quarta-feira, 30 de setembro de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #52

Uma coisa jogada com música - Capítulo #52
Garrincha, em 1966, quando atuou pelo Corinthians e foi campeão do Torneio Rio-SP. Foto aprimorada por IA

Manduka é muito aplaudido após sua apresentação. Agradece ao público e novamente vai em direção a Mané Garrincha para receber o abraço do ídolo. E Mané, uma fonte inesgotável de histórias, teses e declarações, continuou na berlinda no bar Além da Imaginação.

Ceguinho Torcedor: - O poeta e psicanalista Hélio Pelegrino, que poderia estar aqui conosco, mas não está, tinha razão quando afirmava que Garrincha era a maior sanidade do Brasil. O próprio Freud, se tivesse conhecido o Mané, havia de reconhecer com a humildade dos sábios: “Rapaz, se todo mundo tivesse a tua sanidade, eu ia acabar apanhando papel na esquina”. Enquanto todo mundo estava emocionalmente em pandarecos, Mané pegava a bola, era o mesmo, sempre o mesmo, eternamente o mesmo. Assim na Terra como no Céu.

Mané Garrincha só ria, de sua mesa e se divertia com o que falavam sobre ele.

Garçom: - Gente, aproveitando que tudo está girando e vai girar em torno dos dribles do Mané, vou pôr um vídeo aqui no nosso telão, com uma apresentação do multiartista pernambucano Antonio Nóbrega, que compôs junto com Wilson Freire essa maravilha chamada, como não poderia deixar de ser: “Garrincha”.
 

Ao fim do vídeo, todos aplaudem muito. Garrincha, emocionado, se levanta e agradece.

Garrincha: - Poxa, que homenagem bonita. Muito obrigado ao Antonio Nóbrega. Rapaz, o cara dança muito!

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Todo mundo aplaude ainda mais, de pé. Ao cessarem os aplausos, João Sem Medo retoma a pelota.

João Sem Medo: - Olha, meus amigos, vou aproveitar pra contar outra história do Garrincha. Ouça aí, Mané, e me interrompa se eu estiver mentindo, por favor.

Garrincha (rindo): - Pode deixar, seu João. Pode mentir à vontade.

Todos riem muito.

Garrincha (rindo ainda mais): – Brincadeira.

João Sem Medo (rindo também): - Assim você me derruba, Mané.

Sobrenatural de Almeida: - Com drible de corpo, João!

João Sem Medo: - Pois é. Mas deixa eu contar a história. Em 57, depois que estreei como técnico do Botafogo num empate em 2 a 2 com o Palmeiras, no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo, fomos fazer um amistoso em Londrina, com o time entre as traças. Os homens do local, assim que chegamos, foram logo avisando que se não escalássemos o time titular completo, a cota seria cortada. Empatamos em 1 a 1 e olhe lá. Nosso time terminou o jogo que dava pena. No hotel, na hora da janta, decretei que ninguém sairia do hotel no dia seguinte, porque já tínhamos viagem marcada dois dias depois pro Norte do país e de lá pra Venezuela. Nilton Santos disse que se a sobremesa demorasse ele dormiria ali mesmo. Não foi, Nilton?

Nilton Santos: - Verdade, seu João! Estava todo mundo no bagaço.

João Sem Medo: - Um ainda tentou pedir pra dar uma voltinha na praça, mas bati pé firme. Não houve problema, todos ficaram no hotel. Garrincha nem comeu a sobremesa, botou a mão na boca e foi dormir. Ali pelas dez da noite dei uma controlada e lá estava o Mané ferrado no sono direto, com um calção preto e branco em quadrinhos que durante muito tempo foi seu inconfundível pijama.

Garrincha: - Tinha até me esquecido dele, boa lembrança.

Sobrenatural de Almeida: - Que memória! Assombrosa!hahaha

Risada geral no bar.

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João Sem Medo: - Bom, voltamos pro Rio e eu todo glorioso, não com os dois empates, que não tinham sido grande coisa, mas diante das circunstâncias poderiam ser considerados bons. A glória maior que eu sentia era que o Mané tinha ficado sossegado. Eu já estava achando que era uma questão de respeito, afinal eu tinha sido diretor do clube. Grande vitória, agora tudo ia ser fácil, o ambiente estava controlado.

