Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
O projeto Jogada de Música ganhou mais um belo capítulo em sua jornada de mais de 10 anos na estrada, com a estreia na última quarta-feira (1º de abril), no Sobretudo Podcast. Em conversa com Alexandre Araújo, parceiro de primeira hora do projeto e, como sempre, alguém que entende perfeitamente essa tabelinha entre bola e canção, demos o pontapé inicial para um encontro que se repetirá ao vivo todas as quartas, às 10h, mas que ficará gravado para você assistir e ouvir na hora que desejar.
O episódio de estreia é uma ótima porta de entrada para quem quer conhecer melhor a proposta do projeto: mostrar como a História do futebol brasileiro também pode ser contada pela música — não apenas por hinos e canções compostas para clubes e Copas, mas também por músicas que, por força da emoção popular, acabaram incorporadas ao imaginário do futebol.
Ao longo do ótimo papo, que fluiu tão bem como um jogão de futebol, fica muito claro como essa relação entre música e futebol é mais profunda, rica e surpreendente do que parece à primeira vista. Lembrei que, quando comecei a pesquisa, imaginava encontrar algumas centenas de canções ligadas ao tema. Com o tempo, porém, fui descobrindo um universo muito, muito maior, com mais de mil músicas catalogadas entre homenagens, críticas, metáforas, trilhas afetivas e associações construídas pela torcida, pelo rádio, pelo cinema, pelos poetas da bola e das canções e, claro, pela memória coletiva.
Um dos pontos mais interessantes do episódio é justamente a reflexão sobre músicas que não nasceram futebolísticas, mas que passaram a ser do futebol para sempre. É o caso de “Touradas em Madrid” (Braguinha/Alberto Ribeiro), eternizada no Maracanã durante a Copa de 1950, quando a torcida brasileira a cantou espontaneamente no histórico 6 a 1 sobre a Espanha.
Também é citada “Na Cadência do Samba” (Luiz Bandeira), que, graças ao Canal 100, virou sinônimo audiovisual de drible, gol, arquibancadas lotadas e câmera lenta, mesmo tendo surgido como uma canção ligada ao universo do samba. E há ainda a emocionante lembrança para a torcida do Fluminense de “A Bênção, João de Deus”, adotada pelos tricolores em momentos de tensão, como um canto de fé e aflição transformado em tradição de arquibancada.
O Jogada de Música mostra, assim, que o futebol brasileiro não é feito apenas de jogos, títulos, táticas e escalações, mas também de trilhas sonoras involuntárias, de refrões que ganham novos sentidos, de canções que o povo consagra. O rádio, o cinema, a TV, as transmissões esportivas nos mais diversos veículos de comunicação e as torcidas tiveram — e ainda têm — papel decisivo nessa construção cultural e esportiva.
Se antes havia uma cultura mais concentrada, capaz de transformar certas músicas em referências nacionais quase imediatas, hoje o cenário é mais fragmentado. Ainda assim, a força simbólica desse encontro entre música e futebol continua viva, muito viva, reinventando-se de outras maneiras. E o projeto Jogada de Música existe para ressaltar e resgatar essa tabelinha extraordinária entre a Música e o Futebol do Brasil.
Uma nova fase
Mais do que revisitar canções e histórias curiosas, a conversa na Manhã SobreTudo ajuda a entender a própria alma do projeto que nasceu de uma vasta pesquisa, ainda em curso, e foi ganhando forma em rádio, blog, colunas em sites, audiovisual, shows, exposições e outros desdobramentos ao longo dos anos. A ideia central permanece luminosa como os refletores dos grandes palcos em estádios, ginásios ou casas de shows: contar o futebol brasileiro por meio de suas ressonâncias musicais, de suas emoções cantadas e de tudo aquilo que o som cantado e tocado ajuda a revelar sobre a nossa memória esportiva e cultural.
É um episódio para você assistir e ou ouvir com atenção, porque ele reúne pesquisa, afeto, lembrança e repertório num papo leve e cheio de boas histórias. Para quem acompanha o projeto, é mais uma confirmação da força desse trabalho inesgotável. Para quem está chegando agora, é um convite afetuoso para você entrar em campo com o Jogada de Música e perceber que, no Brasil, futebol nunca foi só um jogo: muitas vezes, foi também canção.
