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| Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mundo de 1958. Foto (aprimorada com IA): Acervo da CBF |
A festa revivida pelo título mundial de 1958 parecia que não acabaria nunca. Pelé, Didi, Garrincha, Nilton Santos e outros integrantes daquele time fantástico são muito aplaudidos e reverenciados. João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade, então, os convidam a ir à mesa para falarem um pouco com o público sobre a primeira Copa do Mundo conquistada pela seleçãobrasileira. Didi começou lançando, mas Pelé e Garrincha acabaram tomando conta da peleja.
Didi: - Eu fazia um lançamento
e tinha vontade de rir. O Mané ia passando e deixando os homens de bunda no
chão.
Garrincha: - Em 1958 era muito
jovem e tinha uma velocidade bárbara. As pernas corriam mais do que eu queria e
as jogadas saíam-me quase sempre bem.
Pelé
– Cada vez mais sinto saudades de você em campo, daqueles
dribles, do povo nos estádios que vibrava com tuas entortadas nos “Joões”. Cada
vez vejo menos habilidade no jogador brasileiro.
Garrincha – A pelada está perdendo espaço, só tem garotos jogando em campos cercados.
João Sem Medo: - E agora com grama sintética até nos campos oficiais, Mané.
Garrincha: -
Verdade, seu João. Cadê o moleque de pé no chão batendo bola em terra dura? O
pior é que todo mundo põe a culpa na retranca, mas continua bolando esquemas
cada vez mais fechados. Parece saudosismo, mas na Copa de 1958 também éramos
muito marcados.
Pelé – Pois é, eu era um garoto de 17 anos, mas tinha gente boa fazendo a minha cabeça. Aliás, você lembra por que o Paulo Amaral (preparador físico) acabou com as corridas depois dos treinos?
Garrincha
– Claro, o pessoal corria até o lago não para melhorar o
preparo físico, mas para ver as garotas tomando banho nuas. Daí o Paulo Amaral
proibiu a corrida e o remédio foi aturar você tocando violão.
Todos
riem muito.
Pelé
– Tocar não é bem a palavra: eu batucava no violão.
Garrincha
– E já aprendeu?
Pelé
– Tocar eu ainda não toco, mas componho mais ou menos.
Garrincha
– Já ouvi o Jair Rodrigues cantando uma música tua. Pega o
violão e mostra aí.
Garçom: -
Vamos aproveitar, então, e chamar mais uma vez Jair Rodrigues ao palco pra
cantar com Pelé.
Todos
aplaudem e vibram.
Veja também:
Pelé: - Dá
um abraço aqui Jair. Que felicidade estar com você novamente.
Jair
Rodrigues: - A felicidade é toda minha poder abraçar você, Mané e toda
essa turma boa de 58 e 62.
Pelé: -
Vamos cantar “Cidade grande”?
Jair
Rodrigues: - Vamos lá, meu Rei?
Pelé: - Vamos sim. O Mané pediu, então...
Jair Rodrigues: - É uma ordem! (dá aquela risada gostosa que todo o Brasil se acostumou a ver e ouvir)
A dupla
é aplaudidíssima e os dois se abraçam. Enquanto Jair Rodrigues volta à sua
mesa, Pelé retorna pra continuar a resenha com Garrincha.
Pelé: – Bons tempos…
Garrincha: – Bons mesmo. Na Copa de 1962 foi uma pena você ter se machucado. Eu dei sorte, fiz gols… Mas nunca vou esquecer da partida contra os russos em 1958.
Pelé: – Foi a primeira partida que disputamos juntos. Era a
estreia de nós dois na Copa e vencemos por 2 a 0, dois gols do Vavá (aponta
pro amigo que é muito aplaudido). Você enlouqueceu os russos, Mané! Logo na
primeira bola, entortou três. Dali em diante, só deu você. Nosso futebol está
precisando de um novo Garrincha, de outro “Alegria do Povo”.
Didi: - Convencemos
o técnico Vicente Feola a colocar Pelé no lugar do Dida, que sentia uma
contusão. Feola temia lançar Pelé, que tinha apenas 17 anos, mas concordou.
Também pedimos que ele escalasse Garrincha no lugar de Joel. Feola nos atendeu,
o time embalou e fomos campeões.
Vicente
Feola, também presente, preferiu não interromper, nem concordar com o que Didi
revelava.
Pelé: - Eu não
imaginava que seria convocado.
Ceguinho Torcedor: - Mas você tinha feito uma promessa ao seu pai de que ganharia uma Copa pra ele...
Pelé: - É, seu
Ceguinho... Eu engraxava as chuteiras e os sapatos dos jogadores do BAC na
época da Copa de 50.
Idiota da
Objetividade: - Peço desculpas por interrompê-lo, Pelé,
mas só pro público saber: BAC é o Bauru Atlético Clube. Prossiga, por favor.
Pelé: - Sem
problemas. Bom, nós ouvimos a final de 50 no rádio e vi depois do jogo o meu
pai e aqueles jogadores que eram companheiros dele chorando e todo mundo triste
porque estava preparada uma festa lá em casa em Bauru. Aí eu falei pro meu pai
brincando: “não liga, não, que eu vou ganhar uma Copa pra você”. E oito anos
depois meu pai estava chorando, ouvindo o mesmo rádio, mas a gente ganhando a
Copa do Mundo na Suécia.
Sobrenatural
de Almeida: - Assombroso! Assombroso! (dá sua risada tenebrosa)
Risada
geral.
Veja também:
Garrincha, 77
Das peladas de rua às arenas
Idiota da
Objetividade: - Mas qual foi o jogo mais difícil na Copa, Pelé?
Pelé: - Olha, nós
não tínhamos o teipe naquela época, né? Nós tínhamos os olheiros que viam os
jogos e todos diziam que a gente ia ter mais dificuldade contra a França,
porque era a melhor equipe. Mas pra mim foi o País de Gales. Era um time que
jogava na retranca, foi difícil, ganhamos de 1 a 0, com um gol que eu fiz, né.
Depois que nós ganhamos da França, com a Suécia eu tinha certeza absoluta, nós
tínhamos uma confiança que nós não perderíamos pra Suécia, porque o nosso time
era melhor.
Todos
aplaudem e os companheiros de 58 se confraternizam e abraçam também João Sem
Medo, Ceguinho Torcedor, Idiota da Objetividade e Sobrenatural de Almeida. Zé
Ary percebe a dispersão e não perde tempo.
Garçom: - Meus amigos, que grande felicidade, né? Pois então, uma festa tão bonita como essa merece mais futebol e música, então, enquanto imagens daquela seleção fantástica vão sendo mostradas no telão, ao som novamente de “A taça é nossa” e depois nas nossas caixas de som vocês vão ouvir o “Hino aos campeões do mundo”, de David Nasser e Vicente Paiva, cantado pelo Coro de Severino Filho. Divirtam-se!
Fim do Capítulo #47
Episódio originalmente publicado em 21 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 25 de maio de 2026.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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