domingo, 9 de julho de 2017

A SÍNDROME DO FUTEBOL

"O outro é seu espelho", retirado deste site:
https://www.o-curador.com/
No auge da minha vida como torcedor, naqueles anos em que minha paixão pelo futebol foi mais latente, entre os 7, 8 até 21, 22 anos, havia algo que me incomodava um pouco toda vez que vibrava muito com uma grande vitória ou conquista do meu time. Ficava e continuava alegre, mas dentro de mim havia um vácuo que, creio até ter identificado em alguns daqueles momentos, embora tenha deixado de lado com o passar do tempo. Trabalhei dentro do futebol como jornalista a partir do início dos anos 90 até 2013, com poucas interrupções. E conhecendo melhor tudo o que move este esporte que virou um grande (e muitas vezes escuso) negócio - justamente porque move paixões exacerbadas -, e observando bem colegas, amigos, conhecidos e até desconhecidos, fui tomando maior consciência do que significava aquele vazio em mim nos grandes momentos de glória do meu time: eu não havia conquistado nada.

Esta talvez seja a grande questão que faz das torcidas de futebol ao mesmo tempo um espetáculo lindo e também um cenário de horror pior que as piores selvagerias coletivas. O torcedor de futebol raramente é um apaixonado por futebol. E muitas vezes nem é apaixonado pelo seu time. Explico melhor um corriqueiro caso específico: a pessoa tem um time desde criança, porque seus amigos também têm, e passa algumas vezes boa parte da infância e até da adolescência sem dar muita atenção àquilo. Porém, quando as frustrações da vida adulta começam a bater à sua porta, passam a lhe corroer as entranhas, quando percebe que o tempo está passando e ele pouco se realiza, ou nada preenche o enorme vazio que construiu para a sua vida, agarra-se àquela ilusão infantilóide e perversa de que o time de futebol vai redimir tudo aquilo que ele não realizou e não faz para alcançar.

Vi isso muitas vezes não só nos estádios de futebol, nas mesas de bar, até mesmo nas redações em que trabalhei, e recentemente nas redes sociais, mas também nas peladas que joguei e deixei de jogar justamente porque queria me divertir e não mais disputar uma "final de Copa do Mundo" - sonho que já havia deixado para trás nos tempos em que vivia o tal auge como torcedor. É complexo lidar com uma massa de olhos vendados por uma ilusão a preencher vazios existenciais. E muito rentável também. Muito, mas para poucos. Isso só gera desilusão, frustração, e a violência advém daí, porque este tipo de torcedor, o que se agarra à superação de seus rancores por intermédio das vitórias e conquistas de seu clube não pretende só ser feliz com a felicidade que pensa ter, porque ela é insuficiente, afinal uma ilusão no fim das contas nada preenche. Ele quer ser feliz com a infelicidade do outro, do adversário, do rival, que na sua cabeça doentia é um inimigo. E busca no seu ódio por si mesmo provocar, xingar, ofender e agredir fisicamente o outro, aquele que veste a camisa "inimiga". Destilada a sua ira no espancamento, tiro, uso de arma branca ou fogos de artifício, o ato final, ele ainda crê em sua redenção. É a demência brutal e perversa alimentando a estupidez, a ignorância, a crueldade.

Sempre fui apaixonado por futebol - e continuo sendo, embora muito decepcionado com o nível técnico dos times brasileiros nas últimas décadas. E mais ainda com o show de horrores que esses pseudo-torcedores vêm protagonizando dentro e fora dos estádios já há muitos anos. Sempre assistia com prazer a jogos dos mais variados times e campeonatos do Brasil nos meus áureos tempos de torcedor. Acompanhei e vibrei muito com muito do que vi nos estádios e pela TV ou ouvi pelo rádio, um companheiro inseparável naqueles tempos. No entanto, havia o tal vácuo e tomei consciência dele. Há tempos, ele não existe mais, porque percebi que tenho de preencher meus vazios existenciais com minhas conquistas pessoais e fazer com que elas - na medida do possível - ajudem outras pessoas a se sentirem assim também. E não falo de sucesso profissional apenas, mas em todos os campos. E isso é uma busca incessante, que não acaba, só com a morte - ou talvez nem com ela, se significar um renascimento. Fico alegre com as vitórias e conquistas do meu time, sim - bem raras ultimamente, diga-se -, mas não faço disso a minha vida. Não mais.