O vídeo completo está abaixo para você assistir aqui ou no YouTube. Se preferir, o áudio com trechos de músicas citadas inseridas está no Spotify. Espero que goste e possa recomendar para mais pessoas. O projeto Jogada de Música merece público de Copa do Mundo, concorda? Agradeço muito a você que já curte há muito tempo e também a quem está chegando agora à nossa arquibancada.
Siga o perfil do projeto Jogada de Música no Instagram, clicando aqui ou apontando o seu celular para o QR Code abaixo.
Garrincha ampara a emoção do garoto Pelé na final da Copa do Mundo de 1958, observados (provavelmente) pelo zagueiro sueco Orvar Bergmark . Foto (aprimorada com IA): Luiz Carlos Barreto
Após a “Homenagem a Pelé” que todos acompanharam com atenção
e emoção, João Sem Medo retomou o papo falando dos dois maiores gênios da
História do futebol brasileiro e mundial.
João Sem Medo: - Com Garrincha e Pelé em campo a
seleção brasileira jamais perdeu um jogo sequer.
Idiota da Objetividade: - João, foram ao todo 40 partidas,
com 35 vitórias do Brasil e cinco empates. Juntos em campo, ambos fizeram 54
gols: Pelé fez 44 e Garrincha, 10. Com a camisa da seleção, Garrincha só saiu
de campo derrotado uma vez, no seu último jogo pelo Brasil, já na Copa de 66,
nos 3 a 1 para a Hungria. Com Pelé, Mané atuou pela última vez pela seleção na
estreia do Mundial da Inglaterra, na vitória de 2 a 0 sobre a Bulgária.
João Sem Medo: - Cada um fez um gol naquela partida,
em 66. Mané jogou contra a Hungria, mas Pelé não. E contra Portugal, Pelé
jogou...
Ceguinho Torcedor: - Foi caçado em campo.
João Sem Medo: - Foi mesmo. Mané não atuou na
derrota de 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou a seleção na primeira fase da
Copa de 66.
Garçom: - Pelé e Garrincha, será que teremos outra
dupla igual a essa algum dia? Com a licença dos grandes amigos que estão aqui,
vou pedir uma ajudinha a outro gigante da nossa Cultura pra falar, ou melhor,
cantar um pouco mais sobre o nosso futebol e esta dupla genial. No telão e nas
nossas caixas de som, Chico Buarque, em “O futebol”, de sua própria autoria.
Mesmo presente apenas em vídeo,
Chico é aplaudido de pé pela plateia.
Garçom: - Em 58, Pelé e Garrincha
arrebentaram. Tinha só sete anos de idade, mas me lembro bem da festança.
Idiota da Objetividade: - Os dois estrearam juntos em Copa
do Mundo na vitória sobre a Rússia, de 2 a 0, que classificou o Brasil para as
quartas de final. Enfrentamos a seleção do País de Gales.
João Sem Medo: - Foi um jogo muito duro.
Ceguinho Torcedor: - O povo queria que enfiássemos uns
seis ou sete. Eis a nossa tragédia: - a pura e simples vitória não basta. Desejamos
enfeitá-la, pôr-lhe fitinhas e guizos. E o triunfo sem show, sem apoteose, o
triunfo enxuto deixa o brasileiro descontente e desconfiado. Mas eu vos digo: -
foi a maior vitória brasileira. Imaginem se, por um absurdo, tivéssemos batido
de 15. Íamos enfrentar a França como uns anjinhos, com a sensação mortal da
invencibilidade.
Sobrenatural de
Almeida: - Como
aconteceu em 50...
Garçom: - Foi contra o País de Gales que
Pelé fez aquele golaço, dando um chapeuzinho no zagueiro?
Idiota da Objetividade: - Não foi um balão. O gol em que
Pelé deu balãozinho ou chapéu, como queira, foi na final contra a Suécia.
Contra Gales, ele estava de costas pro gol, matou a bola no peito, deu um toque
pra tirar um zagueiro da jogada e foi mais rápido que outro que vinha na
cobertura pra marcar o gol.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, nada descreve o uivo, o
urro que soltamos, aqui, quando o “speaker”...
Todos os outros: - “Speaker”, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - O locutor de rádio, o narrador.
Nada descreve o uivo, o urro que soltamos quando ele atirou o seu berro bestial
“gol!”! Até aquele momento, o Brasil inteiro, de ponta a ponta, do presidente
da República ao apanhador de guimba, o Brasil estava agonizando, morrendo ao pé
do rádio. E veio Pelé, com seus 17 anos, e fez o milagre. Olhem Pelé, examinem
suas fotografias da época e caiam das nuvens. Era, de fato um menino, um
garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot seria barrado, seria
enxotado.
