, sem falar na qualidade do som. Por outro lado, sabemos que o som acústico do ANIMA não é fácil de ser trabalhado, especialmente em lugares abertos como foi o caso da Tenda Raízes. Pensando nisto, levamos conosco o nosso técnico de som, Murillo Correa, de Belo Horizonte, que tem vários anos de experiência em sonorização de grupos acústicos,  como  o Uakti. Como as bruxas estavam soltas naquele dia, um vento danado (que atrapalha a leitura dos microfones), muita microfonia etc tivemos que manter uma tremenda concentração, tocando praticamente sem escutar os outros companheiros, para estabelecer uma comunicação com o público, que foi extremamente receptivo, apesar dos problemas. Isto foi muito positivo para nós, já que a carreira do ANIMA se fez principalmente em teatros fechados e salas de concerto, o que é uma realidade muito diferente da que se encontra em um espaço como as Tendas do Rock in Rio.
Para nós isto é a constatação de que o público - não importa qual classificação se queira dar a ele: erudito, popular, roqueiro etc - só quer mesmo é estabelecer um canal de comunicação com o artista, e isto depende principalmente deste último, que tem que superar todas as adversidades que por ventura se imponham entre ele e seu público, desde pessoais até exclusivamente técnicas. Também foi uma grande experiência para nós, e servirá, sem dúvida, de referência para uma próxima que o grupo se apresente nesta situação.


Deu para notar na apresentação de vocês um trabalho cênico  muito integrado com as músicas (e até uma brincadeira com os roqueiros feita por Isa e Paulo na embolada "Solta o Sapo"). Isso é elaborado ou surge no momento? Algum de vocês fez teatro? Já trabalharam para alguma peça, apresentação de dança, cinema ou programa de TV? O que acham da conjunção de diversas formas de expressão artísticas?
Não, o trabalho cênico é uma forma importante para estabelecer a comunicação com o público. Para a apresentação do Rock in Rio, contamos com a ajuda da atriz e diretora de teatro Raquel Araújo, da EAD (Escola de Artes Dramáticas), da USP, São Paulo. O bom da Rachel é que ela nos faz enxergar a dramaticidade de nossos arranjos musicais e trabalha, cenicamente, o puro material sonoro se baseando na comunicação do momento de interpretação entre os músicos e entre os músicos e o público. Um dos projetos do grupo é de incorporar este trabalho e desenvolver toda a criação dos arranjos musicais também voltados para a parte cênica. É um projeto complexo, mas a pequena experiência do Rock in Rio nos mostrou que pode ser muito gratificante artisticamente falando.
Um dos trabalhos do Dalga (João Carlos Dalgalarrondo, percussionista do grupo) é com Teatro Musical e espetáculos de percussão tipo “one show men”, onde a cena serve de motivação para os quadros musicais. Ele é um gigante nisto, além de ser um grande “zarbista”.

     Os instrumentos utilizados pelos integrantes do ANIMA e a voz de Isa Taube são um capítulo a mais nessa rica história musical. Vários deles são contruídos sob encomenda especialmente para os músicos do grupo nos mais variados lugares do Brasil e do mundo. Alguns exemplos: o bendir utilizado por Dalga Larrondo é uma cópia de um modelo turco feito por António Gamez, de Madri (Espanha), em 1994; uma rabeca usada por Fiaminghi foi construída por Mestre Davino, de Cananéia (SP) e outras duas por Nelson da Rabeca, de Marechal Deodoro (AL); o cravo de Patricia Gatti foi construído por Abel Vargas, de São Paulo, em 1994, segundo Christian Zell, Hamburgo, 1741; duas violas de 10 cordas de Paulo Freire foram construídas por Vergílio Lima, de Sabará (MG); uma das flautas doce de Valeria foi construída por Helge Stiegler, da Áustria, em 1999, segundo modelo de Jacob van Eyck, no século XVI. Isso sem falar no mejuez, tradicional instrumento de sopro sírio de autor anônimo e uma kuluta tradicional da tribo Kalapalo e outra da tribo Mehinaco, ambas do Alto Xingu (MT).

