UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #40

Uma coisa jogada com música - Capítulo #40

Almir se livra de um jogador do Milan, observado por Coutinho (9). Foto: Santos FC

Santos e Botafogo foram mesmo os principais times do Brasil nos anos 60. Portanto, o papo no bar “Além da Imaginação” acabou retornando ao clube paulista, que obteve conquistas mais expressivas que o carioca.

Idiota da Objetividade: - A confirmação de que o Santos era o melhor time do mundo no início dos anos 60 veio em 1963, com a conquista do bicampeonato mundial. Almir Pernambuquinho foi um dos grandes nomes daquela final, como já dissemos.

Garçom: - O Santos enfrentou qual time mesmo na final?

João Sem Medo: - O Milan, que tinha um grande time. Os brasileiros Mazzola, que na Itália era conhecido como Altafini, e Amarildo, que havia substituído Pelé no Mundial do Chile, jogavam naquela equipe, que ainda tinha Rivera, Trappatoni e o Cesare Maldini, pai do Paolo Maldini, que disputou as Copas de 90 a 2002.

Garçom: - Lembro do Maldini filho, muito bom jogador. Foi vice pra gente, em 94.

João Sem Medo: - O pai dele também foi um grande jogador. Mas o Santos, mesmo sem Pelé, conseguiu superar o timaço do Milan.

Sem anunciar nada, Zé Ary põe no telão a versão de Zeca Baleiro pro hino mais popular do Santos, chamado de “O Leão do Mar” e que foi composto por Mangeri Neto e Mangeri Sobrinho.

O povo do bar assiste com atenção e quando o clipe acaba, João Sem Medo passa a bola pra Ceguinho Torcedor.

João Sem Medo: - O Santos conquistou aquele título de 63 no pau e na bola.

Ceguinho Torcedor: - O Santos era uma equipe assassinada pela desumanidade de seus dirigentes. Nenhuma equipe terrena pode jogar tanto sem morrer. E contra o Milan, o glorioso time santista ruía aos pedaços, estrebuchava, agonizava.

João Sem Medo: - Os times brasileiros eram obrigados a excursões extenuantes, com jogos de dois em dois dias, mais as viagens. Além do Pelé, o Santos jogou as finais de 63 no Maracanã sem o Zito e o Calvet.

Ceguinho Torcedor: - Nunca houve cansaço tamanho. E apesar disso ganhou do Milan na mais linda reação que se conhece. Ganhou duas vezes. No primeiro jogo, o Santos saiu pro intervalo perdendo por 2 a 0. Mas cai uma tempestade de 5º ato do Rigoletto no Rio de Janeiro e mudou tudo.

Como que por encanto, ouve-se um estrondo, um trovão com relâmpagos, e toda plateia fica arrepiada. Sobrenatural de Almeida dá sua gargalhada tenebrosa, cantarola um trechinho da ópera de Giuseppe Verdi e todos entendem que ele tinha atuado como sonoplasta da narração do Ceguinho Torcedor, que prossegue.

Ceguinho Torcedor: - O Santos virou e levou a decisão para a terceira partida. Houve quem dissesse que Almir era um delinquente irrecuperável e paranoico. Mas se Almir chutou o Amarildo no terceiro jogo, o que fez Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, que quebrou o Mendonça? Ninguém o chamou de delinquente e paranoico. Nem o próprio Amarildo, que quebrou o Jair Marinho, num Fluminense e Botafogo.

Didi, em sua mesa, ao lado de d. Guiomar, nada fala, apenas acompanha a resenha com atenção. Numa mesa próxima, Almir Pernambuquinho apenas sorri quando João Sem Medo começa a relatar o que viu naqueles jogos finais.