Risos abafados já começavam a se ouvir na plateia, vindos principalmente da mesa onde Garrincha se encontrava.

João Sem Medo: - Três anos e meio depois, voltei a Londrina pra comentar um jogo do Vasco e estava parado na porta do hotel, quando chegou perto de mim uma senhora gordona e me perguntou pra que eu confirmasse quem eu sou, então ela disse que era a mãe da noiva do Garrincha e que a filha precisava mandar uma carta pra ele. E me perguntou se eu podia levar a carta e falar com o Mané. Olhei pro lado e vi uma baixinha com uma cabeleira que dava volta no pescoço, parecendo um cachecol, com a cara muito séria, a carta na mão e uma criancinha no colo. Fiquei meio ressabiado, e as convidei pra entrar, porque notei que queriam falar alguma coisa. Mas eu estava intrigado, o Garrincha já era campeão do mundo. Perguntei à baixinha onde ela tinha conhecido o Garrincha e ela respondeu: “Aqui mesmo, quando ele veio com o Botafogo foi que ficamos noivos”.

Os risos passaram a ser bem menos discretos a partir daí.

João Sem Medo: - Recapitulei de memória a viagem a Londrina, mas fiquei na minha e perguntei o que queriam que eu fizesse. Aí a mãe, em tom mais enérgico, falou que queria que eu garantisse que Garrincha receberia a carta, pois já tinham mandado outras sem terem resposta. E fechou dizendo que o assunto era muito importante. Cheguei ao Rio e fui direto ao Botafogo falar com o Torto e saber como ele tinha ficado noivo. Mané perguntou de onde era e expliquei. Ele lembrou logo: “Ah, já sei. É aquela cidade da Cabeluda, a carta é dela, não é?” Não me contive e falei pra ele: “Escuta, Mané, nós estivemos lá uma tarde e uma noite e você não saiu. Como é que você conheceu a Cabeluda?” Ele ainda tentou despistar dizendo que tinha sido no campo, mas ficar noivo no campo não convencia ninguém. Falei pra ele dar o serviço, afinal eu não era mais técnico e ele contou, mas antes pediu pra eu não contar nada pro Paulo Amaral, que era o técnico do Botafogo na época: “Bem, eu dava uma grana pro Domício e ele ficava no meu lugar. Eu botava nele aquele meu calção de xadrezinho e ele botava o travesseiro na cabeça. Mas eu só saí pra ir ao cinema. Ela foi comigo porque quis. Isso é onda. Depois eu voltei pra dormir. O senhor não controlava o Domício, mas depois ele medrou e eu tive de arranjar outro. Arranjei o Adalberto, mas o burrego não dorme com travesseiro na cabeça. Tenho de pensar em outro...” Ele já ia falar de seus planos, mas eu não estava querendo ser cúmplice e dei a carta pra ele e fui embora.

A gargalhada foi geral no bar. Mané não se aguentava de rir.

Garçom (rindo muito): - Esse Garrincha era uma fera. Dentro e fora do campo.

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João Sem Medo: - Saí e nem olhei pra trás, porque na certa ele estava com aquela cara de sonso e me gozando. Essa mesma de agora, olha lá. Se pro Mané todo marcador era um João, fui mais um a ser driblado por ele.

Ceguinho Torcedor: - No seu caso, o nome é esse mesmo.

João Sem Medo: - Verdade. Uns dois ou três dias depois o Paulo Amaral foi jantar na minha casa e perguntei como ia a moçada e se o Garrincha estava dando trabalho. Paulo exclamou, contente: “Vai tudo muito bem. O Mané é uma seda. Quem dera que todos fossem como ele”. Espirrei todo o café que eu estava tomando. (todos riem muito) O Paulo achou estranho, mas pra disfarçar eu disse que o café estava quente demais pra mim.

Todo mundo ri ainda mais.

Garçom: - Depois dessa, seu João, só podia chamar o Ary Lobo ao palco pra cantar mais uma música em homenagem ao grande Mané Garrincha. Venha ao palco, por favor, Ary Lobo!

Ary Lobo sobe ao palco, ainda rindo das histórias.

Ary Lobo: - Muito bom estar aqui, agradeço muito pelo convite. Aqui só tem feras. E Mané Garrincha, um gênio, vamos homenageá-lo. E João também (ri e João Sem Medo acena pra ele, rindo também). Só explicando que a música foi feita quando o Garrincha foi jogar no Corinthians.