O que cada um de vocês costuma ouvir em casa, quais músicos?
Eu (Fia) sempre ouvia muita música, de todo o tipo, mas principalmente a música antiga, que é a minha formação (estudei violino barroco). Atualmente, quem comanda o toca-disco é meu filho de seis anos, eu não tenho muito espaço aqui em casa. Ouvir música tem isso: ocupa espaço, e é um espaço que você necessariamente divide com as pessoas que moram com você. Eu adoro que meu filho escolha a música que ele quer ouvir e ouço junto com ele, com o maior prazer.
Eu, Valeria, mulher do Fia, ouço muito música medieval (talvez pela minha formação), Romantismo alemão em pequenos grupos de câmera - tenho dificuldade com orquestras grandes, música folclórica e popular (jazz, rock, MPB) de todas as partes do mundo (Acho que o Fia também), isto talvez com mais freqüência, antes de termos o João.

Para terminar, gostaria que vocês definissem em uma palavra o que significa a música para cada um?
Não podemos falar por seis pessoas, que no momento se encontram cada um num canto com seus trabalhos individuais a partir de quinta-feira que vem (três dias antes da apresentação no dia 24 de junho, em Paraty, como fechamento do evento que comemorou os 30 anos do grupo de teatro de bonecos “Contadores de Estórias”), mas se valer a minha opinião  (Valeria), aqui está ela: desde que escolhi ser música, me encontro com esta pergunta a todo momento. Há algum tempo atrás isto era um problema pra mim, não tinha resposta, como não tinha respostas internas para milhares de perguntas. Mas, há menos tempo ainda, muito pelo trabalho com o ANIMA começar a ter pernas próprias e dele ter nascido da relação de amizade entre nós, e principalmente porque estou mais velha - ainda bem - fazer música para mim é um caminho para me comunicar com as pessoas, e de receber esta vontade de comunicação das pessoas que nos ouvem. Mas um dia, ouvi de uma bailarina de dança Odissi (uma antiga forma de dança da Índia), que no teatro antigo da Índia, que era em forma arena, entre o público e os intérpretes havia uma roda de fogo como símbolo de transformação entre o caminho daquilo que era encenado e o público.  Existe mais coisa além disso no teatro hindu, é claro, mas essa pequena informação, ampliou minha relação com o fazer música, com o estar no palco e ser, juntamente com o público, um dos agentes de transformação e que, aquele momento, pode conter um pouco da intenção do Mistério, no sentido espiritual da palavra. E acho que essa resposta, hoje, me tranqüiliza.

     O ANIMA parte agora para uma temporada no exterior que se estenderá até o fim do ano. Neste mês de julho eles serão os representantes do Brasil no Festival de Verão da cidade de Mendoncino (Califórnia - EUA); em agosto estarão em Buenos Aires, Montevidéu e Assunção; em outubro farão uma turnê pelos Estados Unidos, passando por Washington e Carolina do Sul; e, em novembro, se apresentarão na Womex, a maior feira de produtores da chamada "world music", em Roterdã, Holanda.

O ANIMA:
Dalga Larrondo - percussão (zarb, moringa, bendir, dulcimer, triângulo, pandeiro, tambor de mina, caixa de folia, casco de búfalo, caxixi, maracá, kalimba e berimbau).
Isa Taube - voz
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras
Patricia Gatti - cravo
Paulo Freire - violas brasileiras (de 10 cordas, de cocho e violaúde)
Valeria Bittar - instrumentos de sopro (flautas doce, kulutas e mejuez)
Endereço eletrônico: www.animamusica.art.br.


Atualmente, o Anima está preparando o seu sexto CD, Encantaria, e tem a seguinte formação:
Gisela Nogueira - viola de arame e violão
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras e violino barroco
Marlui Miranda - voz, percussão e flautas indígenas brasileiras
Paulo Dias - percussão, organeto e cravo
Silvia Ricardino - harpa trovadoresca
Valeria Bittar - flautas-doce medieval, renascentista e barroca e flautas indígenas brasileiras.

Atual formação: Luiz Fiaminghi, Gisela Nogueira, Marlui Miranda,
Valeria Bittar, Silvia Ricardino e Paulo Dias (animamusica.art.br)

Vídeos: Je Vivroie Liement (Guillaume de Machaut) e Beira-Mar (tradição oral brasileira)
Veja também:
Espantalhos
A música é interdisciplinar
Lições de João (A música é interdisciplinar)
Dois garotos 

domingo, 1 de julho de 2012

UM FLA-FLU E UM HERÓI QUASE ESQUECIDOS

No início dos anos 80, estava eu e amigos conversando na rua Grajaú sobre o que mais gostávamos de falar: futebol. Uns sentados no murinho da casa de um deles, outros no chão, mais alguns de pé ou agachados, contavam sobre jogos do passado que tinham visto ou se lembravam de terem ouvido no rádio ou lido em jornais, revistas ou livros. Naquele quase atropelo de vozes empolgadas e nostálgicas consegui contar a minha história.

