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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A GRANDE LIÇÃO DE FILIPE LUÍS

A grande lição de Filipe Luís

Filipe Luís, técnico do Flamengo, durante a Copa Intercontinental, no Catar. Foto: Getty Images

O jovem e já muito vitorioso técnico do Flamengo, Filipe Luís, vem sendo exaltado  com todos os motivos do mundo por torcedores e jornalistas pelas taças que ele tem ajudado muito o time rubro-negro a ganhar (claro, há os chatos e sem noção que ficam pedindo a cabeça do técnico a qualquer mau resultado, mas faz parte da cegueira da paixão que o futebol muitas vezes traz). Embora ele ainda cometa algumas falhas, o que é normalíssimo em se tratando de um treinador que está há pouco mais de um ano no comando do time principal, eu também estou muito satisfeito. Claro, como quem me conhece ou lê este blog sabe muito bem para qual time torço.

No entanto, no meu modo de entender, a maior lição que Filipe Luís deixa a todos, não só os envolvidos com o futebol é que a Educação compensa. Em um país em que até presidentes e políticos das mais variadas (des)orientações se vangloriaram e se vangloriam de que não precisaram estudar para terem chegado onde chegaram, o técnico do Flamengo deixa o recado importantíssimo, principalmente aos mais jovens.

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Filipe Luís, nem besta, nem bestial
Ética no futebol

E não só o fato de dedicar horas e mais horas a estudar os adversários e o seu próprio time, a responsabilidade de liderar 40, 50 cabeças ou mais, das mais diversas culturas e vivências, é a Educação em lidar com o outro, com o adversário, jornalistas, funcionários etc. Filipe Luís trata a todos com muita Educação e valoriza a educação esportiva, pois sabe reconhecer os méritos dos adversários até mesmo quando vence e não fica dando chiliques e pressionando a arbitragem durante os jogos.

É portanto um jovem treinador brasileiro dando a lição em muitos dos seus colegas mais velhos, que em vez de estudarem e se atualizarem voltam-se contra técnicos estrangeiros que atuam no futebol brasileiro. Alguns deles (nem todos, claro) importantíssimos para, justamente elevar o sarrafo e forçar nossos treinadores a melhorarem cada vez mais.

Outro jovem técnico em destaque 

Para completar, logo após a vitória sobre o Ceará, que garantiu o título brasileiro deste ano ao Flamengo, Filipe Luís elegeu Rafael Guanaes o melhor técnico da competição. Humildade, além de tudo, ele tem. Afinal, mesmo com todos os méritos do treinador campeão, o que o também jovem Guanaes fez com o Mirassol, ao levar a pequena equipe do interior de São Paulo ao quarto lugar na sua primeira participação na elite do futebol brasileiro e à consequente classificação para a fase de grupos da Taça Libertadores pode entrar no rol dos milagres futebolísticos. 

E Guanaes, pelo pouco que vi, li e ouvi, é outro que valoriza o estudo, a Educação. Que, neste mundo com tantos péssimos exemplos no comando de nações, inclusive, os técnicos de Flamengo e Mirassol sirvam de exemplo, referência. 

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quinta-feira, 1 de maio de 2025

GLOBOESPORTE.COM 20 ANOS, EU ESTIVE LÁ

Título da Postagem

Logo da campanha dos 20 anos do ge.com

Como vi ex-companheiros de trabalho fazendo relatos nas redes sociais sobre as suas experiências nestes recém-completados 20 anos do Globoesporte.com (atual ge.com), resolvi contar no LinkedIn e também aqui um pouco dos 6 anos e meio que passei por lá, entre novembro de 2006 e abril de 2013. Cheguei com contrato terceirizado para ser o primeiro a trabalhar diariamente na madrugada do site (de meia-noite às 8h), com a enorme responsabilidade de cuidar dele sozinho, de 1h, quando todos quase sempre já haviam ido embora, às 7h, quando começavam a chegar os primeiros colegas.

Em fevereiro de 2007, fui contratado em definitivo, o que foi uma grande felicidade, pois várias vezes as tentativas de lado a lado haviam sido frustradas por motivos variados, desde a época em que eu trabalhava em O Globo Online, e o Globoesporte.com era apenas um embrião do que se tornaria, na Copa do Mundo de 1998.

