"Anna Karenina", filme baseado no clássico do escritor russo Leon Tolstói, me deixou surpreso e muito satisfeito. Uma produção hollywoodiana que foge aos padrões, com as cenas se deslocando de dentro de um teatro (não só palco, mas todas as áreas internas) para locações numa agilidade precisa. A decisão do diretor Joe Wright de usar a linguagem expressionista em muitas cenas pode causar estranheza, mas considero bastante acertada esta opção, pois além de destacar as sensações dos personagens, permite ao espectador uma visão distanciada da obra, sem a catarse emocional que a imensa maioria das produções americanas traz.
Se não chega a haver brilhantismo nas atuações, figurinos, cenários, músicas e danças são de uma beleza literalmente estonteante. Recomendo o filme especialmente ao público viciado na xaropada sentimental de Hollywood, que terá a chance de conhecer algo diferente e abrir a cabeça e a visão para outras possibilidades. Estimulado pelo filme, vou agora - quase 15 anos depois de comprado o livro - mergulhar novamente na literatura de Tolstói, autor também de "Guerra e Paz" e "A morte de Ivan Ilitch", que já tive muito prazer de ler.
Veja também: Clarice Niskier, de corpo e alma
A brutal delicadeza de Kieslowski
Homenagem ao teatro
Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
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domingo, 17 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
OS MISERÁVEIS, VERSÃO 2012: NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO À TERRA
O filme-musical "Os miseráveis", dirigido por Tom Hooper, foi claramente feito para emocionar o público, o que se tratando da obra monumental de Victor Hugo não é
lá algo tão difícil de se conseguir. É só não fazer muita besteira. Hooper
arriscou ao levar o sucesso da Broadway para a telona, deixou furos, mas a direção musical deu conta do recado, teve muito mais acertos que erros.
O diretor se equivocou ao optar por um início corrido, meio
videoclipado. A virada na trágica história de Jean Valjean começa ali e a
dramaticidade desta mudança radical foi um pouco perdida, embora a cena do
conflito pessoal tenha sido muito bem
feita. Ponto para Hugh Jackman, que cumpre bem o papel principal.
Foto: Hugh Jackamn (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine), no filme "Os miseráveis".
Vídeo: "Do You Hear The People Sing" e "Look Down (The Beggars)", músicas do mesmo filme.
Veja também: A grandiosidade de Victor Hugo
A Cruzada das Crianças
A conversa continua
A montagem do filme também tem uns vacilos, com cortes
estranhos. Um dos momentos mais importantes da história apresenta um grave problema a meu ver: o espectador só sabe que Marius desconhecia que Valjean o havia salvado no levante de 1832 no momento em que o personagem vivido por Eddie Redmayne descobre quem tinha o levado desacordado nas costas pelos esgotos de Paris. Mas o que mais chama a atenção negativamente é a
atuação de Russel Crowe, logo no importantíssimo papel de Javert. Claro,
interpretar cantando não deve ser moleza, mas acho que ele se saiu bem melhor
usando sua voz, o que não significa muito.
Por outro lado, as músicas são belíssimas, assim como figurinos, maquiagem e cenários, e a atuação de Anne Hathaway merece tanto
destaque quanto a estatueta que arrebatou na noite de domingo passado (melhor atriz coadjuvante).
Excelente a Fantine composta por ela. Como excelentes também são as crianças,
em especial o que interpreta um personagem que já havia me cativado no livro: Gavroche,
que o lourinho Daniel
Huttlestone fez com maestria.
Não tive a oportunidade ainda de ver o musical no teatro,
lacuna que pretendo preencher nem que seja pelo vídeo, mas para o filme, se tivesse a oportunidade de opinar, diria que o melhor seria intercalar falas com cantos. Creio
que funcionaria melhor.
Foto: Hugh Jackamn (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine), no filme "Os miseráveis".
Vídeo: "Do You Hear The People Sing" e "Look Down (The Beggars)", músicas do mesmo filme.
Veja também: A grandiosidade de Victor Hugo
A Cruzada das Crianças
A conversa continua
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
UM BRILHANTE ESQUIZOFRÊNICO
Na tarde do último domingo aproveitei uma brecha no tempo disponível para viver
uma pequena esquizofrenia. Isolei-me do mundo da bola, onde todos pareciam
estar concentrados, para assistir a “Uma mente brilhante” (A beautiful mind, 2001), dirigido por Ron Howard, com Russell Crowe muito bem no papel principal. É um filme brilhante? Longe disso. Mas retrata a história verídica
de um homem brilhante, o matemático e esquizofrênico John Forbes Nash.
Para alguém como eu, que não tem muita afinidade com os números, o que mais me comoveu na história desse grande homem não foi aquilo que o levou à glória, a sua profissão, a sua contribuição para a economia mundial, a sua dedicação obsessiva a uma arte que não entendo, e portanto estou impedido de admirar profundamente: a matemática. O que engrandece aos meus olhos o imenso Nash, que é bem retratado com suas virtudes e defeitos (sua arrogância na juventude é bem instrutiva para quem deseja vencer a própria), é como usou sua mente brilhante para ludibriar a esquizofrenia e evitar os eletrochoques e os remédios que o limitavam como grande estudioso de seu ofício e como homem.
