Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Garrincha ampara a emoção do garoto Pelé na final da Copa do Mundo de 1958, observados (provavelmente) pelo zagueiro sueco Orvar Bergmark . Foto (aprimorada com IA): Luiz Carlos Barreto
Após a “Homenagem a Pelé” que todos acompanharam com atenção
e emoção, João Sem Medo retomou o papo falando dos dois maiores gênios da
História do futebol brasileiro e mundial.
João Sem Medo: - Com Garrincha e Pelé em campo a
seleção brasileira jamais perdeu um jogo sequer.
Idiota da Objetividade: - João, foram ao todo 40 partidas,
com 35 vitórias do Brasil e cinco empates. Juntos em campo, ambos fizeram 54
gols: Pelé fez 44 e Garrincha, 10. Com a camisa da seleção, Garrincha só saiu
de campo derrotado uma vez, no seu último jogo pelo Brasil, já na Copa de 66,
nos 3 a 1 para a Hungria. Com Pelé, Mané atuou pela última vez pela seleção na
estreia do Mundial da Inglaterra, na vitória de 2 a 0 sobre a Bulgária.
João Sem Medo: - Cada um fez um gol naquela partida,
em 66. Mané jogou contra a Hungria, mas Pelé não. E contra Portugal, Pelé
jogou...
Ceguinho Torcedor: - Foi caçado em campo.
João Sem Medo: - Foi mesmo. Mané não atuou na
derrota de 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou a seleção na primeira fase da
Copa de 66.
Garçom: - Pelé e Garrincha, será que teremos outra
dupla igual a essa algum dia? Com a licença dos grandes amigos que estão aqui,
vou pedir uma ajudinha a outro gigante da nossa Cultura pra falar, ou melhor,
cantar um pouco mais sobre o nosso futebol e esta dupla genial. No telão e nas
nossas caixas de som, Chico Buarque, em “O futebol”, de sua própria autoria.
Mesmo presente apenas em vídeo,
Chico é aplaudido de pé pela plateia.
Garçom: - Em 58, Pelé e Garrincha
arrebentaram. Tinha só sete anos de idade, mas me lembro bem da festança.
Idiota da Objetividade: - Os dois estrearam juntos em Copa
do Mundo na vitória sobre a Rússia, de 2 a 0, que classificou o Brasil para as
quartas de final. Enfrentamos a seleção do País de Gales.
João Sem Medo: - Foi um jogo muito duro.
Ceguinho Torcedor: - O povo queria que enfiássemos uns
seis ou sete. Eis a nossa tragédia: - a pura e simples vitória não basta. Desejamos
enfeitá-la, pôr-lhe fitinhas e guizos. E o triunfo sem show, sem apoteose, o
triunfo enxuto deixa o brasileiro descontente e desconfiado. Mas eu vos digo: -
foi a maior vitória brasileira. Imaginem se, por um absurdo, tivéssemos batido
de 15. Íamos enfrentar a França como uns anjinhos, com a sensação mortal da
invencibilidade.
Sobrenatural de
Almeida: - Como
aconteceu em 50...
Garçom: - Foi contra o País de Gales que
Pelé fez aquele golaço, dando um chapeuzinho no zagueiro?
Idiota da Objetividade: - Não foi um balão. O gol em que
Pelé deu balãozinho ou chapéu, como queira, foi na final contra a Suécia.
Contra Gales, ele estava de costas pro gol, matou a bola no peito, deu um toque
pra tirar um zagueiro da jogada e foi mais rápido que outro que vinha na
cobertura pra marcar o gol.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, nada descreve o uivo, o
urro que soltamos, aqui, quando o “speaker”...
Todos os outros: - “Speaker”, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - O locutor de rádio, o narrador.
Nada descreve o uivo, o urro que soltamos quando ele atirou o seu berro bestial
“gol!”! Até aquele momento, o Brasil inteiro, de ponta a ponta, do presidente
da República ao apanhador de guimba, o Brasil estava agonizando, morrendo ao pé
do rádio. E veio Pelé, com seus 17 anos, e fez o milagre. Olhem Pelé, examinem
suas fotografias da época e caiam das nuvens. Era, de fato um menino, um
garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot seria barrado, seria
enxotado.