Umberto Eco disse que a internet deu voz aos idiotas. Só que as arquibancadas dos estádios de futebol já haviam feito isso há muitas décadas. E as cenas medonhas se repetem a cada rodada, seja na primeira ou na última divisão.


Veja também:
Templos e espetáculos
O meia-armador virou desarmador
Futebol brasileiro x seleção brasileira
O dom de jogar bola e o Bolero de Ravel
Elogio ao futebol
Das peladas de rua às arenas
O teatro e o futebol
Futebol-arte: os maiores jogos de todos os tempos 4

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ESTILHAÇOS 17

Atordoado com dias tão surpreendentemente iguais em suas pequenas diversidades - e adversidades -, passados veloz-lentamente como se fossem aviões, andorinhas ou pardais, sem qualquer boa novidade para receber ou contar, eu me recolho ao pasmado passado espremido em minha mente sombria e em meu peito, apertado. E só aí me dou conta de dias atrás, mas num instante agora, que minha única saída é voltar aonde nunca estive e sempre apreciei tanto. Agora, mesmo que seja depois. Mas tem de ser agora. Agora quando?

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Estilhaços


quinta-feira, 29 de junho de 2017

ARIANO SUASSUNA E A GUITARRA

Foto da revista Veja
Após assistir na internet ao programa Conversa com Bial do último dia 16, quando o apresentador da TV Globo fez uma homenagem aos 90 anos de nascimento de Ariano Suassuna, entrevistando o diretor de TV e cinema Guel Arraes, o diretor e ator Luiz Carlos Vasconcelos e o jornalista Gerson Camarotti, é que me dei conta de que o grande intelectual e artista pernambucano nascido na Paraíba seria o único a ter autoridade para fazer uma marcha contra a guitarra. Seria a passeata de um homem só (mas muito poderoso, no bom sentido da palavra). Pela sua conduta de vida inteira, só ele não pareceria ridículo, como o jornalista e compositor Sergio Cabral admitiu ter sido em entrevista, anos depois.

Abre parênteses: para quem não sabe, no dia 17 de julho de 1967 - portanto em plena ditadura militar -, artistas e intelectuais resolveram protestar contra a guitarra elétrica numa passeata pelas ruas de São Paulo. Muitos dos artistas que lá estiveram depois passaram a usar e a abusar do instrumento em suas músicas, reconhecendo de alguma forma o seu erro. Gilberto Gil, inclusive, foi acompanhado pelos Mutantes em outubro daquele mesmo ano no histórico Festival da TV Record para defender "Domingo no Parque". O movimento foi liderado por artistas que admiro muito: Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e o próprio Gil, que muitos anos depois confessou que só foi à passeata por estar cego de paixão por Elis. O principal slogan da turma era "Defender o que é nosso". Lúcida, Nara Leão chegou a comentar com Caetano Veloso que aquele protesto parecia uma manifestação integralista. Ambos, obviamente, ficaram fora. Fecha.

Foto: Wilman /UH /Folhapress
Como já escrevi várias vezes, não concordava com a aversão de Ariano à guitarra e à música pop estrangeira. Porém, ele ainda é fundamental para a defesa da cultura popular brasileira e seus argumentos e ações sempre foram coerentes e muito fortes neste sentido. Por mais paradoxal que possa parecer, mesmo discordando dele neste aspecto, continuarei defendendo a ampla divulgação de sua posição, pois ela barra de alguma forma o extremismo oposto, bastante nocivo, pois reflete a progressão geométrica da aculturação do povo brasileiro ao longo dos últimos 40, 50 anos. E também seguirei defendendo que as peças de Ariano sejam encenadas semanalmente em todas as grandes praças do país.

Claudio Venturini. Crédito na foto
Ainda sobre o assunto guitarra elétrica: no sábado passado assisti ao show do 14 Bis com participação de Beto Guedes e de Sergio Hinds, ex-guitarrista de O Terço, e posso afirmar sem medo de errar que Claudio Venturini já é um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos. Antes que algum gato mestre (e como há "master cat" por aí!) torça os bigodes, sugiro que assistam ao mineiro em ação.

Enquanto isso, soube hoje que nos Estados Unidos a venda de guitarras caiu 30%. No Brasil não se tem notícia, mas creio que com a crise econômica (bem diminuta em relação à moral e política) tenha havido uma queda também. Porém, gostaria que a garotada, além da guitarra e outros instrumentos elétricos e eletrônicos, abrisse seus ouvidos, mente e coração para violinos, violoncelos, oboés, clarinetes, rabecas, viola sertaneja, bandolins...

