Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Esta poesia foi escrita há cerca de 20 anos e, infelizmente, parece ainda mais atual hoje do que naquela época. Eu vivia ainda no estado do Rio de Janeiro, onde já não moro mais desde junho de 2019, mas onde vou com alguma frequência, agora espero que bem mais por estar bem menos distante. "Crônica da cidade" faz parte de uma série de poesias que escrevi nos primeiros anos deste século, retratando as contradições cariocas, como já bem descrita pela Fernanda Abreu como o "purgatório da beleza e do caos".
Ilustração gerada pela plataforma de inteligência artificial One Image
Esta poesia trouxe-me um elogio, que guardo desde aqueles tempos, do saudoso escritor e jornalista Fausto Wolff. Poucos meses após a minha segunda (e menos) curta passagem pelo Jornal do Brasil, no segundo semestre de 2006, resolvi enviá-la por email ao Fausto, então colunista do JB, por entender que ela ilustrava bem o que ele havia escrito num dos seus textos publicados no jornal (em papel ainda naquele tempo). Creio que ele tenha entendido que minha pretensão era de que ele a publicasse em sua coluna e não foi por isso que lhe escrevi. No entanto, o mais importante é que ele gostou e me respondeu (em 23 de abril de 2007):
"Parabéns, Eduardo, teu poema é muito bom mas minha coluna não é o local para publicá-lo. Faço isso apenas extemporaneamente quando o assunto é jornalístico e atual. De qualquer forma quando publicar sua carta mencionarei o poema. Um abraço do amigo Fausto Wolff".
Aqui abaixo vai a poesia inteira, ainda inédita em livros:
CRÔNICA DA CIDADE
(Eduardo Lamas Neiva)
Cinturões
carregados e
cinturas despidas são
o prenúncio do
rito e ritmo do baile tomando
conta da cidade que
brilha nas trevas de
baixo acima de
cima abaixo
Explode
o repique interminável de
canos metálicos e
caixas de som O
hino marcial da
cidade sitiada retumba
ensurdecedor e
inicia sua peregrinação ecoando
por valas e vielas cheias
de corpos roliços, esquálidos,
esguios e estirados numa
dança libidinosa e cruel
Dedos
repetem movimentos para
atirar ou seduzir Corpos
suados e surrados encharcam
fardas, bermudas, sainhas,
shortinhos, coxas e quadris E
o cheiro de pólvora e sexo dobra
as esquinas, chega
aos becos sem saída
Os
gritos são de guerra em
quadras e quarteirões emoções
pulverizadas, esfumaçadas tornam
olhos cintilantes em
olhares enevoados
A
noite será longa com
preces e rezas para
todo tipo de santo e
satanás afinal
o inferno aqui fica
a dois passos do paraíso
Euforia
e depressão alimentadas
pelos cristais em
barracos, “apês”, coberturas, flats
e mansões Brilho
e breu Ferocidade
e languidez se
alternam e se mesclam na
noite de fúria e som.
"Dona IAIÁ" continua sendo minha única parceira musical e não tenho do que reclamar. Dela. Paciência. Até porque os resultados de uma forma geral têm me agradado. "Crônica da cidade", então, também foi enviada ao Suno para que os algoritmos musicassem seus versos, e pedi uma mistura de funk carioca, rap paulista e repente nordestino. Não foi bem isso que veio de volta, mas eu gostei e aqui vai abaixo, com um vídeo que editei a partir de imagens que pedi para a One Image produzir para mim, baseados nas estrofes da poesia.
E aí, o que você achou, qual é a sua opinião? Eu gostaria muito de saber, agradecendo desde já a sua visita ao blog. Volte sempre e, se puder, traga mais gente.
Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem crédito encontrada na internet e melhorada com auxílio da IA
Após “Camisa Molhada” ser bastante apreciada pelo público, a
camisa amarela, novo uniforme da seleção brasileira, voltou ser o assunto no
bar “Além da Imaginação”.
Idiota da Objetividade: - Em 1953 houve um concurso
promovido pelo jornal carioca “Correio da Manhã” para se escolher o novo
uniforme da seleção brasileira. O gaúcho Aldyr Garcia Schlee, então com 19
anos, derrotou mais de 200 candidatos, com sua criação: a camisa canarinho.