Um alvoroço na porta faz o público todo do bar Além da
Imaginação se levantar. Era Pelé chegando. Houve uma ovação sem igual.
Pelé: - Muito obrigado. Seu Ceguinho está certo, eu era muito jovem ainda em
1958 e foi uma emoção muito grande aquele gol e a conquista do título, entende?
João Sem Medo e Ceguinho Torcedor, com a ajuda de
Sobrenatural de Almeida, conseguem se aproximar e dar um abraço em Pelé.
João Sem Medo: - Agora a festa está completa.
Quando Pelé finalmente consegue se sentar, bem à frente da
mesa onde nossos quatro personagens principais estão, Zé Ary toma a palavra.
Garçom: - Nós todos é que só temos a agradecer ao Rei Pelé, não é? Então, vamos
pôr mais música nas caixas de som, desta vez acompanhadas de imagens
maravilhosas do Rei registradas pelo Canal 100 no nosso telão. Mas antes,
aproveito pra pedir uma salva de palmas a Carlinhos Niemeyer, o criador do
Canal 100, que está presente na casa.
Carlinhos Niemeyer se levanta e agradece os efusivos aplausos
do pessoal presente ao Além da Imaginação. Zé Ary então anuncia a próxima
atração.
Pelé: - Preciso agradecer muito ao Miguel Gustavo, que ali está, e também ao
MPB-4...
Garçom: - Magro e Ruy Faria estão aqui, muitos aplausos pra eles, por favor.
Ambos agradecem. E Pelé conclui emocionado.
Pelé: - É muita homenagem bonita de vocês, entende. Muito obrigado.
É mais aplaudido ainda. Inclusive por Garrincha, que timidamente não deixa seu lugar, Didi, Carlos Alberto Torres, Félixe outros ex-companheiros de Santose seleção brasileira.
Fim do Capítulo #45
Episódio originalmente publicado em 7 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 24 de março de 2026.
Em sua estreia na Copa de 58, Garrincha enlouquece a defesa soviética e chuta a bola na trave de Yashin
Após todo mundo, especialmente Didi e dona Guiomar, se
divertirem com “O nosso dia chegou”, João Sem Medo retoma a pelota.
João Sem Medo: - É bom
que o brasileiro saiba que a Europa se atrasou perante nós por causa de uma
guerra que dizimou quase toda a juventude entre 15 e 45 anos. Isso não se refaz
com decreto-lei nem com planos quinquenais. É preciso esperar que nasçam
outros, formem-se e reaprendam. A Europa teve grandes prejuízos com a Guerra, o
que nos permitiu um avanço enorme. Quando pegamos a Europa em 58 e 62, ela
estava, exatamente, num período de decadência esportiva, porque lhe faltou a
juventude que tinha morrido na guerra. E foi uma vantagem que nós tivemos.
Nosso futebol, no entanto, é do melhor nível. Nós estamos na primeira turma do
futebol mundial e nos mantivemos nela ao longo do tempo, ainda que a duras
penas nos últimos anos.
Ceguinho Torcedor: - Desde 50 que o nosso futebol tinha o pudor de acreditar em si mesmo. A
derrota frente aos uruguaios foi uma humilhação nacional, que, imaginávamos,
jamais seria superada. Porém, até o mais vertiginoso e convicto pessimista não
conseguiria prever algo como o que ocorreu na última Copa, com aquele
estrondoso, retumbante, escandaloso, histérico 7 a 1 para os alemães. Mas em 58,
negávamos o escrete porque a frustração de 50 ainda funcionava. Havia um pânico
de uma nova e irremediável desilusão.
João Sem Medo: - Era o complexo de vira-latas, né, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Sim, João. A inferioridade em que o brasileiro se coloca,
voluntariamente, face ao resto do mundo em todos os setores, sobretudo, no
futebol. O problema do escrete não era de futebol, nem de técnica, nem de
tática. Absolutamente. Era um problema de fé em si mesmo.
Garçom: - Hoje em dia acho que muitos jogadores da seleção se acham importantes
e bons demais pro que realmente são.
Ceguinho Torcedor: - Eles têm um complexo de vira-latas às avessas.
Idiota da Objetividade: - Em 58 a
seleção brasileira foi para a Suécia desacreditada.