Um alvoroço na porta faz o público todo do bar Além da
Imaginação se levantar. Era Pelé chegando. Houve uma ovação sem igual.
Pelé: - Muito obrigado. Seu Ceguinho está certo, eu era muito jovem ainda em
1958 e foi uma emoção muito grande aquele gol e a conquista do título, entende?
João Sem Medo e Ceguinho Torcedor, com a ajuda de
Sobrenatural de Almeida, conseguem se aproximar e dar um abraço em Pelé.
João Sem Medo: - Agora a festa está completa.
Quando Pelé finalmente consegue se sentar, bem à frente da
mesa onde nossos quatro personagens principais estão, Zé Ary toma a palavra.
Garçom: - Nós todos é que só temos a agradecer ao Rei Pelé, não é? Então, vamos
pôr mais música nas caixas de som, desta vez acompanhadas de imagens
maravilhosas do Rei registradas pelo Canal 100 no nosso telão. Mas antes,
aproveito pra pedir uma salva de palmas a Carlinhos Niemeyer, o criador do
Canal 100, que está presente na casa.
Carlinhos Niemeyer se levanta e agradece os efusivos aplausos
do pessoal presente ao Além da Imaginação. Zé Ary então anuncia a próxima
atração.
Pelé: - Preciso agradecer muito ao Miguel Gustavo, que ali está, e também ao
MPB-4...
Garçom: - Magro e Ruy Faria estão aqui, muitos aplausos pra eles, por favor.
Ambos agradecem. E Pelé conclui emocionado.
Pelé: - É muita homenagem bonita de vocês, entende. Muito obrigado.
É mais aplaudido ainda. Inclusive por Garrincha, que timidamente não deixa seu lugar, Didi, Carlos Alberto Torres, Félixe outros ex-companheiros de Santose seleção brasileira.
Fim do Capítulo #45
Episódio originalmente publicado em 7 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 24 de março de 2026.
Em sua estreia na Copa de 58, Garrincha enlouquece a defesa soviética e chuta a bola na trave de Yashin
Após todo mundo, especialmente Didi e dona Guiomar, se
divertirem com “O nosso dia chegou”, João Sem Medo retoma a pelota.
João Sem Medo: - É bom
que o brasileiro saiba que a Europa se atrasou perante nós por causa de uma
guerra que dizimou quase toda a juventude entre 15 e 45 anos. Isso não se refaz
com decreto-lei nem com planos quinquenais. É preciso esperar que nasçam
outros, formem-se e reaprendam. A Europa teve grandes prejuízos com a Guerra, o
que nos permitiu um avanço enorme. Quando pegamos a Europa em 58 e 62, ela
estava, exatamente, num período de decadência esportiva, porque lhe faltou a
juventude que tinha morrido na guerra. E foi uma vantagem que nós tivemos.
Nosso futebol, no entanto, é do melhor nível. Nós estamos na primeira turma do
futebol mundial e nos mantivemos nela ao longo do tempo, ainda que a duras
penas nos últimos anos.
Ceguinho Torcedor: - Desde 50 que o nosso futebol tinha o pudor de acreditar em si mesmo. A
derrota frente aos uruguaios foi uma humilhação nacional, que, imaginávamos,
jamais seria superada. Porém, até o mais vertiginoso e convicto pessimista não
conseguiria prever algo como o que ocorreu na última Copa, com aquele
estrondoso, retumbante, escandaloso, histérico 7 a 1 para os alemães. Mas em 58,
negávamos o escrete porque a frustração de 50 ainda funcionava. Havia um pânico
de uma nova e irremediável desilusão.
João Sem Medo: - Era o complexo de vira-latas, né, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Sim, João. A inferioridade em que o brasileiro se coloca,
voluntariamente, face ao resto do mundo em todos os setores, sobretudo, no
futebol. O problema do escrete não era de futebol, nem de técnica, nem de
tática. Absolutamente. Era um problema de fé em si mesmo.
Garçom: - Hoje em dia acho que muitos jogadores da seleção se acham importantes
e bons demais pro que realmente são.
Ceguinho Torcedor: - Eles têm um complexo de vira-latas às avessas.
Idiota da Objetividade: - Em 58 a
seleção brasileira foi para a Suécia desacreditada.
Ceguinho Torcedor: - Aqui o escrete já se sentia no
estrangeiro; lá, é como se estivesse em casa. Esse foi o drama da seleção:
encontrar lá fora o tratamento humano que lhe negamos aqui.
