quarta-feira, 30 de setembro de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #52

Uma coisa jogada com música - Capítulo #52
Garrincha, em 1966, quando atuou pelo Corinthians e foi campeão do Torneio Rio-SP. Foto aprimorada por IA



Manduka é muito aplaudido após sua apresentação. Agradece ao público e novamente vai em direção a Mané Garrincha para receber o abraço do ídolo. E Mané, uma fonte inesgotável de histórias, teses e declarações, continuou na berlinda no bar Além da Imaginação.



Ceguinho Torcedor: - O poeta e psicanalista Hélio Pelegrino, que poderia estar aqui conosco, mas não está, tinha razão quando afirmava que Garrincha era a maior sanidade do Brasil. O próprio Freud, se tivesse conhecido o Mané, havia de reconhecer com a humildade dos sábios: “Rapaz, se todo mundo tivesse a tua sanidade, eu ia acabar apanhando papel na esquina”. Enquanto todo mundo estava emocionalmente em pandarecos, Mané pegava a bola, era o mesmo, sempre o mesmo, eternamente o mesmo. Assim na Terra como no Céu.

Mané Garrincha só ria, de sua mesa e se divertia com o que falavam sobre ele.

Garçom: - Gente, aproveitando que tudo está girando e vai girar em torno dos dribles do Mané, vou pôr um vídeo aqui no nosso telão, com uma apresentação do multiartista pernambucano Antonio Nóbrega, que compôs junto com Wilson Freire essa maravilha chamada, como não poderia deixar de ser: “Garrincha”.
 


Ao fim do vídeo, todos aplaudem muito. Garrincha, emocionado, se levanta e agradece.

Garrincha: - Poxa, que homenagem bonita. Muito obrigado ao Antonio Nóbrega. Rapaz, o cara dança muito!

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Todo mundo aplaude ainda mais, de pé. Ao cessarem os aplausos, João Sem Medo retoma a pelota.

João Sem Medo: - Olha, meus amigos, vou aproveitar pra contar outra história do Garrincha. Ouça aí, Mané, e me interrompa se eu estiver mentindo, por favor.

Garrincha (rindo): - Pode deixar, seu João. Pode mentir à vontade.

Todos riem muito.

Garrincha (rindo ainda mais): – Brincadeira.

João Sem Medo (rindo também): - Assim você me derruba, Mané.

Sobrenatural de Almeida: - Com drible de corpo, João!

João Sem Medo: - Pois é. Mas deixa eu contar a história. Em 57, depois que estreei como técnico do Botafogo num empate em 2 a 2 com o Palmeiras, no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo, fomos fazer um amistoso em Londrina, com o time entre as traças. Os homens do local, assim que chegamos, foram logo avisando que se não escalássemos o time titular completo, a cota seria cortada. Empatamos em 1 a 1 e olhe lá. Nosso time terminou o jogo que dava pena. No hotel, na hora da janta, decretei que ninguém sairia do hotel no dia seguinte, porque já tínhamos viagem marcada dois dias depois pro Norte do país e de lá pra Venezuela. Nilton Santos disse que se a sobremesa demorasse ele dormiria ali mesmo. Não foi, Nilton?

Nilton Santos: - Verdade, seu João! Estava todo mundo no bagaço.

João Sem Medo: - Um ainda tentou pedir pra dar uma voltinha na praça, mas bati pé firme. Não houve problema, todos ficaram no hotel. Garrincha nem comeu a sobremesa, botou a mão na boca e foi dormir. Ali pelas dez da noite dei uma controlada e lá estava o Mané ferrado no sono direto, com um calção preto e branco em quadrinhos que durante muito tempo foi seu inconfundível pijama.

Garrincha: - Tinha até me esquecido dele, boa lembrança.

Sobrenatural de Almeida: - Que memória! Assombrosa!hahaha

Risada geral no bar.

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João Sem Medo: - Bom, voltamos pro Rio e eu todo glorioso, não com os dois empates, que não tinham sido grande coisa, mas diante das circunstâncias poderiam ser considerados bons. A glória maior que eu sentia era que o Mané tinha ficado sossegado. Eu já estava achando que era uma questão de respeito, afinal eu tinha sido diretor do clube. Grande vitória, agora tudo ia ser fácil, o ambiente estava controlado.