"Lembro de um Fla-Flu de 76 ou 77 em que o Flamengo ganhou de 3 a 0, no Maracanã, com três gols de um cara chamado Kalu. Ele era formado no Flamengo mesmo, saiu de campo como herói, e eu fiquei achando que seria o parceiro de ataque ideal pro Zico. Mas pouco tempo depois, não sei por quê, venderam o cara pro Santos e acho que depois ele foi pro México e sumiu. Esse jogo foi num sábado à noite e ouvi no rádio na casa dos meus avós (maternos) em Olaria."

Ninguém se recordava do jogo. De todos presentes, achava que só um grande e eterno amigo tricolor poderia se lembrar, mas nem ele.

Meados dos anos 90, já jornalista e trabalhando na área esportiva, conversava com colegas na redação sobre jogos antigos e contei a mesma história. Ninguém sabia absolutamente nada sobre aquele Fla-Flu.
"Mas não tenho certeza de que essa partida aconteceu. Acho que sonhei com ela e com esse cara, o Kalu. Tem coisas na minha memória que não sei se aconteceram mesmo ou se foram sonhos."

Veja também:


Nas vezes em que trabalhei no Jornal dos Sports, principalmente na primeira (entre janeiro de 1990 e agosto de 1991), em que pude várias vezes passar muito tempo no arquivo pesquisando edições antigas por conta própria ou para alguma matéria ou ficar conversando e aprendendo com o grande Geraldo Romualdo da Silva, infelizmente já falecido, perdi a chance de verificar se essa partida havia mesmo existido.

No entanto, primeiramente num livro de Roberto Assaf e depois, com a internet, já nos anos 2000, pude constatar que, apesar de algumas imprecisões da minha memória, aquele Fla-Flu não foi sonhado. Ela me voltou no fim do ano passado ou início deste quando Arthur Muhlenberg publicou no seu blog no Globoesporte.com, uma foto do time de juvenis rubro-negro na época de Andrade. 

Kalu havia sido companheiro do Tromba e foi aí que vi seu rosto pela primeira vez. Achei essa foto de novo no site "O Historiador", de Marcelo de Paula Dieguez, mas não é ela que publico abaixo, pois consegui outra com o próprio Kalu, em que ele está com três jogadores que se sagrariam campeões mundiais em 1981. 

Pesquisei muito até encontrá-lo, e fiquei sabendo por ele que antes daquele Fla-Flu tinha acabado de voltar de empréstimo de seis meses para o Fluminense de Feira de Santana (BA) e que acabou sendo escalado por Claudio Coutinho porque Luizinho Tombo se recusou a jogar sem contrato no dia do jogo e Marciano, reserva imediato, estava machucado.

Em pé: Ronaldo, Júnior, Amaro, Gaúcho, Brochado e César.
Agachados: TITA, ANDRADE, Renato, ADÍLIO e KALU.
                  
A partida foi realizada no dia 5 de fevereiro de 1977, um sábado à noite, marcava a estreia de Carlos Alberto Torres com a camisa rubro-negra no Maracanã, e acabou sendo também a de Tita no time profissional, e terminou 3 a 1 para o Flamengo, com dois gols de Kalu (e não três como imaginara) e outro de Luiz Paulo. Para o Flu marcou o meu primeiro ídolo no futebol: o argentino Narciso Doval, ex-Fla. 

No entanto, isso só soube agora, buscando mais informações sobre aquele jogo. E sobre Kalu, que tinha apenas 19 anos na época (eu tinha 10), achei-o agora, aos 55, em Cancún, no México. Falei com ele por telefone na última sexta-feira, e ele me confirma que o site Flaestatística está certo em um ponto: ele estreou justamente neste Fla-Flu. Porém erra em outro: ele não nasceu em Barra Mansa (RJ), mas em Volta Redonda (RJ), onde sempre vai, quando vem ao Brasil. 

