quarta-feira, 17 de junho de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #48

Uma coisa jogada com música - Capítulo #48
Djalma Santos, Zito, Vicente Feola, Pelé e Aymoré Moreira. Foto aprimorada por IA

Com o apoio do público presente ao bar Além da Imaginação, Zé Ary mal esperou acabar o “Hino aos campeões mundiais” e emendou no aparelho de som com “Campeão do mundo”, de João de Barro, com Joel de Almeida, orquestra e coro.

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O povo se divertiu a valer com a marchinha, mas, como bem disse João Sem Medo logo que chegou ao Além da Imaginação, é a resenha que resolve qualquer jogo e o papo é a vida do futebol. Por isso que ele muitas vezes parece se tornar infinito quando estamos rodeados de amigos, ainda mais quando tem algo pra beber e beliscar, e muita música pra abrilhantar a conversa.

E como não se pode perder o domínio da bola, nem da resenha, João Sem Medo faz a meia cancha organizar o jogo, dando um toque final sobre aconquista de 1958 pela seleção brasileira, indo ao início da preparação da equipe.

João Sem Medo: - Da seleção de 56 que fez um giro à Europa, o Gino era o centroavante.

Idiota da Objetividade: - Gino Orlando tinha origem italiana, começou no Palmeiras, mas se destacou mesmo como centroavante do São Paulo, de 1952 a 62. E depois de encerrada a carreira ainda trabalhou como administrador do estádio do Morumbi.

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Zé Ary cochicha com os quatro amigos à mesa.

João Sem Medo: - Gino está aí?

Gino: - Sim, João Sem Medo. Com muito prazer.

Ele se levanta e o público o aplaude.

Gino: - Muito obrigado. Como bem disse o Sr. Idiota da Objetividade, fui da base do Palmeiras. Mas comecei a jogar antes, na Associação Atlética Matarazzo, clube das Indústrias Francisco Matarazzo. Fiquei no Palmeiras de 1947 a 51 e depois fui jogar no interior, no XV de Jaú e no Comercial de Ribeirão Preto, para só depois ir para o São Paulo e ser convocado para a seleção brasileira, entre 1956 e 57. Joguei depois na Portuguesa e no Juventus da Mooca. Eu era um grosso, trombador, mas estou na lista dos maiores artilheiros do São Paulo, com muito orgulho.

Idiota da Objetividade: - Fez 233 gols com a camisa tricolor e é o segundo maior goleador da História do São Paulo, atrás apenas de Serginho Chulapa, que fez 243 gols.

Gino é aplaudido, agradece e se senta.

João Sem Medo: - Pois então, Gino naquela excursão à Europa fez um gol de bicicleta contra Portugal.

Gino se levanta novamente.

Gino: - Ótima lembrança, João!

Mais aplausos.

João Sem Medo: - O Feola, que já tinha sido técnico da seleção em um jogo contra o Chile em 55, trocou todo o time de 56, 57, em 58, quando assumiu. E em 58 a seleção só deu o grande salto, porque fez dois jogos duros. O primeiro, em Uddevalla, contra a Áustria, ganhamos de 3 a 0 aquele jogo, campinho pequeno, 14 mil pessoas e tal. Quando entrou o Garrincha no time, a declaração da comissão técnica foi: “ganhamos com quatro reservas”. Os quatro reservas eram Zito, Garrincha, Pelé e Vavá. Porque não era o time, era o time da Escola de EducaçãoFísica do Exército, dois pontas recuados, os dois da frente que eram o Dida e o Mazolla abriam e aí vinha a jogada detrás. Do time de 56, se não estou enganado, sobrou o Djalma Santos, no último jogo. O Nilton Santos foi em 56, mas jogou pouco, jogou dois e depois se machucou, mas o Djalma jogou todas.

Idiota da Objetividade: - João, você está enganado, o Nilton Santos jogou todas as partidas na Europa, em 56.

João Sem Medo: - Mas foi um outro time, e o Feola foi imprensado pela tese de ter só branco no time, mas felizmente os reservas entraram... O Garrincha e o Pelé eram dois reservas. Com Garrincha e Pelé, joga as outras camisas pro alto, quem pegar joga.

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Garçom: - Diziam que o Feola dormia no banco de reservas e quem mandava mesmo eram os jogadores mais experientes.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

Garçom: - Uma pena ele não estar aqui pra que pudesse dizer o que aconteceu.

