segunda-feira, 25 de maio de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46

Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mundo de 1958. Foto (aprimorada com IA): Acervo da CBF

A festa revivida pelo título mundial de 1958 parecia que não acabaria nunca. Pelé, Didi, Garrincha, Nilton Santos e outros integrantes daquele time fantástico são muito aplaudidos e reverenciados. João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade, então, os convidam a ir à mesa para falarem um pouco com o público sobre a primeira Copa do Mundo conquistada pela seleçãobrasileira. Didi começou lançando, mas Pelé e Garrincha acabaram tomando conta da peleja.

Didi: - Eu fazia um lançamento e tinha vontade de rir. O Mané ia passando e deixando os homens de bunda no chão.

Garrincha: - Em 1958 era muito jovem e tinha uma velocidade bárbara. As pernas corriam mais do que eu queria e as jogadas saíam-me quase sempre bem.

Pelé – Cada vez mais sinto saudades de você em campo, daqueles dribles, do povo nos estádios que vibrava com tuas entortadas nos “Joões”. Cada vez vejo menos habilidade no jogador brasileiro.

 

Garrincha – A pelada está perdendo espaço, só tem garotos jogando em campos cercados.

João Sem Medo: - E agora com grama sintética até nos campos oficiais, Mané.

Garrincha: - Verdade, seu João. Cadê o moleque de pé no chão batendo bola em terra dura? O pior é que todo mundo põe a culpa na retranca, mas continua bolando esquemas cada vez mais fechados. Parece saudosismo, mas na Copa de 1958 também éramos muito marcados.

 

Pelé – Pois é, eu era um garoto de 17 anos, mas tinha gente boa fazendo a minha cabeça. Aliás, você lembra por que o Paulo Amaral (preparador físico) acabou com as corridas depois dos treinos?


Garrincha – Claro, o pessoal corria até o lago não para melhorar o preparo físico, mas para ver as garotas tomando banho nuas. Daí o Paulo Amaral proibiu a corrida e o remédio foi aturar você tocando violão.

 

Todos riem muito.

 

Pelé – Tocar não é bem a palavra: eu batucava no violão.

 

Garrincha – E já aprendeu?

 

Pelé – Tocar eu ainda não toco, mas componho mais ou menos.

 

Garrincha – Já ouvi o Jair Rodrigues cantando uma música tua. Pega o violão e mostra aí.

 

Garçom: - Vamos aproveitar, então, e chamar mais uma vez Jair Rodrigues ao palco pra cantar com Pelé.

 

Todos aplaudem e vibram.


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Pelé: - Dá um abraço aqui Jair. Que felicidade estar com você novamente.

 

Jair Rodrigues: - A felicidade é toda minha poder abraçar você, Mané e toda essa turma boa de 58 e 62.

 

Pelé: - Vamos cantar “Cidade grande”?

 

Jair Rodrigues: - Vamos lá, meu Rei?

 

Pelé: - Vamos sim. O Mané pediu, então... 

Jair Rodrigues: - É uma ordem! (dá aquela risada gostosa que todo o Brasil se acostumou a ver e ouvir)


A dupla é aplaudidíssima e os dois se abraçam. Enquanto Jair Rodrigues volta à sua mesa, Pelé retorna pra continuar a resenha com Garrincha. 

 

Pelé: Bons tempos…


Garrincha: Bons mesmo. Na Copa de 1962 foi uma pena você ter se machucado. Eu dei sorte, fiz gols… Mas nunca vou esquecer da partida contra os russos em 1958. 

Pelé: Foi a primeira partida que disputamos juntos. Era a estreia de nós dois na Copa e vencemos por 2 a 0, dois gols do Vavá (aponta pro amigo que é muito aplaudido). Você enlouqueceu os russos, Mané! Logo na primeira bola, entortou três. Dali em diante, só deu você. Nosso futebol está precisando de um novo Garrincha, de outro “Alegria do Povo”.

 

Didi: - Convencemos o técnico Vicente Feola a colocar Pelé no lugar do Dida, que sentia uma contusão. Feola temia lançar Pelé, que tinha apenas 17 anos, mas concordou. Também pedimos que ele escalasse Garrincha no lugar de Joel. Feola nos atendeu, o time embalou e fomos campeões.


Vicente Feola, também presente, preferiu não interromper, nem concordar com o que Didi revelava.

 

Pelé: - Eu não imaginava que seria convocado.