Ceguinho Torcedor: - Aqui o escrete já se sentia no
estrangeiro; lá, é como se estivesse em casa. Esse foi o drama da seleção:
encontrar lá fora o tratamento humano que lhe negamos aqui.
João Sem Medo: - Gylmar fez outra grande partida,
salvando inclusive um gol contra de Orlando no fim do jogo. O goleiro inglês
McDonald também teve grande atuação. O Brasil foi melhor no primeiro tempo, os
ingleses, na etapa final.
Ceguinho Torcedor: - Feola, que já havia trocado Dida
por Vavá para enfrentar os ingleses, mudou mais três jogadores para a partida
contra a Rússia e tivemos os três minutos mais sensacionais da história do
futebol. Nos primeiros três minutos da batalha, já o Garrincha tinha derrotadoa colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E bastava o empate.
Idiota da Objetividade: - O técnico Vicente Feola tirou o
volante Dino Sani e os atacantes Joel e Mazzola para as entradas de Zito,
Garrincha e Pelé.
Ceguinho Torcedor: - Garrincha não acreditava em empate
e foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua
penetração, fantástica, driblou até as barbas de Rasputin.
O público se diverte, principalmente Garrincha, que dá uma
sonora gargalhada.
Garçom: -
Vamos aproveitar pra ver no telão lances maravilhosos desses 3 minutos
estupendos e outros da vitória sobre a União Soviética, em 1958, com narração
em francês.
O público aplaude e reverencia mais uma vez Garrincha e Didi,
que agradecem sorrindo.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, a desintegração da defesa russa começou exatamente
na primeira vez que Garrincha tocou na bola. O jogo Brasil e Rússia acabou nos
três minutos iniciais. Só um Garrincha poderia fazer isso contra o time
poderosíssimo da Rússia. Porque Garrincha não acreditava em ninguém, só em si
mesmo.
Sobrenatural de
Almeida: - Naquele
dia, acho que nem eu conseguiria parar o Garrincha.
Garçom: - Vou aproveitar a deixa pra que a gente possa fazer outra homenagem ao
grande Mané Garrincha, que nos dá a gigantesca honra de estar aqui presente.
Venha ao palco, por favor, Angelita Martinez!
Todos aplaudem a ex-vedete.
Angelita Martinez: - Muito obrigada, Zé Ary, muito obrigada a todos. Bom, não
sei se vocês sabem, mas meu pai foi jogador de futebol, zagueiro. Ele está ali,
viemos juntos. Levante-se, por favor, Barthô Gugani!
Gugani se levanta e agradece os aplausos do público.
Idiota da Objetividade: - Gugani foi zagueiro do São Bento, do Paulistano e
do São Paulo, pelo qual foi campeão paulista em 1931. E atuou pela seleção
brasileira, fazendo parte do time que conquistou a Copa Roca, em 1922.
Gugani é muito aplaudido. Ele agradece.
Barthô Gugani: - Muito obrigado! É uma honra muito grande estar aqui ao
lado da minha filha Angelita e toda minha família. Vim pro Mundo Espiritual com
36 anos de idade, em 1935, e estou muito feliz de estar aqui hoje revivendo
grandes momentos do nosso futebol com todas essas feras.
Todos aplaudem mais uma vez.
Angelita
Martinez: - Te
amo, pai! Bom, é com muita honra que gravei esta música, em 1958, e venho aqui
a este palco para prestar uma homenagem ao nosso grande craque Mané Garrincha.
A composição é de Jorge de Castro, Wilson Batista e Nóbrega de Macedo e se
chama “Mané Garrincha”.
Angelita é muito aplaudida e deixa o palco. O jogo Brasil x
URSS volta à mesa de nossos amigos.
Ceguinho Torcedor: - Calculo que lá pelas tantas os
russos, na sua raiva obtusa e inofensiva, devem ter imaginado que o único meio
de destruir Garrincha fosse caçá-lo a pauladas. Talvez nem assim. No segundo
tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. As
cinzas do czar devem ter ficado humilhadíssimas. O marcador do “seu” Manoel já
não era um: eram três. E então começou a se ouvir aqui no Brasil, na Praça da Bandeira,
a gargalhada cósmica, tremenda, do público sueco.
Todos riem e aplaudem. Garrincha se levanta novamente e
agradece.