Garçom: - Com sorte ou não, foi com a camisa
canarinho que conquistamos o penta.
Idiota da Objetividade: - Um ano antes do concurso, a
seleção brasileira havia conquistado, já sob o comando do técnico Zezé Moreira,
o seu primeiro título fora do nosso território: o Campeonato Pan-Americano de1952, no Chile. O título foi conquistado de forma invicta, com vitórias sobre o
México, por 2 a 0; Panamá, por 5 a 0; Uruguai, por 4 a 2, e Chile, por 3 a 0; e
apenas um empate, sem gols, no segundo jogo, contra o Peru. Na vitória sobre o
time da casa, Ademir Menezes fez dois gols, e Pinga, o outro.
Ceguinho Torcedor: - Mas o primeiro título mundial, que
nos arrancou das entranhas o complexo de vira-latas, veio em 58, na Suécia.
Músico: - Seu Ceguinho e demais senhores desta mesa tão qualificada, aproveitando
o tema iniciado, peço permissão para interrompê-los, por favor. Tem música muito
mais famosa sobre aquela conquista de 58, mas gostaria de tocar aqui no piano
pra vocês uma composição do grande Altamiro Carrilho, que foi gravada naquele
mesmo ano pelo pianista José Luciano. Chama-se “Os canarinhos venceram”.
Gostariam de ouvir?
Ceguinho Torcedor: - O escrete naquele jogo contra o
Peru não exprimiu, nem de longe, nem por aproximação, o futebol brasileiro. O
que houve foram alguns lampejos individuais fulgurantíssimos, como o gol do Didi, as arrancadas de Garrincha e a compacta bravura de Bellini. Mas o futebol
não vive de iluminações pessoais e tivemos de melhorar muito até conquistar a
taça na Suécia.
Garçom: - Didi deu a classificação para a
Copa e foi importantíssimo em 58.
Didi: - Obrigado!
Ceguinho Torcedor: - Sim, mas há poucos meses do
Mundial, Didi viveu um dilema: a Suécia ou Guiomar.
Garçom: - Sua esposa?
Didi: - Verdade. O Ceguinho pode contar a história.
Ceguinho Torcedor: - Obrigado. A CBD tomou uma
providência patética: baixou uma ordem impedindo que qualquer jogador levasse a
mulher à Suécia. Só um cego de nascença não via que se tratava de separar Didi
de Guiomar.
Didi: - É, cheguei inclusive a enviar uma
carta à CBD solicitando a dispensa da Copa, por causa da decisão da entidade.
João Sem Medo: - Didi fez questão de dizer o tempo
todo que ele pagaria as despesas da mulher. E ela não ficaria na concentração,
ora bolas!
Ceguinho Torcedor: - Ficaria fora da concentração,
apenas como torcedora de Didi e do Brasil.
Idiota da Objetividade: - Acabou que a dona Guiomar não foi
à Suécia.
Didi: - Uma pena,
não é meu amor?
D. Guiomar concorda com a cabeça.
Didi: - Até hoje não entendi aquela
perseguição a Guiomar?
Ceguinho Torcedor: - Existia contra ela um preconceito
militante, agressivo e eu quase diria internacional. Ela sempre tratou a todos
com uma cordialidade quase doce. Mas bastava que Didi fracassasse numa
folha-seca, ou desperdiçasse um pênalti, ou desse um passe errado, para que a
torcida a responsabilizasse.
Garçom: - Que isso!?
Ceguinho Torcedor: - Vejam vocês a ironia do futebol:
ela devia ser a responsável, por igual, pelos defeitos e os méritos de Didi.
Mas não. Se Didi falhava era Guiomar, se não falhava, era Didi. Ninguém admitia
que ela pudesse representar, no futebol do craque, um poderoso estímulo, um
incentivo total.
João Sem Medo: - Ele tantas vezes declarou à
imprensa o seu amor à mulher e sempre afirmou que era por ela que jogava. E o
mais importante é que ele foi à Copa e ajudou muito o Brasil a conquistar o
título.
Ceguinho Torcedor: - E como! O nosso Mister Football!