 

Ceguinho Torcedor: - Mas você tinha feito uma promessa ao seu pai de que ganharia uma Copa pra ele... 

Pelé: - É, seu Ceguinho... Eu engraxava as chuteiras e os sapatos dos jogadores do BAC na época da Copa de 50.

Idiota da Objetividade: - Peço desculpas por interrompê-lo, Pelé, mas só pro público saber: BAC é o Bauru Atlético Clube. Prossiga, por favor.

Pelé: - Sem problemas. Bom, nós ouvimos a final de 50 no rádio e vi depois do jogo o meu pai e aqueles jogadores que eram companheiros dele chorando e todo mundo triste porque estava preparada uma festa lá em casa em Bauru. Aí eu falei pro meu pai brincando: “não liga, não, que eu vou ganhar uma Copa pra você”. E oito anos depois meu pai estava chorando, ouvindo o mesmo rádio, mas a gente ganhando a Copa do Mundo na Suécia.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso! Assombroso! (dá sua risada tenebrosa)

Risada geral.

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Garrincha, 77
Das peladas de rua às arenas

Idiota da Objetividade: - Mas qual foi o jogo mais difícil na Copa, Pelé?

Pelé: - Olha, nós não tínhamos o teipe naquela época, né? Nós tínhamos os olheiros que viam os jogos e todos diziam que a gente ia ter mais dificuldade contra a França, porque era a melhor equipe. Mas pra mim foi o País de Gales. Era um time que jogava na retranca, foi difícil, ganhamos de 1 a 0, com um gol que eu fiz, né. Depois que nós ganhamos da França, com a Suécia eu tinha certeza absoluta, nós tínhamos uma confiança que nós não perderíamos pra Suécia, porque o nosso time era melhor.

Todos aplaudem e os companheiros de 58 se confraternizam e abraçam também João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Idiota da Objetividade e Sobrenatural de Almeida. Zé Ary percebe a dispersão e não perde tempo.

Garçom: - Meus amigos, que grande felicidade, né? Pois então, uma festa tão bonita como essa merece mais futebol e música, então, enquanto imagens daquela seleção fantástica vão sendo mostradas no telão, ao som novamente de “A taça é nossa” e depois nas nossas caixas de som vocês vão ouvir o “Hino aos campeões do mundo”, de David Nasser e Vicente Paiva, cantado pelo Coro de Severino Filho. Divirtam-se!

Fim do Capítulo #47

Episódio originalmente publicado em 21 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 25 de maio de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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segunda-feira, 20 de abril de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #46

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46

Pelé, emocionado, é abraçado por Gylmar, enquanto Djalma Santos e Didi, à esquerda, e Orlando, comemoram o primeiro título mundial do Brasil, em 1958, na Suécia. Foto: Arquivo/O Globo

Após mais uma homenagem a Pelé, desta vez com a presença do Rei, também muito aplaudida pelo público, Sobrenatural de Almeida retoma a pelota pra falar do jogo contra País de Gales, em 58.

Sobrenatural de Almeida: - Mas teve quem achasse ruim a seleção naquele dia, contra Gales...

Ceguinho Torcedor: - Só mesmo Leônidas, que aqui está e merece todo o meu respeito e admiração pelo magnífico jogador que foi, é que achou que foi pouco esse gol tão sofrido, tão chorado por milhões de patrícios.

Todos os outros: - Patrícios, Ceguinho?

Ceguinho Torcedor: - Brasileiros, nossos compatriotas. Eu falei em uivo, em urro. Sim, amigos: foi um som jamais ouvido, desde que se inventou o Homem. Algo de bestial, de pré-histórico, antediluviano, sei lá. Foi um desses momentos em que cada um de nós deixa de ter vergonha e passa a ter orgulho de sua condição nacional.

João Sem Medo: - Didi teve excelente atuação, arrancando aplausos do público sueco algumas vezes naquele dia. Vavá não jogou, Mazzola é que atuou no ataque brasileiro contra Gales. E não jogou bem.

Idiota da Objetividade: - Com essa vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales, com gol de Pelé, aos 25 minutos do segundo tempo, a seleção brasileira se classificou para a semifinal, sem levar gol, e enfrentou a França. Venceu por 5 a 2, resultado que se repetiria na final, contra a Suécia.

