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Garrincha ampara a emoção do garoto Pelé na final da Copa do Mundo de 1958, observados (provavelmente) pelo zagueiro sueco Orvar Bergmark . Foto (aprimorada com IA): Luiz Carlos Barreto
Após a “Homenagem a Pelé” que todos acompanharam com atenção
e emoção, João Sem Medo retomou o papo falando dos dois maiores gênios da
História do futebol brasileiro e mundial.
João Sem Medo: - Com Garrincha e Pelé em campo a
seleção brasileira jamais perdeu um jogo sequer.
Idiota da Objetividade: - João, foram ao todo 40 partidas,
com 35 vitórias do Brasil e cinco empates. Juntos em campo, ambos fizeram 54
gols: Pelé fez 44 e Garrincha, 10. Com a camisa da seleção, Garrincha só saiu
de campo derrotado uma vez, no seu último jogo pelo Brasil, já na Copa de 66,
nos 3 a 1 para a Hungria. Com Pelé, Mané atuou pela última vez pela seleção na
estreia do Mundial da Inglaterra, na vitória de 2 a 0 sobre a Bulgária.
João Sem Medo: - Cada um fez um gol naquela partida,
em 66. Mané jogou contra a Hungria, mas Pelé não. E contra Portugal, Pelé
jogou...
Ceguinho Torcedor: - Foi caçado em campo.
João Sem Medo: - Foi mesmo. Mané não atuou na
derrota de 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou a seleção na primeira fase da
Copa de 66.
Garçom: - Pelé e Garrincha, será que teremos outra
dupla igual a essa algum dia? Com a licença dos grandes amigos que estão aqui,
vou pedir uma ajudinha a outro gigante da nossa Cultura pra falar, ou melhor,
cantar um pouco mais sobre o nosso futebol e esta dupla genial. No telão e nas
nossas caixas de som, Chico Buarque, em “O futebol”, de sua própria autoria.
Mesmo presente apenas em vídeo,
Chico é aplaudido de pé pela plateia.
Garçom: - Em 58, Pelé e Garrincha
arrebentaram. Tinha só sete anos de idade, mas me lembro bem da festança.
Idiota da Objetividade: - Os dois estrearam juntos em Copa
do Mundo na vitória sobre a Rússia, de 2 a 0, que classificou o Brasil para as
quartas de final. Enfrentamos a seleção do País de Gales.
João Sem Medo: - Foi um jogo muito duro.
Ceguinho Torcedor: - O povo queria que enfiássemos uns
seis ou sete. Eis a nossa tragédia: - a pura e simples vitória não basta. Desejamos
enfeitá-la, pôr-lhe fitinhas e guizos. E o triunfo sem show, sem apoteose, o
triunfo enxuto deixa o brasileiro descontente e desconfiado. Mas eu vos digo: -
foi a maior vitória brasileira. Imaginem se, por um absurdo, tivéssemos batido
de 15. Íamos enfrentar a França como uns anjinhos, com a sensação mortal da
invencibilidade.
Sobrenatural de
Almeida: - Como
aconteceu em 50...
Garçom: - Foi contra o País de Gales que
Pelé fez aquele golaço, dando um chapeuzinho no zagueiro?
Idiota da Objetividade: - Não foi um balão. O gol em que
Pelé deu balãozinho ou chapéu, como queira, foi na final contra a Suécia.
Contra Gales, ele estava de costas pro gol, matou a bola no peito, deu um toque
pra tirar um zagueiro da jogada e foi mais rápido que outro que vinha na
cobertura pra marcar o gol.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, nada descreve o uivo, o
urro que soltamos, aqui, quando o “speaker”...
Todos os outros: - “Speaker”, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - O locutor de rádio, o narrador.
Nada descreve o uivo, o urro que soltamos quando ele atirou o seu berro bestial
“gol!”! Até aquele momento, o Brasil inteiro, de ponta a ponta, do presidente
da República ao apanhador de guimba, o Brasil estava agonizando, morrendo ao pé
do rádio. E veio Pelé, com seus 17 anos, e fez o milagre. Olhem Pelé, examinem
suas fotografias da época e caiam das nuvens. Era, de fato um menino, um
garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot seria barrado, seria
enxotado.
Um alvoroço na porta faz o público todo do bar Além da
Imaginação se levantar. Era Pelé chegando. Houve uma ovação sem igual.
Pelé: - Muito obrigado. Seu Ceguinho está certo, eu era muito jovem ainda em
1958 e foi uma emoção muito grande aquele gol e a conquista do título, entende?