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Naquele período em que estive na madruga, teve o Pan de 2007, as Olimpíadas de 2008 e a Copa de 2010, sendo que nestes dois últimos eventos ganhei a companhia de uma equipe, à qual me integrei no Rio de Janeiro. Em 2010, após a Copa da África do Sul, pedi para trabalhar em um horário "normal" e fui prontamente atendido, ao que agradeço muito, principalmente a Gustavo Poli, Daniel Lessa, vulgo Cabelada, e Marcio Moreira, o Cabelo. Além dos companheiros no Rio, não posso me esquecer dos grandes profissionais de outros estados que me ajudaram muito, principalmente os de São Paulo, casos de Zé Gonzalez Joanna de Assis e Julyana Travaglia, por exemplo.

Fui substituído na madruga pelo meu xará e já amigo naquela época Eduardo Santos. No horário de 16h às 24h tive o prazer de trabalhar mais diretamente com pessoas que só encontrava rapidamente à noite ou de manhã. E vi grandes talentos que despontam hoje na TV Globo, no próprio site e em outros veículos darem os seus primeiros passos ali, casos de Richard Souza e Cahê Mota. Também pude voltar a trabalhar diretamente com meu amigo, irmão de consideração e compadre Bruno Lobo.

Trabalhar na madruga não foi fácil, minha vida de viúvo com 3 filhos adolescentes ficou de cabeça pra baixo por 4 anos, mas foi, com acertos e erros, uma grande experiência profissional e pessoal também, pela qual agradeço muito sempre às pessoas que muito me ajudaram, principalmente minha mãe e minha namorada na época, hoje esposa, Denise. Em 2012 recebi uma proposta, tentei conciliar dois trabalhos, mas acabei decidindo assumir de vez outra paixão minha, como sócio-diretor de uma empresa da área cultural e artística, e pedi demissão do Globoesporte.com com o coração na mão.

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Foi lá o local em que trabalhei por mais tempo em toda a minha carreira de jornalista, iniciada em 1988, superando a passagem pela Agência O Globo e O Globo Online (1995/2000). O Globoesporte.com foi também um período riquíssimo de minha carreira de jornalista, que acabou se tornando a última oportunidade que tive de trabalhar numa redação jornalística, o que fazia desde o fim dos anos 80. Curiosamente outro dia me bateu saudades do trabalho em redações, onde sempre quis mais trabalhar, do que nas ruas, como a maioria dos jornalistas prefere.

Matérias inesquecíveis

Para terminar este relato, relembro aqui duas matérias que me deram imenso prazer de fazer, já no período da tarde e pelas quais tenho de agradecer ao amigo Márcio Mará, que as revisou e editou: uma pro centenário do Fla-Flu, em junho de 2012 (clique aqui pra ler) , e outra, em setembro do mesmo ano, uma entrevista por telefone com o grande Mauricio de Sousa , sobre o jogo da vida dele (clique aqui).

Print de trecho da entrevista com Mauricio de Sousa no Globoesporte.com

Parabéns ao globoesporte.com, muito obrigado a todos que me ajudaram direta ou indiretamente lá, muitos que já saíram e alguns que ainda estão tocando brilhantemente aquela bola já há alguns anos em um lugar diferente do que trabalhei, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Peço só mil desculpas a quem não foi citado, mas que merecia, e não foram poucos.

E você, já passou por experiências profissionais que marcaram sua trajetória e deixaram saudades?

Compartilhe nos comentários um momento ou um aprendizado que te acompanhou ao longo da carreira. Agradeço.

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

MEMÓRIAS AMARGAS DA INFLAÇÃO

Memórias amargas da inflação
O dragão da inflação brasileira, por Julos/Getty Images

Nos últimos meses, ir ao supermercado se tornou um programa repleto de novidades. Ruins. Muito ruins. Ou você encontra os preços de vários alimentos novamente reajustados, ou os produtos tiveram peso, tamanho ou quantidade reduzidos para se ajustar ao preço, numa canalhice mais antiga de parte do nosso empresariado do que muitos deles imaginam. Preste atenção quando voltar ao supermercado. E nem falei na troca de ingredientes para baratear o custo, mesmo a custo de prejudicar a qualidade dos produtos e a nossa saúde. É a chamada inflação invisível.

