segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ANTULIO MADUREIRA, MESTRE DE OBRAS-PRIMAS

Este texto abaixo escrevi em 18 de outubro de 2000 e foi publicado na coluna que tinha semanalmente no 2º Caderno do jornal "O Fluminense", de Niterói. Recentemente achei no youtube um vídeo editado, postado pelo próprio Antulio Madureira, em que aparecem cenas da sua participação no Programa do Jô e em outros. O vídeo está abaixo do texto.

Basta estar vivo para se deparar com uma surpresa a cada esquina. Como dizia Auguste Rodin, tudo é movimento, até um corpo morto, em seu processo de decomposição, produz movimento. Pois bem, e o que isso tem a ver com este artigo, você deve estar se perguntando? Respondo, respondo, calma. É o seguinte: o artigo desta semana já estava pronto e entregue, mas teve de ser adiado para a próxima semana por causa de uma pessoa, um artista, um músico que transforma sucatas e material de construção em instrumentos musicais e tira deles sons encantados, que em outros tempos fariam até defunto se levantar arrepiado de emoção. Não, não falo de Hermeto Pascoal, embora tenha uma profunda admiração por ele. Falo de Antulio Madureira. Quem? Pois é, infelizmente pouquíssimas pessoas deste país já ouviram falar desse maestro e vou falar dele hoje, porque, para minha surpresa ele se apresentou no “Programa do Jô” de terça-feira e, como não poderia deixar de ser, fez babar a platéia, os músicos do sexteto, o apresentador e o telespectador.

Estava para dormir depois de assistir à entrevista de Marília Pera no programa da outra Marília, a Gabi, quando resolvi dar uma olhada no Jô só para saber quem eram os entrevistados, sem grandes esperanças. Pois não é que logo o primeiro entrevistado foi o pernambucano Antulio Madureira, de quem ouvi falar pela primeira vez há uns três anos, quando se apresentou em um festival de jazz no Rio. Enquanto a música jazia com pseudo-astros internacionais, o que me chamava a atenção era o sobrenome Madureira, já que conhecia de discos Antônio, o maestro do Quinteto Armorial que mais tarde vim saber é irmão de Antulio. Para quem ainda não sabe, informo agora aos meus cinco leitores, o Quinteto Armorial foi um conjunto criado por Ariano Suassuna no início da década de 70 que buscava pesquisar e recriar músicas antigas de tradição ibérica e brasileira (fazendo uma ponte entre a música árabe e a nordestina do Brasil) e de onde surgiu Antonio Nóbrega, multiartista que somente agora está obtendo alguma fama. Portanto fiquei curioso para ouvir Antulio Madureira quando soube que ele inventava instrumentos, o que só ocorreu no ano passado quando passei a ter em mãos e ouvidos o magistral CD “Teatro Instrumental”, que dá nome ao seu espetáculo atual.

Fazendo instrumentos e tirando música de latas, fios, conduítes, garrafas, cabaças, bambus, arames, serrote, entre outros, Antulio é um mestre de obras-primas. Um maestro ignorado pela mídia, tão ocupada com os “tchans” da vida. E além do mais, ainda faz as vezes de ator e dançarino. Na parte musical ele não apresentou no programa, pela falta de tempo, nem um quinto do que é capaz. Mas foi o suficiente para arrebatar a todos. Se no Jô ele tocou no serrote “Ave Maria”, de Schubert, no CD ele toca a ária das Bachianas número 5, de Villa-Lobos. Antulio está em São Paulo, mas bem poderia dar uma passada pelo Rio (está aí uma grande sugestão para o Teatro Municipal de Niterói!). Parodiando Rodin, desse músico fantástico pode-se dizer o seguinte: tudo é música, até matéria aparentemente morta, em processo de composição, produz música.


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Há 40 anos, o Adeus de Jimi Hendrix
Nina Simone, a Sacerdotisa do Jazz
Villa-Lobos, o Pai da MPB
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 9

BRASIL 2 X 2 ALEMANHA OCIDENTAL - AMISTOSO NO MARACANÃ

Nas minhas andanças pelo youtube em busca de algum jogo específico acabo sempre esbarrando em preciosidades. Este aí em cima é um amistoso entre Brasil e Alemanha Ocidental disputado no dia 14 de dezembro de 1968. A partida marcou um duelo especial entre dois gênios da bola que nunca se enfrentaram em Copas do Mundo: Pelé e Beckenbauer, o Rei x o Kaiser.

Veja também:

A partida teve lances sensacionais, um que merece destaque, embora não tenha - por pouco - terminado num gol de placa do Rei do Futebol. Após bela jogada de Carlos Alberto Torres na defesa, o passe para Rivelino, que de trivela lança Pelé no ataque. O Rei ganha no corpo de um zagueiro alemão e quando o Kaiser vem na cobertura leva a bola por entre as pernas e cai sentado no gramado. Diante do goleiro adversário e a chegada de outro zagueiro, Pelé, pressionado, tenta colocar no canto, mas o arqueiro espalma para escanteio. Dá pra ver o delírio da galera na geral.