Ceguinho Torcedor: - Que frieza, que objetividade, pra narrar as estupendas vitórias do Brasil.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso. Nenhuma emoção, sem qualquer vestígio de sentimento.

Idiota da Objetividade: - Estou narrando os fatos, o que aconteceu.

Ceguinho Torcedor: - Há muito mais do que os fatos narrados. E se os fatos me desmentirem, pior para os fatos.

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João Sem Medo: - Contra a França, Pelé fez três gols, Vavá e Didi os outros dois.

Ceguinho Torcedor: - Foi uma vitória “de gaulleada”.

João Sem Medo: - Em homenagem ao general De Gaulle?

Garçom: - Não foi ele que disse que o Brasil não era um país sério.

Idiota da Objetividade: - Há controvérsias...

Sobrenatural de Almeida: - Desconfio que o general em sua tumba ainda tenha razão...

Garçom: - Mas o assunto é futebol. E como nunca é demais, vamos a mais uma música sobre o Rei do Futebol?

Todos concordam, inclusive Pelé, que exibe aquele sorriso inconfundível ao agradecer com um aceno ao público que mais uma vez o aplaudiu.

Músico: - Então, gostaria de chamar ao palco o grande cavaquinista Jorge Pereira Simas, o querido Tico-Tico!

Tico-Tico vai ao palco, sob aplausos.

Tico-Tico: - Obrigado. Obrigado. O nosso rei merece sempre ser lembrado. Vou apresentar aqui “Ataca Pelé”, espero que ele e todos os demais aprovem.

A aprovação foi geral e Tico-Tico deixa o palco sob aplausos entusiasmados. Quando o público começou a se aquietar novamente, João Sem Medo distribuiu o jogo, destacando a qualidade ofensiva do time francês de 1958.

João Sem Medo: - O Brasil enfrentou um time que já tinha feito 15 gols em quatro jogos. Quase quatro por partida. O grande destaque era Fontaine, que acabou artilheiro daquela Copa com 13 gols...

Idiota da Objetividade: - É o jogador que mais fez gols numa edição de Copa do Mundo até hoje.

João Sem Medo: - Kopa era outro grande jogador.

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Ceguinho Torcedor: - O Brasil estava devendo a todos nós uma vitória como aquela. Vencemos contra tudo e contra todos. Contra os franceses, contra os bandeirinhas, contra o juiz e contra a Marselhesa. Nosso Hino Nacional foi apenas tocado. Não havia ali nenhuma multidão para soltar aos quatro ventos: “ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”. Ao passo que a Marselhesa foi cantada. Mas nosso Hino não se dobrou, mesmo com o juiz nos tirando dois gols e dois pênaltis. Aquele escrete era o escrete da coragem e creiam que Vavá, que voltou naquele jogo no lugar do Mazzola, com sua bravura louca, traduziu um perfeito, empolgante símbolo dessa coragem.

Idiota da Objetividade: - Uma curiosidade: Vavá marcou, logo a um minuto de jogo, o centésimo gol da História da Copa do Mundo.

João Sem Medo: - O jogo não foi disputado só na bola, não. Os franceses apelaram, mas três deles saíram machucados. O zagueiro Jounquet, que se contundiu aos 35 minutos do primeiro tempo... 

Idiota da Objetividade: - Jounquet fraturou a fíbula após um choque com Vavá.

João Sem Medo: - Pois, então, naquela época não era permitida a substituição, e o Jonquet ficou o restante do jogo fazendo número na ponta-esquerda. No lado do Brasil, Vavá saiu antes do fim da partida, mas ela já estava ganha. Bellini também se lesionou. Mas os dois jogariam a final contra os suecos.

Idiota da Objetividade: - E Vavá fez dois gols na decisão, com mais dois de Pelé e outro de Zagallo.

Sobrenatural de Almeida: - O Brasil jogou de azul a final. Diziam que daria azar...

Idiota da Objetividade: - Nas seis primeiras edições da Copa do Mundo, cinco vezes a seleção que vestia camisa azul venceu a final. Uruguai, em 30 e 50, a Itália, em 34 e 38, e o Brasil, em 58. Apenas em 54 venceu a Alemanha, de branco, derrotando a Hungria, que jogou de vermelho.

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Garçom: - Foi um carnaval em junho. Eu era pequeno, mas me lembro bem. Tomei um susto de ver tantos adultos chorando. Choravam de alegria.