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O medo da inflação, que vem desde o desgoverno passado e encontra eco no atual (por enquanto, com o som bem alto), é algo que certamente acomete os que viveram os duríssimos dias dos anos 80, a chamada Década Perdida. Em 1989, a inflação anual chegou a estratosféricos 1.972,92%. E eu estava lá, naquele turbulento Planeta Século XX, já com meus 20 e poucos anos, sabendo pouco, mas já trabalhando, inclusive em supermercados, com maquininha na mão, trocando todos os dias os preços dos produtos que representava como promotor de vendas. Foram só 2 meses, mas que valeram por 20 e poucos anos de aborrecimentos e aprendizado.

Naquela época, a tática de reduzir peso, tamanho ou quantidade dos produtos foi a saída "jenial" de certos empresários para combater a inflação galopante, como se dizia naqueles tempos. Lembro muito bem que, só no que se refere a supérfluos, as barras de chocolates ficaram translúcidas; os vinis dos LPs, quase isso, e os álbuns eram vendidos com capas de papel dos mais vagabundos.

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Por outro lado, com o fracasso do Plano Cruzado e a disparada dos preços de leite e carne, em 1986 o então presidente da época passou a culpar os pecuaristas de estarem escondendo os bois no pasto. Muitas décadas depois, vimos um presidente também delegar culpas pelas suas incompetências e a alta dos preços a insubordinados, e outro, em seguida, a aconselhar o povo a não comprar produtos caros, mesmo que - isso ele não disse, mas deixou tanto implícito quanto explícito - sejam essenciais.

Promotor de vendas remarca preços do inseticida
SBP em um supermercado do Rio de Janeiro,
em 1993. Foto: Antônio Moura/Ag.O Globo
Posteriormente, com o confisco (eufemismo para roubo) do Plano Collor, a inflação foi a um lugar ainda mais alto e além: a impressionantes 2.477,15%, em 1993. No ano seguinte, após a cassação do falso Caçador de Marajás, veio a estabilização com o Plano Real, sob o governo de Itamar Franco, eleito como vice de Collor, então primeiro cassado da Nova República, para alguns anos depois ser novamente aclamado pelo povo que reclama muito, mas não muda nada.

É bom lembrarmos aqui - não tão bom assim dependendo de quem leia - que o partido do atual presidente, ele inclusive, combateu com todas as forças o plano que finalmente deu estabilidade a uma moeda no Brasil. Aliás, o anterior, quando deputado, também votou contra a medida provisória que deu origem ao Plano Real.

No entanto, apesar de ter enfrentado ao longo das últimas décadas crises econômicas, internas e externas, em alguns momentos com sucesso, em outros, muito pelo contrário, o país ainda consegue se manter num patamar de inflação bem longe daqueles dos anos 80 e início dos 90. Mas, volta e meia, as memórias amargas retornam ao imaginário popular. Mesmo a quem não viveu aqueles tempos de outrora, mas sabe que o mundo não começou no estonteantemente veloz Planeta Século XXI.

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E aí, está gostando mais dos conteúdos do blog ou dos preços dos alimentos no supermercado? Essa pergunta é muito fácil de responder, concorda? 

Brincadeiras à parte, agradeço muito pela sua visita, volte sempre.

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quarta-feira, 17 de abril de 2024

A MACONHA EM QUESTÃO

Antes de qualquer coisa esclareço: nunca fui usuário de maconha. No máximo inspirei indiretamente a fumaça de centenas em shows e de uns e outros em festinhas, nas quais algumas vezes o cigarro passou de passagem pelas minhas mãos sem nunca chegar à boca. Bebida alcóolica sim, praticamente todos os fins de semana, já há muitos anos.

Posto isso, vou direto à minha opinião sobre o tema, que tem servido para dividir ainda mais a já rachada sociedade moribunda e hipócrita brasileira: sou a favor da liberação da maconha. E por quê? Simples: se a bebida alcóolica é, por que a maconha, muito mais inofensiva a outrem, não seria?

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Explico-me: é muito, muito, muito mais fácil você ver ou se lembrar de alguém alcoolizado (e este alguém certamente é alguém bem próximo) ficar agressivo e até partir pra brigas sem que sequer tenha sido provocado. Já alguém que tenha fumado um baseado é bem possível que seja a vítima do alcoolizado ou um troglodita qualquer e nem levante um dedo sequer.