João Sem Medo: - Gylmar fez outra grande partida,
salvando inclusive um gol contra de Orlando no fim do jogo. O goleiro inglês
McDonald também teve grande atuação. O Brasil foi melhor no primeiro tempo, os
ingleses, na etapa final.
Ceguinho Torcedor: - Feola, que já havia trocado Dida
por Vavá para enfrentar os ingleses, mudou mais três jogadores para a partida
contra a Rússia e tivemos os três minutos mais sensacionais da história do
futebol. Nos primeiros três minutos da batalha, já o Garrincha tinha derrotadoa colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E bastava o empate.
Idiota da Objetividade: - O técnico Vicente Feola tirou o
volante Dino Sani e os atacantes Joel e Mazzola para as entradas de Zito,
Garrincha e Pelé.
Ceguinho Torcedor: - Garrincha não acreditava em empate
e foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua
penetração, fantástica, driblou até as barbas de Rasputin.
O público se diverte, principalmente Garrincha, que dá uma
sonora gargalhada.
Garçom: -
Vamos aproveitar pra ver no telão lances maravilhosos desses 3 minutos
estupendos e outros da vitória sobre a União Soviética, em 1958, com narração
em francês.
O público aplaude e reverencia mais uma vez Garrincha e Didi,
que agradecem sorrindo.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, a desintegração da defesa russa começou exatamente
na primeira vez que Garrincha tocou na bola. O jogo Brasil e Rússia acabou nos
três minutos iniciais. Só um Garrincha poderia fazer isso contra o time
poderosíssimo da Rússia. Porque Garrincha não acreditava em ninguém, só em si
mesmo.
Sobrenatural de
Almeida: - Naquele
dia, acho que nem eu conseguiria parar o Garrincha.
Garçom: - Vou aproveitar a deixa pra que a gente possa fazer outra homenagem ao
grande Mané Garrincha, que nos dá a gigantesca honra de estar aqui presente.
Venha ao palco, por favor, Angelita Martinez!
Todos aplaudem a ex-vedete.
Angelita Martinez: - Muito obrigada, Zé Ary, muito obrigada a todos. Bom, não
sei se vocês sabem, mas meu pai foi jogador de futebol, zagueiro. Ele está ali,
viemos juntos. Levante-se, por favor, Barthô Gugani!
Gugani se levanta e agradece os aplausos do público.
Idiota da Objetividade: - Gugani foi zagueiro do São Bento, do Paulistano e
do São Paulo, pelo qual foi campeão paulista em 1931. E atuou pela seleção
brasileira, fazendo parte do time que conquistou a Copa Roca, em 1922.
Gugani é muito aplaudido. Ele agradece.
Barthô Gugani: - Muito obrigado! É uma honra muito grande estar aqui ao
lado da minha filha Angelita e toda minha família. Vim pro Mundo Espiritual com
36 anos de idade, em 1935, e estou muito feliz de estar aqui hoje revivendo
grandes momentos do nosso futebol com todas essas feras.
Todos aplaudem mais uma vez.
Angelita
Martinez: - Te
amo, pai! Bom, é com muita honra que gravei esta música, em 1958, e venho aqui
a este palco para prestar uma homenagem ao nosso grande craque Mané Garrincha.
A composição é de Jorge de Castro, Wilson Batista e Nóbrega de Macedo e se
chama “Mané Garrincha”.
Angelita é muito aplaudida e deixa o palco. O jogo Brasil x
URSS volta à mesa de nossos amigos.
Ceguinho Torcedor: - Calculo que lá pelas tantas os
russos, na sua raiva obtusa e inofensiva, devem ter imaginado que o único meio
de destruir Garrincha fosse caçá-lo a pauladas. Talvez nem assim. No segundo
tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. As
cinzas do czar devem ter ficado humilhadíssimas. O marcador do “seu” Manoel já
não era um: eram três. E então começou a se ouvir aqui no Brasil, na Praça da Bandeira,
a gargalhada cósmica, tremenda, do público sueco.
Todos riem e aplaudem. Garrincha se levanta novamente e
agradece.
Garrincha: - Seu Ceguinho, o senhor é craque! Muito obrigado.
Ceguinho Torcedor: - Não chego a seus abençoados pés, Mané!