Kalu pouco ficou no clube do coração fanático de seu falecido pai, sendo que a sua última partida pelo clube da Gávea foi apenas um mês e dez dias depois (no dia 15/3/1977). Foram somente sete jogos com a camisa rubro-negra e dois gols, justamente aqueles do dia em que foi o grande nome do Clássico das Multidões. Depois ele foi para o Santos, na negociação que trouxe Claudio Adão para o clube da Gávea.
"O Coutinho era apaixonado pelo Cláudio Adão", disse, sem qualquer amargura.

Veja também:
Setenta vezes Maracanã
Sócrates, o doutor da bola


Kalu disputou o Campeonato Paulista daquele mesmo ano, e posteriormente foi para o León, do México. Jogou em outros times mexicanos e acabou encerrando a carreira aos 28, 29 anos, desiludido com os dirigentes do país onde vive que o impediram de se transferir para o Málaga, da Espanha. 

Hoje ele vive em Cancún, mais precisamente em Playa del Carmen, na Riviera Maia, onde é dono de um restaurante e sócio de um hotel. A entrevista que fiz com ele contando detalhes daquela partida, com uma deliciosa história ocorrida um dia antes, quando ele nem sabia que jogaria, será publicada durante esta semana no Globoesporte.com. Veja aqui!


No próximo dia 8, quando Fla e Flu se enfrentarão pelo Campeonato Brasileiro, haverá uma grande celebração pelo centenário do clássico que começou 40 minutos antes do nada, segundo definição de Nelson Rodrigues. Poderia lembrar aqui dos vários que presenciei ou me recordo... 

... como o primeiro que ouvi, o da final do Carioca de 73, quando o Tricolor venceu por 4 a 2 e quis jogar minha camisa do Flamengo pela janela; ou o da Zicovardia de 76, quando o Galinho fez quatro na Máquina de Rivelino, Paulo César, Doval e companhia, que também ouvi pelo rádio; ou os que vi no Maraca, como os que o Flu ganhou, em 1978 por 2 a 0 e em 88 por 1 a 0, quando o Fla já era campeão da Taça Guanabara; ou o que levei uma baquetada de um tricolor menor do que eu na arquibancada do Mario Filho e nada pude fazer por estar com a camisa do meu time no meio da tricolada, no jogo em que Zezé Gomes "venceu" Zico, por 2 a 1, em 81, ano em que o Fla deu o troco, por 3 a 1, com um gol antológico de Lico; o olé rubro-negro de 82, com 3 a 0 no primeiro tempo e um torcedor tricolor invadindo o campo implorando para que Zico, Júnior, Andrade, Leandro, Tita e companhia parassem com a humilhação (deu certo, não houve mais gols); ou os decisivos gols de Assis em 83 e 84 (estava no estádio neste segundo); podia falar do empate com o chutaço de Leandro em 85 ou da despedida oficial de Zico no Fla, naqueles 5 a 0 em Juiz de Fora que assisti pela TV; a final de 91 que para mim serviu de vingança por 73; o gol de barriga de Renato em 95, que ouvi entre muitas interrupções dramáticas por causa da chuva, do local distante em que me encontrava e do rádio de má qualidade que tinha na época...

Porém, fico com o Fla-Flu quase esquecido de um herói quase esquecido, que tive o imenso prazer de reencontrar.


FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 3 X 1 FLUMINENSE
Amistoso
Data: 5/2/1977
Local: Maracanã
Público: 20.162 pagantes
Árbitro: Arnaldo César Coelho
Gols: Luiz Paulo, aos 14 minutos do primeiro tempo; Kalu, aos 43 do primeiro e 44 do segundo tempo para o Flamengo, e Doval, aos 43 do segundo tempo, para o Fluminense.
Flamengo: Roberto; Júnior (Dequinha), Rondineli (Paulo Roberto), Carlos Alberto Torres e Vanderlei; Merica, Dendê e Adilio; Tita (Júlio Cesar), Kalu e Luiz Paulo. Técnico: Claudio Coutinho
Fluminense: Félix; Rubens Galaxie, Edval, Jorge Luís e Carlinhos; Cléber (Arturzinho), Wílson Guerreiro (Zé Maria) e Erivelto (Geraldão); Paulinho, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.

Fotos: Kalu concedendo entrevista antes de um jogo no Maracanã (o repórter provavelmente é Luiz Orlando - ex-empresário de Túlio Maravilha - da Rádio Mauá), o time juvenil (hoje corresponde ao júnior) de 1976 do Flamengo e reprodução do jornal O Globo com a matéria sobre o Fla-Flu em que brilhou (arquivo pessoal).

Veja também:
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Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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