Idiota da Objetividade: - Garrincha jogou no Corinthians em 1966, por pouco tempo, fez apenas 13 jogos, mas foi campeão do Torneio Rio-São Paulo pelo Timão, com um gol em seis partidas. Mas aquele torneio não foi até o fim por falta de datas, devido à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo da Inglaterra. Então, além do Corinthians, foram declarados campeões o Botafogo, o Vasco e o Santos, os times que disputariam o quadrangular final da competição. Depois disso, o Rio-São Paulo só voltaria a ser disputado em 1993.

Ceguinho Torcedor: - Nada passa pelo nosso copydesk. Vamos à música!

Ary Lobo: - Maravilha. Vamos lá então com “O balanço do Garrincha”, de Palmeira e Celso dosSantos.

Fim do Capítulo #52

Episódio originalmente publicado em 25 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 30 de setembro de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #51

Uma coisa jogada com música - Capítulo #51

Garrincha, com Vavá atrás, se prepara para abraçar Amarildo (20) e Zagallo (encoberto), na vitória do Brasil sobre o Chile, por 4 a 2, em partida da semifinal da Copa do Mundo de 1962. Foto aprimorada por IA

A declaração do Ceguinho Torcedor de que a distensão de Pelé foi para a seleção brasileira o que a Revolução Francesa foi para NapoleãoBonaparte causou um certo burburinho, mas logo a Copa de 62 continuou sendo o tema da mesa principal do Bar Além da Imaginação.

Idiota da Objetividade: - Para se classificar, a seleção brasileira precisava ganhar da Espanha, que foi ao Chile com o húngaro Puskas e o argentino Di Stéfano, naturalizados.

Sobrenatural de Almeida: - Tapei os olhos do juiz pra ele não ver o pênalti de Nilton Santos em Collar.

Garçom: - Vi esse lance mil vezes na TV e em vídeo e ainda acho que o espanhol se jogou quando viu Nilton Santos se aproximar.

Nilton Santos se levanta em sua mesa e participa da conversa.

Nilton Santos: - Eu não podia arriscar, senti que o árbitro ia marcar a falta, então dei aqueles dois passos pra fora da área e ele caiu.

João Sem Medo: - O Nilton foi malandro, pois o árbitro viu falta e daria pênalti se percebesse que o lance tinha sido dentro da área.

Ceguinho Torcedor: - Foram os dois passos mais geniais da História do futebol!

Idiota da Objetividade: - Na cobrança da falta, Adelardo marcou de bicicleta para a Espanha, mas o juiz chileno Sergio Bustamante anulou o gol. A Espanha ficaria com 2 a 0 a seu favor e seria bem complicado para o Brasil virar. Mas a seleção brasileira teve um pênalti não marcado pelo árbitro, de Etxeberría em Amarildo, mais pro fim do jogo.

Ceguinho Torcedor: - Naquele dia fomos uma nação em pileque unânime. De pileque sem ter bebido nem água da bica. E é lindo, é gostoso, é sublime quando não há entre milhões de sujeitos, não há um sóbrio.

Todos riem.

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Idiota da Objetividade: - Os espanhóis abriram o marcador aos 34 minutos do primeiro tempo, com um gol de Adelardo.

João Sem Medo: - A Espanha era formada por uma verdadeira legião estrangeira. Puskas já havia defendido o seu país, a Hungria, em 54. E ainda tinha o Di Stéfano, argentino.

Ceguinho Torcedor: - O primeiro gol do Brasil foi a obra de um possesso. Apesar da estúpida distância física, todo o Brasil era testemunha visual e auditivo de cada lance da partida. E eu vi, no momento do gol, vi Amarildo, a cara, o peito, a loucura de Amarildo.

Idiota da Objetividade: - Amarildo empatou para a seleção brasileira aos 26 minutos da etapa final e marcou o da virada aos 40.

