quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A QUESTÃO DO FÂNQUI E O VELHO ANGENOR

A prisão de fanqueiros no Rio de Janeiro fez levantar a turma dos bailes em defesa da liberdade de expressão. A situação educacional, cultural e ética deste país anda tão rasteira que muitos acham que ter liberdade para dizer o que se pensa (pensa!?) é se eximir de qualquer responsabilidade sobre o que publicamente se diz – ou canta (canta!?) – e consequentemente ficar livre de qualquer penalidade.
Antes de tudo, o fânqui é um produto cultural de uma cidade que optou ao longo dos últimos 30, 40 anos por se descaracterizar, se aculturar, pela superpopulação, pelo crescimento urbano desorganizado, pela baderna, pelo jeitinho, o passa-perna, a esperteza, a valorização do grotesco, do imundo, do desrespeito e da bandidagem, que não se limita aos morros é muito bom que se ressalte.
Não sou advogado, muito menos juiz, para saber se a punição com prisão destes fanqueiros especificamente foi exagerada ou não. O que sei há muito, muito tempo é que o fânqui chamado de “proibidão” sempre foi o braço cultural do tráfico de drogas e armas e obviamente por ele foi financiado. Então, quem se associou com o tráfico tem sim de ser preso. O maior problema é que os verdadeiros financiadores deste lucrativo comércio ilegal, os barões do tráfico de drogas e armas, continuarão livres para mandar e desmandar por essas bandas. Um parêntese: em tese sou a favor da liberação das drogas (das armas, jamais), mas não vou entrar neste mérito agora para não misturar as estações.
Infelizmente este esgoto cultural, esta anomalia carioca chamada fânqui (e aqui me refiro não só ao “proibidão”) desceu as vielas dos morros cariocas, onde antes se produzia o melhor do samba, para ganhar não só mansões e casas de festa do Rio de Janeiro e do Brasil, mas boates de várias partes do mundo, com suas letras chulas e musicalmente da pior espécie.
Um dos fanqueiros defensores da “liberdade de expressão” chegou a insinuar que se fosse criado nos morros no mundo de hoje, Cartola comporia e cantaria fânqui. Prefiro acreditar que o velho Angenor optaria por continuar lavando carros pra tirar um trocado, até o fim da vida.

Vídeo: "O Mundo é um Moinho" (Cartola)
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