Ceguinho Torcedor: - Vicente Feola teve muitos méritos. Pelé na verdade era titular.

Todos ao redor da mesa de Pelé olham pro Rei, que apenas concorda com um gesto para não interromper a resenha.

Idiota da Objetividade: - Pelé ficou fora dos amistosos já na Europa e dos dois primeiros jogos da Copa de 58 porque estava machucado desde a vitória de 5a 0 da seleção sobre o Corinthians, no Pacaembu, o último amistoso disputado no Brasil. Feola foi o treinador da seleção de fevereiro de 1958 até 1959, quando teve de ser substituído por Aymoré Moreira, por razões de saúde. Devido a esses problemas de saúde, causados pelo seu peso excessivo, tomava muitos remédios, o que poderia causar sonolência. Ele deixou invicto o comando da seleção: com 18 vitórias e quatro empates. Voltaria em 1964 e dirigiria a seleção na Copa de 66, que não nos traz boas lembranças.

João Sem Medo: - Antes, em 55, ele já havia dirigido a seleção numa partida contra o Chile, como falei anteriormente.

Idiota da Objetividade: - O Brasil venceu por 2 a 1 e conquistou a primeira Taça Bernardo O’Higgins, que foi disputada cinco vezes entre as duas seleções até 1966.

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Garçom: - Peço licença à nossa mesa de debates pra outra homenagem a Vicente Feola e à seleção de 58.

Ceguinho Torcedor: - O que nunca é demais.

João Sem Medo: - Não mesmo!

Garçom: - Vamos ouvir, então, “Escola de Feola”, de Nelson Ferreira e Luiz Queiroga, com Os Três Boêmios e Orquestra. Podem sambar à vontade!

O povo ri e aplaude, enquanto se levanta para dançar.


Fim do Capítulo #48

Episódio originalmente publicado em 21 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 16 de junho de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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Uma coisa jogada com música - Capítulo #47

segunda-feira, 25 de maio de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46

Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mundo de 1958. Foto (aprimorada com IA): Acervo da CBF

A festa revivida pelo título mundial de 1958 parecia que não acabaria nunca. Pelé, Didi, Garrincha, Nilton Santos e outros integrantes daquele time fantástico são muito aplaudidos e reverenciados. João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade, então, os convidam a ir à mesa para falarem um pouco com o público sobre a primeira Copa do Mundo conquistada pela seleçãobrasileira. Didi começou lançando, mas Pelé e Garrincha acabaram tomando conta da peleja.

Didi: - Eu fazia um lançamento e tinha vontade de rir. O Mané ia passando e deixando os homens de bunda no chão.

Garrincha: - Em 1958 era muito jovem e tinha uma velocidade bárbara. As pernas corriam mais do que eu queria e as jogadas saíam-me quase sempre bem.

Pelé – Cada vez mais sinto saudades de você em campo, daqueles dribles, do povo nos estádios que vibrava com tuas entortadas nos “Joões”. Cada vez vejo menos habilidade no jogador brasileiro.

 

Garrincha – A pelada está perdendo espaço, só tem garotos jogando em campos cercados.

João Sem Medo: - E agora com grama sintética até nos campos oficiais, Mané.

Garrincha: - Verdade, seu João. Cadê o moleque de pé no chão batendo bola em terra dura? O pior é que todo mundo põe a culpa na retranca, mas continua bolando esquemas cada vez mais fechados. Parece saudosismo, mas na Copa de 1958 também éramos muito marcados.

 

Pelé – Pois é, eu era um garoto de 17 anos, mas tinha gente boa fazendo a minha cabeça. Aliás, você lembra por que o Paulo Amaral (preparador físico) acabou com as corridas depois dos treinos?


Garrincha – Claro, o pessoal corria até o lago não para melhorar o preparo físico, mas para ver as garotas tomando banho nuas. Daí o Paulo Amaral proibiu a corrida e o remédio foi aturar você tocando violão.

 

Todos riem muito.

 

Pelé – Tocar não é bem a palavra: eu batucava no violão.

 

Garrincha – E já aprendeu?

 

Pelé – Tocar eu ainda não toco, mas componho mais ou menos.

 

Garrincha – Já ouvi o Jair Rodrigues cantando uma música tua. Pega o violão e mostra aí.