João Sem Medo: - Sim, foi como a imprensa internacional o apelidou na Copa
da Suécia.
Ceguinho Torcedor: - Com Moacir por trás de cada um dos
seus erros, como uma constante, ininterrupta ameaça, Didi, com seu nobre tipo
racial, como um príncipe etíope de rancho, enxergava longe e percebeu que não
podia se permitir o luxo de um cochilo.
Didi: - Não mesmo. Moacir foi um excelente jogador de meio de campo.
Idiota da Objetividade: - Moacir, meia do Flamengo, foi
titular da seleção nos dois últimos amistosos realizados no Brasil antes da
Copa de 58, nas vitórias de 4 a 0 e 3 a 1 sobre a Bulgária. No primeiro jogo,
realizado no Maracanã, Moacir fez dois gols. Depois Didi ganhou a vaga de
titular e foi eleito o melhor jogador do Mundial da Suécia, eleito pela Fifa.
Ceguinho Torcedor: - É, mas quase todo mundo gritou
contra Didi. Nos treinos da seleção foi vaiado quantas vezes? Conclusão:
amarrou a cara e seu comportamento, em todo o Mundial, foi esmagador. Não se
podia desejar mais de um homem, ou por outra, de um brasileiro. Ninguém que
jogasse com mais gana, mais garra e, sobretudo, mais seriedade. Nem sempre
marcava gols, mas era ele quem amaciava o caminho, quem desmontava as defesas
adversárias com seus lançamentos em profundidade. Com uma simples ginga de
corpo, liquidava o marcador. E nas horas em que os companheiros pareciam
aflitos, ele, com sua calma lúcida, prendia a bola e tratava de evitar o caos
possível. Nenhum escrete levanta um Campeonato do Mundo sem extraordinárias
qualidades morais. De nada adiantará o futebol se o homem não presta. O belo, o
comovente, o sensacional no triunfo de 58 está no seguinte: foi, antes de tudo,
o triunfo do homem.
Didi se levanta com Guiomar para abraçar Ceguinho Torcedor e
João Sem Medo e todos são aplaudidos pela plateia. Zé Ary aproveita para tomar
a palavra.
João Sem Medo: - Meu amigo Neném Prancha já dizia: “O Didi jogava bola com
quem chupa laranja, com muito carinho”.
Todos concordam e Didi, já de volta à sua mesa, se levanta novamente
para ser aplaudidíssimo por todo o público de pé. Parecia um estádio de
futebol, tamanha a ovação.
Didi: - Agradeço muito, de coração, a todos. Em especial pela defesa do
Ceguinho Torcedor e do João Sem Medo a mim e, claro, a minha amada Guiomar. Muito
obrigado.
Garçom:
-
Nós que agradecemos, seu Didi! Nós que agradecemos. Vamos ouvir aqui a narração
do gol de Didi contra a França na semifinal, quando o Brasil desempatou a
partida quando estava 1 a 1, na narração de Geraldo José de Almeida, na época
na Rádio Pan Americana, de São Paulo. E ver o golaço no telão!
A vibração é tão grande que parecia estar acontecendo naquele
momento. Zé Ary pede a palavra novamente.
Garçom:
- E
pra completar vamos ouvir “O nosso dia chegou”, de Alfredo Borba e OsvaldoRodrigues, que gravou a música. Quem quiser pode dançar à vontade. Vamos lá,
seu Didi, e dona Guiomar!
Zé Ary, ainda surpreso com o que João Sem Medo dissera sobre
o desconhecimento do regulamento da Copa de 54 pela delegação brasileira, não
se conteve.
Garçom: - Caramba, seu João, como pode? Que
confusão!
Ceguinho Torcedor: - Confusão houve mesmo depois da
partida contra a Iugoslávia. No jogo contra a Hungria, a pancadaria foi
generalizada. Perdemos de 4 a 2 no jogo e a cabeça depois.
