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| Pelé, emocionado, é abraçado por Gylmar, enquanto Djalma Santos e Didi, à esquerda, e Orlando, comemoram o primeiro título mundial do Brasil, em 1958, na Suécia. Foto: Arquivo/O Globo |
Após mais uma homenagem a Pelé, desta
vez com a presença do Rei, também muito aplaudida pelo público, Sobrenatural de
Almeida retoma a pelota pra falar do jogo contra País de Gales, em 58.
Sobrenatural de
Almeida: - Mas teve quem achasse ruim a seleção naquele dia, contra Gales...
Ceguinho Torcedor: - Só mesmo
Leônidas, que aqui está e merece todo o meu respeito e admiração pelo magnífico
jogador que foi, é que achou que foi
pouco esse gol tão sofrido, tão chorado por milhões de patrícios.
Todos os outros: -
Patrícios, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: -
Brasileiros, nossos compatriotas. Eu falei em uivo, em urro. Sim, amigos: foi
um som jamais ouvido, desde que se inventou o Homem. Algo de bestial, de
pré-histórico, antediluviano, sei lá. Foi um desses momentos em que cada um de
nós deixa de ter vergonha e passa a ter orgulho de sua condição nacional.
João Sem Medo: - Didi teve excelente atuação, arrancando aplausos do público sueco algumas
vezes naquele dia. Vavá não jogou, Mazzola é que atuou no ataque brasileiro
contra Gales. E não jogou bem.
Idiota da Objetividade: - Com essa
vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales, com gol de Pelé, aos 25 minutos do
segundo tempo, a seleção brasileira se classificou para a semifinal, sem levar
gol, e enfrentou a França. Venceu por 5 a 2, resultado que se repetiria na
final, contra a Suécia.
Ceguinho Torcedor: - Que
frieza, que objetividade, pra narrar as estupendas vitórias do Brasil.
Sobrenatural de
Almeida: - Assombroso. Nenhuma emoção, sem qualquer vestígio de sentimento.
Idiota da Objetividade:
- Estou narrando os fatos, o que aconteceu.
Ceguinho Torcedor: - Há muito
mais do que os fatos narrados. E se os fatos me desmentirem, pior para os
fatos.
Veja também:
João Sem Medo: - Contra a
França, Pelé fez três gols, Vavá e Didi os outros dois.
Ceguinho Torcedor: - Foi uma
vitória “de gaulleada”.
João Sem Medo: - Em
homenagem ao general De Gaulle?
Garçom: - Não foi
ele que disse que o Brasil não era um país sério.
Idiota da Objetividade: - Há
controvérsias...
Sobrenatural de
Almeida: - Desconfio que o general em sua tumba ainda tenha razão...
Garçom: - Mas o
assunto é futebol. E como nunca é demais, vamos a mais uma música sobre o Rei
do Futebol?
Todos concordam, inclusive Pelé,
que exibe aquele sorriso inconfundível ao agradecer com um aceno ao público que
mais uma vez o aplaudiu.
Músico: - Então,
gostaria de chamar ao palco o grande cavaquinista Jorge Pereira Simas, o
querido Tico-Tico!
Tico-Tico vai ao palco, sob
aplausos.
Tico-Tico: - Obrigado. Obrigado. O nosso rei merece sempre ser lembrado. Vou apresentar aqui “Ataca Pelé”, espero que ele e todos os demais aprovem.
A aprovação foi geral e Tico-Tico
deixa o palco sob aplausos entusiasmados. Quando o público começou a se
aquietar novamente, João Sem Medo
distribuiu o jogo, destacando a qualidade ofensiva do time francês de 1958.
João Sem Medo: - O Brasil
enfrentou um time que já tinha feito 15 gols em quatro jogos. Quase quatro por
partida. O grande destaque era Fontaine, que acabou artilheiro daquela Copa com
13 gols...
Idiota da Objetividade: - É o
jogador que mais fez gols numa edição de Copa do Mundo até hoje.
João Sem Medo: - Kopa era
outro grande jogador.