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Ambos, maconha e bebida alcóolica além dos limites são casos de Saúde pública e devem ser tratados como tal. Porém, no limite aceitável (e não há como estabelecer quantificação, como desejam legisladores e cidadãos comuns para definir o que é para uso pessoal e o que é para tráfico), o mal se refere apenas à Saúde particular e deve ser uma opção na qual o Estado não deve se meter. Até por permitir, no caso da bebida alcóolica, a sua livre comercialização, com restrição (quase nunca cumprida) a menores de 18 anos.

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E por falar em Saúde pública, está mais do que comprovado que a planta cannabis sativa, agente da maconha, pode ser uma importante medicação no tratamento de doenças como Alzheimer e Parkinson, dor crônica e problemas de saúde mental. E o canabidiol ainda é atacado como se maconha fosse.

Deixemos, portanto, as hipocrisias e as gritarias bem de lado, e vamos adiante para o próximo tema bem mais importante para a nossa sociedade, que anda nas últimas e provavelmente ainda vai votar muito mal mais uma vez, no fim deste ano.

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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

MÚSICA PRA VIAGEM: THIS MASQUERADE

Não vi absolutamente nada em lugar algum, o que não quer dizer que ninguém tenha se lembrado, mas em fevereiro deste ano completou-se 40 anos da despedida deste mundo de Karen Carpenter, uma das mais belas vozes da História da Música. Descobri isso no sábado ao selecionar músicas dos Carpenters num desses serviços de streaming para ouvir com minha mulher e ela decidir pesquisar quando Karen havia falecido.

Karen Carpenter. Foto: Getty Images

A cantora, compositora e baterista (sim, ótima baterista também!) faleceu de anorexia um mês antes de completar 33 anos de idade, mas deixou aos corações apaixonados e partidos de minha geração e outras tantas anteriores e posteriores uma legião gigantesca de fãs. Prefiro, no entanto, não me prender ao romantismo de letras e músicas, mas me reportar especialmente à grande sensibilidade, beleza e técnica da cantora.

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Música pra viagem: Pegando leve
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A facilidade com que Karen sai (sim, sai, sua voz permanece viva, muito viva) do agudo para o grave e vice-versa não só traz admiração pela facilidade, quase sem esforço algum, como pela elegância. Por isso, optei aqui por "This masquerade", de Leon Russell (e pelo mesmo motivo poderia ter escolhido "A song for you", do mesmo compositor e tecladista), em vez de seus maiores sucessos "Please, Mr. Postman", "Close to you", "I need to be in love", "We've only just began", "Rainy days and mondays", entre outros que embalaram nos anos 70 as festinhas da minha infância e pré-adolescência na Rua Canavieiras, Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro.

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Portanto, sugiro a você que vai ouvir "This masquerade" aqui comigo, nesta versão espetacular dos Carpenters - pois não podemos nos esquecer de Richard, o ótimo pianista irmão de Karen -, com acompanhamento luxuoso da Royal Philarmonic Orchestra, preste muita atenção ao canto, à voz de Karen passeando com charme e formosura por seus ouvidos. Um encanto infinito que merece ser recordado para sempre. 



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quarta-feira, 14 de junho de 2023

EM MEMÓRIA DE SIMON ÂNGELO BERTOLOTO

Em memória de Simon Ângelo Bertoloto

Se há alguém aí do outro lado do texto, certamente estará se perguntando: quem é Simon Ângelo Bertoloto? Um morador de rua, respondo. Foi, pois como fiquei sabendo ontem no perfil do Instagram de um deputado estadual em quem voto desde que cheguei a Florianópolis há 4 anos, Simon faleceu de hipotermia na segunda-feira, dia 12. Tinha entrado na rede social para desativá-la, assim como fiz com outras, e recebi de cara a chocante notícia que não pude ignorar, de jeito algum.

Ele vivia à porta do Johrei Center do Centro da cidade, na Rua General Bittencourt, e depois de o cumprimentar algumas vezes, assim como a outros que ali ficavam, numa segunda-feira há um mês e meio ou mais (o tempo veloz, furioso, fugidio me deixa cada vez mais perdido), Simon me pediu que orasse por ele. Eu respondi que faria isso sempre, entrei e cumpri a partir de então. Ali e em casa.