João Sem Medo: - Foi um jogo dificílimo, como era previsto, aliás. Mas estávamos certos de que Amarildo seria uma solução feliz na triste emergência de não podermos mais contar com Pelé. E o garoto abusado do Botafogo não nos decepcionou. O que nos surpreendeu foi sua timidez inicial naquele jogo. Mas no segundo tempo foi um deus nos acuda. Parecia que a jaula tinha sido aberta naquele momento e a fera estava solta. Com que ímpeto, com que disposição, com que peito, Amarildo entrou no meio de quatro espanhóis para marcar o primeiro gol. Com que coragem enfrentou a dura defesa espanhola nos momentos mais difíceis e, apesar disso, com que paciência suportou as entradas violentas. Desmentiu assim os que diziam que sua escalação era uma expulsão em potencial, pois julgavam que se irritaria no primeiro encontrão. Mas ele não ficou no primeiro gol e soube aguardar, no lugar exato, o cruzamento de Garrincha, limitando-se a cumprimentar o goleiro com uma cabeçada digna de Heleno de Freitas, pela consciência com que foi desferida.

Ceguinho Torcedor: - No segundo gol, Mané deu uns dez salames dionisíacos. Comeu, com aquele apetite imortal, toda a defesa inimiga. E comeu o juiz, comeu o bandeirinha...

João Sem Medo: - Ô, Ceguinho, foi então uma suruba!

O público cai na gargalhada.

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Ceguinho Torcedor: - É que às vezes uso palavras e termos antigos, meu amigo. Comer era driblar. Você bem sabe, João.

João Sem Medo: - Sei. Falei de Amarildo, mas Garrincha teve tantos méritos quanto ele, acho que até mais, pois foi agressivo em toda a partida, enquanto só abriram a jaula do Amarildo no segundo tempo.

Garçom: - É só falar em Garrincha que vou logo me lembrando das várias músicas que ele ainda recebe como homenagem. Se me permitem, vou pôr aqui no nosso som, uma do flautista Márcio Menezes, instrumental, muito boa. Chama-se “De Mané pra Garrincha”.


O povo do bar curte muito a música, cumprimenta ou acena para Mané, que ao lado de Elza Soares apenas sorri. Enquanto faz os seus pedidos aos garçons, a turma do Além da Imaginação bate um papo, vai ao banheiro, dá uma esticada nas pernas... Finalizada a música, que agradou bastante a todos, João Sem Medo retoma a pelota com rapidez para concluir seu raciocínio.

João Sem Medo: - Talvez eu tenha me empolgado por Amarildo pelo fato de ser o seu jogo de estreia, enquanto que já estávamos acostumados com o Garrincha, que aliás tinha mesmo um apetite imortal. Fui técnico e diretor dele no Botafogo e o cara driblava todo mundo também fora das quatro linhas.

Mané solta uma sonora gargalhada e é acompanhado pelo público.

Garçom: - Na minha infância, a garotada falava que tinha dado um “come” quando driblava alguém.

Ceguinho Torcedor: - Viu, o Zé Ary me entende. Mas o Mané fez tudo isso com uma saúde de passarinho. E tudo isso com alegria, com bondade, com pureza. No fim, não havia mais ninguém pra driblar, ninguém. E então Mané, que tudo via, tudo sabia, passa para Amarildo. Mas não foi um passe qualquer. Nem a cabeça de São João Batista foi tão na bandeja como aquela bola do Garrincha. E estava lá o possesso, Amarildo, o rútilo epilético. E então ele enfiou a sua cabeçada mortal. Aquilo era o Brasil!

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João Sem Medo: - Garrincha fez de tudo naquela Copa. Fez até o que não estava habituado a fazer, gols de fora da área, de cabeça, de canhota...

Garçom (aos músicos e à mesa principal): - Vamos a mais uma pra homenagear o grande Mané?

Todos concordam. E Garrincha é todo sorriso.

Músico: - Zé Ary, vamos convidar ao palco, então, o Manduka. Onde você está, Manduka?

Manduka: - Opa, aqui. Vamos lá!

Manduka vai ao palco, mas antes dá um forte abraço em Garrincha, e é aplaudido.

Manduka: - Obrigado. Muito obrigado. Grande Mané, que prazer! Prazer estar aqui e ouvir tantas histórias maravilhosas. “Mané Garrincha” é o título desta música. Simbora!


Fim do Capítulo #51

Episódio originalmente publicado em 18 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 9 de setembro de 2026.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #50

Uma coisa jogada com música - Capítulo #50

Pelé se lesiona contra os tchecos e fica fora do restante da Copa de 62. Foto aprimorada com IA 

Após a apresentação de Jackson do Pandeiro, com o “Frevo do bi”, a Copa de 62 passou a ser relembrada com detalhes e brilhantismo pelos amigos no bar Além da Imaginação.