Risos abafados já começavam a se ouvir na plateia, vindos principalmente da mesa onde Garrincha se encontrava.

João Sem Medo: - Três anos e meio depois, voltei a Londrina pra comentar um jogo do Vasco e estava parado na porta do hotel, quando chegou perto de mim uma senhora gordona e me perguntou pra que eu confirmasse quem eu sou, então ela disse que era a mãe da noiva do Garrincha e que a filha precisava mandar uma carta pra ele. E me perguntou se eu podia levar a carta e falar com o Mané. Olhei pro lado e vi uma baixinha com uma cabeleira que dava volta no pescoço, parecendo um cachecol, com a cara muito séria, a carta na mão e uma criancinha no colo. Fiquei meio ressabiado, e as convidei pra entrar, porque notei que queriam falar alguma coisa. Mas eu estava intrigado, o Garrincha já era campeão do mundo. Perguntei à baixinha onde ela tinha conhecido o Garrincha e ela respondeu: “Aqui mesmo, quando ele veio com o Botafogo foi que ficamos noivos”.

Os risos passaram a ser bem menos discretos a partir daí.

João Sem Medo: - Recapitulei de memória a viagem a Londrina, mas fiquei na minha e perguntei o que queriam que eu fizesse. Aí a mãe, em tom mais enérgico, falou que queria que eu garantisse que Garrincha receberia a carta, pois já tinham mandado outras sem terem resposta. E fechou dizendo que o assunto era muito importante. Cheguei ao Rio e fui direto ao Botafogo falar com o Torto e saber como ele tinha ficado noivo. Mané perguntou de onde era e expliquei. Ele lembrou logo: “Ah, já sei. É aquela cidade da Cabeluda, a carta é dela, não é?” Não me contive e falei pra ele: “Escuta, Mané, nós estivemos lá uma tarde e uma noite e você não saiu. Como é que você conheceu a Cabeluda?” Ele ainda tentou despistar dizendo que tinha sido no campo, mas ficar noivo no campo não convencia ninguém. Falei pra ele dar o serviço, afinal eu não era mais técnico e ele contou, mas antes pediu pra eu não contar nada pro Paulo Amaral, que era o técnico do Botafogo na época: “Bem, eu dava uma grana pro Domício e ele ficava no meu lugar. Eu botava nele aquele meu calção de xadrezinho e ele botava o travesseiro na cabeça. Mas eu só saí pra ir ao cinema. Ela foi comigo porque quis. Isso é onda. Depois eu voltei pra dormir. O senhor não controlava o Domício, mas depois ele medrou e eu tive de arranjar outro. Arranjei o Adalberto, mas o burrego não dorme com travesseiro na cabeça. Tenho de pensar em outro...” Ele já ia falar de seus planos, mas eu não estava querendo ser cúmplice e dei a carta pra ele e fui embora.

A gargalhada foi geral no bar. Mané não se aguentava de rir.

Garçom (rindo muito): - Esse Garrincha era uma fera. Dentro e fora do campo.

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João Sem Medo: - Saí e nem olhei pra trás, porque na certa ele estava com aquela cara de sonso e me gozando. Essa mesma de agora, olha lá. Se pro Mané todo marcador era um João, fui mais um a ser driblado por ele.

Ceguinho Torcedor: - No seu caso, o nome é esse mesmo.

João Sem Medo: - Verdade. Uns dois ou três dias depois o Paulo Amaral foi jantar na minha casa e perguntei como ia a moçada e se o Garrincha estava dando trabalho. Paulo exclamou, contente: “Vai tudo muito bem. O Mané é uma seda. Quem dera que todos fossem como ele”. Espirrei todo o café que eu estava tomando. (todos riem muito) O Paulo achou estranho, mas pra disfarçar eu disse que o café estava quente demais pra mim.

Todo mundo ri ainda mais.

Garçom: - Depois dessa, seu João, só podia chamar o Ary Lobo ao palco pra cantar mais uma música em homenagem ao grande Mané Garrincha. Venha ao palco, por favor, Ary Lobo!

Ary Lobo sobe ao palco, ainda rindo das histórias.

Ary Lobo: - Muito bom estar aqui, agradeço muito pelo convite. Aqui só tem feras. E Mané Garrincha, um gênio, vamos homenageá-lo. E João também (ri e João Sem Medo acena pra ele, rindo também). Só explicando que a música foi feita quando o Garrincha foi jogar no Corinthians.