Primeiramente ofereci um Johrei. Aceitou, então fiz a oração com e para ele ali mesmo onde dormia e passava, creio, o dia inteiro. Conversamos um pouco e ele me disse que era de Santa Rosa (RS). Sabendo que era gaúcho e, como vestia uma camisa de manga comprida azul, brinquei dizendo que ele devia ser gremista, mas respondeu que não, era torcedor do Internacional. Quando o informei de que eu também não era daqui (de Santa Catarina), mas que agora, há 4 anos, passara a ser, ele me surpreendeu com um sorriso da mais pura alegria e estendeu a sua mão direita em direção a que eu ministrava o Johrei. Deu pra sentir sua mão grossa, da roça e ou da rua.

Quando encerramos, voltei a entrar e, quando saí para ir embora, ele me pediu algo para comer e comprei uma quentinha e um suco para matar um pouco a sua fome. Pedi em troca que mantivesse o local em que vivia o mais limpo possível e, imediatamente, foi para o outro lado da rua comer o seu almoço. Uma semana depois voltei ao Johrei Center com um casaco e uma camisa do Inter para lhe dar, pois havia pedido roupas também. Quase me esqueci, já estava no ponto do ônibus quando me lembrei. Voltei em casa para pegar os presentes, pois de alguma forma sabia que não teria outra chance de encontrá-lo, o que se confirmaria. 

Esquecido que havia me falado que era torcedor do Colorado, ao receber a camisa pareceu querer me dizer: "como você sabe o meu time?". Agradeceu as vestimentas e, posteriormente, vi que as vestiu logo. Na saída, eu me despedi e ele, sentado no chão de sempre, encostado na parede, me pediu algo para comer, mas recusei: "Vou ficar lhe devendo esta, desta vez". Ele me olhou com uma expressão triste, baixou a cabeça e é a imagem dele que não gostaria de ter em minha memória. É também uma infeliz ironia saber que lhe dei um casaco e tenha falecido de hipotermia.

Talvez este texto fique aqui esquecido e seja um símbolo do que foi Simon e tantos, tantos, tantos outros que vivem nas ruas e são desprezados ou feitos para uso político. Anônimos, sem título de eleitor, sem documentos, sem identidade, sujos, famintos, drogados, bêbados, porém, de acordo com as circunstâncias, úteis ou inúteis para oportunistas egocêntricos indiferentes.

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Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
A necessidade do desejo
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Rima

quinta-feira, 3 de junho de 2021

MARACANÃ, UM PERSONAGEM DE "CONTOS DA BOLA"

Em meus tempos de torcedor, que durou uns 15 anos entre os anos 70 e 80, cheguei ao exagero de dizer que o Maracanã era a minha segunda casa. Se na frequência eu faltava muito mais do que pretendia, talvez em termos afetivos eu não estivesse tão distante de ter certa razão. Comentei já sobre isso numa outra postagem em que o comparei ao Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ). Mas voltando ao velho Maraca, aquele que era o maior do mundo, não é, portanto, por acaso que ele tem presença marcante no livro "Contos da Bola". Posso considerá-lo como um personagem em alguns dos 19 contos.

O estádio é apenas citado em "O torcedor de videoteipe", "Um Fla-Flu esquecido no tempo" e "Um torcedor volúvel e azarado" (neste, o Morumbi é que tem a presença mais forte), porém é a locação pulsante, vívida, de "O doido Cornoió", "Outra bolada certeira", "Picolé" e "Paixão de extremos". Nestes quatro contos, que se passam nas arquibancadas do antigo estádio durante jogos que realmente aconteceram, alguns detalhes do próprio Maracanã e das torcidas naqueles tempos em que você poderia ter a companhia de mais de 150 mil, 160 mil pessoas comprimidas e vibrantes, ele se torna mais que um simples local onde se desenrolam as histórias dos respectivos personagens, alguns presentes em mais de um conto.

Em "O doido Cornoió", o jogo retratado é a final do Campeonato Brasileiro de 1980, entre Flamengo e Atlético-MG, e praticamente toda a ação se passa antes da partida começar. O mesmo ocorre em "Outra bolada certeira", ou seja, antes de Brasil 3 x 1 Bolívia, partida realizada em 1981, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1982, e que garantiu a classificação da seleção de Telê Santana para o Mundial da Espanha.