Idiota da Objetividade: - A seleção brasileira em 1962 não deu show como em 58, mas jogou pra ganhar, que é o que interessa.

Ceguinho Torcedor: - Foi um futebol sofrido, quase feio, um duro futebol de cara amarrada. Jogávamos sim, pra vencer. Amarildo, o dostoeivskiano, enfiava-se pela área como um rútilo epilético. Ao marcar os dois gols da vitória sobre a Espanha já pendia do seu lábio uma baba elástica e bovina. Na final, quando os tchecos fizeram o primeiro gol, pensamos em 50, mas Amarildo apanhou a bola e partiu para o gol. Antes que o adversário pudesse esboçar o ferrolho, Amarildo dribla um, dois. O goleiro sai para cortar o centro. Era chegado o grande momento. E, então, o Possesso enfia uma bomba entre o goleiro e a trave. Amarildo nunca foi tão dostoeiviskiano como no segundo gol. Driblou não sei quantos e deu para Zito marcar. Após o terceirogol, a Tchecoslováquia estrebuchou, pôs fogo nas narinas como o Dragão de São Jorge. Naquele dia, o Brasil mostrou a potencialidade criadora de um povo de napoleões.

João Sem Medo: - Que maravilha, Ceguinho!

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Músico: - Depois de toda essa efusividade de nosso brilhante Ceguinho Torcedor, só tocando uma, ou melhor, duas músicas que têm o mesmo nome, “Brasil bi-campeão”, uma gravada antes e outra após a Copa de 62.

A banda que está no palco com auxílio de um coro infantil executa, então, a composição do Padre Ralfy Mendes, gravada originalmente pelos Pequenos Cantores da Guanabara. Logo em seguida a um breve diálogo, é executada a música de Umberto Silva e Lewis Jr., que havia sido gravada ainda em 62 pelo Coro do Clube do Guri.

Muitos aplausos. E o papo volta à mesa.

João Sem Medo: - Pelé se machucou na segunda partida e não pôde jogar mais naquela Copa.  

Músico: - Sim, na próxima música, gravada após a conquista do bi, fala do desfalque do Rei, cita todos os jogadores convocados e já se anuncia o tri.

Garçom: - Que não viria em 66, mas em 70, como todos sabem... Vamos ouvir, então, “Brasil bi-campeão”!

Clique aqui para ouvir a música

Todos dançam e curtem muito como se comemorassem de novo o bicampeonato mundial. No fim, muitos aplausos. E rápido como uma flecha, o nosso copydesk pega a bola e parte pro ataque.

Idiota da Objetividade: - O técnico Aymoré Moreira levou para o Chile 14 jogadores que haviam sido campeões em 58. Trocou apenas DeSordi por Jair Marinho, na lateral-direita; Orlando por Jurandir, na zaga; Oreco por Altair, na lateral-esquerda; Dino Sani, Moacir e Dida por Zequinha e Mengálvio no meio; Joel por Jair da Costa na ponta-direita, e Mazzola por Amarildo e Coutinho no ataque.

João Sem Medo: - Apesar da experiência e de termos praticamente o mesmo time de 58, estreamos contra o fraco time do México comuma vitória de 2 a 0 que não credenciaria ninguém a ser campeão do mundo. Pelé sofreu com Vavá, que estava uma gracinha. O ataque esteve muito mal mesmo, nunca se entrosou naquele dia. Mas vencemos o primeiro jogo e o que mais interessa senão a vitória?

Idiota da Objetividade: - Os gols do Brasil foram feitos no segundo tempo, por Zagallo e Pelé.

Ceguinho Torcedor: - Amigos, qualquer brasileiro, vivo ou morto, só pensava no escrete. Até o grã-finismo se incorporou à torcida brasileira e com que ferocidade! Na tarde de Brasil x México eu fui dar uma olhada no Country. Todo mundo lá estava atracado ao radinho de pilha. Quando Zagallo enfiou o primeiro gol, vi um grã-fino tornar-se elástico, alado, acrobático e virar uma delirante cambalhota.

Risada geral no bar.