 

Garçom: - Vamos aproveitar, então, e chamar mais uma vez Jair Rodrigues ao palco pra cantar com Pelé.

 

Todos aplaudem e vibram.


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Pelé: - Dá um abraço aqui Jair. Que felicidade estar com você novamente.

 

Jair Rodrigues: - A felicidade é toda minha poder abraçar você, Mané e toda essa turma boa de 58 e 62.

 

Pelé: - Vamos cantar “Cidade grande”?

 

Jair Rodrigues: - Vamos lá, meu Rei?

 

Pelé: - Vamos sim. O Mané pediu, então... 

Jair Rodrigues: - É uma ordem! (dá aquela risada gostosa que todo o Brasil se acostumou a ver e ouvir)


A dupla é aplaudidíssima e os dois se abraçam. Enquanto Jair Rodrigues volta à sua mesa, Pelé retorna pra continuar a resenha com Garrincha. 

 

Pelé: Bons tempos…


Garrincha: Bons mesmo. Na Copa de 1962 foi uma pena você ter se machucado. Eu dei sorte, fiz gols… Mas nunca vou esquecer da partida contra os russos em 1958. 

Pelé: Foi a primeira partida que disputamos juntos. Era a estreia de nós dois na Copa e vencemos por 2 a 0, dois gols do Vavá (aponta pro amigo que é muito aplaudido). Você enlouqueceu os russos, Mané! Logo na primeira bola, entortou três. Dali em diante, só deu você. Nosso futebol está precisando de um novo Garrincha, de outro “Alegria do Povo”.

 

Didi: - Convencemos o técnico Vicente Feola a colocar Pelé no lugar do Dida, que sentia uma contusão. Feola temia lançar Pelé, que tinha apenas 17 anos, mas concordou. Também pedimos que ele escalasse Garrincha no lugar de Joel. Feola nos atendeu, o time embalou e fomos campeões.


Vicente Feola, também presente, preferiu não interromper, nem concordar com o que Didi revelava.

 

Pelé: - Eu não imaginava que seria convocado.

 

Ceguinho Torcedor: - Mas você tinha feito uma promessa ao seu pai de que ganharia uma Copa pra ele... 

Pelé: - É, seu Ceguinho... Eu engraxava as chuteiras e os sapatos dos jogadores do BAC na época da Copa de 50.

Idiota da Objetividade: - Peço desculpas por interrompê-lo, Pelé, mas só pro público saber: BAC é o Bauru Atlético Clube. Prossiga, por favor.

Pelé: - Sem problemas. Bom, nós ouvimos a final de 50 no rádio e vi depois do jogo o meu pai e aqueles jogadores que eram companheiros dele chorando e todo mundo triste porque estava preparada uma festa lá em casa em Bauru. Aí eu falei pro meu pai brincando: “não liga, não, que eu vou ganhar uma Copa pra você”. E oito anos depois meu pai estava chorando, ouvindo o mesmo rádio, mas a gente ganhando a Copa do Mundo na Suécia.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso! Assombroso! (dá sua risada tenebrosa)

Risada geral.

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Garrincha, 77
Das peladas de rua às arenas

Idiota da Objetividade: - Mas qual foi o jogo mais difícil na Copa, Pelé?

Pelé: - Olha, nós não tínhamos o teipe naquela época, né? Nós tínhamos os olheiros que viam os jogos e todos diziam que a gente ia ter mais dificuldade contra a França, porque era a melhor equipe. Mas pra mim foi o País de Gales. Era um time que jogava na retranca, foi difícil, ganhamos de 1 a 0, com um gol que eu fiz, né. Depois que nós ganhamos da França, com a Suécia eu tinha certeza absoluta, nós tínhamos uma confiança que nós não perderíamos pra Suécia, porque o nosso time era melhor.

Todos aplaudem e os companheiros de 58 se confraternizam e abraçam também João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Idiota da Objetividade e Sobrenatural de Almeida. Zé Ary percebe a dispersão e não perde tempo.

Garçom: - Meus amigos, que grande felicidade, né? Pois então, uma festa tão bonita como essa merece mais futebol e música, então, enquanto imagens daquela seleção fantástica vão sendo mostradas no telão, ao som novamente de “A taça é nossa” e depois nas nossas caixas de som vocês vão ouvir o “Hino aos campeões do mundo”, de David Nasser e Vicente Paiva, cantado pelo Coro de Severino Filho. Divirtam-se!

