domingo, 9 de julho de 2017

A SÍNDROME DO FUTEBOL

"O outro é seu espelho", retirado deste site:
https://www.o-curador.com/
No auge da minha vida como torcedor, naqueles anos em que minha paixão pelo futebol foi mais latente, entre os 7, 8 até 21, 22 anos, havia algo que me incomodava um pouco toda vez que vibrava muito com uma grande vitória ou conquista do meu time. Ficava e continuava alegre, mas dentro de mim havia um vácuo que, creio até ter identificado em alguns daqueles momentos, embora tenha deixado de lado com o passar do tempo. Trabalhei dentro do futebol como jornalista a partir do início dos anos 90 até 2013, com poucas interrupções. E conhecendo melhor tudo o que move este esporte que virou um grande (e muitas vezes escuso) negócio - justamente porque move paixões exacerbadas -, e observando bem colegas, amigos, conhecidos e até desconhecidos, fui tomando maior consciência do que significava aquele vazio em mim nos grandes momentos de glória do meu time: eu não havia conquistado nada.

Esta talvez seja a grande questão que faz das torcidas de futebol ao mesmo tempo um espetáculo lindo e também um cenário de horror pior que as piores selvagerias coletivas. O torcedor de futebol raramente é um apaixonado por futebol. E muitas vezes nem é apaixonado pelo seu time. Explico melhor um corriqueiro caso específico: a pessoa tem um time desde criança, porque seus amigos também têm, e passa algumas vezes boa parte da infância e até da adolescência sem dar muita atenção àquilo. Porém, quando as frustrações da vida adulta começam a bater à sua porta, passam a lhe corroer as entranhas, quando percebe que o tempo está passando e ele pouco se realiza, ou nada preenche o enorme vazio que construiu para a sua vida, agarra-se àquela ilusão infantilóide e perversa de que o time de futebol vai redimir tudo aquilo que ele não realizou e não faz para alcançar.

Vi isso muitas vezes não só nos estádios de futebol, nas mesas de bar, até mesmo nas redações em que trabalhei, e recentemente nas redes sociais, mas também nas peladas que joguei e deixei de jogar justamente porque queria me divertir e não mais disputar uma "final de Copa do Mundo" - sonho que já havia deixado para trás nos tempos em que vivia o tal auge como torcedor. É complexo lidar com uma massa de olhos vendados por uma ilusão a preencher vazios existenciais. E muito rentável também. Muito, mas para poucos. Isso só gera desilusão, frustração, e a violência advém daí, porque este tipo de torcedor, o que se agarra à superação de seus rancores por intermédio das vitórias e conquistas de seu clube não pretende só ser feliz com a felicidade que pensa ter, porque ela é insuficiente, afinal uma ilusão no fim das contas nada preenche. Ele quer ser feliz com a infelicidade do outro, do adversário, do rival, que na sua cabeça doentia é um inimigo. E busca no seu ódio por si mesmo provocar, xingar, ofender e agredir fisicamente o outro, aquele que veste a camisa "inimiga". Destilada a sua ira no espancamento, tiro, uso de arma branca ou fogos de artifício, o ato final, ele ainda crê em sua redenção. É a demência brutal e perversa alimentando a estupidez, a ignorância, a crueldade.

Sempre fui apaixonado por futebol - e continuo sendo, embora muito decepcionado com o nível técnico dos times brasileiros nas últimas décadas. E mais ainda com o show de horrores que esses pseudo-torcedores vêm protagonizando dentro e fora dos estádios já há muitos anos. Sempre assistia com prazer a jogos dos mais variados times e campeonatos do Brasil nos meus áureos tempos de torcedor. Acompanhei e vibrei muito com muito do que vi nos estádios e pela TV ou ouvi pelo rádio, um companheiro inseparável naqueles tempos. No entanto, havia o tal vácuo e tomei consciência dele. Há tempos, ele não existe mais, porque percebi que tenho de preencher meus vazios existenciais com minhas conquistas pessoais e fazer com que elas - na medida do possível - ajudem outras pessoas a se sentirem assim também. E não falo de sucesso profissional apenas, mas em todos os campos. E isso é uma busca incessante, que não acaba, só com a morte - ou talvez nem com ela, se significar um renascimento. Fico alegre com as vitórias e conquistas do meu time, sim - bem raras ultimamente, diga-se -, mas não faço disso a minha vida. Não mais.

