UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #27
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Almir recebe abraço de Pelé após a vitória sobre o Milan, em 63. Foto: Nelson Almeida/AFP |
Em meio à festa dos bangüenses, Almir aparece de surpresa no
bar Além da Imaginação, mas desta vez em vez de socos e pontapés só houve sorrisos
e abraços, especialmente em Zé Ary, velho conhecido, João Sem Medo, Ceguinho
Torcedor, Sobrenatural de Almeida, que brincou com ele sobre o sopro no ouvido
na final de 66, e Idiota da Objetividade. Ele cumprimentou seus adversários
daquela final também e foi levado ao palco.
Garçom: - Almir, enquanto a gente vai vendo as imagens no telão, conta pra gente como foi aquela confusão toda que você armou na final de 66.
Almir: - Olha,
pra jogar aquela partida eu tomei dois Dexamil.
Idiota da Objetividade: - Pra
quem não sabe, Dexamil é anfetamina, uma droga sintética estimulante que age
diretamente no sistema nervoso central.
Almir: - Pois
então, outros jogadores tomaram também, porque naquelas horas a bolinha aparecia
não se sabe como. Havia sempre alguém oferecendo: quem quisesse tomar, tomava
mesmo. Silva não tomou, não gostava. Também não tomaram nada nossos homens do
meio-campo: Carlinhos e Nelsinho.
João Sem Medo: - Do
doping ninguém soube.
Almir: - Não,
só depois que contei a história toda no meu livro e pra revista Placar já nos
anos 70.
Idiota da Objetividade: - Toda
aquela confusão deixou você fora dos campos por quase seis meses de suspensão.
Almir: -
Verdade.
Veja também:
Ceguinho Torcedor: - Mas o
que lhe deu na cabeça, rapaz? Era pra ser uma partida genial, um dos maiores
espetáculos da Terra. A cidade estava possuída pelo jogo. Nos botecos, nas
retretas e nos velórios não se falava, não se pensava, não se sentia outra
coisa, a decisão era assunto obrigatório. Mas onde entra a paixão humana, tudo
é possível. Antes do jogo, as brigas pipocavam por todo estádio Mario Filho.
Eram cento e oitenta mil ventas incandescentes e tudo era pretexto para o
palavrão, para o insulto e para o tapa. E assim, quando os vinte e dois jogadores
entraram em campo, a paixão ardia no estádio!
Almir: - O
clima era bem esse, Seu Ceguinho! Nós ainda estávamos fazendo aquecimento
muscular no campo, batendo fotografias, dando entrevistas, quando o Sansão se
aproximou de mim e já foi advertindo: “Olha aí, Almir, eu estou de olho em
você. Muito cuidado que eu vou te expulsar”. O primeiro gol foi feito por
Ocimar, num chute mais ou menos da intermediária. Valdomiro pulou atrasado,
chegou a tocar na bola com um soco, mandando-a as redes. Estava explicado
porque ele cantava tanto dias antes...
João Sem Medo: - Ele
estava na gaveta também, Almir?
Almir: - Seu
João, havia um ambiente de revolta no vestiário. O diretor de futebol do
Flamengo, Flávio Soares de Moura, estava indignado, percebera que o Bangu
armara um esquema para ganhar o título de qualquer maneira. Ele me fez uma
pergunta não como dirigente, mas como torcedor: “Almir, eles vão dar volta
olímpica?” Não vai ter volta olímpica não, seu Flávio. Só se for do Flamengo
[...]
Garçom: - Seria
bom que o Valdomiro viesse aqui pra dar a sua versão.
Almir: - Ele
vai negar, claro. Mas também não posso provar nada, só foi muito estranho. Hoje
não tem mais briga, estamos aqui nos confraternizando, mas lá na hora, além de
nos golear, o Bangu queria ensaiar um baile. Eu já estava com raiva, e o sangue
subiu à cabeça por volta dos 25 minutos quando o Ladeira, do Bangu, discutiu
com Paulo Henrique e deu um soco na cara dele. A confusão começou ali. Depois
que o Itamar acertou o Ladeira e dei uns chutes nele, olhei os bolos de
jogadores e disse comigo mesmo: “Tudo o que estiver com camisa de listras
brancas e vermelhas é inimigo”.