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Ariano Suassuna é eterno

domingo, 11 de junho de 2017

PENSO, LOGO SINTO 30

É árdua, dolorosa, porém imprescindível, a tarefa de tornar as pequenas vitórias do dia-a-dia maiores do que as gigantescas e dilacerantes derrotas da vida.
Ilustração copiada deste link: http://andersonalsan.blogspot.com.br/2014/04/rosa-no-deserto.html
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Estilhaços 11
Penso, logo sinto 14
Gasolina no incêndio 11
Esquizofrenia

segunda-feira, 5 de junho de 2017

OCEANO DE MEMÓRIAS EM "O NEGRO CREPÚSCULO"

As livres e profundas imaginações que rodeavam minha mente de criança hoje me escapam. Com elas reconquistaria o mundo, mas ainda creio sinceramente que num esforço incomum possa recuperá-las. Não exatamente aquelas, mas o mesmo modo de divagar pelo interior mais recôndito das sombras da memória e atingir meu ser mais verdadeiro. É árduo o caminho que terei a percorrer. Pedregoso quando precisar fluir; fluido quando necessitar de chão; desértico e arenoso quando estiver com sede; gélido quando precisar me aquecer.

Mergulhar no oceano de memórias é uma decisão – voluntária ou não – que pode não me levar à terra prometida, aquela que eu mesmo me prometo agora. Nem uma ilha pode ser que eu aviste. Ou, por outra, ao lançar-me na imensidão arenosa que me levará a estes pensamentos não me esperam oásis. O pavor das trevas e o esplendor temeroso do sol inclemente podem me levar a razão ou à razão. Não espero facilidades nessa longa viagem. Não há qualquer conforto. Vou a pé e descalço, nu. Não há outra alternativa para quem escolhe encontrar a verdade de seu próprio ser. Não, não tenho medo de vasculhar minhas cavernas. Porém, posso não voltar. É o risco que se corre, e estou disposto a enfrentá-lo.

Este texto acima faz parte do livro "O negro crepúsculo", o segundo de minha autoria. Para adquirir o ebook no Brasil, basta clicar na capa aí em cima. O livro digital ainda pode ser encontrado na Amazon de mais 12 países: EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Holanda, Canadá, México, Índia e Japão.

O livro físico está à venda nos seguintes países: EUA (http://goo.gl/KOqvBk), Reino Unido (http://goo.gl/Xhc9FV), Alemanha (http://goo.gl/KRKkIK), França (http://goo.gl/bxqyWq), Espanha (http://goo.gl/4c2qni), Itália (http://goo.gl/drDLO9) e Japão (https://goo.gl/WG6juW).

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terça-feira, 9 de maio de 2017

PENSO, LOGO SINTO 29

A saída para a Humanidade não está à direita, nem à esquerda, tampouco ao centro. Todas estas portas foram trancafiadas, emperradas pela ação do tempo. A única solução para o ser humano é elevar-se, despindo-se completamente de seus ódios, suas mágoas, seus ressentimentos, suas mesquinharias e as certezas absolutas.


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terça-feira, 18 de abril de 2017

A PREMONIÇÃO LITERÁRIA DE UM CRIME NO FUTEBOL

No último domingo foi ao ar, no quadro Jogada de Música do programa da Rádio Globo Panorama Esportivo do Pop Bola, uma das boas surpresas que tive na pesquisa que estou realizando desde o fim de 2015 sobre a História do futebol brasileiro e as músicas que ajudam a contá-la: o roubo da Taça Jules Rimet foi profetizado pelo escritor mineiro Henrique Pongetti quase 20 anos antes do crime ocorrido na noite de 19 de dezembro de 1983. Porém, Pongetti nem pôde saber disso, pois faleceu em 1979, aos 81 anos de idade. 

A premonição literária foi registrada no conto “O roubo da Taça Jules Rimet” publicado originalmente em 1964 no livro “Inverno em Biquíni”, e relata em primeira pessoa um estranho sonho, no qual o troféu, que só seria conquistado em definitivo pelo Brasil em 1970, teria desaparecido da sede da então CBD, que se tornaria CBF no fim dos anos 70. Depois de fracassadas todas as investigações policiais e a decisão da Fifa de punir a seleção brasileira com a exclusão das três Copas seguintes, a taça aparece repentinamente na sede da Federação Metropolitana de Lambretistas, em Copacabana, “intacta e muito bem cuidada”. 