João Sem Medo: - A pancadaria comeu solta no Maracanã. Almir deu um chute em Amarildo logo no início do primeiro jogo no Maracanã. Almir, que aqui está e não me deixará mentir, confessou que jogou dopado e que foi pra vingar Pelé, por quem tinha grande respeito. Amarildo teria dito em entrevista que Pelé não era mais o Rei. E Pelé não pôde ir a campo em nenhum dos dois jogos. Almir foi em seu lugar e na partida que decidiu o título sofreu o pênalti de Maldini, que quis brigar e foi expulso. Dalmo pegou a bola que seria do Pepe e converteu o pênalti pra dar o título ao Santos.  Até o Lula, técnico do Santos, agrediu com um soco o Carniglia, treinador do Milan. O Trapattoni caçou o Almir em campo, mas ficou até o fim do jogo. Ismael deu uma cabeçada em Amarildo e também foi expulso.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso! Eu fiz plantão naqueles dois jogos e irritei muito os jogadores do time italiano. (dá outra gargalhada tenebrosa e volta a cantarolar um trecho do Rigoletto)

Idiota da Objetividade: - O Santos chegou à final do Mundial de 63 depois de conquistar a Libertadores daquele ano. Eliminou o Botafogo na semifinal, com um empate em 1 a 1, no Pacaembu, e goleada de 4 a 0, no Maracanã. Na final contra o Boca Juniors, da Argentina, venceu por 3 a 2 no Maracanã, e 2 a 1, em La Bombonera.

João Sem Medo: - O Santos ganhou do Boca lá dentro, de virada, com gols de Coutinho e Pelé.

Idiota da Objetividade: - Pelé só jogou o primeiro jogo das finais do Mundial, em Milão, na derrota de 4 a 2. Ele fez os dois gols do Santos, de pênalti. Amarildo fez dois pro Milan. No Maracanã, diante de 132 mil pagantes, o Santos perdia por 2 a 0 no primeiro tempo, mas virou na segunda etapa para 4 a 2, com dois gols de Pepe, ambos de falta, um de Almir e outro de Lima. Foi necessário então um terceiro jogo, disputado dois dias depois, em 16 de novembro de 1963. Mais de 120 mil pessoas pagaram ingresso para ver quem seria o campeão. E numa partida marcada pela violência, como João já nos relatou, o Santos ganhou de 1 a 0, gol de pênalti marcado por Dalmo, aos 35 minutos de jogo.

Almir Pernambuquinho, enfim, pede a palavra de sua mesa.

Almir: - Entrei com tudo naquela partida, pra matar ou morrer. Eu só pensava no bicho, que dava pra comprar um Fusca do ano. Fui incentivado por um dirigente chamado Nicolau Moran. Ele me disse: “Você pode fazer o que quiser em campo, Almir. Você é rei lá dentro, faz o que achar melhor. O juiz não vai fazer nada”.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso, Almir. Assombroso.

O público ri e Zé Ary pede a palavra.

Garçom: - Como falamos muito do grande Santos bicampeão mundial, vamos fazer uma grande homenagem aqui com mais duas versões no telão do hino do clube: “Leão do Mar”, com Paulo Miklos, e o hino oficial com a Rygel, banda santista de heavy metal. Aguentem os ouvidos aí!

Músico: - Aumenta que isso aí é roquenrol!


Fim do Capítulo #40

Episódio originalmente publicado em 2 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 22 de setembro de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #39

Uma coisa jogada com música - Capítulo #39
O time do Santos campeão mundial em 1962: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Foto: Agência JB

A homenagem a Pelé é muito aplaudida pelo público presente ao bar Além da Imaginação. Após uma breve dispersada, Idiota da Objetividade começa a contar como o Santos conquistou o bicampeonato mundial de clubes.

Idiota da Objetividade: - No dia 11 de outubro de 1962, o Santos, que havia sido campeão da Taça Libertadores da América ao vencer o Peñarol do Uruguai, por 3 a 0, enfrentou o Benfica, no Estádio da Luz, em Lisboa, depois de ter vencido por 3 a 2, no Maracanã, na primeira partida da final do Mundial Interclubes. Diante de 80 mil presentes, o Santos sagrou-se campeão com a vitória de 5 a 2, com três gols de Pelé, um de Coutinho e outro de Pepe. Só nos cinco minutos finais, o time português descontou com Eusébio e Santana.