Dinamite comemora seu gol sobre o Santos em 74
Já "Picolé" e "Paixão de extremos", tudo se desenrola durante os jogos Vasco 2 x 1 Santos, pelo quadrangular final do Campeonato Brasileiro de 1974, mas não se limita a este (explico já), e Fluminense 2 x 0 Vasco, pelo Campeonato Carioca de 1987. Como muitos lances destas partidas são relatadas, pois influenciam diretamente no que acontece com os torcedores-personagens que estão na arquibancada, tive de fazer uma pesquisa atenciosa e prazerosa - e fazer uma correção com relação a Pelé nesta edição lançada pela Cartola Editora

Em "Picolé", além do jogo já citado, quando parece que a história já terminou, alguns dos personagens ainda voltam ao Maraca para as decisões do Brasileiro de 74, vencido pelo Vasco, em vitória pra lá de polêmica sobre o Cruzeiro, por 2 a 1, e do Carioca do mesmo ano, em que o empate sem gols deu ao Flamengo o título sobre o time cruz-maltino.

Todos esses contos que trazem o Maracanã com muito destaque são divertidos, com boa dose de humor ou ironia em muitas passagens e desfechos. Se fosse você eu ficaria curiosíssimo para ler estas e, logicamente, as outras histórias. Porém, sou suspeitíssimo, está certo. Mas, confesse, sua curiosidade não foi aguçada? 

O livro no formato digital (ebook) foi para as luxuosas vitrines virtuais da Amazon do Brasil e dos mais diversos países e para o Google Play esta semana. Já o livro no formato físico, além da Amazon, ele pode ser adquirido também na Livraria da CartolaAmericanasSubmarinoShoptimeMercado LivreMagazine LuizaUmLivro e Casas Bahia.

Um gol desse não se perde!  

quinta-feira, 6 de maio de 2021

A CORRIDA DA MORTE NO "JORNALISMO"

Foto originalmente publicada no site "Brasil Escola", do UOL

Para começar e não deixar qualquer sombra de dúvida com relação à minha posição: o Jornalismo é fundamental. Ainda mais nos dias de hoje, neste país. Não fosse o Jornalismo (assim, com letra maiúscula), a boiada inteira já haveria passado com madeira ilegal no lombo, os equinos do poder estariam ainda mais despudorados e a cloroquina com agrotóxicos proibidos em várias partes do mundo estariam nas refeições diárias de quase todo brasileiro.

Paulo Gustavo
Dito isso, vamos ao que me trouxe aqui: a antecipação da morte de Paulo Gustavo publicada em alguns sites na tarde da última terça-feira (04/05). A sanha de querer ser o primeiro a dar uma informação, mesmo que segundos antes de um concorrente, nas ávidas mãos de maus jornalistas ou pseudojornalistas não respeita nada, nem ninguém, só a sua própria vaidade. Furo jornalístico neste caso não existe, ainda mais sabendo-se que a notícia da morte de alguém tão famoso como o comediante, já com sua saúde em estado muito grave, correria com a velocidade da luz. E foi o que ocorreu em alguns veículos, só que na hora errada.

O debate - importantíssimo - sobre este fato, começou num grupo do whatsapp do qual participo ainda no fim da tarde de terça, horas antes do falecimento de Paulo Gustavo, porque já se confirmara a barriga (como no meio jornalístico se chamam, ou se chamavam, as falsas notícias publicadas por erro de apuração. fake news é outra coisa, crime inclusive). Em virtude disso, lá mesmo, um dia depois, contei duas histórias que vivenciei de formas diferentes com o objetivo de ilustrar o debate.

Zuenir Ventura
Comecei pela mais recente, embora já tenha mais de 20 anos isso. Eu trabalhava no Globo Online, nos primeiros anos de internet no Brasil (segunda metade dos anos 90), quando alguém disse que a Agência Estado estava noticiando a morte de Zuenir Ventura. Acho que foi em 1998 ou 99 isso. Houve um corre-corre natural, acredito que na redação do jornal também tenha ocorrido, mas naquela época estávamos em outro prédio e não deu para ver, saber. Mauro Ventura, creio que na época colunista do Jornal do Brasil, ficou desesperado, até porque não conseguia falar com o pai. Tinha estado no mesmo dia com ele num debate, palestra ou seminário e depois cada um seguira seu rumo. Ressalte-se que celulares naqueles tempos eram aqueles tijolões que nem tantos possuíam e nem sei se o Zuenir tinha, acho que não.