Idiota da Objetividade: - Garrincha jogou no Corinthians em 1966, por pouco tempo, fez apenas 13 jogos, mas foi campeão do Torneio Rio-São Paulo pelo Timão, com um gol em seis partidas. Mas aquele torneio não foi até o fim por falta de datas, devido à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo da Inglaterra. Então, além do Corinthians, foram declarados campeões o Botafogo, o Vasco e o Santos, os times que disputariam o quadrangular final da competição. Depois disso, o Rio-São Paulo só voltaria a ser disputado em 1993.

Ceguinho Torcedor: - Nada passa pelo nosso copydesk. Vamos à música!

Ary Lobo: - Maravilha. Vamos lá então com “O balanço do Garrincha”, de Palmeira e Celso dos Santos.

Fim do Capítulo #52

Episódio originalmente publicado em 25 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 30 de setembro de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #51

Uma coisa jogada com música - Capítulo #51

Garrincha, com Vavá atrás, se prepara para abraçar Amarildo (20) e Zagallo (encoberto), na vitória do Brasil sobre o Chile, por 4 a 2, em partida da semifinal da Copa do Mundo de 1962. Foto aprimorada por IA


A declaração do Ceguinho Torcedor de que a distensão de Pelé foi para a seleção brasileira o que a Revolução Francesa foi para NapoleãoBonaparte causou um certo burburinho, mas logo a Copa de 62 continuou sendo o tema da mesa principal do Bar Além da Imaginação.

Idiota da Objetividade: - Para se classificar, a seleção brasileira precisava ganhar da Espanha, que foi ao Chile com o húngaro Puskas e o argentino Di Stéfano, naturalizados.

Sobrenatural de Almeida: - Tapei os olhos do juiz pra ele não ver o pênalti de Nilton Santos em Collar.

Garçom: - Vi esse lance mil vezes na TV e em vídeo e ainda acho que o espanhol se jogou quando viu Nilton Santos se aproximar.

Nilton Santos se levanta em sua mesa e participa da conversa.

Nilton Santos: - Eu não podia arriscar, senti que o árbitro ia marcar a falta, então dei aqueles dois passos pra fora da área e ele caiu.

João Sem Medo: - O Nilton foi malandro, pois o árbitro viu falta e daria pênalti se percebesse que o lance tinha sido dentro da área.

Ceguinho Torcedor: - Foram os dois passos mais geniais da História do futebol!

Idiota da Objetividade: - Na cobrança da falta, Adelardo marcou de bicicleta para a Espanha, mas o juiz chileno Sergio Bustamante anulou o gol. A Espanha ficaria com 2 a 0 a seu favor e seria bem complicado para o Brasil virar. Mas a seleção brasileira teve um pênalti não marcado pelo árbitro, de Etxeberría em Amarildo, mais pro fim do jogo.

Ceguinho Torcedor: - Naquele dia fomos uma nação em pileque unânime. De pileque sem ter bebido nem água da bica. E é lindo, é gostoso, é sublime quando não há entre milhões de sujeitos, não há um sóbrio.

Todos riem.

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Idiota da Objetividade: - Os espanhóis abriram o marcador aos 34 minutos do primeiro tempo, com um gol de Adelardo.

João Sem Medo: - A Espanha era formada por uma verdadeira legião estrangeira. Puskas já havia defendido o seu país, a Hungria, em 54. E ainda tinha o Di Stéfano, argentino.

Ceguinho Torcedor: - O primeiro gol do Brasil foi a obra de um possesso. Apesar da estúpida distância física, todo o Brasil era testemunha visual e auditivo de cada lance da partida. E eu vi, no momento do gol, vi Amarildo, a cara, o peito, a loucura de Amarildo.

Idiota da Objetividade: - Amarildo empatou para a seleção brasileira aos 26 minutos da etapa final e marcou o da virada aos 40.

