sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A GRANDIOSIDADE DE VICTOR HUGO

Sou um leitor e espectador de muita sorte. Volta e meia o que leio e ou assisto se entrecruza, permitindo que eu consiga ter uma noção ainda maior sobre aquilo que li ou assisti. Acrescenta, enriquece, alimenta. Desta vez, uma sutil coincidência me fez mensurar (se é que isso é possível) a grandiosidade do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que pessoalmente teve uma vida tão trágica quanto Nelson Rodrigues. Estava eu já nas últimas páginas do belíssimo Os Miseráveis (Les Misérables, 1862), que me foi gentilmente emprestado pela minha amiga de longa data Luciana Tecídio, quando fui rever o filme Camille Claudel (de 1988), com Isabelle Adjani no papel da atormentada e brilhante escultora, e Gerard Depardieu, no de Rodin (direção de Bruno Nuytten). Uma passagem no fim do filme cairia no meu esquecimento novamente se não estivesse envolvido com o livro. É a cena em que é anunciada a morte de Victor Hugo. A comoção do povo francês, desde artistas a pessoas comuns, retratada na obra de Nuytten confirma o que li sobre o escritor - um cidadão do mundo, como se intitulava - no resumo de sua vida impresso nas últimas páginas do segundo volume de Os Miseráveis. A cena é rápida, se passa nas ruas de Paris, com Rodin comovido se preparando para ir ao funeral, mas bem significativa.

Já havia lido antes O Último Dia de um Condenado à Morte e O Corcunda de Notre Dame, mas foi em Os Miseráveis que Victor Hugo me arrebatou de vez, especialmente com o personagem principal, Jean Valjean. Em breve partirei para Os Trabalhadores do Mar, que já tenho em casa desde os anos 90, mas antes já me vejo às voltas com outro ex-presidiário, Franz Biberkopf, de Berlin Alexanderplatz, livro de Alfred Döblin que Fassbinder filmou e que desde os anos 80 o cerco para assistir, o que não é fácil, já que são 15 horas de filme, divididas em oito episódios. Porém, Valjean já faz parte da galeria de grandes personagens com os quais me deparei. E lembro de Julien Sorrel, de O Vermelho e o Negro (1830), obra de outro grande escritor francês, Stendhal. Na verdade, em comparação, Sorrel estaria mais próximo de Marius do que de Valjean, mas o que destaco é o efeito que certos personagens nos provocam, como se fossem reais. Se em Guerra e Paz (1865), de Tolstoi, presente que ganhei do meu ex-companheiro de trabalho Marcus Veras, vi Napoleão se estrepar na Rússia, agora, com Os Miseráveis, o revi em Waterloo, novamente como um personagem importante no pano de fundo que conduz os fatos históricos assistidos e vivenciados por Pedro (ou Pierre, segundo a mais nova tradução, direto do russo) Bezukhov e Valjean e Marius.

No entanto, as conexões são muitas e outras vieram. Na mesma semana assisti a Meia-Noite em Paris (a capital francesa novamente presente!), de Woody Allen, e posteriormente O Estranho (ou Curioso) Caso de Benjamin Button. Onde está a conexão, movida pelo acaso (ou seja lá o nome que se queira dar)? O primeiro personagem que Gil Pender (Owen Wilson) encontra na sua viagem pelo tempo no filme de Allen é o escritor Scott Fitzgerald. E é justamente baseado num conto desse escritor americano que David Fincher dirigiu a história de Benjamin Button - que nasce velho e morre bebê - interpretado por Brad Pitt.
O fio condutor dessas conexões artísticas não será rompido, pois sei que outras virão. Estou preparado, atento e curioso. Porém, agora quero apenas dizer uma coisa: obrigado pelos ótimos momentos que me proporcionou neste ano difícil, Monsieur Victor Hugo.

Ilustrações (na ordem, de cima para baixo): Victor Hugo, de Auguste Rodin; Jean Valjean retratado no Les Misérables original, e Victor Hugo e as Musas, de Auguste Rodin.

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