Umberto Eco disse que a internet deu voz aos idiotas. Só que as arquibancadas dos estádios de futebol já haviam feito isso há muitas décadas. E as cenas medonhas se repetem a cada rodada, seja na primeira ou na última divisão.


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quinta-feira, 6 de julho de 2017

ESTILHAÇOS 17

Atordoado com dias tão surpreendentemente iguais em suas pequenas diversidades - e adversidades -, passados veloz-lentamente como se fossem aviões, andorinhas ou pardais, sem qualquer boa novidade para receber ou contar, eu me recolho ao pasmado passado espremido em minha mente sombria e em meu peito, apertado. E só aí me dou conta de dias atrás, mas num instante agora, que minha única saída é voltar aonde nunca estive e sempre apreciei tanto. Agora, mesmo que seja depois. Mas tem de ser agora. Agora quando?

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Estilhaços


quinta-feira, 29 de junho de 2017

ARIANO SUASSUNA E A GUITARRA

Foto da revista Veja
Após assistir na internet ao programa Conversa com Bial do último dia 16, quando o apresentador da TV Globo fez uma homenagem aos 90 anos de nascimento de Ariano Suassuna, entrevistando o diretor de TV e cinema Guel Arraes, o diretor e ator Luiz Carlos Vasconcelos e o jornalista Gerson Camarotti, é que me dei conta de que o grande intelectual e artista pernambucano nascido na Paraíba seria o único a ter autoridade para fazer uma marcha contra a guitarra. Seria a passeata de um homem só (mas muito poderoso, no bom sentido da palavra). Pela sua conduta de vida inteira, só ele não pareceria ridículo, como o jornalista e compositor Sergio Cabral admitiu ter sido em entrevista, anos depois.

Abre parênteses: para quem não sabe, no dia 17 de julho de 1967 - portanto em plena ditadura militar -, artistas e intelectuais resolveram protestar contra a guitarra elétrica numa passeata pelas ruas de São Paulo. Muitos dos artistas que lá estiveram depois passaram a usar e a abusar do instrumento em suas músicas, reconhecendo de alguma forma o seu erro. Gilberto Gil, inclusive, foi acompanhado pelos Mutantes em outubro daquele mesmo ano no histórico Festival da TV Record para defender "Domingo no Parque". O movimento foi liderado por artistas que admiro muito: Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e o próprio Gil, que muitos anos depois confessou que só foi à passeata por estar cego de paixão por Elis. O principal slogan da turma era "Defender o que é nosso". Lúcida, Nara Leão chegou a comentar com Caetano Veloso que aquele protesto parecia uma manifestação integralista. Ambos, obviamente, ficaram fora. Fecha.

Foto: Wilman /UH /Folhapress
Como já escrevi várias vezes, não concordava com a aversão de Ariano à guitarra e à música pop estrangeira. Porém, ele ainda é fundamental para a defesa da cultura popular brasileira e seus argumentos e ações sempre foram coerentes e muito fortes neste sentido. Por mais paradoxal que possa parecer, mesmo discordando dele neste aspecto, continuarei defendendo a ampla divulgação de sua posição, pois ela barra de alguma forma o extremismo oposto, bastante nocivo, pois reflete a progressão geométrica da aculturação do povo brasileiro ao longo dos últimos 40, 50 anos. E também seguirei defendendo que as peças de Ariano sejam encenadas semanalmente em todas as grandes praças do país.

Claudio Venturini. Crédito na foto
Ainda sobre o assunto guitarra elétrica: no sábado passado assisti ao show do 14 Bis com participação de Beto Guedes e de Sergio Hinds, ex-guitarrista de O Terço, e posso afirmar sem medo de errar que Claudio Venturini já é um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos. Antes que algum gato mestre (e como há "master cat" por aí!) torça os bigodes, sugiro que assistam ao mineiro em ação.

Enquanto isso, soube hoje que nos Estados Unidos a venda de guitarras caiu 30%. No Brasil não se tem notícia, mas creio que com a crise econômica (bem diminuta em relação à moral e política) tenha havido uma queda também. Porém, gostaria que a garotada, além da guitarra e outros instrumentos elétricos e eletrônicos, abrisse seus ouvidos, mente e coração para violinos, violoncelos, oboés, clarinetes, rabecas, viola sertaneja, bandolins...

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