João Sem Medo e Ceguinho Torcedor, com a ajuda de
Sobrenatural de Almeida, conseguem se aproximar e dar um abraço em Pelé.
João Sem Medo: - Agora a festa está completa.
Quando Pelé finalmente consegue se sentar, bem à frente da
mesa onde nossos quatro personagens principais estão, Zé Ary toma a palavra.
Garçom: - Nós todos é que só temos a agradecer ao Rei Pelé, não é? Então, vamos
pôr mais música nas caixas de som, desta vez acompanhadas de imagens
maravilhosas do Rei registradas pelo Canal 100 no nosso telão. Mas antes,
aproveito pra pedir uma salva de palmas a Carlinhos Niemeyer, o criador do
Canal 100, que está presente na casa.
Carlinhos Niemeyer se levanta e agradece os efusivos aplausos
do pessoal presente ao Além da Imaginação. Zé Ary então anuncia a próxima
atração.
Pelé: - Preciso agradecer muito ao Miguel Gustavo, que ali está, e também ao
MPB-4...
Garçom: - Magro e Ruy Faria estão aqui, muitos aplausos pra eles, por favor.
Ambos agradecem. E Pelé conclui emocionado.
Pelé: - É muita homenagem bonita de vocês, entende. Muito obrigado.
É mais aplaudido ainda. Inclusive por Garrincha, que timidamente não deixa seu lugar, Didi, Carlos Alberto Torres, Félixe outros ex-companheiros de Santose seleção brasileira.
Fim do Capítulo #45
Episódio originalmente publicado em 7 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 24 de março de 2026.
Em sua estreia na Copa de 58, Garrincha enlouquece a defesa soviética e chuta a bola na trave de Yashin
Após todo mundo, especialmente Didi e dona Guiomar, se
divertirem com “O nosso dia chegou”, João Sem Medo retoma a pelota.
João Sem Medo: - É bom
que o brasileiro saiba que a Europa se atrasou perante nós por causa de uma
guerra que dizimou quase toda a juventude entre 15 e 45 anos. Isso não se refaz
com decreto-lei nem com planos quinquenais. É preciso esperar que nasçam
outros, formem-se e reaprendam. A Europa teve grandes prejuízos com a Guerra, o
que nos permitiu um avanço enorme. Quando pegamos a Europa em 58 e 62, ela
estava, exatamente, num período de decadência esportiva, porque lhe faltou a
juventude que tinha morrido na guerra. E foi uma vantagem que nós tivemos.
Nosso futebol, no entanto, é do melhor nível. Nós estamos na primeira turma do
futebol mundial e nos mantivemos nela ao longo do tempo, ainda que a duras
penas nos últimos anos.
Ceguinho Torcedor: - Desde 50 que o nosso futebol tinha o pudor de acreditar em si mesmo. A
derrota frente aos uruguaios foi uma humilhação nacional, que, imaginávamos,
jamais seria superada. Porém, até o mais vertiginoso e convicto pessimista não
conseguiria prever algo como o que ocorreu na última Copa, com aquele
estrondoso, retumbante, escandaloso, histérico 7 a 1 para os alemães. Mas em 58,
negávamos o escrete porque a frustração de 50 ainda funcionava. Havia um pânico
de uma nova e irremediável desilusão.
João Sem Medo: - Era o complexo de vira-latas, né, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Sim, João. A inferioridade em que o brasileiro se coloca,
voluntariamente, face ao resto do mundo em todos os setores, sobretudo, no
futebol. O problema do escrete não era de futebol, nem de técnica, nem de
tática. Absolutamente. Era um problema de fé em si mesmo.
Garçom: - Hoje em dia acho que muitos jogadores da seleção se acham importantes
e bons demais pro que realmente são.
Ceguinho Torcedor: - Eles têm um complexo de vira-latas às avessas.
Idiota da Objetividade: - Em 58 a
seleção brasileira foi para a Suécia desacreditada.
Ceguinho Torcedor: - Aqui o escrete já se sentia no
estrangeiro; lá, é como se estivesse em casa. Esse foi o drama da seleção:
encontrar lá fora o tratamento humano que lhe negamos aqui.
João Sem Medo: - Gylmar fez outra grande partida,
salvando inclusive um gol contra de Orlando no fim do jogo. O goleiro inglês
McDonald também teve grande atuação. O Brasil foi melhor no primeiro tempo, os
ingleses, na etapa final.
Ceguinho Torcedor: - Feola, que já havia trocado Dida
por Vavá para enfrentar os ingleses, mudou mais três jogadores para a partida
contra a Rússia e tivemos os três minutos mais sensacionais da história do
futebol. Nos primeiros três minutos da batalha, já o Garrincha tinha derrotadoa colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E bastava o empate.