Garrincha: - Seu Ceguinho, o senhor é craque! Muito obrigado.
Ceguinho Torcedor: - Não chego a seus abençoados pés, Mané!
Garçom: - Aquela foi mesmo uma atuação
histórica! De recuperar o orgulho brasileiro, não é “Seu” Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Aqui, em toda extensão do
território nacional, começávamos a desconfiar que era bom, que era gostoso ser
brasileiro.
Idiota da Objetividade: - E foi a primeira vez que Garrincha
e Pelé jogaram juntos numa Copa do Mundo.
Garçom: - Então, como Garrincha já foi homenageado, agora será a vez de Pelé. Aliás,
já soube que ele virá aqui mais tarde.
O público vibra.
Vou
pôr aqui no som uma música gravada pelo Clube do Guri, com Dênis e coro nos
vocais. Tenho certeza de que todos vão gostar. O nome da música é “Homenagem a
Pelé”, de Jorge Duarte. Ouçam e divirtam-se.
Fim do Capítulo #44
Episódio originalmente publicado em 30 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 8 de março de 2026.
Esta poesia foi escrita há cerca de 20 anos e, infelizmente, parece ainda mais atual hoje do que naquela época. Eu vivia ainda no estado do Rio de Janeiro, onde já não moro mais desde junho de 2019, mas onde vou com alguma frequência, agora espero que bem mais por estar bem menos distante. "Crônica da cidade" faz parte de uma série de poesias que escrevi nos primeiros anos deste século, retratando as contradições cariocas, como já bem descrita pela Fernanda Abreu como o "purgatório da beleza e do caos".
Ilustração gerada pela plataforma de inteligência artificial One Image
Esta poesia trouxe-me um elogio, que guardo desde aqueles tempos, do saudoso escritor e jornalista Fausto Wolff. Poucos meses após a minha segunda (e menos) curta passagem pelo Jornal do Brasil, no segundo semestre de 2006, resolvi enviá-la por email ao Fausto, então colunista do JB, por entender que ela ilustrava bem o que ele havia escrito num dos seus textos publicados no jornal (em papel ainda naquele tempo). Creio que ele tenha entendido que minha pretensão era de que ele a publicasse em sua coluna e não foi por isso que lhe escrevi. No entanto, o mais importante é que ele gostou e me respondeu (em 23 de abril de 2007):
"Parabéns, Eduardo, teu poema é muito bom mas minha coluna não é o local para publicá-lo. Faço isso apenas extemporaneamente quando o assunto é jornalístico e atual. De qualquer forma quando publicar sua carta mencionarei o poema. Um abraço do amigo Fausto Wolff".
Aqui abaixo vai a poesia inteira, ainda inédita em livros:
CRÔNICA DA CIDADE
(Eduardo Lamas Neiva)
Cinturões
carregados e
cinturas despidas são
o prenúncio do
rito e ritmo do baile tomando
conta da cidade que
brilha nas trevas de
baixo acima de
cima abaixo
Explode
o repique interminável de
canos metálicos e
caixas de som O
hino marcial da
cidade sitiada retumba
ensurdecedor e
inicia sua peregrinação ecoando
por valas e vielas cheias
de corpos roliços, esquálidos,
esguios e estirados numa
dança libidinosa e cruel
Dedos
repetem movimentos para
atirar ou seduzir Corpos
suados e surrados encharcam
fardas, bermudas, sainhas,
shortinhos, coxas e quadris E
o cheiro de pólvora e sexo dobra
as esquinas, chega
aos becos sem saída
Os
gritos são de guerra em
quadras e quarteirões emoções
pulverizadas, esfumaçadas tornam
olhos cintilantes em
olhares enevoados
A
noite será longa com
preces e rezas para
todo tipo de santo e
satanás afinal
o inferno aqui fica
a dois passos do paraíso
Euforia
e depressão alimentadas
pelos cristais em
barracos, “apês”, coberturas, flats
e mansões Brilho
e breu Ferocidade
e languidez se
alternam e se mesclam na
noite de fúria e som.