Idiota da Objetividade: - Foi a primeira e até hoje única vez que uma seleção de fora da Europa venceu uma Copa no Velho Continente. A Suécia marcou o primeiro gol, aos 4 minutos, com Liedholm; o Brasil empatou e virou com Vavá, aos 9 e aos 32 da primeira etapa, Pelé marcou aos 10 da etapa final, Zagallo ampliou, aos 23; Simonsson fez o segundo da Suécia, aos 35, e Pelé, aos 45, deu números finais à partida.

Ceguinho Torcedor: - Meu caro Idiota da Objetividade, os 5 a 2, lá fora, contra tudo e contra todos, foi um maravilhoso triunfo vital, de todos nós e de cada um de nós. Do Presidente da República ao apanhador de papel, do Ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui perceberam o seguinte: é chato ser brasileiro! Já ninguém tinha mais vergonha de sua condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais andavam pelas calçadas com um charme de Joana D’Arc. O povo não se julgava mais um vira-latas. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra em todos os tempos. Pelo menos até ali. O escrete deu um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal, na Suécia.

Sem que ninguém percebesse seus movimentos enquanto todas as atenções estavam voltadas ao discurso eloquente e emocionado do Ceguinho Torcedor, Zé Ary preparou o aparelho de som e assim que o nosso amigo encerrou sua fala e o povo começava a aplaudi-lo, em alto e bom som “A Taça do Mundo é Nossa”, de Wagner Maugéri, Mageri Sobrinho, Victor Dagô e Lauro Muller, fez todo mundo pular, dançar, cantar e festejar como se 1958 fosse o agora, o momento de sempre. E foi mesmo eterna aquela grande conquista.

Fim do Capítulo #46

Episódio originalmente publicado em 14 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 20 de abril de 2026.

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segunda-feira, 6 de abril de 2026

JOGADA DE MÚSICA NO SOBRETUDO PODCAST



Jogada de Música no SobreTudo Podcast

Arte de Lucas Neiva
 O projeto
Jogada de Música ganhou mais um belo capítulo em sua   jornada de mais de 10 anos na estrada, com a estreia na última quarta-feira (1º de abril), no Sobretudo Podcast. Em conversa com Alexandre Araújo, parceiro de primeira hora do projeto e, como sempre, alguém que entende perfeitamente essa tabelinha entre bola e canção, demos o pontapé inicial para um encontro que se repetirá ao vivo todas as quartas, às 10h, mas que ficará gravado para você assistir e ouvir na hora que desejar. 

 O episódio de estreia é uma ótima porta de entrada para quem quer   conhecer melhor a proposta do projeto: mostrar como a História do   futebol brasileiro também pode ser contada pela música — não apenas   por hinos e canções compostas para clubes e Copas, mas também por   músicas que, por força da emoção popular, acabaram incorporadas ao imaginário do futebol.

Ao longo do ótimo papo, que fluiu tão bem como um jogão de futebol, fica muito claro como essa relação entre música e futebol é mais profunda, rica e surpreendente do que parece à primeira vista. Lembrei que, quando comecei a pesquisa, imaginava encontrar algumas centenas de canções ligadas ao tema. Com o tempo, porém, fui descobrindo um universo muito, muito maior, com mais de mil músicas catalogadas entre homenagens, críticas, metáforas, trilhas afetivas e associações construídas pela torcida, pelo rádio, pelo cinema, pelos poetas da bola e das canções e, claro, pela memória coletiva.

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Um dos pontos mais interessantes do episódio é justamente a reflexão sobre músicas que não nasceram futebolísticas, mas que passaram a ser do futebol para sempre. É o caso de “Touradas em Madrid” (Braguinha/Alberto Ribeiro), eternizada no Maracanã durante a Copa de 1950, quando a torcida brasileira a cantou espontaneamente no histórico 6 a 1 sobre a Espanha

Também é citada “Na Cadência do Samba” (Luiz Bandeira), que, graças ao Canal 100, virou sinônimo audiovisual de drible, gol, arquibancadas lotadas e câmera lenta, mesmo tendo surgido como uma canção ligada ao universo do samba. E há ainda a emocionante lembrança para a torcida do Fluminense de “A Bênção, João de Deus”, adotada pelos tricolores em momentos de tensão, como um canto de fé e aflição transformado em tradição de arquibancada.