Veja também:
Ceguinho Torcedor: - O Brasil
estava devendo a todos nós uma vitória como aquela. Vencemos contra tudo e
contra todos. Contra os franceses, contra os bandeirinhas, contra o juiz e
contra a Marselhesa. Nosso Hino Nacional foi apenas tocado. Não havia ali
nenhuma multidão para soltar aos quatro ventos: “ouviram do Ipiranga às margens
plácidas...”. Ao passo que a Marselhesa foi cantada. Mas nosso Hino não se
dobrou, mesmo com o juiz nos tirando dois gols e dois pênaltis. Aquele escrete
era o escrete da coragem e creiam que Vavá, que voltou naquele jogo no lugar do
Mazzola, com sua bravura louca, traduziu um perfeito, empolgante símbolo dessa
coragem.
Idiota da Objetividade: - Uma
curiosidade: Vavá marcou, logo a um minuto de jogo, o centésimo gol da História
da Copa do Mundo.
João Sem Medo: - O jogo não foi disputado só na bola, não. Os franceses apelaram, mas três deles saíram machucados. O zagueiro Jounquet, que se contundiu aos 35 minutos do primeiro tempo...
Idiota da Objetividade: - Jounquet fraturou a fíbula após um choque com Vavá.
João Sem Medo: - Pois, então, naquela época não era permitida a substituição, e o Jonquet ficou o restante do jogo fazendo número na ponta-esquerda. No lado do Brasil, Vavá saiu antes do fim da partida, mas ela já estava ganha. Bellini também se lesionou. Mas os dois jogariam a final contra os suecos.
Idiota da Objetividade: - E Vavá
fez dois gols na decisão, com mais dois de Pelé e outro de Zagallo.
Sobrenatural de
Almeida: - O Brasil jogou de azul a final. Diziam que daria azar...
Idiota da Objetividade: - Nas seis
primeiras edições da Copa do Mundo, cinco vezes a seleção que vestia camisa azul venceu a final. Uruguai, em 30 e 50, a Itália, em 34 e 38, e o Brasil, em
58. Apenas em 54 venceu a Alemanha, de branco, derrotando a Hungria, que jogou
de vermelho.
Veja também:
Garçom: - Foi um
carnaval em junho. Eu era pequeno, mas me lembro bem. Tomei um susto de ver tantos
adultos chorando. Choravam de alegria.
Idiota da Objetividade: - Foi a
primeira e até hoje única vez que uma seleção de fora da Europa venceu uma Copa
no Velho Continente. A Suécia marcou o primeiro gol, aos 4 minutos, com
Liedholm; o Brasil empatou e virou com Vavá, aos 9 e aos 32 da primeira etapa,
Pelé marcou aos 10 da etapa final, Zagallo ampliou, aos 23; Simonsson fez o
segundo da Suécia, aos 35, e Pelé, aos 45, deu números finais à partida.
Ceguinho Torcedor: - Meu caro
Idiota da Objetividade, os 5 a 2, lá fora, contra tudo e contra todos, foi um maravilhoso
triunfo vital, de todos nós e de cada um de nós. Do Presidente da República ao
apanhador de papel, do Ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui perceberam
o seguinte: é chato ser brasileiro! Já ninguém tinha mais vergonha de sua
condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as
colegiais andavam pelas calçadas com um charme de Joana D’Arc. O povo não se
julgava mais um vira-latas. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior
equipe de futebol da Terra em todos os tempos. Pelo menos até ali. O escrete
deu um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal, na Suécia.
Sem que ninguém percebesse seus
movimentos enquanto todas as atenções estavam voltadas ao discurso eloquente e
emocionado do Ceguinho Torcedor, Zé Ary preparou o aparelho de som e assim que
o nosso amigo encerrou sua fala e o povo começava a aplaudi-lo, em alto e bom
som “A Taça do Mundo é Nossa”, de Wagner Maugéri, Mageri Sobrinho, Victor Dagô
e Lauro Muller, fez todo mundo pular, dançar, cantar e festejar como se 1958
fosse o agora, o momento de sempre. E foi mesmo eterna aquela grande conquista.
Fim do Capítulo #46
Episódio originalmente publicado em 14 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 20 de abril de 2026.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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