Idiota da Objetividade: - A Hungria abriu 2 a 0 logo no
início da partida, com gols de Hidegkuti e Kocsis, que estaria em posição de
impedimento. Djalma Santos, de pênalti, diminuiu ainda no primeiro tempo, mas o
zagueiro Lantos aumentou pra 3 a 1 em pênalti inexistente de Pinheiro na etapa
final. Depois, Julinho Botelho reduziu a vantagem húngara e a equipe brasileira
passou a pressionar novamente em busca do empate. Chegou a botar duas bolas
seguidas na trave, mas aí Kocsis marcou no fim.
João Sem Medo: - Jornalistas brasileiros chegaram a
dizer que o atacante húngaro estava impedido, mas não houve nada disso. Os
brasileiros ainda reclamaram um pênalti em Julinho, não marcado pelo juiz, que
eu achei duvidoso.
Idiota da Objetividade: - O jogo foi muito violento, teve
três expulsos: Pinheiro e Humberto, pelo Brasil, e Bozsik, que era deputado no
Parlamento húngaro.
João Sem Medo: - Com todo mundo de cabeça quente
estourou a pancadaria após a partida, que ficou conhecida como a Batalha deBerna. Atingiram até o ministro de Esportes da Hungria.
Garçom: - Nossa mãe!
Idiota da Objetividade: - Faltou espírito esportivo a quase todo mundo ali.
Garçom: - Boa, seu Idiota! Hehe da Objetividade! Vamos aproveitar tua deixa pra
chamar ao palco mais uma vez: Moraes Moreira!
Aplausos de toda plateia.
Moraes
Moreira: -
Obrigado, gente. Se faltou espírito esportivo em 54, aqui vamos de “Espírito
Esportivo”.
A plateia dança e se diverte muito com Moraes Moreira e aplaude
ao fim da música. O artista agradece e volta à sua mesa.
Idiota da Objetividade: - Depois daquilo tudo, daquela total
falta de espírito esportivo, até Mário Vianna, com dois enes, o árbitro
brasileiro na Copa, se envolveu. Ele acusou o juiz inglês Arthur Ellis de estar
comprado e a Fifa, de ser uma camarilha de ladrões.
Garçom: - Desde aquela época? Não sei como
era, mas hoje tem ex-dirigentes da Fifa afastados e até presos.
Ceguinho Torcedor: - Mário Vianna arrancou o distintivo
da Fifa do peito e o queimou.
Idiota da Objetividade: - Acabou sendo expulso do quadro da
Fifa depois disso.
João Sem Medo: - Trabalhei com ele muitos anos na
Rádio Globo.
Idiota da Objetividade: - Mário Vianna encerrou sua carreira
de árbitro em 1957. Foi técnico do Palmeiras, mas acumulou oito derrotas em 14
jogos e acabou saindo do clube paulista. Temperamental e polêmico, ele foi
comentarista de arbitragem na Rádio Guanabara na década de 60 e da Rádio Globo
por mais de 20 anos, entre as décadas de 70 e 80.
Garçom: - Ah, me lembro muito bem dele. (canta a vinheta do comentarista na Rádio
Globo) “Mário Viaaaaanna”, com dois enes.
Mario Vianna, que chegara naquele momento ao bar, ao ouvir
sua vinheta na voz de Zé Ary, entra com seuvozeirão.
Mario Vianna: - “Gooooooooool legaaaaaaal”.
Risada geral.
Garçom: - Que prazer, seu Mario Vianna. O senhor chegou na hora certa.haha
Mario Vianna: - O prazer é todo meu.
Garçom: - O senhor tinha outros bordões famosos... Quando o árbitro cometia um
erro, como era?
Mario
Vianna: - “Eeeeeeeeeeerrooooou”!
Cadê o eco? “Eeeeeeeeeeerrooooou”.
Garçom: - Tinha também “pênalti que não é, não entra”.
Hahahaha .
Mario Vianna(rindo): - Também, também.
João Sem Medo: - Zé Ary tá com o gogó afiado. Dá um
abraço aqui, Mario!
Os dois se abraçam e Mário Vianna cumprimenta Ceguinho
Torcedor, Idiota da Objetividade e Sobrenatural de Almeida, que brinca com o
ex-árbitro.
Sobrenatural de
Almeida: - Você era
assombroso, Mário. Assombroooooosoooooo!
Os dois caem na gargalhada. Mário Vianna segue então em
direção à sua mesa. João Sem Medo retoma
pelota.