O Jogada de Música mostra, assim, que o futebol brasileiro não é feito apenas de jogos, títulos, táticas e escalações, mas também de trilhas sonoras involuntárias, de refrões que ganham novos sentidos, de canções que o povo consagra. O rádio, o cinema, a TV, as transmissões esportivas nos mais diversos veículos de comunicação e as torcidas tiveram — e ainda têm — papel decisivo nessa construção cultural e esportiva. 

Se antes havia uma cultura mais concentrada, capaz de transformar certas músicas em referências nacionais quase imediatas, hoje o cenário é mais fragmentado. Ainda assim, a força simbólica desse encontro entre música e futebol continua viva, muito viva, reinventando-se de outras maneiras. E o projeto Jogada de Música existe para ressaltar e resgatar essa tabelinha extraordinária entre a Música e o Futebol do Brasil. 


Uma nova fase


Mais do que revisitar canções e histórias curiosas, a conversa na Manhã SobreTudo ajuda a entender a própria alma do projeto que nasceu de uma vasta pesquisa, ainda em curso, e foi ganhando forma em rádio, blog, colunas em sites, audiovisual, shows, exposições e outros desdobramentos ao longo dos anos. A ideia central permanece luminosa como os refletores dos grandes palcos em estádios, ginásios ou casas de shows: contar o futebol brasileiro por meio de suas ressonâncias musicais, de suas emoções cantadas e de tudo aquilo que o som cantado e tocado ajuda a revelar sobre a nossa memória esportiva e cultural.

É um episódio para você assistir e ou ouvir com atenção, porque ele reúne pesquisa, afeto, lembrança e repertório num papo leve e cheio de boas histórias. Para quem acompanha o projeto, é mais uma confirmação da força desse trabalho inesgotável. Para quem está chegando agora, é um convite afetuoso para você entrar em campo com o Jogada de Música e perceber que, no Brasil, futebol nunca foi só um jogo: muitas vezes, foi também canção.

Veja também:

O vídeo completo está abaixo para você assistir aqui ou no YouTube. Se preferir, o áudio com trechos de músicas citadas inseridas está no Spotify. Espero que goste e possa recomendar para mais pessoas. O projeto Jogada de Música merece público de Copa do Mundo, concorda? Agradeço muito a você que já curte há muito tempo e também a quem está chegando agora à nossa arquibancada.


quarta-feira, 25 de março de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #45

Uma coisa jogada com música - Capítulo #45
Garrincha ampara a emoção do garoto Pelé na final da Copa do Mundo de 1958, observados (provavelmente) pelo zagueiro sueco Orvar Bergmark . Foto (aprimorada com IA): Luiz Carlos Barreto

Após a “Homenagem a Pelé” que todos acompanharam com atenção e emoção, João Sem Medo retomou o papo falando dos dois maiores gênios da História do futebol brasileiro e mundial.

João Sem Medo: - Com Garrincha e Pelé em campo a seleção brasileira jamais perdeu um jogo sequer.

Idiota da Objetividade: - João, foram ao todo 40 partidas, com 35 vitórias do Brasil e cinco empates. Juntos em campo, ambos fizeram 54 gols: Pelé fez 44 e Garrincha, 10. Com a camisa da seleção, Garrincha só saiu de campo derrotado uma vez, no seu último jogo pelo Brasil, já na Copa de 66, nos 3 a 1 para a Hungria. Com Pelé, Mané atuou pela última vez pela seleção na estreia do Mundial da Inglaterra, na vitória de 2 a 0 sobre a Bulgária.

João Sem Medo: - Cada um fez um gol naquela partida, em 66. Mané jogou contra a Hungria, mas Pelé não. E contra Portugal, Pelé jogou...

Ceguinho Torcedor: - Foi caçado em campo.

João Sem Medo: - Foi mesmo. Mané não atuou na derrota de 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou a seleção na primeira fase da Copa de 66.

Garçom: - Pelé e Garrincha, será que teremos outra dupla igual a essa algum dia? Com a licença dos grandes amigos que estão aqui, vou pedir uma ajudinha a outro gigante da nossa Cultura pra falar, ou melhor, cantar um pouco mais sobre o nosso futebol e esta dupla genial. No telão e nas nossas caixas de som, Chico Buarque, em “O futebol”, de sua própria autoria.


Mesmo presente apenas em vídeo, Chico é aplaudido de pé pela plateia.

Garçom: - Em 58, Pelé e Garrincha arrebentaram. Tinha só sete anos de idade, mas me lembro bem da festança.