Idiota da Objetividade: - O técnico Vicente Feola tirou o
volante Dino Sani e os atacantes Joel e Mazzola para as entradas de Zito,
Garrincha e Pelé.
Ceguinho Torcedor: - Garrincha não acreditava em empate
e foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua
penetração, fantástica, driblou até as barbas de Rasputin.
O público se diverte, principalmente Garrincha, que dá uma
sonora gargalhada.
Garçom: -
Vamos aproveitar pra ver no telão lances maravilhosos desses 3 minutos
estupendos e outros da vitória sobre a União Soviética, em 1958, com narração
em francês.
O público aplaude e reverencia mais uma vez Garrincha e Didi,
que agradecem sorrindo.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, a desintegração da defesa russa começou exatamente
na primeira vez que Garrincha tocou na bola. O jogo Brasil e Rússia acabou nos
três minutos iniciais. Só um Garrincha poderia fazer isso contra o time
poderosíssimo da Rússia. Porque Garrincha não acreditava em ninguém, só em si
mesmo.
Sobrenatural de
Almeida: - Naquele
dia, acho que nem eu conseguiria parar o Garrincha.
Garçom: - Vou aproveitar a deixa pra que a gente possa fazer outra homenagem ao
grande Mané Garrincha, que nos dá a gigantesca honra de estar aqui presente.
Venha ao palco, por favor, Angelita Martinez!
Todos aplaudem a ex-vedete.
Angelita Martinez: - Muito obrigada, Zé Ary, muito obrigada a todos. Bom, não
sei se vocês sabem, mas meu pai foi jogador de futebol, zagueiro. Ele está ali,
viemos juntos. Levante-se, por favor, Barthô Gugani!
Gugani se levanta e agradece os aplausos do público.
Idiota da Objetividade: - Gugani foi zagueiro do São Bento, do Paulistano e
do São Paulo, pelo qual foi campeão paulista em 1931. E atuou pela seleção
brasileira, fazendo parte do time que conquistou a Copa Roca, em 1922.
Gugani é muito aplaudido. Ele agradece.
Barthô Gugani: - Muito obrigado! É uma honra muito grande estar aqui ao
lado da minha filha Angelita e toda minha família. Vim pro Mundo Espiritual com
36 anos de idade, em 1935, e estou muito feliz de estar aqui hoje revivendo
grandes momentos do nosso futebol com todas essas feras.
Todos aplaudem mais uma vez.
Angelita
Martinez: - Te
amo, pai! Bom, é com muita honra que gravei esta música, em 1958, e venho aqui
a este palco para prestar uma homenagem ao nosso grande craque Mané Garrincha.
A composição é de Jorge de Castro, Wilson Batista e Nóbrega de Macedo e se
chama “Mané Garrincha”.
Angelita é muito aplaudida e deixa o palco. O jogo Brasil x
URSS volta à mesa de nossos amigos.
Ceguinho Torcedor: - Calculo que lá pelas tantas os
russos, na sua raiva obtusa e inofensiva, devem ter imaginado que o único meio
de destruir Garrincha fosse caçá-lo a pauladas. Talvez nem assim. No segundo
tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. As
cinzas do czar devem ter ficado humilhadíssimas. O marcador do “seu” Manoel já
não era um: eram três. E então começou a se ouvir aqui no Brasil, na Praça da Bandeira,
a gargalhada cósmica, tremenda, do público sueco.
Todos riem e aplaudem. Garrincha se levanta novamente e
agradece.
Garrincha: - Seu Ceguinho, o senhor é craque! Muito obrigado.
Ceguinho Torcedor: - Não chego a seus abençoados pés, Mané!
Garçom: - Aquela foi mesmo uma atuação
histórica! De recuperar o orgulho brasileiro, não é “Seu” Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Aqui, em toda extensão do
território nacional, começávamos a desconfiar que era bom, que era gostoso ser
brasileiro.
Idiota da Objetividade: - E foi a primeira vez que Garrincha
e Pelé jogaram juntos numa Copa do Mundo.
Garçom: - Então, como Garrincha já foi homenageado, agora será a vez de Pelé. Aliás,
já soube que ele virá aqui mais tarde.
O público vibra.
Vou
pôr aqui no som uma música gravada pelo Clube do Guri, com Dênis e coro nos
vocais. Tenho certeza de que todos vão gostar. O nome da música é “Homenagem a
Pelé”, de Jorge Duarte. Ouçam e divirtam-se.
Fim do Capítulo #44
Episódio originalmente publicado em 30 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 8 de março de 2026.