João Sem Medo: - A derrota de 50 gerou uma pressão
imensa da imprensa e dos torcedores para que o time brasileiro deixasse de ser
frouxo. Havia quase uma unanimidade...
Ceguinho Torcedor: - Toda unanimidade é burra!
João Sem Medo: - Pois é, Ceguinho, acredito que
aquilo acabou mexendo com a cabeça dos jogadores. Até o uniforme mudaram pro
Mundial na Suíça.
Idiota da Objetividade: - A seleção jogou até a Copa de 1950
com camisas brancas, calções azuis e meiões brancos.
João Sem Medo: - Aí juntaram a pressão com a
superstição. Disseram que além de um time frouxo, tínhamos um uniforme que dava
azar.
Sobrenatural de Almeida: - Ora essa! Isso é assombroso, assomborso. Hahaha
Garçom: -
Seu Almeida, peço licença, mas assombrosa mesmo é a qualidade das músicas
brasileiras que falam do futebol. Vamos ouvir no som o grande CarlinhosVergueiro num samba que fala de juiz, camisa, muito do que foi conversado aqui.
Vamos lá, “Camisa Molhada”, de Toquinho e Carlinhos Vergueiro.
Fim do Capítulo #42
Episódio originalmente publicado em 16 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 18 de dezembro de 2025.
E lá vou eu novamente Em busca do meu lugar no mundo Como, se há tanto, um mundo inteiro Aqui dentro sem caber em mim?
Tantas terras, tanta gente, Tantos cantos, tantas palavras, Tantos momentos, tantos instantes, Ecos, reflexos, reflexões, criações Pensamentos, sentimentos, sensações, Alegrias, emoções, consternações, Conquistas, erros, erros, erros... E a eterna vontade de acertar, A vibrante inquietude de ver florescer Tudo, tudo, tudo o que foi Pacientemente, diariamente, Semeado. E tudo, tudo, tudo o que ainda Falta semear.
Passeio no passado Flutuo no futuro Piso no presente
Ilustração produzida com o auxílio do GPT Image (IA)
Um pouco mais sobre isso tudo acima
Toda vez que ocorre uma mudança importante em minha vida palavras, versos, frases, versões brotam dos meus pensentimentos. Não só nestes momentos, claro, mas invariavelmente neles. E agora que deixamos, eu e minha mulher, Florianópolis - como moradia - no passado e estamos em Jundiaí (SP) com esperança de novos tempos, novas oportunidades, "novos olhares que nos façam sorrir" (muito grato, mestre Paulinho da Viola), compus em duas etapas "Um mundo inteiro sem caber em mim", que você que aqui chegou provavelmente leu.
E, como a tecnologia em que venho mergulhando já há um ano me permite, aproveitei para pedir ao Suno que me trouxesse música aos versos acima. Pensei depois em trocar "piso" por "finco pé" no presente, mas deixei como originalmente surgiu-me.
Creio que a interpretação de leitoras e leitores não será a de pisotear, mas ao lançar ao mundo o que escreve o poeta sabe que cada leitura traz uma nova cor, uma nova mensagem, novas interpretações de acordo com a vivência de quem lê e de alguma forma se apropria da obra. Desapego e lanço assim ao mundo. Mesmo que este mundo seja formado por apenas meia dúzia de pessoas.
Saudações a você e a tudo de maravilhoso que o Universo nos traz diariamente. E que os maus espíritos e maus pressen e pensentimentos não ganhem vida. Obrigado a Floripa e a todos os amigos e amigas que lá deixei e que reverei, alguns muitas vezes mais, pois se assim desejarmos.
A homenagem
A partida de Lô Borges me deixou muito triste. Suas músicas, especialmente as do Clube da Esquina fazem parte da trilha sonora da minha vida e continuarão até o fim. Tenho sangue mineiro, isso explica muita coisa.
Inclusive o pedido à plataforma de IA para que fizesse uma música para esta poesia que criei em duas partes há poucas semanas com estilo da música das Minas Gerais, com pitadas de rock e música clássica, o que neste caso específico entendo que foi completamente ignorada. Sem problemas, o resultado me agradou e me emocionou muito.