Idiota da Objetividade: - Os dois estrearam juntos em Copa do Mundo na vitória sobre a Rússia, de 2 a 0, que classificou o Brasil para as quartas de final. Enfrentamos a seleção do País de Gales.

João Sem Medo: - Foi um jogo muito duro.

Ceguinho Torcedor: - O povo queria que enfiássemos uns seis ou sete. Eis a nossa tragédia: - a pura e simples vitória não basta. Desejamos enfeitá-la, pôr-lhe fitinhas e guizos. E o triunfo sem show, sem apoteose, o triunfo enxuto deixa o brasileiro descontente e desconfiado. Mas eu vos digo: - foi a maior vitória brasileira. Imaginem se, por um absurdo, tivéssemos batido de 15. Íamos enfrentar a França como uns anjinhos, com a sensação mortal da invencibilidade.

Sobrenatural de Almeida: - Como aconteceu em 50...

Ceguinho Torcedor: - Em 50, perdemos a Copa porque goleamos a Espanha.

Garçom: - Foi contra o País de Gales que Pelé fez aquele golaço, dando um chapeuzinho no zagueiro?

Idiota da Objetividade: - Não foi um balão. O gol em que Pelé deu balãozinho ou chapéu, como queira, foi na final contra a Suécia. Contra Gales, ele estava de costas pro gol, matou a bola no peito, deu um toque pra tirar um zagueiro da jogada e foi mais rápido que outro que vinha na cobertura pra marcar o gol.

Ceguinho Torcedor: - Amigos, nada descreve o uivo, o urro que soltamos, aqui, quando o “speaker”...

Todos os outros: - “Speaker”, Ceguinho?

Ceguinho Torcedor: - O locutor de rádio, o narrador. Nada descreve o uivo, o urro que soltamos quando ele atirou o seu berro bestial “gol!”! Até aquele momento, o Brasil inteiro, de ponta a ponta, do presidente da República ao apanhador de guimba, o Brasil estava agonizando, morrendo ao pé do rádio. E veio Pelé, com seus 17 anos, e fez o milagre. Olhem Pelé, examinem suas fotografias da época e caiam das nuvens. Era, de fato um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot seria barrado, seria enxotado.

Um alvoroço na porta faz o público todo do bar Além da Imaginação se levantar. Era Pelé chegando. Houve uma ovação sem igual.

Pelé: - Muito obrigado. Seu Ceguinho está certo, eu era muito jovem ainda em 1958 e foi uma emoção muito grande aquele gol e a conquista do título, entende?

João Sem Medo e Ceguinho Torcedor, com a ajuda de Sobrenatural de Almeida, conseguem se aproximar e dar um abraço em Pelé.

João Sem Medo: - Agora a festa está completa.

Quando Pelé finalmente consegue se sentar, bem à frente da mesa onde nossos quatro personagens principais estão, Zé Ary toma a palavra.

Garçom: - Nós todos é que só temos a agradecer ao Rei Pelé, não é? Então, vamos pôr mais música nas caixas de som, desta vez acompanhadas de imagens maravilhosas do Rei registradas pelo Canal 100 no nosso telão. Mas antes, aproveito pra pedir uma salva de palmas a Carlinhos Niemeyer, o criador do Canal 100, que está presente na casa.

Carlinhos Niemeyer se levanta e agradece os efusivos aplausos do pessoal presente ao Além da Imaginação. Zé Ary então anuncia a próxima atração.

Garçom: - Vamos ouvir “Obrigado, Pelé”, de Miguel Gustavo, com o MPB-4.

Todo mundo fica embevecido com a música e as imagens. Pelé agradece mais uma vez os aplausos e fica com a pelota.

Veja também:

Pelé: - Preciso agradecer muito ao Miguel Gustavo, que ali está, e também ao MPB-4...

Garçom: - Magro e Ruy Faria estão aqui, muitos aplausos pra eles, por favor.

Ambos agradecem. E Pelé conclui emocionado.

Pelé: - É muita homenagem bonita de vocês, entende. Muito obrigado.

É mais aplaudido ainda. Inclusive por Garrincha, que timidamente não deixa seu lugar, DidiCarlos Alberto TorresFélix e outros ex-companheiros de Santos e seleção brasileira.

Fim do Capítulo #45

Episódio originalmente publicado em 7 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 24 de março de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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