Dizem por aí que o fim do mundo está próximo, mas o mundo já acabou. Vivemos apenas os ecos de um berro muito antigo e os reflexos de um espelho quebrado há muitos séculos.
Veja também: tudo o que foi publicado em dezembro de 2011.
Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
sábado, 1 de dezembro de 2012
domingo, 25 de novembro de 2012
PANACÉIA CURA OS MALES MUSICAIS
"Quem canta seus males espanta". Panacéia era a deusa da cura para os gregos, e a Mostra Instrumental com seu nome foi remédio para curar todos os males musicais que assolam - e desolam - rádios e TVs. A massa adestrada por sons pasteurizados vicia diariamente seus incautos ouvidos com melodias e ritmos simplórios, adocicados e ou repetitivos para melhor empobrecer suas vidas esvaziadas.
Quem esteve na última terça-feira, dia 20, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, pôde fugir do óbvio e construir pedra por pedra a sonoridade musical que escolheu para seguir - e se expandir. Quem lá esteve pôde ouvir até a alegria dos passarinhos cantando ao som de sopros, teclados, cordas e percussões e sair com a alma impregnada de música da mais alta qualidade.
Sentiu o lufar e os uivos dos Inventos soprando de e para todos os lados, afastando para longe as nuvens pesadas que se imagina cobrem todo o cenário musical brasileiro da atualidade.
Viu e ouviu a correnteza fluir em rios de sangue a circular em nossas veias e artérias quando os Afluentes fizeram os pêlos do nosso corpo eriçarem nos carregando à deriva com sua força e beleza de tempos e espaços tão próximos e tão distantes. Um rio que trouxe especiarias sonoras de vários países, com muito de suas histórias e culturas.
Viu o mestre Tom Jobim abrir as portas do casarão de Laurinda Santos Lobo para Cole Porter e promover uma nova comunhão de elegância de sons e ritmos ao piano de Deborah Levy, os sopros de Dani Spielman, o "violalino" de Dhyan Toffolo e o violoncelo de Mateus Ceccato.
Teve em mãos a pedra de toque na magia do Pedra Lispe em sua incursão por campinas, ruas e vielas de asfalto, paralelepípedos e terra batida do Nordeste brasileiro.
E assistiu ao despertar de todas as suas pedras com a verdadeira algazarra musical da família Itiberê Zwarg quando a noite chegava e o público exultava o fim de um belo dia, que só se fingiu de feio quando acordou para melhor ficar. Um dia para a memória guardar.
ATENÇÃO: em dezembro, Inventos e Afluentes lançam seus primeiros CDs com shows no Espaço Sérgio Porto. O Inventos, no dia 5, e o Afluentes, no dia 21. Mais que recomendo!
Vídeo: "Sarau da Laurinda" (Itiberê Zwarg), com Itiberê Zwarg & Grupo.
Veja também:
Os sopros mágicos de Carlos Malta
Antúlio Madureira, mestre de obras-primas
Dois garotos
Agradecimento a Altamiro
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
UM ENCONTRO COM MARTINHO DA VILA
O Centro Cultural Carioca abriu suas octogenárias portas na segunda-feira passada, dia 12, exclusivamente para
Martinho da Vila conceder uma entrevista a uma emissora de televisão para falar
de uma das grandes mulheres da sua vida - provavelmente a maior delas: a Unidos de Vila
Isabel. Tive a sorte de estar presente juntamente com os amigos Paulo Almeida e Alexandre Aquino, que sugeriram que nossa reunião marcada a
princípio para o Grajaú, bairro onde Martinho morou por muitos anos, fosse
transferida para o casarão da Rua do Teatro.
Foto: Fabio Judice e Martinho da Vila no Centro Cultural Carioca (Alexandre Aquino)
Música: "Samba do Trabalhador" (Darcy da Mangueira), com Martinho da Vila.
Veja também:
Entrevista: Nilze Carvalho
Chorinho
Samba matéria
Encerrada a entrevista com o repórter Fabio Judice, o sambista e sua assessora, Rejane, se aproximaram do bar, onde Paulinho já se encontrava. Ao
sabor de uma boa cerveja papeavam animadamente. Sorrateiramente, eu e
Alexandre, que nos encontrávamos no canto oposto, fomos nos aproximando para ao
menos ouvir a conversa. Falavam do Grajaú e do tempo em que o cantor e
compositor vivera no bairro. Paulinho então perguntou ao cantor e compositor se ele já
havia ido ao Samba do Trabalhador, encontro que leva o nome de uma irônica música de Darcy da Mangueira que fez sucesso com Martinho e é comandado por Moacyr Luz todas as segundas-feiras à tarde
no Clube Renascença, no Andaraí.