Pongetti escreveu: “... alguns jovens transviados a converteram em troféu secreto de uma disputa de ases da lambreta”. No fim do conto, o narrador da história é incumbido de levar a taça a Paris, mas acaba preso. No quadro de domingo, além de literatura, futebol e crime, teve música, como sempre, e cinema. Incluí ainda o samba da Caprichosos de Pilares de 1985, "E por falar em saudade" ("...e derreteram a taça na maior cara de pau. Bota, bota, bota fogo nisso..."), e o filme "O roubo da taça", com a sua música tema e a que o encerra: "Pecado Capital", de Paulinho da Viola.

Além deste, foram apresentados outros três episódios desde a estreia, no fim de janeiro: Pixinguinha e a homenagem ao primeiro grande título da seleção brasileira, o Campeonato Sul-Americano de 1919; Tostão na bola e nas músicas de Milton Nascimento e Moreira da Silva, e Zico, com as muitas canções feitas para reverenciá-lo. Estas e outras muitas histórias e músicas sobre o futebol brasileiro vêm sendo apresentados nas noites de domingo, e em breve virão outras novidades com relação a este trabalho, que realizo com grande prazer e que foi abraçado por Alexandre Araújo, apresentador do Pop Bola e do Panorama Esportivo do Pop Bola e produtor do Jogada de Música. 

Convido todo mundo a prestigiar o Jogada de Música. Inclusive os potenciais patrocinadores. O medo só alimenta o monstro da crise.

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sábado, 1 de abril de 2017

"O NEGRO CREPÚSCULO" SAIU EM PAPEL

Um ano após ter sido lançado em ebook (http://goo.gl/SdKSqU), "O negro crepúsculo", segundo livro de minha autoria, está à disposição no formato tradicional para os leitores interessados. Agora este romance escrito em prosa e versos, com a pele à flor da alma, pode ser manuseado, lido da forma que a grande maioria mais gosta e até cheirado, como muitos apreciam.

O livro está à venda na Amazon.com: http://goo.gl/KOqvBk. E também na Amazon de Reino Unido (http://goo.gl/Xhc9FV), Alemanha (http://goo.gl/KRKkIK), França (http://goo.gl/bxqyWq), Espanha (http://goo.gl/4c2qni), Itália (http://goo.gl/drDLO9) e Japão (https://goo.gl/WG6juW). 

Espalhe a boa nova, agradeço muito desde já!

"Já escrevi (e, com prazer, escrevo de novo) que o carioca Eduardo Lamas é um dos mais talentosos escritores de sua geração, com trânsito em diversos estilos e texturas...". (Luiz Antonio Mello, jornalista, escritor, produtor, radialista criador da Fluminense FM)

"... fiquei bastante impressionado com O Negro Crepúsculo. O autor consegue unir poesia e romance/crônica num estilo bem original. Recomendo muito a leitura". (Bruno Lobo, jornalista, editor do Globoesporte.com)

"Dono de uma primorosa capacidade de trafegar entre a ficção e a poesia, Eduardo Lamas escreveu um romance onde o mote é a busca pelo amor... Altamente recomendado para quem acha que a paixão move o planeta!". (Marcus Veras, jornalista, escritor e empresário do ramo de Comunicação na área cultural)

"Escrevo para não sucumbir".

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terça-feira, 28 de março de 2017

ALGUNS JOGOS QUE FAÇO QUESTÃO DE RECORDAR 2

Quem acompanha este blog, especialmente aqueles que já leram postagens minhas sobre futebol, sabem bem que sou torcedor do Flamengo. E já deve ter percebido que sou da geração que acompanhou de perto a formação e todas as conquistas do time mais vitorioso da História do clube rubro-negro. Por isso é fácil deduzir porque sou tão exigente e também que tive muito mais alegrias do que tristezas nos meus tempos de arquibancada de Maracanã, que durou de 1974 a 1989 (a partir de 1990 comecei a trabalhar como jornalista e passei cada vez mais raramente a freqüentar o Maraca como torcedor. Por outro lado conheci muito mais estádios do Rio do que antes).

Pois bem, feitas as explicações em nariz de cera - para desespero dos jornalistas brasileiros objetivamente corretos -, gostaria só de acrescentar que a quantidade de jogos espetaculares a que assisti, especialmente aqueles que resultaram na conquista de títulos, são ainda motivo de lembranças maravilhosas para mim. Saí muitas vezes feliz, algumas em estado de êxtase, com o que acabara de ver no Maracanã. Porém, orgulho, orgulho mesmo eu sinto de recordar um jogo que nada valia para o Flamengo, mas no qual ele demonstrou uma dignidade tão grande que, pelo que se tem visto ultimamente, seria até ofensiva para quem hoje já está até habituado a torcer contra seu próprio clube do coração só para prejudicar um rival. Falo de Flamengo 2 x 0 Bangu, último jogo do triangular final do Campeonato Carioca de 1983.