Para alguém como eu, que não tem muita afinidade com os números, o que mais me comoveu na história desse grande homem não foi aquilo que o levou à glória, a sua profissão, a sua contribuição para a economia mundial, a sua dedicação obsessiva a uma arte que não entendo, e portanto estou impedido de admirar profundamente: a matemática. O que engrandece aos meus olhos o imenso Nash, que é bem retratado com suas virtudes e defeitos (sua arrogância na juventude é bem instrutiva para quem deseja vencer a própria), é como usou sua mente brilhante para ludibriar a esquizofrenia e evitar os eletrochoques e os remédios que o limitavam como grande estudioso de seu ofício e como homem.
Logicamente
que para isso contou muito com a persistência e o amor de sua mulher, Alicia (interpretada
pela bela Jennifer Connelly), que enfrentou corajosamente todos os gigantescos problemas que se avolumam com a convivência com uma pessoa dificílima por natureza e ainda mais doente. A ela,
Nash dedicou merecidamente o prêmio Nobel ganho em 1994. Além disso, ele tem
grandes amigos (os reais, pois os imaginários se mostraram traiçoeiros). Porém, ele só
se superou porque teve vontade maior que a doença e as ignorâncias – e
arrogâncias – de médicos e psicólogos, ao não se deixar vencer pelo mundo
tortuoso e perigoso que sua brilhante mente criava e tornava real a seus olhos.
John Forbes Nash é mais que um artista dos números, é um artista que enfrentou e recriou a própria
mente.
Ilustrações: cartaz brasileiro do filme "Uma mente brilhante" (A beautiful mind, 2001) e John Forbes Nash (Getty Images).
Veja também:
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
CONEXÕES
Recentemente comentei numa rede social sobre um dia ganho por ter lido uma pequena obra-prima, o conto "O Evangelho segundo Marcos", do livro "O informe de Brodie", do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e a conexão mental e sensorial que fiz com o filme "Viridiana" (1961), do diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Em suma, as imprevisíveis e cruéis conseqüências da caridade cristã. Espero que quem conheça as duas obras venha me dizer se há insanidade, idiotice ou algo perfeitamente pertinente de minha parte. Pois bem, chego hoje em casa, já madrugada, após um ótimo encontro com velhos amigos, incluindo o meu irmão, Léo Neiva, e tenho a surpresa de ver que a locadora havia me enviado durante o dia o documentário sobre o excepcional LP "Who's next", de 1971, da mesma série (Classic Albuns) de "The dark side of the moon", do Pink Floyd, "Kind of blue", de Miles Davis, e outros que não me lembro e ainda não tive o prazer de assistir.
Este sempre foi o álbum que mais gostei do Who, especialmente pela balada-porrada "Behind blue eyes". Porém, só uns poucos anos atrás me detive mais à letra e um verso sempre me intrigou muito: "my love is vengeance that's never free" (meu amor é vingança que nunca é livre, corrija-me algum tradutor se eu estiver errado). Afinal, por mais questionador que seja, minha formação cristã ocidental tem uma força grande em meu sangue e minha mente, algo que por mais que se lute é difícil se desvencilhar. Tradição, cultura, inconsciente coletivo, nada disso se extirpa com facilidade, se é que é possível. Somos todos aqui filhos da pieguice do amor romântico, somos latinos e americanos, brasileiros, frutos da miscigenação do banzo e do fado, do lamento, do choro, da saudade.
Talvez seja, por isso, tão complexo, tão profundo, tão instigante e tão intenso este verso para mim. Como é o título do filme de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), "O amor é mais frio que a morte" (Liebe ist Kälter als der Tod, 1969), que já usei em forma de indagação em alguma poesia ou texto meu que já não me recordo agora. E vejo que tanto o verso da música, como o nome do filme me levam de volta a Borges e Buñuel, mas de forma invertida: nas obras do argentino e do espanhol haveria uma espécie de vingança pelo amor recebido. "O amor é mais frio que a morte" ainda não assisti, está na fila me esperando há anos, como alguns outros desse diretor alemão que tanto admiro e que conta, em apenas 37 anos de vida, com a impressionante marca de 43 filmes (sendo que "Berlin Alexanderplatz", de 1980, tem 15 horas e meia de duração). Porém, essa rede de conexões, tendo Towshend e Fassbinder como fios condutores, foi inevitável nesta alegre e produtiva noite.
Graças à IA, 13 anos após a publicação deste texto posso publicar aqui um "encontro" de Buñuel, Fassbinder, Townshend e Borges. Veja abaixo e diga o que achou.
Fotos: Rainer Werner Fassbinder, Jorge Luis Borges e a capa do filme "Viridiana".
Vídeo: "Behind blue eyes", The Who.