E a você? Ouça e veja o vídeo abaixo ou no meu canal do YouTube como ficou a música e comente, siga o blog. Agradeço.
Siga o perfil do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva no Instagram, clicando aqui, ou apontando o seu celular para o QR Code abaixo.
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O heavy metal fez uma parte do público curtir e balançar
cabeça no bar Além da Imaginação. Porém, outra parte se dispersou, foi ao
banheiro, pegar um ar do lado de fora. Ceguinho Torcedor, então, deu como se
fosse um passo, um passe pra trás, recuando um pouco com a intenção de o jogo abrir novamente.
Ceguinho Torcedor: - Aquele Santos era o maior do
mundo, muito melhor que o escrete húngaro do Armando Nogueira!
João Sem Medo: - O escrete húngaro de 54 era
espetacular, mas não era imbatível, Ceguinho. Tanto que perdeu, de virada, a
final da Copa pra Alemanha Ocidental.
Idiota da Objetividade: - Os húngaros eram os campeões
olímpicos e chegaram à final sem saber o que era derrota há mais de quatro
anos, num total de 31 jogos invictos. Em novembro de 53, golearam por 6 a 3 os
ingleses em Wembley, onde os donos da casa não eram derrotados por uma seleção
não-britânica desde 1901. Este é chamado de O Jogo do Século, eleito pela Fifa
como um dos mais sensacionais de todos os tempos. Na revanche pedida pelos
ingleses, menos de um mês antes da Copa de 54, os húngaros fizeram ainda
melhor, venceram por 7 a 1, em Budapeste. Esta é a pior derrota da história do
futebol inglês até hoje.
Garçom: - Esse negócio de 7 a 1 eu não gosto
muito, não.
Alguns riem, outros fazem cara feia.
Idiota da Objetividade: - Já no Mundial da Suíça,
massacraram os alemães ocidentais na primeira fase, com uma vitória de 8 a 3.
Sobrenatural de
Almeida: - Não
estive na Suíça, mas foi assombroso. Deve ter sido algum parente distante meu
que tirou aquele título da Hungria.
Ceguinho Torcedor: - Os húngaros eram favoritíssimos e
abriram 2 a 0 no início da grande final.
Idiota da Objetividade: - Acabaram derrotados por 3 a 2. Mas
teve um gol de Púskas invalidado no fim da partida que gerou muita discussão.
Sobrenatural de
Almeida: - Foi um
parente distante na Suíça, só pode.
Garçom: - O Brasil perdeu da Hungria naquela
Copa, não foi?
Ceguinho Torcedor: - Perdemos.
E por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Para nós
brasileiros, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas
puramente emocionais. Em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Antes
do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Fomos derrotados
por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. E não era uma pane
individual: era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os
torcedores, o chefe da delegação, o técnico, o massagista. Mas quem perde e
ganha as partidas é a alma. Foi nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa
alma que ruiu face ao Uruguai, em 50. Um Freud seria muito mais eficaz na boca
do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Só um
Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao
Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora
dele.
Sobrenatural
de Almeida: - Os psicólogos e as
psicólogas já estão no futebol tem tempo, Ceguinho.
João
Sem Medo: - Agora não tem mais desculpa. Se bem que
tem uma turma de palestrantes motivacionais...
Garçom: - Melhor deixar quieto, seu João.
João
Sem Medo: - É. Não compro mais briga por tão pouco.
Idiota da Objetividade: - A Hungria, sem Púskas, porque
estava machucado, mas com Hidegkuti, Kocsis e outros grandes craques, eliminou a
seleção brasileira nas quartas-de-final, com uma vitória de 4 a 2. Foi uma
partida muito tumultuada e teve confusão no fim.
João Sem Medo: - Tínhamos grandes jogadores também,
como Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Pinga, Julinho Botelho, mas a seleção
não estava bem preparada.
Músico: - Seu João, desculpe interromper, mas antes daquela Copa, os paulistas,
especialmente os corintianos, levavam muita fé no Baltazar, o Cabecinha deOuro...