Voltemos ao tempo em que o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro tinha grande valor, pois desfilava em seus campos alguns dos melhores jogadores do mundo e, portanto, era dificílimo de se conquistar. Além dos quatro grandes tradicionais, Bangu e América tinham equipes muito boas, tanto que chegaram a algumas finais. E vencer, por exemplo, Americano, Volta Redonda, Olaria e Campo Grande em seus domínios, não era tarefa fácil. Assim, os títulos estaduais eram comemorados pela torcida campeã com muito mais festa do que hoje em dia. E com muito mais gente no Maracanã e nas ruas também.

Feito mais um parêntese, vamos às explicações para o motivo que me faz lembrar até hoje daquele jogo exemplar, embora quase não se fale nele. Na primeira partida do triangular, Fluminense e Bangu empataram em 1 a 1. A segunda foi o Fla-Flu  que começou a consagrar Assis como ídolo tricolor. No último minuto daquele jogo, logo após o árbitro Arnaldo Cezar Coelho ter apitado um impedimento inexistente de Adílio, que partira do campo rubro-negro completamente só em direção ao gol tricolor, o camisa 10 do Fluminense marcou o gol da vitória que eliminou qualquer chance rubro-negra de conquistar o título e colocou o Tricolor em boas condições de ganhá-lo.

O Flamengo foi então para a última partida, contra o Bangu, sem qualquer pretensão, a não ser defender a camisa rubro-negra e a lisura esportiva, algo tão fora de moda nos últimos sei lá quantos anos. E mesmo abatido pelas circunstâncias da derrota para o rival e a conseqüente desclassificação, a equipe do Fla e uma parte pequena, mas não desprezível, de sua torcida foram ao Maracanã com força para derrotar o bom time do Bangu, que já havia goleado o mesmo adversário naquela competição por sonoros 6 a 2. O time de Moça Bonita precisava vencer para forçar um jogo-extra com o Fluminense ou até mesmo ser o campeão (não me recordo se o regulamento previa desempate no saldo de gols, caso dois times terminassem com o mesmo número de pontos em primeiro lugar).

Lembro de ter ouvido o jogo num rádio de pilha de algum amigo tricolor na rua Araxá, no Grajaú, torcendo para que o meu time vencesse e afastasse qualquer suspeita de que faria corpo mole. E assim foi feito: com um gol de Adílio, logo no início, e outro de Tita, em belíssima cobrança de falta, no segundo tempo, o Flamengo venceu o Bangu por 2 a 0, resultado que deu ao Fluminense o primeiro título de seu último tricampeonato estadual. Claro que, em outra situação (como em 1985), eu iria preferir o Bangu campeão, em vez do Flu, mas as circunstâncias eram outras e, mesmo triste, já naquele dia senti muito orgulho do que aqueles rapazes rubro-negros fizeram.

É só ver e ouvir o vídeo abaixo para perceber que houve muita vibração em campo e nas arquibancadas. Enquanto isso, nas cadeiras especiais, os jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes tricolores puderam comemorar a conquista, valorizada ao máximo pela digna atitude do Flamengo. 

 

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2 x 0 BANGU
Local: Maracanã (Rio de Janeiro);
Data: 14 de dezembro de 1983
Juiz: José Roberto Wright;
Renda: Cr$ 16 902 600.00;
Público: 12.872;
Gols: Adílio 3 do 1.° e Tita 27 do 2.°;
Cartão amarelo: Marinho. Mococa e Edmar
Flamengo: Raul. Leandro (Heitor). Marinho. Guto e Júnior; Andrade. Cléo (Vítor) e Tita: Lúcio. Edmar e Adílio. Técnico: Cláudio Garcia.
Bangu: Tião (Júlio Galvão). Gilson Paulino, Tecão. Fernandes e Tonho: Mococa, Arthurzinho e Mário; Marinho, Fernando Macaé (Edvã) e Ado. Técnico: Moisés.

Veja também:
Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos 11
Adeus, Maracanã
Sempre um bom jogo para se recordar
Alguns jogos que faço questão de recordar

segunda-feira, 6 de março de 2017

AGRO-CÂNCER


Agro agora
Agro ogro
Agro negócio
Agro ganância
Agro tóxico
Agro câncer
Agro estupidez
Agro demência
Agro homicida
Agro suicida.

