Esta poesia foi escrita há cerca de 20 anos e, infelizmente, parece ainda mais atual hoje do que naquela época. Eu vivia ainda no estado do Rio de Janeiro, onde já não moro mais desde junho de 2019, mas onde vou com alguma frequência, agora espero que bem mais por estar bem menos distante. "Crônica da cidade" faz parte de uma série de poesias que escrevi nos primeiros anos deste século, retratando as contradições cariocas, como já bem descrita pela Fernanda Abreu como o "purgatório da beleza e do caos".
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| Ilustração gerada pela plataforma de inteligência artificial One Image |
Esta poesia trouxe-me um elogio, que guardo desde aqueles tempos, do saudoso escritor e jornalista Fausto Wolff. Poucos meses após a minha segunda (e menos) curta passagem pelo Jornal do Brasil, no segundo semestre de 2006, resolvi enviá-la por email ao Fausto, então colunista do JB, por entender que ela ilustrava bem o que ele havia escrito num dos seus textos publicados no jornal (em papel ainda naquele tempo). Creio que ele tenha entendido que minha pretensão era de que ele a publicasse em sua coluna e não foi por isso que lhe escrevi. No entanto, o mais importante é que ele gostou e me respondeu (em 23 de abril de 2007):
"Parabéns, Eduardo, teu poema é muito bom mas minha coluna não é o local para publicá-lo. Faço isso apenas extemporaneamente quando o assunto é jornalístico e atual. De qualquer forma quando publicar sua carta mencionarei o poema. Um abraço do amigo Fausto Wolff".
Veja também:
Os infernos de São Sebastião
Nau Poesia: A ignorância instruída
Aqui abaixo vai a poesia inteira, ainda inédita em livros:
e cinturas despidas
são o prenúncio
do rito e ritmo do baile
tomando conta da cidade
que brilha nas trevas
de baixo acima
de cima abaixo
Explode o repique interminável
de canos metálicos
e caixas de som
O hino marcial
da cidade sitiada
retumba ensurdecedor
e inicia sua peregrinação
ecoando por valas e vielas
cheias de corpos roliços,
esquálidos, esguios e estirados
numa dança libidinosa e cruel
Dedos repetem movimentos
para atirar ou seduzir
Corpos suados e surrados
encharcam fardas, bermudas,
sainhas, shortinhos, coxas e quadris
E o cheiro de pólvora e sexo
dobra as esquinas,
chega aos becos sem saída
Os gritos são de guerra
em quadras e quarteirões
emoções pulverizadas, esfumaçadas
tornam olhos cintilantes
em olhares enevoados
A noite será longa
com preces e rezas
para todo tipo de santo
e satanás
afinal o inferno aqui
fica a dois passos do paraíso
Euforia e depressão
alimentadas pelos cristais
em barracos, “apês”, coberturas,
flats e mansões
Brilho e breu
Ferocidade e languidez
se alternam e se mesclam
na noite de fúria e som.
"Dona IAIÁ" continua sendo minha única parceira musical e não tenho do que reclamar. Dela. Paciência. Até porque os resultados de uma forma geral têm me agradado. "Crônica da cidade", então, também foi enviada ao Suno para que os algoritmos musicassem seus versos, e pedi uma mistura de funk carioca, rap paulista e repente nordestino. Não foi bem isso que veio de volta, mas eu gostei e aqui vai abaixo, com um vídeo que editei a partir de imagens que pedi para a One Image produzir para mim, baseados nas estrofes da poesia.
E aí, o que você achou, qual é a sua opinião? Eu gostaria muito de saber, agradecendo desde já a sua visita ao blog. Volte sempre e, se puder, traga mais gente.
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