No fim, soube-se que o (ou a) repórter que deu a "notícia", confirmou a informação que recebera de alguém com a empregada da casa do Zuenir. Nem sei se existia essa empregada, se ele (ou ela) ligou para o número certo (muitas vezes liga-se para um e cai em outro, até hoje, com toda tecnologia existente), nem sei como foi a abordagem. Só sei que na pressa (não confundir com velocidade), no afã de dar o furo, deu-se uma barrigada estrondosa. Zuenir continua vivão, na ativa e completa 90 anos em 1º de junho.

Renato Russo
A outra foi sobre a morte do Renato Russo, em outubro de 1996. Quem primeiro deu a notícia foi a Agência O Globo, onde eu trabalhava desde janeiro de 95. Minha amiga Valéria Rehder foi a  responsável pelo furo jornalístico. Eu e ela éramos os primeiros a chegar de manhã à Agência, às 7h, num tempo de transição que chamo de Era da Pré-Internet, quando o noticiário em tempo real da agência, 99,9% de Economia e Política, funcionava de 9h às 17h (o mesmo do mercado financeiro) e só era recebido por quem adquirisse o pacote da Agência. O assinante tinha direito a um computador específico para poder ter acesso às informações em tempo real. 

Pois bem, Valéria recebeu um telefonema bem cedo de algum amigo ou amiga em comum dela e da família do Renato Russo com a notícia de que o cantor e compositor da Legião Urbana falecera. Era fonte fidedigna, não tinha erro, mas ela não abriu a agência antes do horário (como ocorria quando acontecia algo extraordinário) enquanto não conseguiu o telefone da casa do Renato Russo ou de algum familiar e confirmou a informação dada por uma pessoa identificada da família. Ainda assim, mesmo eu dizendo que ela não devia temer nada, pois tinha feito tudo corretamente, ainda nervosa, abriu a agência antes do horário regulamentar, como mandava o protocolo, e publicou a notícia.

Mais nervosa ficou e eu também fiquei bem apreensivo quando avistamos Ali Kamel, então ocupante dos cargos mais altos do jornal, vindo como uma seta do outro lado da redação (a equipe da Agência O Globo ficava no fundo da antiga redação em L do jornal, na pequenina Rua Irineu Marinho 35, atrás das editorias Internacional e Segundo Caderno. Para quem conheceu, ficava no lado oposto ao da  lanchonete da redação). Naquele momento, alguns outros companheiros já haviam chegado para trabalhar. A cara do Ali era a mais séria possível e ele perguntou: "Quem deu a notícia da morte do Renato Russo?" Valéria se "acusou". Ele fez mais duas ou três perguntas de como tinha sabido e apurado. Ao ouvir as explicações, disse, mais seco que o mais árido dos sertões: "Parabéns!". Deu às costas e voltou para o seu aquário (as salas de vidro onde trabalhavam os peixões, ou seja, os editores).

Ressalto que o (ou a) repórter do Estadão, que nem sei quem foi, pode ter aprendido a lição e ao longo da carreira se recuperado do erro que cometeu. Inexperiência pode ser uma das causas. Porém, tudo isto - e muito mais - só prova que o Jornalismo não é, não pode ser, para qualquer um.

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A melhor propaganda de todos os tempos
A propósito do jornalismo, o que tenho eu a dizer
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A mídia bizarra
A midiotização

terça-feira, 4 de maio de 2021

O JOGO NÃO COMEÇA, NEM ACABA COM O APITO DO JUIZ

Alguém já deve ter dito isto, mas como ser inédito em matéria de futebol após mais de um século e meio de bola rolando é quase impossível, ouso não ser original: uma partida não se resume aos 90 minutos regulamentares, nem incluindo seus acréscimos, prorrogação e pênaltis, se houver. Um jogo de futebol, ainda mais aqueles mais importantes, começam muito antes do apito inicial e, em alguns casos, nunca terminam.

Pelé se prepara para fazer o gol da vitória sobre o Paraguai, nas eliminatórias da Copa de 70,
no Maracanã. Nesta partida registrou-se o maior público pagante da História do estádio: 183.341

E isso vale não só para os artistas do espetáculo, o trio de arbitragem, comissão técnica dos times, toda a gama de pessoas envolvidas dentro dos clubes (até um terceiro, um quarto ou mais interessados direta ou indiretamente no resultado) e seus torcedores (e os fãs dos demais times atentos por motivos objetivos e subjetivos). Talvez, ou melhor, certamente ainda se possa acrescentar pessoas que nem querem saber do jogo, mas são parentes, amigos, familiares, colegas de trabalho de alguém tão ligado naquela partida que de alguma forma influirá no humor (mau ou bom) de quem estiver por perto.