"Dona IAIÁ" continua sendo minha única parceira musical e não tenho do que reclamar. Dela. Paciência. Até porque os resultados de uma forma geral têm me agradado. "Crônica da cidade", então, também foi enviada ao Suno para que os algoritmos musicassem seus versos, e pedi uma mistura de funk carioca, rap paulista e repente nordestino. Não foi bem isso que veio de volta, mas eu gostei e aqui vai abaixo, com um vídeo que editei a partir de imagens que pedi para a One Image produzir para mim, baseados nas estrofes da poesia.
E aí, o que você achou, qual é a sua opinião? Eu gostaria muito de saber, agradecendo desde já a sua visita ao blog. Volte sempre e, se puder, traga mais gente.
Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem crédito encontrada na internet e melhorada com auxílio da IA
Após “Camisa Molhada” ser bastante apreciada pelo público, a
camisa amarela, novo uniforme da seleção brasileira, voltou ser o assunto no
bar “Além da Imaginação”.
Idiota da Objetividade: - Em 1953 houve um concurso
promovido pelo jornal carioca “Correio da Manhã” para se escolher o novo
uniforme da seleção brasileira. O gaúcho Aldyr Garcia Schlee, então com 19
anos, derrotou mais de 200 candidatos, com sua criação: a camisa canarinho.
Garçom: - Com sorte ou não, foi com a camisa
canarinho que conquistamos o penta.
Idiota da Objetividade: - Um ano antes do concurso, a
seleção brasileira havia conquistado, já sob o comando do técnico Zezé Moreira,
o seu primeiro título fora do nosso território: o Campeonato Pan-Americano de1952, no Chile. O título foi conquistado de forma invicta, com vitórias sobre o
México, por 2 a 0; Panamá, por 5 a 0; Uruguai, por 4 a 2, e Chile, por 3 a 0; e
apenas um empate, sem gols, no segundo jogo, contra o Peru. Na vitória sobre o
time da casa, Ademir Menezes fez dois gols, e Pinga, o outro.
Ceguinho Torcedor: - Mas o primeiro título mundial, que
nos arrancou das entranhas o complexo de vira-latas, veio em 58, na Suécia.
Músico: - Seu Ceguinho e demais senhores desta mesa tão qualificada, aproveitando
o tema iniciado, peço permissão para interrompê-los, por favor. Tem música muito
mais famosa sobre aquela conquista de 58, mas gostaria de tocar aqui no piano
pra vocês uma composição do grande Altamiro Carrilho, que foi gravada naquele
mesmo ano pelo pianista José Luciano. Chama-se “Os canarinhos venceram”.
Gostariam de ouvir?
Ceguinho Torcedor: - O escrete naquele jogo contra o
Peru não exprimiu, nem de longe, nem por aproximação, o futebol brasileiro. O
que houve foram alguns lampejos individuais fulgurantíssimos, como o gol do Didi, as arrancadas de Garrincha e a compacta bravura de Bellini. Mas o futebol
não vive de iluminações pessoais e tivemos de melhorar muito até conquistar a
taça na Suécia.
Garçom: - Didi deu a classificação para a
Copa e foi importantíssimo em 58.
Didi: - Obrigado!
Ceguinho Torcedor: - Sim, mas há poucos meses do
Mundial, Didi viveu um dilema: a Suécia ou Guiomar.
Garçom: - Sua esposa?
Didi: - Verdade. O Ceguinho pode contar a história.
Ceguinho Torcedor: - Obrigado. A CBD tomou uma
providência patética: baixou uma ordem impedindo que qualquer jogador levasse a
mulher à Suécia. Só um cego de nascença não via que se tratava de separar Didi
de Guiomar.
Didi: - É, cheguei inclusive a enviar uma
carta à CBD solicitando a dispensa da Copa, por causa da decisão da entidade.
João Sem Medo: - Didi fez questão de dizer o tempo
todo que ele pagaria as despesas da mulher. E ela não ficaria na concentração,
ora bolas!
Ceguinho Torcedor: - Ficaria fora da concentração,
apenas como torcedora de Didi e do Brasil.
Idiota da Objetividade: - Acabou que a dona Guiomar não foi
à Suécia.
Didi: - Uma pena,
não é meu amor?
D. Guiomar concorda com a cabeça.
Didi: - Até hoje não entendi aquela
perseguição a Guiomar?
