quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A BRUTAL DELICADEZA DE KIESLOWSKI

O polonês Krzysztof Kieslowski soube como poucos fazer cinema com dureza – e até frieza, retratada em alguns de seus personagens – sem ser estúpido, e com suavidade sem ser piegas. Em uma entrevista em Cannes (França), pouco tempo antes de falecer, ele demonstrou sutilmente, da mesma forma que conduzia seus filmes, que poderia ter sido levado a filmar a violência e o romantismo descartáveis: “Sou católico, batizei minha filha inclusive. Na Polônia ninguém escapa disso.”
Ele, no entanto, subverteu o que parecia inexorável. Kieslowski optou pela poesia, de versos contundentes e também ternos, como em A fraternidade é vermelha (Trois couleurs: rouge – 1994), último filme da trilogia sobre as cores da bandeira francesa e do lema de sua Revolução, além de ter sido também o derradeiro do cineasta. O encontro de Valentine (a bela Irene Jacob) com o aposentado e recluso juiz (brilhantemente interpretado por Jean-Louis Trintignant), que escuta as conversas de seus vizinhos ao telefone por intermédio de um aparelho instalado em sua casa, produz dos mais belos diálogos da história do cinema, mesmo quando não há palavras. No fim, a reunião dos principais personagens do filme com os de A liberdade é azul (Trois couleurs: bleu - 1993) e A igualdade é branca (Trois couleurs: blanc) foi feita com uma solução genial, que nas mãos de outro diretor e outro montador (Jacques Witta), poderia ter caído para o banal.
A presença marcante da música e da filosofia não acadêmica são marcas registradas da obra “kieslowskiana”. Ele mesmo admitiu que leu alguns filósofos modernos, mas sempre procurou usar sua visão de vida no olhar da câmera sem didatismos ou pedantismo. O jogo dos duplos, de personagens que se assemelham fisicamente ou por sua história de vida, aparece tanto em A dupla vida de Veronique (La double vie de Véronique – 1990) quanto em A fraternidade é vermelha. Outro detalhe interessante é ele tratar da gravidez e do instinto materno por intermédio de animais: uma rata em A liberdade é azul e a cadela que serve de elo entre Valentine e o juiz no último filme da trilogia.
Referências e influências de grandes mestres ficam nítidos para quem assiste aos filmes deste grande polonês com algum conhecimento e muita atenção. Porém, ele buscou um passo à frente em suas influências. De Luis Buñuel, por exemplo, em vez de repetir cenas, procurou criar no espectador a sensação de “deja-vu” dentro do próprio filme e fora também, como a velhinha que tenta pôr a garrafa na lixeira (veja no vídeo abaixo, ela em A liberdade é azul). Encontra-se algo de Andrei Tarkovsky numa cena de A fraternidade é vermelha em que o vento entra por uma janela e derruba um copo de café numa mesa de sinuca, em seus momentos finais. De Alfred Hitchcock, o “voyeur” de Janela indiscreta (Rear window – 1954) é uma clara inspiração para o personagem Tomas (Olaf Lubaszenko) de Não amarás (Krotki Film o Milosci - 1988), o primeiro filme que vi de Kieslowski, e que faz parte do decálogo baseado nos Dez Mandamentos produzido originalmente para a televisão e posteriormente estendido para a telona. Além deste, outro que foi para as salas de cinema é Não matarás (Krótki Film o Zabijaniu – 1988), um libelo contra a pena de morte.
Fica ali mais uma vez evidente a influência cristã em sua obra, seja para confrontá-la, questioná-la ou afirmá-la. Mas não só isso, pois um dos temas mais presentes em seus filmes é o debate sobre o destino (pré-traçado ou não) e a justiça divina e dos homens. Ele ainda escreveu um roteiro para uma outra trilogia, Paraíso, Purgatório e Inferno, baseado na épica poesia A divina comédia, de Dante Alighieri, e o primeiro chegou a ser filmado por Tom Twyker, em 2002 (ainda não vi). Kieslowski disse que estava cansado dos sets e que não filmaria mais, logo após seu último trabalho como diretor, embora tivesse deixado a incerteza no ar. Infelizmente, ele faleceu em 13 de março de 1996, aos 54 anos, na mesma Varsóvia em que nascera em 27 de junho de 1941, sem ter como descumprir sua promessa. Ficaram a sua bela obra e a referência para muitos cineastas do mundo inteiro.

Fotos: Kieslowski; Irene Jacob e Jean-Louis Trintignant, em cena de A fraternidade é vermelha, e cartaz da trilogia.
Vídeo: cenas A liberdade é azul, análise de Andrea França (coordenadora do curso de Cinema, da PUC-RJ) e entrevistas com Kieslowki.
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