“Fui uma vez, mas tenho evitado ir a esses lugares. Quero ir
pra ouvir a música, mas toda hora chega alguém pra falar comigo e não consigo ver,
nem ouvir nada. Antigamente, eu ia e quem se aproximava eu falava “sai pra lá”,
“não enche o saco”, “me deixa” (contou rindo e espanando o ar como se fossem
incômodos fãs). Eu fiquei conhecido logo, aí já viu. Mas hoje eu entendo o
outro lado e dou atenção. O cara vai lá, me vê e é a chance que ele tem de
falar comigo, de tirar uma foto, eu atendo. Mas aí não ouço, nem vejo quase nada”, contou.
A conversa animava e ótimo proseador que o poeta Martinho é
prosseguiu: “O problema maior é quando chega o cara que é compositor e vê a
chance de me apresentar um samba dele. Ali, na hora. Eu sou compositor, então, é complicado
pegar música dos outros. Mas o cara não quer nem saber, chega e diz: “Martinho,
fiz um samba que é a sua cara”. Pô, com a minha cara eu já tenho. Mas os caras
não desistem”. Para dar mais vida ao que estava relatando, o sempre sorridente Martinho deu a volta por trás da pilastra entre
mim e ele, postou-se às minhas costas e começou a batucar no meu ombro direito
e a cantar um samba ininteligível no meu ouvido, como se ele fosse um fã compositor daqueles
que o abordam insistentemente e eu fosse ele. “Eu não ouvia o samba do cara e
nem conseguia prestar atenção no que o pessoal estava cantando”.
Então eu disse que se por um lado ele entendia o outro lado,
o outro lado não entendia o dele. “É, mas teve um tempo que eu adotei uma tática. Chegava no lugar fingindo que já estava doidão (e reproduziu cambaleante e com a voz pastosa como fazia), aí os caras desistiam de ficar perto. O problema é que
depois de um tempo eu já não sabia se estava fingindo ou estava doidão de verdade. Aí, eu pensava: “Ih, tá na hora de ir pra casa”, contou, sempre entre risos de todos. Sim, chegara a hora de ir pra casa, com mais uma história pra contar.
Foto: Fabio Judice e Martinho da Vila no Centro Cultural Carioca (Alexandre Aquino)
Música: "Samba do Trabalhador" (Darcy da Mangueira), com Martinho da Vila.
Veja também:
Entrevista: Nilze Carvalho
Chorinho
Samba matéria
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
UM BRILHANTE ESQUIZOFRÊNICO
Na tarde do último domingo aproveitei uma brecha no tempo disponível para viver
uma pequena esquizofrenia. Isolei-me do mundo da bola, onde todos pareciam
estar concentrados, para assistir a “Uma mente brilhante” (A beautiful mind, 2001), dirigido por Ron Howard, com Russell Crowe muito bem no papel principal. É um filme brilhante? Longe disso. Mas retrata a história verídica
de um homem brilhante, o matemático e esquizofrênico John Forbes Nash.
Para alguém como eu, que não tem muita afinidade com os números, o que mais me comoveu na história desse grande homem não foi aquilo que o levou à glória, a sua profissão, a sua contribuição para a economia mundial, a sua dedicação obsessiva a uma arte que não entendo, e portanto estou impedido de admirar profundamente: a matemática. O que engrandece aos meus olhos o imenso Nash, que é bem retratado com suas virtudes e defeitos (sua arrogância na juventude é bem instrutiva para quem deseja vencer a própria), é como usou sua mente brilhante para ludibriar a esquizofrenia e evitar os eletrochoques e os remédios que o limitavam como grande estudioso de seu ofício e como homem.
Para alguém como eu, que não tem muita afinidade com os números, o que mais me comoveu na história desse grande homem não foi aquilo que o levou à glória, a sua profissão, a sua contribuição para a economia mundial, a sua dedicação obsessiva a uma arte que não entendo, e portanto estou impedido de admirar profundamente: a matemática. O que engrandece aos meus olhos o imenso Nash, que é bem retratado com suas virtudes e defeitos (sua arrogância na juventude é bem instrutiva para quem deseja vencer a própria), é como usou sua mente brilhante para ludibriar a esquizofrenia e evitar os eletrochoques e os remédios que o limitavam como grande estudioso de seu ofício e como homem.
Logicamente
que para isso contou muito com a persistência e o amor de sua mulher, Alicia (interpretada
pela bela Jennifer Connelly), que enfrentou corajosamente todos os gigantescos problemas que se avolumam com a convivência com uma pessoa dificílima por natureza e ainda mais doente. A ela,
Nash dedicou merecidamente o prêmio Nobel ganho em 1994. Além disso, ele tem
grandes amigos (os reais, pois os imaginários se mostraram traiçoeiros). Porém, ele só
se superou porque teve vontade maior que a doença e as ignorâncias – e
arrogâncias – de médicos e psicólogos, ao não se deixar vencer pelo mundo
tortuoso e perigoso que sua brilhante mente criava e tornava real a seus olhos.
John Forbes Nash é mais que um artista dos números, é um artista que enfrentou e recriou a própria
mente.
Ilustrações: cartaz brasileiro do filme "Uma mente brilhante" (A beautiful mind, 2001) e John Forbes Nash (Getty Images).
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