sábado, 7 de fevereiro de 2015

CARNAVAL

No carnaval,
bate no peito
o silêncio
a cada toque surdo
do meu coração.


Vídeo: "Esta melodia" (Bubu da Portela/Jamelão), com Marisa Monte e Velha Guarda da Portela.
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Um encontro com Martinho da Vila
A questão do fânqui e o velho Angenor

domingo, 21 de dezembro de 2014

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 11

SUÉCIA 2 X 5 BRASIL - FINAL DA COPA DO MUNDO DE 1958

Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar;
Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Mário Américo (massagista)

Este ano aproveitei o que de melhor a internet pode oferecer para rever alguns jogos de futebol memoráveis no Youtube. Por conta própria, revi na íntegra duas partidas emblemáticas dos meus tempos de torcedor de arquibancada: Flamengo 0 x 1 Peñarol, fase semifinal da Libertadores de 1982, uma derrota até então inexplicável pra mim, e a vitória que mais me emocionou no Maracanã: Flamengo 6 x 0 Botafogo, em 1981. A trabalho, voltei ao doloroso dia 5/7/1982 para rever Brasil 2 x 3 Itália para escrever um texto sobre aquela partida para a Revista História Viva. Corrigi falhas da minha memória e confirmei algumas impressões que haviam ficado desde então. Porém, hoje resolvi assistir a um jogo que jamais havia visto e na época em que foi realizado seria impossível, pois só nasci 8 anos depois: a final da Copa do Mundo de 1958. 

Na TV já tinha visto incontáveis vezes os gols de Brasil 5 x 2 Suécia e uma ou outra jogada além e só. Todos sempre pela mesma câmera. A noção que tinha do quinto gol, marcado por Pelé, de cabeça, no finzinho da partida, era muito limitada e isso me foi confirmado hoje. Além disso, aquela jogada em que Garrincha dá uma bronca (ou finge dar) em alguém, toca de calcanhar para Djalma Santos, que levanta a bola e devolve para o ponta com extrema categoria, sempre esteve em minha memória como um lance do ataque brasileiro, mas foi realizada na saída de bola da defesa, soube hoje.

Vavá completa jogada de Garrincha para fazer o 1º gol do Brasil

Exaltar o que vem sendo decantado há 56 anos não faz o menor sentido. O que fez sentido para mim foi me surpreender com um chute espetacular de Pelé de fora da área, logo após o Brasil ter empatado o jogo, e a bola explodir na trave direita de Svensson; conhecer a qualidade de alguns jogadores da Suécia, como o ponta Hamrin e o meia Gren; me arrepiar com a obra-prima do jovem iniciante Pelé no terceiro gol, e ainda saber que houve dois pênaltis para o Brasil - um em Garrincha e outro em Vavá - na segunda etapa e ambos não terem sido assinalados pelo árbitro (que no lance de Garrincha marcou falta fora da área).

A seleção brasileira começou mal a partida, mas pôs os nervos no lugar e melhorou após levar o primeiro gol. Foi subindo de produção após empatar, fez por merecer a virada no marcador com dois gols muito semelhantes e na etapa final dominou inteiramente o adversário, vencendo com certa facilidade, com jogadas e gols espetaculares que a torcida da casa soube reconhecer e enaltecer.

Vavá, Orlando, Pelé, Gilmar e Didi comemoram o título

Num ano em que o futebol brasileiro atingiu o seu mais baixo nível, não só pelos vergonhosos 7 a 1 da Alemanha, mas pela indigência técnica e tática que seus jogadores vêm apresentando nos mais diversos gramados do país - já de muito tempo, aliás, com raríssimas exceções -, foi muito bom ter me recordado que já tivemos o melhor e mais bonito futebol do planeta.

SUÉCIA 2 X 5 BRASIL
Data: 29/06/1958
Competição: Copa do Mundo - final
Local: Estádio Rassunda (Solna) - Estocolmo
Árbitro: Maurice Alexandre Guigue (França)
Times
SUÉCIA: Svensson; Bergmark, Axbom, Börjesson e Parling; Gustavsson, Gren e Simonsson; Hamrin, Liedholm e Skoglund. Técnico: Georges Raynor.
BRASIL: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito, Didi, Pelé e Zagallo; Garrincha e Vavá. Técnico: Vicente Feola.
Gols: Liedholm, aos 4, Vavá, aos 9 e 32 minutos do primeiro tempo; Pelé, aos 10 e aos 45, Zagallo, aos 23, Simonsson, aos 35 do segundo tempo.

Não perca a chance de ver a partida com narração do grande Jorge Cury e Oswaldo Moreira (cada um narrando o ataque de um time), comentários de Guilherme Sibemberg e comando nos estúdios do Rio de Janeiro de Antonio Cordeiro. O áudio é sueco no início do vídeo e entre os 25 e os 42 minutos da primeira etapa, devido a um problema técnico na transmissão da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Assista abaixo:


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sábado, 13 de dezembro de 2014

MUITO ALÉM DOS PRINCÍPIOS DO PRAZER DE OUVIR PEDRO SÁ MORAES

Já ouvi o CD mais de dez vezes e pensei outras tantas se deveria publicar aqui um texto para exaltar um trabalho no qual tenho envolvimento direto, por ser sócio da empresa que agencia, produz e assessora o autor. No entanto, não costumo fugir daquilo que creio profundamente, então, taí, não me furtarei de escrever sobre “Além do princípio do prazer”, álbum recém-lançado pelo cantor, guitarrista, violonista e compositor Pedro Sá Moraes, pela Delira Música. Não é trabalho para ouvidos viciados, mas para os que buscam sempre algo novo e raro e para despertar aqueles que andam meio acomodados resmungando pelos cantos, revoltados com a mediocridade – mais que isso, com o baixíssimo nível – que TVs e rádios vêm apresentando dia-a-dia ao público.

