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| Garrincha, em 1966, quando atuou pelo Corinthians e foi campeão do Torneio Rio-SP. Foto aprimorada por IA |
Ceguinho Torcedor: - O poeta e psicanalista Hélio Pelegrino, que poderia estar aqui conosco, mas não está, tinha razão quando afirmava que Garrincha era a maior sanidade do Brasil. O próprio Freud, se tivesse conhecido o Mané, havia de reconhecer com a humildade dos sábios: “Rapaz, se todo mundo tivesse a tua sanidade, eu ia acabar apanhando papel na esquina”. Enquanto todo mundo estava emocionalmente em pandarecos, Mané pegava a bola, era o mesmo, sempre o mesmo, eternamente o mesmo. Assim na Terra como no Céu.
Ao fim do vídeo, todos aplaudem muito. Garrincha, emocionado,
se levanta e agradece.
Garrincha: - Poxa, que homenagem bonita. Muito obrigado ao Antonio
Nóbrega. Rapaz, o cara dança muito!
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Todo mundo aplaude ainda mais, de pé. Ao cessarem os
aplausos, João Sem Medo retoma a pelota.
João Sem Medo: - Olha, meus amigos, vou aproveitar
pra contar outra história do Garrincha. Ouça aí, Mané, e me interrompa se eu
estiver mentindo, por favor.
Garrincha (rindo): - Pode deixar, seu João. Pode mentir à vontade.
Todos riem muito.
Garrincha (rindo ainda mais): – Brincadeira.
João Sem Medo (rindo também): - Assim você me derruba, Mané.
Sobrenatural de Almeida: - Com drible de corpo, João!
João Sem Medo: - Pois é. Mas deixa eu contar a história. Em 57, depois que
estreei como técnico do Botafogo num empate em 2 a 2 com o Palmeiras, no
Pacaembu, pelo Rio-São Paulo, fomos fazer um amistoso em Londrina, com o time
entre as traças. Os homens do local, assim que chegamos, foram logo avisando
que se não escalássemos o time titular completo, a cota seria cortada.
Empatamos em 1 a 1 e olhe lá. Nosso time terminou o jogo que dava pena. No
hotel, na hora da janta, decretei que ninguém sairia do hotel no dia seguinte,
porque já tínhamos viagem marcada dois dias depois pro Norte do país e de lá
pra Venezuela. Nilton Santos disse que se a sobremesa demorasse ele dormiria
ali mesmo. Não foi, Nilton?
Nilton Santos: - Verdade, seu João! Estava todo mundo no bagaço.
João Sem Medo: - Um ainda tentou pedir pra dar uma voltinha na praça, mas
bati pé firme. Não houve problema, todos ficaram no hotel. Garrincha nem comeu
a sobremesa, botou a mão na boca e foi dormir. Ali pelas dez da noite dei uma
controlada e lá estava o Mané ferrado no sono direto, com um calção preto e
branco em quadrinhos que durante muito tempo foi seu inconfundível pijama.
Garrincha: - Tinha até me esquecido dele, boa lembrança.
Sobrenatural de Almeida: - Que memória! Assombrosa!hahaha
Risada geral no bar.
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João Sem Medo: - Bom, voltamos pro Rio e eu todo glorioso, não com os dois
empates, que não tinham sido grande coisa, mas diante das circunstâncias
poderiam ser considerados bons. A glória maior que eu sentia era que o Mané
tinha ficado sossegado. Eu já estava achando que era uma questão de respeito, afinal
eu tinha sido diretor do clube. Grande vitória, agora tudo ia ser fácil, o
ambiente estava controlado.
Risos abafados já começavam a se ouvir na plateia, vindos
principalmente da mesa onde Garrincha se encontrava.
João Sem Medo: - Três anos e meio depois, voltei a Londrina pra comentar um
jogo do Vasco e estava parado na porta do hotel, quando chegou perto de mim uma
senhora gordona e me perguntou pra que eu confirmasse quem eu sou, então ela
disse que era a mãe da noiva do Garrincha e que a filha precisava mandar uma
carta pra ele. E me perguntou se eu podia levar a carta e falar com o Mané.
Olhei pro lado e vi uma baixinha com uma cabeleira que dava volta no pescoço,
parecendo um cachecol, com a cara muito séria, a carta na mão e uma criancinha
no colo. Fiquei meio ressabiado, e as convidei pra entrar, porque notei que
queriam falar alguma coisa. Mas eu estava intrigado, o Garrincha já era campeão
do mundo. Perguntei à baixinha onde ela tinha conhecido o Garrincha e ela
respondeu: “Aqui mesmo, quando ele veio com o Botafogo foi que ficamos noivos”.