Fim do Capítulo #47

Episódio originalmente publicado em 21 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 25 de maio de 2026.

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #46

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46

Pelé, emocionado, é abraçado por Gylmar, enquanto Djalma Santos e Didi, à esquerda, e Orlando, comemoram o primeiro título mundial do Brasil, em 1958, na Suécia. Foto: Arquivo/O Globo

Após mais uma homenagem a Pelé, desta vez com a presença do Rei, também muito aplaudida pelo público, Sobrenatural de Almeida retoma a pelota pra falar do jogo contra País de Gales, em 58.

Sobrenatural de Almeida: - Mas teve quem achasse ruim a seleção naquele dia, contra Gales...

Ceguinho Torcedor: - Só mesmo Leônidas, que aqui está e merece todo o meu respeito e admiração pelo magnífico jogador que foi, é que achou que foi pouco esse gol tão sofrido, tão chorado por milhões de patrícios.

Todos os outros: - Patrícios, Ceguinho?

Ceguinho Torcedor: - Brasileiros, nossos compatriotas. Eu falei em uivo, em urro. Sim, amigos: foi um som jamais ouvido, desde que se inventou o Homem. Algo de bestial, de pré-histórico, antediluviano, sei lá. Foi um desses momentos em que cada um de nós deixa de ter vergonha e passa a ter orgulho de sua condição nacional.

João Sem Medo: - Didi teve excelente atuação, arrancando aplausos do público sueco algumas vezes naquele dia. Vavá não jogou, Mazzola é que atuou no ataque brasileiro contra Gales. E não jogou bem.

Idiota da Objetividade: - Com essa vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales, com gol de Pelé, aos 25 minutos do segundo tempo, a seleção brasileira se classificou para a semifinal, sem levar gol, e enfrentou a França. Venceu por 5 a 2, resultado que se repetiria na final, contra a Suécia.

Ceguinho Torcedor: - Que frieza, que objetividade, pra narrar as estupendas vitórias do Brasil.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso. Nenhuma emoção, sem qualquer vestígio de sentimento.

Idiota da Objetividade: - Estou narrando os fatos, o que aconteceu.

Ceguinho Torcedor: - Há muito mais do que os fatos narrados. E se os fatos me desmentirem, pior para os fatos.

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João Sem Medo: - Contra a França, Pelé fez três gols, Vavá e Didi os outros dois.

Ceguinho Torcedor: - Foi uma vitória “de gaulleada”.

João Sem Medo: - Em homenagem ao general De Gaulle?

Garçom: - Não foi ele que disse que o Brasil não era um país sério.

Idiota da Objetividade: - Há controvérsias...

Sobrenatural de Almeida: - Desconfio que o general em sua tumba ainda tenha razão...

Garçom: - Mas o assunto é futebol. E como nunca é demais, vamos a mais uma música sobre o Rei do Futebol?

Todos concordam, inclusive Pelé, que exibe aquele sorriso inconfundível ao agradecer com um aceno ao público que mais uma vez o aplaudiu.

Músico: - Então, gostaria de chamar ao palco o grande cavaquinista Jorge Pereira Simas, o querido Tico-Tico!

Tico-Tico vai ao palco, sob aplausos.

Tico-Tico: - Obrigado. Obrigado. O nosso rei merece sempre ser lembrado. Vou apresentar aqui “Ataca Pelé”, espero que ele e todos os demais aprovem.

A aprovação foi geral e Tico-Tico deixa o palco sob aplausos entusiasmados. Quando o público começou a se aquietar novamente, João Sem Medo distribuiu o jogo, destacando a qualidade ofensiva do time francês de 1958.

João Sem Medo: - O Brasil enfrentou um time que já tinha feito 15 gols em quatro jogos. Quase quatro por partida. O grande destaque era Fontaine, que acabou artilheiro daquela Copa com 13 gols...

Idiota da Objetividade: - É o jogador que mais fez gols numa edição de Copa do Mundo até hoje.

João Sem Medo: - Kopa era outro grande jogador.