Nas nove músicas do intenso e instigante trabalho de Pedro há uma infinidade de sons e ruídos que nos trazem imagens variadas (algumas de humor, inclusive), belas melodias e quebras súbitas de ritmos que causarão estranheza. E é isso mesmo, é para tirar o ouvinte do conforto de ligar o som e deixar rolar enquanto vai se ocupando de outros afazeres. Pare tudo e o ouça com atenção. Com uma pegada roqueira, Pedro passeia por pop eletrônico, sob a batuta de Ivo Senra, mas não abandona suas raízes, que nasceram no samba da multifacetada Lapa. Estão lá marcha ("Não quer que o mundo mude"), bossa (na única com letra em inglês, "Salmo 23") e vários ritmos nordestinos, oriundos da Península Ibérica, via mouros, da África, e amalgamados aqui mesmo nesta terra tão rica e ultimamente tão maltratada musicalmente. Ele reprocessa tudo isso em seu caldeirão e, qual um bruxo, lança no ar poesias e poesias de primeira grandeza por intermédio de seu vozeirão de grande cantor que é.

Aqui vale ressaltar a qualidade das letras (verdadeiras poesias) e, nesse caso, além do próprio Pedro, é preciso citar seus parceiros Thiago Amud (nas excelentes “Alarido” e “O olho da pedra”) e Thiago Thiago de Melo (autor da brasileiríssima “Não é Água”), seus companheiros de Coletivo Chama, e João Cavalcanti (“A hora da estrela”) e Thomas Saboga (“Ela vertigem”, outra belíssima). O melhor é que ao vivo (pude constatar no Solar de Botafogo, no dia 4/12) as músicas ficam ainda melhores, especialmente pela ótima presença de palco de Pedro e também - é preciso louvar - o já citado Ivo Senra, pilotando seus teclados de mil sons, inclusive o baixo, e o grande baterista Lúcio Vieira.

Quem se interessar em ouvir as músicas de “Além do princípio do prazer”, antes de se decidir a comprar o CD (capa acima), é só clicar aqui. Como diz a letra de “Alarido”: “você vai escutar apesar e através, com maior lucidez pra separar bom, de dor; banal, de bom; tom, de cor, de som...”

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A NECESSIDADE DO DESEJO

Fui ao quarto da minha filha desligar a televisão quando vi a imagem de um palco escuro e logo em seguida o conhecido rosto sorridente do ator Juca de Oliveira, já num cenário bem claro. Resolvi escutá-lo, e ao comentar sobre a peça Rei Lear, que encena como monólogo no Rio, ele disse algo que é de uma obviedade rodrigueana (aquela que quase ninguém enxerga): “Até o mais miserável dos mendigos tem o desejo de algo supérfluo para se reconhecer como humano. Se ele apenas supre suas necessidades básicas, não sai da condição de animal”. Lançou esta e completou com uma clara intenção política que quero eliminar daqui para me ater apenas à questão filosófica: “Marx não deve ter lido Shakespeare”.

Certo que o desejo para o ser humano (“a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”) tendo essa magnitude que Juca expressou por intermédio do bardo inglês passa a ser também uma necessidade. E passando a ser mais importante que tudo, repetidamente, significa vício. Certo também que o ser humano tendo somente as suas necessidades básicas satisfeitas, passa a abanar o rabo e a seguir seu dono. Não é difícil imaginar como os tiranos de todas as correntes ideológicas dominaram - e dominam - seus povos, direcionando seus desejos (o supérfluo citado pelo ator) aos seus objetivos mais funestos.

É uma equação até fácil de se resolver, me parece, se assemelha mesmo a uma lógica matemática. O líder supre o básico de seus comandados e, como sabe que eles depois de algum tempo não se contentarão só com o que lhes é oferecido, pois se entediarão, inventa um inimigo, um medo a ser vencido, uma guerra. E assim rastejaria a Humanidade não fossem os rebeldes, os pensadores, os sonhadores, os contestadores corajosos para pensar, sentir e agir com independência. Aqueles que pensam por si próprios, sem se deixar levar por ondas.

São eles que tiram a Humanidade da letargia, são eles que fazem o outro se levantar da cadeira com os olhos brilhando a enxergar um novo e amplo mundo à sua frente, com milhões de possibilidades. É ele, o poeta de todas as artes e ofícios (o artista no sentido mais amplo da palavra, abarcando todas as áreas do conhecimento), a verdadeira antena da raça, se assim Ezra Pound me permite citá-lo.


Ilustração: "Rei Lear e o bobo na tempestade", de William Dyce (1806-1864)
Vídeo: "Comida" (Arnaldo Antunes/ Sérgio Brito/ Marcelo Fromer), com Titãs
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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