Ceguinho Torcedor: - Existia contra ela um preconceito
militante, agressivo e eu quase diria internacional. Ela sempre tratou a todos
com uma cordialidade quase doce. Mas bastava que Didi fracassasse numa
folha-seca, ou desperdiçasse um pênalti, ou desse um passe errado, para que a
torcida a responsabilizasse.
Garçom: - Que isso!?
Ceguinho Torcedor: - Vejam vocês a ironia do futebol:
ela devia ser a responsável, por igual, pelos defeitos e os méritos de Didi.
Mas não. Se Didi falhava era Guiomar, se não falhava, era Didi. Ninguém admitia
que ela pudesse representar, no futebol do craque, um poderoso estímulo, um
incentivo total.
João Sem Medo: - Ele tantas vezes declarou à
imprensa o seu amor à mulher e sempre afirmou que era por ela que jogava. E o
mais importante é que ele foi à Copa e ajudou muito o Brasil a conquistar o
título.
Ceguinho Torcedor: - E como! O nosso Mister Football!
João Sem Medo: - Sim, foi como a imprensa internacional o apelidou na Copa
da Suécia.
Ceguinho Torcedor: - Com Moacir por trás de cada um dos
seus erros, como uma constante, ininterrupta ameaça, Didi, com seu nobre tipo
racial, como um príncipe etíope de rancho, enxergava longe e percebeu que não
podia se permitir o luxo de um cochilo.
Didi: - Não mesmo. Moacir foi um excelente jogador de meio de campo.
Idiota da Objetividade: - Moacir, meia do Flamengo, foi
titular da seleção nos dois últimos amistosos realizados no Brasil antes da
Copa de 58, nas vitórias de 4 a 0 e 3 a 1 sobre a Bulgária. No primeiro jogo,
realizado no Maracanã, Moacir fez dois gols. Depois Didi ganhou a vaga de
titular e foi eleito o melhor jogador do Mundial da Suécia, eleito pela Fifa.
Ceguinho Torcedor: - É, mas quase todo mundo gritou
contra Didi. Nos treinos da seleção foi vaiado quantas vezes? Conclusão:
amarrou a cara e seu comportamento, em todo o Mundial, foi esmagador. Não se
podia desejar mais de um homem, ou por outra, de um brasileiro. Ninguém que
jogasse com mais gana, mais garra e, sobretudo, mais seriedade. Nem sempre
marcava gols, mas era ele quem amaciava o caminho, quem desmontava as defesas
adversárias com seus lançamentos em profundidade. Com uma simples ginga de
corpo, liquidava o marcador. E nas horas em que os companheiros pareciam
aflitos, ele, com sua calma lúcida, prendia a bola e tratava de evitar o caos
possível. Nenhum escrete levanta um Campeonato do Mundo sem extraordinárias
qualidades morais. De nada adiantará o futebol se o homem não presta. O belo, o
comovente, o sensacional no triunfo de 58 está no seguinte: foi, antes de tudo,
o triunfo do homem.
Didi se levanta com Guiomar para abraçar Ceguinho Torcedor e
João Sem Medo e todos são aplaudidos pela plateia. Zé Ary aproveita para tomar
a palavra.
João Sem Medo: - Meu amigo Neném Prancha já dizia: “O Didi jogava bola com
quem chupa laranja, com muito carinho”.
Todos concordam e Didi, já de volta à sua mesa, se levanta novamente
para ser aplaudidíssimo por todo o público de pé. Parecia um estádio de
futebol, tamanha a ovação.
Didi: - Agradeço muito, de coração, a todos. Em especial pela defesa do
Ceguinho Torcedor e do João Sem Medo a mim e, claro, a minha amada Guiomar. Muito
obrigado.
Garçom:
-
Nós que agradecemos, seu Didi! Nós que agradecemos. Vamos ouvir aqui a narração
do gol de Didi contra a França na semifinal, quando o Brasil desempatou a
partida quando estava 1 a 1, na narração de Geraldo José de Almeida, na época
na Rádio Pan Americana, de São Paulo. E ver o golaço no telão!
A vibração é tão grande que parecia estar acontecendo naquele
momento. Zé Ary pede a palavra novamente.
Garçom:
- E
pra completar vamos ouvir “O nosso dia chegou”, de Alfredo Borba e OsvaldoRodrigues, que gravou a música. Quem quiser pode dançar à vontade. Vamos lá,
seu Didi, e dona Guiomar!