segunda-feira, 19 de setembro de 2011

NA DANÇA DE 'DINAM-NIETZSCHE' *

Filólogo, poeta, pianista e, mais que tudo, filósofo, Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um iconoclasta que passou a vida inteira questionando o homem e a sua vida na sociedade, que de seu tempo para cá, na essência, pouco ou nada mudou. Há algumas semanas o jornal O Globo publicou uma matéria afirmando que o estudo de Nietzsche virou moda no Rio. Depois que Che, Gandhi, Jesus Cristo e outros revolucionários foram transformados pela sociedade capitalista em ícones para ávido consumo, não é de se estranhar que o filósofo alemão também entre na dança.

Mas, quem não ficar apenas vestido com uma estampa do bigodudo na camisa saberá que a dança do autor de Assim falou Zaratustra não tem coreografia, é livre e libertadora. E saberá, a partir da leitura do que escreveu Nietzsche, que da verdade mesmo, ninguém a suporta. Para ele a vida precisava ser vivida com a linha esticada ao máximo e desancava quem vendia terrenos no céu ou transmundos, como dizia. A noção de que existe vida após a morte era inconcebível para Nietzsche. Como se vê, o debate é mais do que atual.

"Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar"

Esse alemão, que admirou e depois se afastou de Richard Wagner, elaborou o conceito do eterno retorno e do super-homem, mas não o herói de Kriptônia. Para ele, o homem deve superar-se, usando ao máximo sua sensibilidade, mas sem perder a sua racionalidade. A vontade de poder a que se refere Nietzsche é exatamente esta: a do poder sobre si mesmo. Portanto, mais um ótimo tema para a discussão dos vários vícios a que se entregou a sociedade contemporânea.

A fraqueza do homem, segundo Nietzsche, o transformou num ressentido e a compaixão, a caridade, a anulação do indivíduo pelo coletivo nasce dessa reação a que o rebanho - as massas - se entrega com devoção. O filósofo alemão pregou a transvaloração dos valores, pois entendia que os valores tradicionais, especialmente os cristãos, nada mais eram do que uma moralidade escrava. “Deus está morto”, decretou na voz de Zaratustra.

Nietzsche era autor de frases verdadeiramente bombásticas, algumas proféticas. Alguém duvida da atualidade do que disse, no século em que viveu, o XVIII: “Mais um século de jornais e as palavras se corromperão”? E, em tempos de guerras sob justificativas absurdas, há como negar que ele estivesse certo quando afirmou que “As convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras”? E quem, senão os covardes, ousaria descrer no conselho “Floresça onde você estiver plantado”?

Em suma, Nietzsche buscou em toda a sua vida o que ensinou: a busca pelo conhecimento, mas não para segui-lo como doutrina e sim para a criação, a transformação, a reinvenção do mundo. Um trabalho, sem dúvida, para um super-homem ou, numa melhor tradução, para quem busca o além do homem.

"Agora sou leve, agora eu vôo... agora um deus dança em mim"

Para quem quer mesmo conhecer esse polêmico filósofo alemão, que teve a obra deturpada pela irmã ao associá-la ao nazismo, do qual ela era simpatizante, antes mesmo de ler seus livros uma boa pedida é a biografia intelectual traçada por Rüdiger Safranski em “Nietzsche, a biografia de uma tragédia”, lançado no Brasil pela Geração Editorial.

Lá está, por exemplo: “O animal consciente homem, com horizonte de passado e futuro, raramente se satisfaz de todo com o seu presente, e por isso sente algo que certamente nenhum animal conhece, isto é, o tédio. Fugindo do tédio, essa singular criatura procura uma excitação que, se não for encontrada, tem de ser inventada. O homem se torna um animal que brinca. O jogo é uma invenção que entretém os afetos. O jogo é a arte de auto-excitação dos afetos, a música, por exemplo. A fórmula antropológico-fisiológica para o segredo da arte é pois: a fuga do tédio é a mãe das artes.

Mini-biografia - Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Rocken, na Saxônia, e perdeu seu pai, que era luterano, aos cinco anos de idade. Foi criado pela mãe com sua avó, duas tias e uma irmã. Estudou filologia em Bonn e Leipzig e com 24 anos já era professor. No entanto, a prejudicada visão e as fortes dores de cabeça que o perseguiram até o fim da vida, em 25 de agosto de 1900, em Weimar, causaram a sua aposentadoria precoce em 1879. Dez anos depois ele sofreu um grave problema mental do qual nunca se recuperou.

Além da influência da cultura grega, da qual era mestre, Nietzsche foi influenciado por outro filósofo alemão, Schopenhauer, pela teoria da evolução e pelo seu amigo compositor Richard Wagner. Mas a todos questionou, afastou-se e criou seus próprios conceitos.

Entre seus principais livros estão O Nascimento da Tragédia (1872), Assim falou Zaratustra, um livro para todos e para ninguém (1883-85), Além do Bem e do Mal (1886), Sobre a Genealogia da Moral (1887), O Anticristo (1888), Ecce Homo (1889) e A Vontade de Poder (1901).