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Ceguinho Torcedor: - O Brasil estava devendo a todos nós uma vitória como aquela. Vencemos contra tudo e contra todos. Contra os franceses, contra os bandeirinhas, contra o juiz e contra a Marselhesa. Nosso Hino Nacional foi apenas tocado. Não havia ali nenhuma multidão para soltar aos quatro ventos: “ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”. Ao passo que a Marselhesa foi cantada. Mas nosso Hino não se dobrou, mesmo com o juiz nos tirando dois gols e dois pênaltis. Aquele escrete era o escrete da coragem e creiam que Vavá, que voltou naquele jogo no lugar do Mazzola, com sua bravura louca, traduziu um perfeito, empolgante símbolo dessa coragem.

Idiota da Objetividade: - Uma curiosidade: Vavá marcou, logo a um minuto de jogo, o centésimo gol da História da Copa do Mundo.

João Sem Medo: - O jogo não foi disputado só na bola, não. Os franceses apelaram, mas três deles saíram machucados. O zagueiro Jounquet, que se contundiu aos 35 minutos do primeiro tempo... 

Idiota da Objetividade: - Jounquet fraturou a fíbula após um choque com Vavá.

João Sem Medo: - Pois, então, naquela época não era permitida a substituição, e o Jonquet ficou o restante do jogo fazendo número na ponta-esquerda. No lado do Brasil, Vavá saiu antes do fim da partida, mas ela já estava ganha. Bellini também se lesionou. Mas os dois jogariam a final contra os suecos.

Idiota da Objetividade: - E Vavá fez dois gols na decisão, com mais dois de Pelé e outro de Zagallo.

Sobrenatural de Almeida: - O Brasil jogou de azul a final. Diziam que daria azar...

Idiota da Objetividade: - Nas seis primeiras edições da Copa do Mundo, cinco vezes a seleção que vestia camisa azul venceu a final. Uruguai, em 30 e 50, a Itália, em 34 e 38, e o Brasil, em 58. Apenas em 54 venceu a Alemanha, de branco, derrotando a Hungria, que jogou de vermelho.

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Garçom: - Foi um carnaval em junho. Eu era pequeno, mas me lembro bem. Tomei um susto de ver tantos adultos chorando. Choravam de alegria.

Idiota da Objetividade: - Foi a primeira e até hoje única vez que uma seleção de fora da Europa venceu uma Copa no Velho Continente. A Suécia marcou o primeiro gol, aos 4 minutos, com Liedholm; o Brasil empatou e virou com Vavá, aos 9 e aos 32 da primeira etapa, Pelé marcou aos 10 da etapa final, Zagallo ampliou, aos 23; Simonsson fez o segundo da Suécia, aos 35, e Pelé, aos 45, deu números finais à partida.

Ceguinho Torcedor: - Meu caro Idiota da Objetividade, os 5 a 2, lá fora, contra tudo e contra todos, foi um maravilhoso triunfo vital, de todos nós e de cada um de nós. Do Presidente da República ao apanhador de papel, do Ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui perceberam o seguinte: é chato ser brasileiro! Já ninguém tinha mais vergonha de sua condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais andavam pelas calçadas com um charme de Joana D’Arc. O povo não se julgava mais um vira-latas. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra em todos os tempos. Pelo menos até ali. O escrete deu um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal, na Suécia.

Sem que ninguém percebesse seus movimentos enquanto todas as atenções estavam voltadas ao discurso eloquente e emocionado do Ceguinho Torcedor, Zé Ary preparou o aparelho de som e assim que o nosso amigo encerrou sua fala e o povo começava a aplaudi-lo, em alto e bom som “A Taça do Mundo é Nossa”, de Wagner Maugéri, Mageri Sobrinho, Victor Dagô e Lauro Muller, fez todo mundo pular, dançar, cantar e festejar como se 1958 fosse o agora, o momento de sempre. E foi mesmo eterna aquela grande conquista.

Fim do Capítulo #46

Episódio originalmente publicado em 14 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 20 de abril de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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segunda-feira, 6 de abril de 2026

JOGADA DE MÚSICA NO SOBRETUDO PODCAST



Jogada de Música no SobreTudo Podcast

Arte de Lucas Neiva
 O projeto
Jogada de Música ganhou mais um belo capítulo em sua   jornada de mais de 10 anos na estrada, com a estreia na última quarta-feira (1º de abril), no Sobretudo Podcast. Em conversa com Alexandre Araújo, parceiro de primeira hora do projeto e, como sempre, alguém que entende perfeitamente essa tabelinha entre bola e canção, demos o pontapé inicial para um encontro que se repetirá ao vivo todas as quartas, às 10h, mas que ficará gravado para você assistir e ouvir na hora que desejar. 