Ilustração: imagem sem crédito copiada desta página: http://www.organicsnet.com.br/2014/09/brasil-e-o-maior-consumidor-de-agrotoxicos-do-mundo/

Veja também: 
A Terra de Salgado
O ilimitado abuso do homem

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POESIAS CANTADAS 11: PLENITUDE

Aqui vai mais uma poesia cantada. Ela retrata nos versos da segunda estrofe uma bela imagem que guardarei sempre comigo da cidade maltratada onde nasci, naquele lado onde sempre me senti estrangeiro. Talvez por isso um olhar tão encantado - e apartado -, no caso o do turista em sua própria cidade. Na verdade, minha cidade mesmo fica mais para dentro, o suburbano, este lado que tem sido sempre o mais escorraçado e vilipendiado ao longo dos muitos últimos anos.

Pode soar algo brega, ou romântico demais, para os mais exigentes, porém creio que haja algo de blues aí. E o blues tem uma história de choro (qualquer que seja ele), como o samba também tem. Então, que a guitarra e a gaita chorem e o bumbo da bateria marque o ritmo do coração. Nem que seja só na minha imaginação.



PLENITUDE
(Eduardo Lamas)

Plenitude
é o que alcanço
quando você se debruça
sobre mim

Como as ondas
abraçam as pedras no Joá
e escorrem por elas
se desfazendo
e se recompondo

Você se derrama em meu corpo
com sua pele alva
salpicada de gotas de chuva,
de orvalho, de mar
a me fazer transbordar
e matar sua sede
enquanto sorvo seu ser.

Veja também:
Os infernos de São Sebastião
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
Lhasa de Sela já se foi e eu não sabia
Adiós, La Negra
Filipe Catto entre cabelos, olhos e furacões

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

GASOLINA NO INCÊNDIO 15

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis.

A direita se preocupa tanto com a Justiça que quase sempre se esquece das injustiças. A esquerda é tão obcecada com as injustiças que muitas vezes ignora a justiça. 
E o centro, sempre oportunista, se aproveita flexibilizando seus discursos e suas ações (e omissões) de acordo com as circunstâncias e suas próprias conveniências.

Veja também:

sábado, 4 de fevereiro de 2017

POESIAS CANTADAS 10: A FRONTEIRA

Nestes novos retrógrados tempos em que vivemos, as fronteiras voltam a demarcar claramente o espaço a ser ocupado por cada um e distancia ainda mais povos, culturas e pessoas de si mesmas. Os muros externos, alimentados por radicalismos e discriminações insanos, e internos, impostos por uma variedade interminável de auto-limitações, preconceitos e violências, estão cada vez mais altos e espessos, quase intransponíveis. "A fronteira", poesia que escrevi já não sei mais há quantos anos e que publiquei no Jornal Portal deste mês, se apresenta na série Poesias Cantadas para tocar nesta ferida reaberta. Espero que você goste. "Is there anybody out there? Is there anybody in there?".



A FRONTEIRA
(Eduardo Lamas)

Fronteira,
linha imaginária,
invisível, tênue,
marco divisório
entre ponto de fuga
e desvio de conduta,

Loucura e lucidez
sensualidade e obscenidade
sobriedade e embriaguez,
Olhar e divagação,
segurança e liberdade
morte e ressurreição

Vida revivida,
prolongada,
traço infinito,
risco neste solo,
fantasia deste palco,
máscara que revela
face na penumbra,
claros olhos negros
dentro desta sombra.

Veja também:
Os muros
Roger Waters setentão
Poesias Cantadas 5: Dissipações

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PARA QUEM QUISER OUVIR

Estreou ontem no Panorama Esportivo do Pop Bola, programa da Rádio Globo do Rio de Janeiro, o quadro Jogada de Música, que reúne duas paixões nacionais, o futebol e a música. Quem quiser ouvir o programa, do qual tive o prazer de participar, é só clicar no link abaixo, pôr "Rio de Janeiro" como praça, "29/1/2017" como data e "20h" no horário para ouvir a primeira hora. Para ouvir a segunda e última hora, é só mudar para "21h". 

Divirta-se aqui: http://radioglobo.globo.com/arquivo-radio-globo/ARQUIVO-RADIO-GLOBO.htm.


Veja também:
"Jogada de música" está na área
"O negro crepúsculo" pelo mundo