A seleção brasileira abriu 2 a 0, com dois gols do ponta Edu, companheiro de Pelé no Santos, ambos na primeira etapa: um de falta e outro com muito oportunismo, como se fosse centroavante. Depois, a Alemanha, que já havia desperdiçado boas chances, acabou empatando no segundo tempo.

BRASIL 2x2 ALEMANHA OCIDENTAL
Data: 14/12/1968
Competição: amistoso
Local: Maracanã - Rio de Janeiro
Árbitro: Istvan Szolt (Hungria)
Gols: Edu (2), Held e Gerwien.
BRASIL: Picasso (São Paulo), Carlos Alberto Torres (Santos), Jurandir (São Paulo),
Roberto Dias (São Paulo) e Everaldo (Grêmio); Gérson (Botafogo), depois Zé Carlos (Cruzeiro), Rivelino (Corinthians) e Tostão (Cruzeiro), depois Dirceu Lopes (Cruzeiro); Edu (Santos), Pelé (Santos) e Paulo César Lima (Botafogo), depois Nado (Vasco). Técnico: Aymoré Moreira.
ALEMANHA OCIDENTAL: Maier, Vogts, Weber (Lorenz), Schulz e Patzke; Beckenbauer e Netzer; Dörfel, Held, Overath (Wimmer) e Volkert (Gerwien).
Técnico: Helmut Schön.

domingo, 31 de outubro de 2010

A SUPREMA FELICIDADE É VER MARCO NANINI

"A Suprema Felicidade", de Arnaldo Jabor, é um filme maravilhoso? Não, não é, e seria exigir demais de um diretor que não filmava há 24 anos (o último havia sido o ótimo "Eu Sei que Vou Te Amar", de 1986, com Fernanda Torres e o falecido Thales Pan Chacon). Mas vale o ingresso, principalmente pela atuação exuberante de Marco Nanini, que vive o músico Noel, um personagem inesquecível, e algumas cenas esplêndidas.

O roteiro avança e recua no tempo, o que é um recurso bastante válido para se contar uma história simples, passada no Rio das décadas de 40 e 50, uma cidade que já foi assassinada há muitos anos, não existe, nem existirá mais. No entanto, o filme me pareceu mais uma colagem, com pelo menos cinco cenas belíssimas, outras que poderiam ter ficado melhores e mais algumas poucas menores ou dispensáveis.

Uma cena que considerei ter sido bem idealizada, mas que poderia ter ficado melhor, tem clara referência (e reverência?) a Federico Fellini: a das putas da Vila Mimosa. E reduziria um pouco às das lamentações da reprimida mãe de Paulinho, vivida pela boa atriz Mariana Lima. Por outro lado, Dan Stulbach, que faz o pai do garoto, já fez trabalhos bem melhores.

Três cenas me comoveram especialmente: a do carnaval de rua logo no início do filme, a transa de Paulinho (vivido pelo ator Jaime Matarazzo) com a dançarina Marilyn (Tammy di Calafiori) e toda a cena final, com Marco Nanini, em seu Noel, dançando cambaleante pelas ruas daquele Rio de Janeiro.

Nanini dá um espetáculo à parte e só ele já valeria o ingresso. O ator encarna bem o seu personagem: "A vida gosta de quem gosta dela".

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

MARADONA CINQÜENTÃO

Seis belgas na caça - em vão - ao
10 na semifinal da Copa de 86
De El Pibe, com sua vasta barba grisalha para esconder a cicatriz deixada pela mordida de um cachorro que cria em sua mansão, Diego Armando Maradona já não tem mais nada. Mas foi com um futebol de espírito alegre como o de um menino e a genialidade dos grandes craques que o atarracado Maradona deixou seu nome marcado entre os maiores jogadores de futebol de todos os tempos.
Os aspectos tristes de sua biografia merecem ser deixados de lado nesta data, pois agora, neste sábado, dia 30, o senhor Maradona se tornará um cinqüentão. Parece que deseja seguir a carreira de técnico, mesmo depois da frustrada campanha com a seleção argentina na última Copa do Mundo. Por mais que faça como treinador, porém, é com a arte que desenhou nos gramados do mundo com sua perna esquerda que ele será sempre lembrado.
Não tenho o menor apreço pelo seu gol trapaceiro que tanta fama faz, mais pelo fato de ele ser ótimo frasista (como Romário) do que propriamente pelo feito em si. Gol com a mão não vale, e aquele contra a Inglaterra que ele disse ter sido feito com a mão de Deus, no meu modo de entender foi feito com a ponta de uma das pontas do tridente do Diabo.
Prefiro crer que o segundo que ele marcou naquele mesmo jogo pelas quartas de final da Copa do Mundo no México, em 1986, valeu por dois. Aliás, valeu por 50. Valeria por toda a sua carreira, se só tivesse feito aquele que já foi eleito o mais bonito de todos os tempos. Mas ele fez bem mais. Bem mais.


Veja também:
Parabéns, Dejan Petkovic
Ganso, o Mestre-Sala da Vila
Beckenbauer, A Elegância do "Kaiser"
O Teatro e o Futebol
Reinaldo, o Rei do Galo Mineiro

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

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