 O episódio de estreia é uma ótima porta de entrada para quem quer   conhecer melhor a proposta do projeto: mostrar como a História do   futebol brasileiro também pode ser contada pela música — não apenas   por hinos e canções compostas para clubes e Copas, mas também por   músicas que, por força da emoção popular, acabaram incorporadas ao imaginário do futebol.

Ao longo do ótimo papo, que fluiu tão bem como um jogão de futebol, fica muito claro como essa relação entre música e futebol é mais profunda, rica e surpreendente do que parece à primeira vista. Lembrei que, quando comecei a pesquisa, imaginava encontrar algumas centenas de canções ligadas ao tema. Com o tempo, porém, fui descobrindo um universo muito, muito maior, com mais de mil músicas catalogadas entre homenagens, críticas, metáforas, trilhas afetivas e associações construídas pela torcida, pelo rádio, pelo cinema, pelos poetas da bola e das canções e, claro, pela memória coletiva.

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Um dos pontos mais interessantes do episódio é justamente a reflexão sobre músicas que não nasceram futebolísticas, mas que passaram a ser do futebol para sempre. É o caso de “Touradas em Madrid” (Braguinha/Alberto Ribeiro), eternizada no Maracanã durante a Copa de 1950, quando a torcida brasileira a cantou espontaneamente no histórico 6 a 1 sobre a Espanha

Também é citada “Na Cadência do Samba” (Luiz Bandeira), que, graças ao Canal 100, virou sinônimo audiovisual de drible, gol, arquibancadas lotadas e câmera lenta, mesmo tendo surgido como uma canção ligada ao universo do samba. E há ainda a emocionante lembrança para a torcida do Fluminense de “A Bênção, João de Deus”, adotada pelos tricolores em momentos de tensão, como um canto de fé e aflição transformado em tradição de arquibancada.

O Jogada de Música mostra, assim, que o futebol brasileiro não é feito apenas de jogos, títulos, táticas e escalações, mas também de trilhas sonoras involuntárias, de refrões que ganham novos sentidos, de canções que o povo consagra. O rádio, o cinema, a TV, as transmissões esportivas nos mais diversos veículos de comunicação e as torcidas tiveram — e ainda têm — papel decisivo nessa construção cultural e esportiva. 

Se antes havia uma cultura mais concentrada, capaz de transformar certas músicas em referências nacionais quase imediatas, hoje o cenário é mais fragmentado. Ainda assim, a força simbólica desse encontro entre música e futebol continua viva, muito viva, reinventando-se de outras maneiras. E o projeto Jogada de Música existe para ressaltar e resgatar essa tabelinha extraordinária entre a Música e o Futebol do Brasil. 


Uma nova fase


Mais do que revisitar canções e histórias curiosas, a conversa na Manhã SobreTudo ajuda a entender a própria alma do projeto que nasceu de uma vasta pesquisa, ainda em curso, e foi ganhando forma em rádio, blog, colunas em sites, audiovisual, shows, exposições e outros desdobramentos ao longo dos anos. A ideia central permanece luminosa como os refletores dos grandes palcos em estádios, ginásios ou casas de shows: contar o futebol brasileiro por meio de suas ressonâncias musicais, de suas emoções cantadas e de tudo aquilo que o som cantado e tocado ajuda a revelar sobre a nossa memória esportiva e cultural.

É um episódio para você assistir e ou ouvir com atenção, porque ele reúne pesquisa, afeto, lembrança e repertório num papo leve e cheio de boas histórias. Para quem acompanha o projeto, é mais uma confirmação da força desse trabalho inesgotável. Para quem está chegando agora, é um convite afetuoso para você entrar em campo com o Jogada de Música e perceber que, no Brasil, futebol nunca foi só um jogo: muitas vezes, foi também canção.

Veja também:

O vídeo completo está abaixo para você assistir aqui ou no YouTube. Se preferir, o áudio com trechos de músicas citadas inseridas está no Spotify. Espero que goste e possa recomendar para mais pessoas. O projeto Jogada de Música merece público de Copa do Mundo, concorda? Agradeço muito a você que já curte há muito tempo e também a quem está chegando agora à nossa arquibancada.


UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #48

Uma coisa jogada com música - Capítulo #48 Djalma Santos, Zito, Vicente Feola, Pe...

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