Os risos passaram a ser bem menos discretos a partir daí.
João Sem Medo: - Recapitulei de memória a viagem a Londrina, mas fiquei na
minha e perguntei o que queriam que eu fizesse. Aí a mãe, em tom mais enérgico, falou que queria que eu garantisse que Garrincha receberia a carta, pois já
tinham mandado outras sem terem resposta. E fechou dizendo que o assunto era
muito importante. Cheguei ao Rio e fui direto ao Botafogo falar com o Torto e
saber como ele tinha ficado noivo. Mané perguntou de onde era e expliquei. Ele
lembrou logo: “Ah, já sei. É aquela cidade da Cabeluda, a carta é dela, não é?”
Não me contive e falei pra ele: “Escuta, Mané, nós estivemos lá uma tarde e uma
noite e você não saiu. Como é que você conheceu a Cabeluda?” Ele ainda tentou
despistar dizendo que tinha sido no campo, mas ficar noivo no campo não
convencia ninguém. Falei pra ele dar o serviço, afinal eu não era mais técnico
e ele contou, mas antes pediu pra eu não contar nada pro Paulo Amaral, que era
o técnico do Botafogo na época: “Bem, eu dava uma grana pro Domício e ele
ficava no meu lugar. Eu botava nele aquele meu calção de xadrezinho e ele
botava o travesseiro na cabeça. Mas eu só saí pra ir ao cinema. Ela foi comigo
porque quis. Isso é onda. Depois eu voltei pra dormir. O senhor não controlava
o Domício, mas depois ele medrou e eu tive de arranjar outro. Arranjei o
Adalberto, mas o burrego não dorme com travesseiro na cabeça. Tenho de pensar
em outro...” Ele já ia falar de seus planos, mas eu não estava querendo ser
cúmplice e dei a carta pra ele e fui embora.
A gargalhada foi geral no bar. Mané não se aguentava de rir.
Garçom (rindo muito): - Esse Garrincha era uma fera.
Dentro e fora do campo.
Veja também:
João Sem Medo: - Saí e nem olhei pra trás, porque
na certa ele estava com aquela cara de sonso e me gozando. Essa mesma de agora, olha lá.
Se pro Mané todo marcador era um João, fui mais um a ser driblado por ele.
Ceguinho Torcedor: - No seu caso, o nome é esse mesmo.
João Sem Medo: - Verdade. Uns dois ou três dias
depois o Paulo Amaral foi jantar na minha casa e perguntei como ia a moçada e
se o Garrincha estava dando trabalho. Paulo exclamou, contente: “Vai tudo muito
bem. O Mané é uma seda. Quem dera que todos fossem como ele”. Espirrei todo o
café que eu estava tomando. (todos riem
muito) O Paulo achou estranho, mas pra disfarçar eu disse que o café estava
quente demais pra mim.
Todo mundo ri ainda mais.
Garçom: - Depois dessa, seu João, só podia chamar o Ary Lobo ao palco pra cantar
mais uma música em homenagem ao grande Mané Garrincha. Venha ao palco, por
favor, Ary Lobo!
Ary Lobo sobe ao palco, ainda rindo das histórias.
Ary Lobo: - Muito bom estar aqui, agradeço muito pelo convite. Aqui só tem feras.
E Mané Garrincha, um gênio, vamos homenageá-lo. E João também (ri e João Sem
Medo acena pra ele, rindo também). Só explicando que a música foi feita quando
o Garrincha foi jogar no Corinthians.
Idiota da Objetividade: - Garrincha jogou no Corinthians em 1966, por pouco
tempo, fez apenas 13 jogos, mas foi campeão do Torneio Rio-São Paulo pelo
Timão, com um gol em seis partidas. Mas aquele torneio não foi até o fim por falta de datas, devido à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo da Inglaterra. Então, além do Corinthians, foram declarados campeões o Botafogo, o Vasco e o Santos, os times que disputariam o quadrangular final da competição. Depois disso, o Rio-São Paulo só voltaria a ser disputado em 1993.
Ceguinho Torcedor: - Nada passa pelo nosso copydesk. Vamos à música!
Ary Lobo: - Maravilha. Vamos lá então com “O balanço do Garrincha”, de Palmeira e Celso dosSantos.
Fim do Capítulo #52
Episódio originalmente publicado em 25 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 30 de setembro de 2026.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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