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Idiota da Objetividade: - O segundo jogo foi contra a Tchecoslováquia e houve empate sem gols. Pelé se machucou aos 27 minutos dejogo e, como não era permitido fazer substituições, ele ficou em campo fazendo número apenas.

Pelé se levanta e pede a palavra.

Pelé: - Eu senti que era grave depois que eu chutei a bola. Não sei se quem esteve lá se lembra, eu bati de esquerda, a bola bateu na trave e quando quis acompanhar a jogada, eu senti que a perna bambeou. Mas eu tentei ir e aí não deu pra firmar a perna e eu caí, pois teve um desagarro muito grande no adutor. O músculo desprendeu. Ainda forcei, saí de campo pra ver se dava pra voltar, mas não deu.

João Sem Medo: - E talvez tenha agravado a sua lesão, Pelé. O Brasil ficou praticamente com um jogador a menos até o fim.

Pelé: - É, João. Nesse jogo teve um fato bonito. Tem uma hora que eu já estou machucado e estou com a bola mais ou menos na lateral, acho que foi o Masopust, não sei qual jogador da Tchecoslováquia que ele para e não dá o combate, ele espera eu fazer a jogada.

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João Sem Medo: - Talvez tenha sido a primeira vez que presenciei dois times satisfeitos com um resultado, contentando-se com o empate em branco, sem que ninguém possa afirmar que o jogo tivesse sido marmelada.

Pelé concorda com a cabeça e se senta novamente, enquanto o papo continua à mesa principal.

Idiota da Objetividade: - Mas o Brasil pôs duas bolas na trave...

João Sem Medo: - A verdade é que aquele jogo teve o grande mérito de mostrar a personalidade do quadro brasileiro. Mesmo sem uma peça-chave, como Pelé, nossos jogadores nunca se perturbaram. E nisso tudo é justo que se destaque a categoria, a frieza, a inteligência, inconfundíveis do extraordinário Didi. Os tchecos também não se empolgaram com a vantagem numérica, entraram em campo para obter a classificação. Jogaram como se fosse 11 contra 11. Não fosse isso e nos teríamos estrepado de verde e amarelo. Vavá, embora lutasse muito, foi mal outra vez.

Ceguinho Torcedor: - E Amarildo não ia entrar, em hipótese nenhuma. Com suicida teimosia, o Aymoré estava disposto a deixar o Amarildo na cerca. Não percebia que o craque alvinegro é possesso e que o ataque precisava de possessos. E, súbito, a Fatalidade põe o dedo no escrete do Brasil. Pelé, o Divino, sofre a distensão mágica. Não recebeu nem um leve, imponderável toque. E caiu. Caiu como e por quê? Ninguém soube, mas eu sim: - a Fatalidade de Perez Escrich, que reabilitava e promovia suas adúlteras invocando a Fatalidade. A distensão de Pelé foi como a Revolução Francesa para Napoleão.

Fim do Capítulo #50

Episódio originalmente publicado em 11 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 23 de agosto de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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terça-feira, 14 de julho de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #49

Uma coisa jogada com música - Capítulo #48

Garrincha dribla Gràcia (10), observado por Rodri (17) e Adelardo, no jogo Brasil 2 x 1 Espanha, em Viña del Mar, pela Copa de 62. Foto (editada e aprimorada com IA): Ultima Hora/Folhapress

Zé Ary aproveita a breve dispersão do público e uma pausa na resenha da mesa principal do bar Além da Imaginação após a execução de “Escolade Feola” para pôr no aparelho de som “Brasil campeão do mundo”, de Aldemar Paiva e Nelson Ferreira, interpretada por Claudionor Germano, acompanhado por orquestra e o Coro Mocambo.

Clique aqui para ouvir
a música "Brasil campeão do mundo"

Com o fim da execução de mais uma homenagem à seleção brasileira de 1958, Vicente Feola voltou a ser o tema da mesa.

João Sem Medo: - Em clube, Feola só dirigiu o São Paulo e o Boca Juniors, da Argentina.

Idiota da Objetividade: - Tudo indicava que Feola fosse o técnico na Copa de 62.

Garçom: - Garrincha ganhou aquela Copa pra gente, não foi?