Idiota da Objetividade: - Baltazar foi o autor do primeiro gol do Brasil
naquele Mundial, na goleada de 5 a 0 sobre o México. Mas depois de enfrentar a
Iugoslávia, ficou fora da partida contra a Hungria.
Músico: - Mas a esperança nos gols dele pela seleção eram tão grandes que o
compositor e radialista Alfredo Borba, autor da música “Gol de Baltazar”, gravada por ElzaLaranjeira em 1953, em homenagem ao artilheiro do Corinthians, com citação a
vários de seus companheiros, fez uma adaptação da música para a Copa de 54 e
pôs o título de “Gol do Brasil”.
Garçom: - Por isso, vamos chamar a cantora Elza Laranjeira ao palco pra cantar
esta versão pra gente, juntamente com o narrador Geraldo José de Almeida.
Elza e Geraldo se dirigem ao palco e chamam Baltazar pra ir
com eles. Os três são muito aplaudidos.
Elza Laranjeira: - Muito obrigado. Foi uma honra muito grande gravar as duas
versões desta música em homenagem ao grande artilheiro Baltazar.
Geraldo José de Almeida: - E de minha parte, um prazer enorme fazer a locução de um gol deste grande artilheiro pela seleção brasileira, mesmo sendo uma criação do Alfredo Borba, que ali está e gostaria que viesse ao palco também, por favor.
Alfredo Borba atende o chamado de Geraldo José de Almeida e também é muito aplaudido pelo público.
Baltazar: -
Agradeço muito a Elza, ao Geraldo, ao Alfredo Borba e a todos vocês pela emocionante homenagem.
Todos aplaudem a apresentação de Elza e a bola volta ao João
Sem Medo.
João Sem Medo: - A festa e a alegria aqui são muito bem-vindas, mas em 54,
na Suíça, os dirigentes, o técnico Zezé Moreira e os jogadores não conheciam
sequer o regulamento.
Idiota da Objetividade: - Depois de passar pela primeira vez
por eliminatórias, com quatro vitórias em quatro partidas, contra Paraguai e
Peru, a delegação brasileira também foi pela primeira vez de avião para uma
Copa do Mundo. Na estreia, como já dissemos, a seleção venceu o México, por 5 a
0, na estreia na Copa de 54. Em seguida, enfrentou a Iugoslávia com ambas as
equipes necessitando apenas de um empate para se classificarem.
João Sem Medo: - Um regulamento esdrúxulo, mas que
os brasileiros tinham obrigação de conhecer.
Idiota da Objetividade: - Eram dois cabeças de chave por
grupo e ambos não se enfrentavam; as outras duas seleções também não se
confrontavam. No Grupo 1, o do Brasil, a França era a outra cabeça de chave.
Como a seleção brasileira derrotou o México, e a Iugoslávia venceu a França,por 1 a 0, o empate classificava as duas equipes para as quartas-de-final.
João Sem Medo: - O regulamento ainda previa uma
prorrogação, sabe-se lá por quê. O jogo estava 1 a 1, o time do Brasil se
esforçando ao máximo pra tentar a vitória, enquanto os iugoslavos jogavam
tranquilos, os brasileiros se desesperavam em campo achando que teriam de fazer
um jogo extra três dias depois. Ninguém na delegação brasileira conhecia o
regulamento da Copa. Enquanto ainda estávamos surpresos com a classificação, os
iugoslavos bebemoraram e dançaram à vontade depois do jogo, no hotel em que
estavam hospedados.
Idiota da Objetividade: - Os brasileiros só ficaram sabendo
que a seleção estava classificada pelos repórteres que foram ao vestiário após
o jogo. Ainda assim dirigentes foram atrás do árbitro da partida e o
representante da Fifa para confirmarem a informação.
João Sem Medo: - Os dois ficaram horrorizados com o
desconhecimento do regulamento por parte dos brasileiros. Isso mostra bem como
estávamos na Suíça.
Sobrenatural de
Almeida: -
Assombroso!
Garçom: -
O futebol brasileiro não foi bem na Suíça, mas não deixou de ter a alegria da
tabelinha entre música e futebol naquele ano de 1954. Vamos ouvir, então, “O
rei da bola”, de Luiz Antonio e Sebastião Nunes, na voz de Marly Sorel.