João Sem Medo: - Foi um jogo dificílimo, como era previsto, aliás. Mas estávamos certos de que Amarildo seria uma solução feliz na triste emergência de não podermos mais contar com Pelé. E o garoto abusado do Botafogo não nos decepcionou. O que nos surpreendeu foi sua timidez inicial naquele jogo. Mas no segundo tempo foi um deus nos acuda. Parecia que a jaula tinha sido aberta naquele momento e a fera estava solta. Com que ímpeto, com que disposição, com que peito, Amarildo entrou no meio de quatro espanhóis para marcar o primeiro gol. Com que coragem enfrentou a dura defesa espanhola nos momentos mais difíceis e, apesar disso, com que paciência suportou as entradas violentas. Desmentiu assim os que diziam que sua escalação era uma expulsão em potencial, pois julgavam que se irritaria no primeiro encontrão. Mas ele não ficou no primeiro gol e soube aguardar, no lugar exato, o cruzamento de Garrincha, limitando-se a cumprimentar o goleiro com uma cabeçada digna de Heleno de Freitas, pela consciência com que foi desferida.

Ceguinho Torcedor: - No segundo gol, Mané deu uns dez salames dionisíacos. Comeu, com aquele apetite imortal, toda a defesa inimiga. E comeu o juiz, comeu o bandeirinha...

João Sem Medo: - Ô, Ceguinho, foi então uma suruba!

O público cai na gargalhada.

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Ceguinho Torcedor: - É que às vezes uso palavras e termos antigos, meu amigo. Comer era driblar. Você bem sabe, João.

João Sem Medo: - Sei. Falei de Amarildo, mas Garrincha teve tantos méritos quanto ele, acho que até mais, pois foi agressivo em toda a partida, enquanto só abriram a jaula do Amarildo no segundo tempo.

Garçom: - É só falar em Garrincha que vou logo me lembrando das várias músicas que ele ainda recebe como homenagem. Se me permitem, vou pôr aqui no nosso som, uma do flautista Márcio Menezes, instrumental, muito boa. Chama-se “De Mané pra Garrincha”.


O povo do bar curte muito a música, cumprimenta ou acena para Mané, que ao lado de Elza Soares apenas sorri. Enquanto faz os seus pedidos aos garçons, a turma do Além da Imaginação bate um papo, vai ao banheiro, dá uma esticada nas pernas... Finalizada a música, que agradou bastante a todos, João Sem Medo retoma a pelota com rapidez para concluir seu raciocínio.

João Sem Medo: - Talvez eu tenha me empolgado por Amarildo pelo fato de ser o seu jogo de estreia, enquanto que já estávamos acostumados com o Garrincha, que aliás tinha mesmo um apetite imortal. Fui técnico e diretor dele no Botafogo e o cara driblava todo mundo também fora das quatro linhas.

Mané solta uma sonora gargalhada e é acompanhado pelo público.

Garçom: - Na minha infância, a garotada falava que tinha dado um “come” quando driblava alguém.

Ceguinho Torcedor: - Viu, o Zé Ary me entende. Mas o Mané fez tudo isso com uma saúde de passarinho. E tudo isso com alegria, com bondade, com pureza. No fim, não havia mais ninguém pra driblar, ninguém. E então Mané, que tudo via, tudo sabia, passa para Amarildo. Mas não foi um passe qualquer. Nem a cabeça de São João Batista foi tão na bandeja como aquela bola do Garrincha. E estava lá o possesso, Amarildo, o rútilo epilético. E então ele enfiou a sua cabeçada mortal. Aquilo era o Brasil!

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João Sem Medo: - Garrincha fez de tudo naquela Copa. Fez até o que não estava habituado a fazer, gols de fora da área, de cabeça, de canhota...

Garçom (aos músicos e à mesa principal): - Vamos a mais uma pra homenagear o grande Mané?

Todos concordam. E Garrincha é todo sorriso.

Músico: - Zé Ary, vamos convidar ao palco, então, o Manduka. Onde você está, Manduka?

Manduka: - Opa, aqui. Vamos lá!

Manduka vai ao palco, mas antes dá um forte abraço em Garrincha, e é aplaudido.

Manduka: - Obrigado. Muito obrigado. Grande Mané, que prazer! Prazer estar aqui e ouvir tantas histórias maravilhosas. “Mané Garrincha” é o título desta música. Simbora!


Fim do Capítulo #51

Episódio originalmente publicado em 18 de janeiro de 2023 e republicado totalmente modificado em 9 de setembro de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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Uma coisa jogada com música - Capítulo #52 Garrincha, em 1966, quando atuou pel...

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