Ubirajara: -
Quando você voltou pro campo eu te desafiei, Almir.
Almir: - É,
você veio com uma de valente: “Lá fora vamos resolver isso”. (risos)
Ubirajara: - Você
me deu um soco no estômago e quando me levantava pra revidar...
Almir: - O AriClemente me deu um soco.
Sobrenatural de Almeida: - Que
bafafá! Hahahaha
Almir: Foi
mesmo. Cem mil torcedores gritando “porrada, porrada, porrada...” Mas aí a
polícia veio e acabou com a festa e o juiz Airton Vieira de Moraes acabou
cumprindo bem o seu papel: expulsou cinco do Flamengo, eu, Silva, Itamar,
Valdomiro e até o Paulo Henrique, e quatro do Bangu: Ari Clemente, o Ubirajara,
Luis Alberto e Ladeira. O Flamengo ficou com menos de sete em campo e o Bangu
foi declarado vencedor.
Ubirajara: -
Merecidamente.
João Sem Medo: -
Concordo. O Bangu foi o melhor time daquele campeonato.
Músico: - Toca o hino do Bangu!
Lamartine Babo: - Marcha do Bangu, que tive o prazer de compor e o clube depois oficializou como hino, o que muito me honra.
Com todos os jogadores banguenses
daquela final de 66 cantando em alto e bom som, Almir ficou só observando,
desta vez respeitosamente. E aplaudiu no fim da cantoria.
Almir
(rindo): - Hoje não vai ter confusão.
Todos riem e aplaudem.
Ceguinho Torcedor: - O Almir merece ser lembrado também
por suas épicas atuações.
Almir: - Obrigado, seu Ceguinho. Mas deixo pros senhores contarem o resto da
história. Vou me sentar ali pra ouvir os senhores contarem as minhas histórias.
(rindo)
É aplaudido, agradece, deixa o palco.
Veja também:
João Sem Medo: - Você foi um jogador completo
depois de Pelé. Possuía técnica e habilidade apurada e tinha velocidade.
Almir: - Muito obrigado, seu João.
João Sem Medo: - Por nada, você merece. Almir substituiu Pelé na final do
Mundial Interclubes contra o Milan, em 63, quando o Santos conquistou o
bicampeonato. Ele fez um gol na vitória de 4 a 2, no segundo jogo da final, no
Maracanã, mesmo placar em favor do time italiano, em Milão, e sofreu o pênalti
que originou o gol do título santista no Maracanã, marcado pelo Dalmo.
Almir: - Deixa eu contar outra história aqui, seu João. O Amarildo desrespeitou
o Pelé depois do primeiro jogo. Disse que o Pelé estava acabado e eu não
admitia que falassem mal do Pelé. Jurei o Amarildo, dei umas pancadas nele no
Maracanã e ganhamos duas vezes deles no Rio e nos sagramos campeões.
Garçom: - Vamos aproveitar chamar aqui ao palco Francisco Egydio pra cantar duas
músicas em homenagem ao Santos.
Francisco Egydio vai ao palco muito aplaudido.
Francisco Egydio: - Muito obrigado, minha gente. Vamos cantar “O Santos ganhou”, de Nilo Silva, Mazinho e Nandinho, e depois “Glória ao Santos Futebol Clube”, de CarlosHenrique Roma e é o hino oficial do clube, menos conhecido que o popular que começa com o verso “Agora quem dá a bola é o Santos”. Vamos lá, sem pausa pra respirar!
Clique aqui para ouvir as músicas.
Fim do Capítulo #27
Episódio originalmente publicado em 3 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 27 de fevereiro de 2025.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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