A carga de emoções levadas a campo é inimaginável. Etéreas, muitas; palpáveis até, algumas. O Sobrenatural de Almeida, personagem-fenômeno genialmente criado por Nelson Rodrigues, explica muito, sintetiza o que desejo abordar aqui, pois o inusitado, o inesperado, enfim, o sobrenatural pode explicar os acontecimentos, os gols e não-gols que determinam o resultado final de uma partida de futebol. Explicar não é bem o termo, mas induzir a algum entendimento, a uma lógica, a uma ordem que contém tantas variantes físicas, emocionais e espirituais que fica impossível alcançar os reais ou surreais motivos do placar final, e todo andamento, a influência de um montinho artilheiro, de um efeito na bola, do erro do árbitro (mesmo com auxílio do VAR), do frango, da desatenção mesmo em disputas tão tensas etc.

Expectativa, desejo de consagração, sonhos, realização, alegria, explosão de emoções, lágrimas, vida. Lágrimas de vida! 

Apreensão, desejo de revanche, frustrações mal resolvidas, mal digeridas, ódio, violência, choro, morte. Choro de morte!

Futebol.

Quantos ancestrais e antepassados de cada um dos milhões de envolvidos num jogo também não participam de alguma forma dentro e fora de cada indivíduo, influenciando no campo e fora dele, no andamento, nos acontecimentos de uma partida? Não citei jornalistas, radialistas, locutores, repórteres, comentaristas. Pois é, ainda tem mais estes. E maqueiros, funcionários do estádio e dos clubes...

Definitivamente, uma partida de futebol é muito, muito mais que um jogo de 11 contra 11 que se desenrola dentro das quatro linhas do gramado, com um árbitro e dois bandeirinhas. Como iniciei dizendo, começa muito antes e, em alguns casos, continua sendo jogado, arbitrado, comentado, criticado, exaltado, modificado, reinventado.

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Um ótimo exemplo é aquele Brasil x Itália do dia 5 de julho de 1982. Quantos "se", dos mais diversos, originais e repetitivos, você já ouviu sobre aquele jogo? Aquela - que continua sendo eternamente esta - é uma partida que me marcou profundamente e não falo só por mim, claro. Porém, como é talvez o jogo marcante de toda uma geração, da minha geração, não podia deixar de contá-lo num livro. E, em "Contos da Bola", o "5 de Julho de 1982" é apenas uma outra versão da mesma história tantas vezes contada, recontada, adaptada, das mais variadas formas.

Neste caso, o do livro, ali estão cinco garotos, mais a mãe e o tio de um deles, vivendo todas as emoções daquela derrota que se tornou "tragédia". Uma pequena pausa para um desvio rápido de rota: curioso que as "tragédias" no futebol brasileiro sempre foram caracterizadas por jogos perdidos dramática e milimetricamente, em que um, dois, três, poucos lances são lembrados, relembrados, remoídos com os tais "se" (a bola tivesse entrado, o goleiro defendido, o juiz marcado pênalti etc), enquanto um escandaloso 7 a 1 não passe de piadas, embora também lembradas, relembradas e remoídas.

Mas, voltando a 82 e ao livro, como ocorreu com muitos meninos (e meninas também, claro), aqueles cinco tiveram de dar um jeito de prosseguir o jogo depois do apito do árbitro israelense Abraham Klein. E continuam retomando em suas memórias, vez por outra, as sensações e as recordações daquele dia. O futebol nunca mais foi o mesmo, nem aqueles cinco, milhões de meninos (e meninas, jovens, adultos e maduros), depois daquela partida. E ela continua sendo jogada, comentada, criticada, exaltada, modificada, reinventada, inclusive nas páginas de Contos da Bola.

Aproveito para convidar você a ler este e os outros 18 contos do livro. Ele é facilmente encontrado nas seguintes lojas online (clique num dos nomes para ir direto ao site): Livraria da Cartola, AmazonAmericanasSubmarino, Shoptime, Mercado Livre, Magazine Luiza e Casas Bahia. Um time tão bom no papel como no ebook. 

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