Veja também:
sexta-feira, 30 de julho de 2010
UM SONHO CHAMADO KUROSAWA

Akira Kurosawa, falecido em 1998 (completaria cem anos em 23 de março deste ano), foi um cineasta que conseguia ser delicado e deixar esperança mesmo nas cenas mais tristes de seus filmes. Sonhos, de 1990, talvez seja o que melhor resume a sua extensa filmografia. Com o filme já lançado em DVD há alguns anos, isso pode ser confirmado por fãs e aqueles que se propuserem a conhecer o trabalho meticuloso do mestre japonês.
Aliás, começar a conhecer a obra de Kurosawa por Sonhos é uma excelente idéia. Não que este filme, dividido em oito episódios que vão desde o mais puro lirismo à denúncia metafórica da estupidez humana, seja o melhor que filmou – aliás, tarefa inglória para quem se propuser a elegê-lo. Mas sim porque ele sintetiza bem o que o cineasta entendia por cinema.
Veja também:
O perfeccionismo de Kurosawa foi bastante comentado durante sua vida. Conta-se que o cineasta chegava muitas vezes a quase levar à loucura os atores de seus filmes por esperar dias e dias numa locação, aguardando a luz natural ideal para iniciar a filmagem de cenas que costumava desenhar com antecedência. O resultado disso são verdadeiras obras-primas, repletas de poesia e exaltação da vida e da Natureza.

Em Sonhos, Kurosawa parte de dois episódios compostos do mais puro lirismo: Sol em Meio à Chuva e O Pomar de Pêssegos, versos em profusão são lançados nas imagens com uma economia de palavras bastante pertinente. No caso deste mestre do cinema, verdadeiramente uma imagem valia por mil palavras.
A Nevasca, o terceiro episódio, apresenta uma luta angustiante de homens contra a fúria da Natureza, com imagens que traduzem com nitidez o que quase não mostra, devido exatamente à nevasca. Em O Túnel, a quarta história, e O Monte Fuji em Vermelho, a sexta, o tema é a guerra, sendo que nesta última os raios coloridos da radioatividade no céu entram em consonância com o episódio anterior, Corvos em razão das cores.
Neste, Kurosawa homenageia o pintor holandês Vincent Van Gogh, interpretado no filme pelo também cineasta Martin Scorsese. Os devaneios do cineasta japonês ganham contornos surreais, embora não fosse este o estilo do homenageado. Mas as cores vivas do quadro de Van Gogh estão lá, quando um personagem, encantado com a obra, é levado para dentro dela. Ao som da Nona Sinfonia de Beethoven, o homem aprende com o pintor – e com Kurosawa – que só consegue pintar (e escrever, filmar, fotografar, compor, criar enfim) quem se envolve inteiramente, no caso, com a Natureza.
Veja também:
O penúltimo episódio, O Demônio Chorão, é impossível não se remeter ao Inferno de Dante Alighieri e também à tragédia de Hiroshima e Nagasaki – aliás, algo já mencionado em O Monte Fuji em Vermelho e tema de outra obra sua Rapsódia em Agosto, de 1991. Com cenas fortes, Kurosawa “condena” o homem a colher o que plantou com a corrida armamentista, as guerras nucleares e a ganância.

O filme é fechado com uma história de uma beleza esfuziante não por imagens fantásticas e mirabolantes, mas pela simplicidade, que deveria caracterizar a vida de todo ser humano. A relação ideológica deste episódio com Dersu Uzala, de 1975, é imediata: na Natureza o homem encontra tudo o que necessita para viver, e bem.
Povoado de Moinhos é um libelo à vida simples, que só se torna repleta exatamente por isso. Um velho sábio demonstra a um rapaz urbano que as coisas mais importantes na vida são a água e o ar puro. Para encerrar a história e o filme da melhor forma, Kurosawa leva o rapaz a assistir a um cortejo festivo em celebração da morte de uma senhora de 99 anos. Como em O Pomar de Pêssegos, a dança e a música e, em resumo, as artes em conjunto, estão presentes.
Além de Sonhos, os fãs do cinema de Kurosawa encontram muitos outros filmes do mestre japonês em DVD como Ran, Os Sete Samurais, Yojimbo, Dersu Uzala, Rashomon, Rapsódia em Agosto, entre outros.
Ficha TécnicaAkira Kurosawa's Dreams (120 minutos, Cor, 1990)
Diretor: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa
Fotografía: Takao Sato
Música: Schinichiro Ikebe
Montagem: Tome Minami
Direção artística: Yoshiro Muraki
Produtoras: Hisao Kurosawa, Mike Y. Inoue
Atores:
Akira Terão, Mitsuko Baisho, Toshihiko Nakano, Mie Suzuki, Mieko Harada, Masayuki Yui, Shu Nakajima, Sakae Kimura, Martin Scorsese, Hisashi Igawa, Chishu Ryu, Tessho Yamashita, Misato Tate, Catherine Cadou, Mugita Endo, Ryujiro Oki, Keiki Takenouchi, Kento Toriki, Tokuju Masuda, Masou Amada.
Distribuidora em vídeo e DVD: Warner
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