“Conheço minha sina. Algum dia meu nome estará ligado a qualquer coisa enorme – a uma crise como nunca houve na terra, ao mais profundo conflito de consciência, a uma decisão invocada contra tudo aquilo que, até aqui, se acreditou, se estimulou, se santificou. Eu não sou um ser humano, sou dinamite...” “...Tenho um medo horrível de que um dia me proclamem santo.” (Fridriech Nietzsche, em Ecce Homo)

* Este texto foi escrito em 2003

Veja também:
O Grande Ditador, uma Obra-Prima de 70 Anos

terça-feira, 30 de agosto de 2011

UMA VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO COM LOREENA MCKENITT


Muito além de gostar, há alguns tipos de música que me fazem viajar no tempo e no espaço. Que me carregam para épocas que – ao menos na minha consciência – não vivi e a locais onde nunca estive – pelo menos nestes 45 anos que conto desde 20 de julho de 1966. As sonoridades das músicas celta e moura sempre conseguiram me transportar para além de mim, por isso sempre me comoveram muito. Lógico que falo da música como um elemento de arte que me é mais acessível, e com a qual sempre me identifiquei, embora nunca tenha conseguido aprender a tocar um instrumento sequer, o máximo é vez por outra cantar apenas razoavelmente.

Nas minhas viagens musicais, nas pesquisas que faço via youtube, achei vídeos de Loreena McKenitt de um DVD que me chapou de cara: Nights from the Alhambra. Divulguei algumas músicas pelo facebook, onde às vezes faço as vezes de radialista/DJ mostrando o que curto e descobertas que faço. Pois bem, já conhecia Loreena por intermédio de amigos e, posteriormente, pela trilha do filme As Brumas de Avalon. Mas vendo os vídeos desse DVD repeti tantas vezes que queria comprar um dia, que o ganhei da minha amada namorada, como presente de aniversário.

E assistindo ao show inteiro no estonteante palácio de Carlos V em Granada, Espanha, retomei a lembrança de quanto estou ligado à Andaluzia. É um espetáculo único, extraordinário. A voz de Loreena, a harpa, o acordeão e o piano que ela toca, e os músicos que reuniu, cada um com um instrumento mais belo que outro, fizeram-me transcender, ir aos locais mais bonitos de mim mesmo. Nunca saí do Brasil, tenho certas desconfianças quanto à reencarnação (minha tese pseudocientífica é outra), mas tenho absoluta certeza de que algo em mim já esteve nas terras pagãs da Irlanda, Escócia e País de Gales e, obviamente, pelos meus sobrenomes (Lamas, espanhol, e Neiva, português), sofri forte influência da presença moura na Europa.

Loreena me leva a lugares onde nunca estive, mas ao qual pertenço de alguma forma. Claro que já ouvi muita coisa do folk britânico – fortemente influenciado pelos celtas – e da música moura que me comoveram e me fizeram viajar, mas em músicas separadas. Jethro Tull, Led Zeppelin, The Coors, Madredeus – com a encantadora Teresa Salgueiro - cantaram e tocaram músicas que vinham dos bosques e dos desertos. E ressalto aqui também a força que a música moura tem na música nordestina do Brasil. Mas sempre contendo um elemento ou outro, nunca os dois juntos.

No entanto, a canadense Loreena teve a felicidade e capacidade de reunir os dois elementos nas mesmas músicas – e ainda acrescentar o canto gregoriano em The Mystic’s Dream. É extremamente comovente quando se interage desta forma com um artista, e foi com muita emoção que percebi que já viajei por muitas partes do mundo, em tempos muito distantes, nem que tenha sido apenas pelo meu “sub-inconsciente”. É de arrepiar.


Vídeo: The Mystic's Dream (Loreena McKenitt)
Veja também: o que foi publicado em setembro de 2010
Os Sopros Mágicos de Carlos Malta

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A CONVERSA CONTINUA...

Outro dia, tive o prazer de me encontrar por acaso com meu amigo Ecio, um cinéfilo apaixonado por trilhas sonoras para filmes, e na conversa no ônibus, em dado momento, ele disse que concordava com a tese de que tudo o que havia de ser criado (ele se referia a cinema e a música, mas creio que estenderia a outras formas de arte) já foi feito e que nos últimos tempos só há repetições, adaptações, recriações. Na hora assenti, e citamos Shakespeare, Beethoven, Victor Hugo e Chacrinha, o autor da célebre frase “nada se cria, tudo se copia”.

Mas uma conversa nunca termina quando me despeço, ela segue em minha cabeça. Rememoro falas, idéias e pensamentos, angustio-me com algo que poderia ter dito e deixei passar, histórias que comecei ou o interlocutor iniciou e ficou parada no ar, e crio diálogos que não aconteceram, mas que bem poderiam. E o papo só acaba mesmo quando me esqueço dele. Como se vê, ele ainda não acabou.

É que, mesmo já tendo questionado várias vezes o que seria espontâneo hoje nas manifestações artísticas – e esse hoje abrange um período que vai além da metade que conto de vida – não posso, simplesmente não posso e não quero crer que nada mais possa ser efetivamente novo, surpreendente, espontâneo. Porque o dia que eu acreditar nisso, eu paro. E não quero, simplesmente não posso parar. Continuo a busca e enquanto isso vou me salvando de mim mesmo.


Vídeo: Sinfonia número 3 (A Heróica) - Movimentos 3 e 4 - de Beethoven (regida pelo maestro Gustavo Dudamel), com a Orquestra Sinfônica Simon Bolívar.
Veja também:
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