Garçom: - Aquela foi mesmo uma atuação
histórica! De recuperar o orgulho brasileiro, não é “Seu” Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Aqui, em toda extensão do
território nacional, começávamos a desconfiar que era bom, que era gostoso ser
brasileiro.
Idiota da Objetividade: - E foi a primeira vez que Garrincha
e Pelé jogaram juntos numa Copa do Mundo.
Garçom: - Então, como Garrincha já foi homenageado, agora será a vez de Pelé. Aliás,
já soube que ele virá aqui mais tarde.
O público vibra.
Vou
pôr aqui no som uma música gravada pelo Clube do Guri, com Dênis e coro nos
vocais. Tenho certeza de que todos vão gostar. O nome da música é “Homenagem a
Pelé”, de Jorge Duarte. Ouçam e divirtam-se.
Fim do Capítulo #44
Episódio originalmente publicado em 30 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 8 de março de 2026.
Esta poesia foi escrita há cerca de 20 anos e, infelizmente, parece ainda mais atual hoje do que naquela época. Eu vivia ainda no estado do Rio de Janeiro, onde já não moro mais desde junho de 2019, mas onde vou com alguma frequência, agora espero que bem mais por estar bem menos distante. "Crônica da cidade" faz parte de uma série de poesias que escrevi nos primeiros anos deste século, retratando as contradições cariocas, como já bem descrita pela Fernanda Abreu como o "purgatório da beleza e do caos".
Ilustração gerada pela plataforma de inteligência artificial One Image
Esta poesia trouxe-me um elogio, que guardo desde aqueles tempos, do saudoso escritor e jornalista Fausto Wolff. Poucos meses após a minha segunda (e menos) curta passagem pelo Jornal do Brasil, no segundo semestre de 2006, resolvi enviá-la por email ao Fausto, então colunista do JB, por entender que ela ilustrava bem o que ele havia escrito num dos seus textos publicados no jornal (em papel ainda naquele tempo). Creio que ele tenha entendido que minha pretensão era de que ele a publicasse em sua coluna e não foi por isso que lhe escrevi. No entanto, o mais importante é que ele gostou e me respondeu (em 23 de abril de 2007):
"Parabéns, Eduardo, teu poema é muito bom mas minha coluna não é o local para publicá-lo. Faço isso apenas extemporaneamente quando o assunto é jornalístico e atual. De qualquer forma quando publicar sua carta mencionarei o poema. Um abraço do amigo Fausto Wolff".
Aqui abaixo vai a poesia inteira, ainda inédita em livros:
CRÔNICA DA CIDADE
(Eduardo Lamas Neiva)
Cinturões
carregados e
cinturas despidas são
o prenúncio do
rito e ritmo do baile tomando
conta da cidade que
brilha nas trevas de
baixo acima de
cima abaixo
Explode
o repique interminável de
canos metálicos e
caixas de som O
hino marcial da
cidade sitiada retumba
ensurdecedor e
inicia sua peregrinação ecoando
por valas e vielas cheias
de corpos roliços, esquálidos,
esguios e estirados numa
dança libidinosa e cruel
Dedos
repetem movimentos para
atirar ou seduzir Corpos
suados e surrados encharcam
fardas, bermudas, sainhas,
shortinhos, coxas e quadris E
o cheiro de pólvora e sexo dobra
as esquinas, chega
aos becos sem saída
Os
gritos são de guerra em
quadras e quarteirões emoções
pulverizadas, esfumaçadas tornam
olhos cintilantes em
olhares enevoados
A
noite será longa com
preces e rezas para
todo tipo de santo e
satanás afinal
o inferno aqui fica
a dois passos do paraíso
Euforia
e depressão alimentadas
pelos cristais em
barracos, “apês”, coberturas, flats
e mansões Brilho
e breu Ferocidade
e languidez se
alternam e se mesclam na
noite de fúria e som.
"Dona IAIÁ" continua sendo minha única parceira musical e não tenho do que reclamar. Dela. Paciência. Até porque os resultados de uma forma geral têm me agradado. "Crônica da cidade", então, também foi enviada ao Suno para que os algoritmos musicassem seus versos, e pedi uma mistura de funk carioca, rap paulista e repente nordestino. Não foi bem isso que veio de volta, mas eu gostei e aqui vai abaixo, com um vídeo que editei a partir de imagens que pedi para a One Image produzir para mim, baseados nas estrofes da poesia.
E aí, o que você achou, qual é a sua opinião? Eu gostaria muito de saber, agradecendo desde já a sua visita ao blog. Volte sempre e, se puder, traga mais gente.