João Sem Medo: - Pra começo de conversa, gosto de afirmar que se Garrincha fosse espanhol, a Espanha teria ganho o negócio. Se fosse inglês, naquele dia dos 3 a 1, nós teríamos entrado pelo cano para os ingleses. Mesmo contra o impetuoso, mas modesto Chile, se o Mané não mete aqueles dois logo de cara, confesso que não arriscaria nada. Se estou dando berro a favor de Mané Garrincha é porque jamais se pode admitir que lhe roubassem outra vez um título que, de justiça, já deveria ter lhe pertencido desde 58, quando entrou num time que vinha jogando mais ou menos, igual aos outros, e que depois da entrada do cobra no jogo contra a Rússia passou a ser uma máquina infernal. Viva Garrincha! Daqui a 400 anos, toda vez que falarem de futebol terão de falar de Mané Garrincha.

Ovacionado mais uma vez pelo público presente ao bar, Mané Garrincha se levanta e agradece mais uma vez a todos, em especial a João Sem Medo. Zé Ary aproveita a deixa.

Garçom: - Vamos aproveitar para homenagear mais uma vez Mané Garrincha, então?

Músico: - Claro que sim, como se vê todos concordam. Vamos chamar ao palco o grande saxofonista Luiz Americano, um mestre do nosso choro.

Luiz Americano vai ao palco aplaudido por todos.

Luiz Americano: - Obrigado! Se é pra enaltecer este grande gênio do nosso futebol, a música chama-se simplesmente “Garrincha”.

Músico: - E isso resume tudo, vocês vão ver. Ou melhor, ouvir.

O público no bar caiu na gargalhada com a maestria de Luiz Americano ao representar no saxofone as risadas dos torcedores com os dribles do Mané. João Sem Medo, Ceguinho Torcedor e Sobrenatural de Almeida se levantam para aplaudi-lo de pé, juntamente com todos que estavam no Além da Imaginação. Uma epopeia!

Veja também:
Garrincha, 77
Dom de jogar bola e o Bolero de Ravel

Rindo muito, Garrincha vai ao palco e dá um abraço apertado no saxofonista.

Luiz Americano (emocionado): - Muito obrigado! Muito obrigado! Muito obrigado por tudo, Mané.

Ambos saem do palco abraçados como se fossem amigos de longa data. E a resenha volta a esquentar.

Ceguinho Torcedor: - A partir da vitória de 62 sumiram todos os imbecis, não havia mais um idiota nesta Terra. Passamos a ser 75 milhões de reis, até mesmo o bêbado tombado na sarjeta, com a cara enfiada no ralo, também era rei. Ninguém tinha dúvidas da vitória. E sofríamos porque há também a angústia da certeza. Amigos, nunca foi tão fácil ser profeta. Nós sentíamos o Bi, nós o apalpávamos, nós o farejávamos.

Sobrenatural de Almeida: - Tirei o Pelé de campo e da Copa contra a Tchecoslováquia pra provar que o Brasil podia vencer sem seu rei.

Ceguinho Torcedor: - Feliz o povo que, na vaga de um gênio, põe outro gênio. Amarildo, o Possesso, surgiu contra a Espanha e foi o novo Pelé proclamado. E Garrincha? Foi o gênio duplo do escrete. Era genial por si e por Pelé.

Garçom: - E pra cantar os nossos gênios da bola, só mesmo mais um gênio da nossa música. Jackson do Pandeiro, por favor, venha ao palco.

Sob aplausos, Jackson do Pandeiro se encaminha para o palco e, sem perder tempo, vai direto ao assunto com a banda.

Todos aplaudem muito.

Jackson do Pandeiro: - Este foi o “Frevo do bi”, composto por Braz Marques e Diógenes Bezerra. Muito obrigado, minha gente! Em especial o meu agradecimento vai pro Zé Ary, que se mostrou um grande dançarino.

Todos riem. E aplaudem.

Veja também:

Jackson do Pandeiro: - Só um esclarecimento: esta música foi feita e gravada antes da Copa de 62.

Garçom: - Ah, por isso a letra fala tanto do Pelé, que acabou jogando só duas partidas.

Jackson do Pandeiro: - Isso mesmo. Obrigado.

Jackson do Pandeiro sai do palco aplaudido de pé e se direciona à sua mesa.

Fim do Capítulo #49

Episódio originalmente publicado em 4 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 14 de julho de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #52

Uma coisa jogada com música - Capítulo #52 Garrincha, em 1966, quando atuou pel...

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