João Sem Medo: - Isso foi apenas quatro meses depois que o Brasil conquistou o bicampeonato mundial no Chile!

Ceguinho Torcedor: - E Pelé, que na Copa do Chile praticamente não jogou, pôde demonstrar mais uma vez o gênio que era.

Garçom: - Vamos, então, aproveitar pra ouvir outra música em homenagem ao Rei?

O “sim” forte e alto ecoa novamente no Além da Imaginação.

Garçom: - Jair Rodrigues, por favor, venha ao nosso palco!

Jair Rodrigues atende o pedido com o sorriso largo que todos se habituaram a ver. E é muito aplaudido.

Jair Rodrigues: - Muito obrigado, minha gente! Vamos aqui fazer uma dupla homenagem, ao Rei do Futebol e ao Rei do Baião. A música, de Durval Vieira e Reginaldo Santos, se chama “Rei Pelé, Rei Luís”. Vamos lá, rapaziada!


Sob aplausos, Jair Rodrigues agradece e, quando ia voltar à sua mesa, Zé Ary e os músicos pedem que ele aguarde um pouco. Ceguinho Torcedor retoma a pelota.

Ceguinho Torcedor: - Mil novecentos e sessenta e dois foi um ano glorioso para o futebol brasileiro. Na Europa só chamavam os jogadores do Santos de gênios, gênios. Técnicos ingleses, italianos, a imprensa portuguesa, todos se esbaldaram de elogios ao time brasileiro.

João Sem Medo: - Foi glorioso para o Botafogo também, que conquistou o bicampeonato carioca em cima do Flamengo.

Ceguinho Torcedor: - É verdade, com um show de Garrincha, deu de 3 a 0 no Flamengo, que jogava pelo empate.

Garçom: - Depois daquele jogo, o Gerson resolveu sair do Flamengo, né?

João Sem Medo: - Foi escalado de ponta-esquerda e ficou tentando ajudar o Jordan a marcar o “imarcável” Garrincha, que fez dois gols. O outro Vanderlei jogou contra a própria rede após chute do Mané.

Garçom: - Na década de 60, Botafogo e Santos eram os melhores times do Brasil e formaram a base da seleção.

João Sem Medo: - Isso mesmo. Mané, venha aqui, por favor. Quero lhe dar mais um abraço. Enquanto isso, o Zé Ary vai convocar outra música.

Garçom: - É verdade, seu João. Vamos agora homenagear os nossos dois maiores gênios da bola e todos os que sonharam e ainda sonham ser um craque da bola, novamente com o grande Jair Rodrigues.

Jair Rodrigues: - Bom, rapaziada, Mané, muito prazer revê-lo aqui. Vamos rolar a bola, então, com “Pelés e Manés”, de Chico Xavier, que não é o  médium mineiro, mas o compositor cearense.

Ao fim da apresentação de Jair Rodrigues, a emoção tomou conta de todos no bar. Garrincha subiu ao palco para abraçar o cantor e todos aplaudiram de pé. Os aplausos foram bem demorados e muitos dos presentes se dirigiram a Jair e Garrincha para cumprimentá-los.

Fim do Capítulo #39

Episódio originalmente publicado em 26 de outubro de 2022 e republicado totalmente modificado em 3 de setembro de 2025.

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #38

Uma coisa jogada com música - Capítulo #38 <
Gaúcho, no Palmeiras, defende um dos pênaltis cobrados pelo Flamengo em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro de 1988, no Maracanã. Foto aprimorada por IA 

A música de Marco Ferrari atraiu a atenção de grande parte do público e de nossos amigos. Após o burburinho dos comentários, Zé Ary manteve o tema e lançou a bola na área.

Garçom: - Não foi naquele mesmo Campeonato Brasileiro, em 88, que o Gaúcho defendeu dois pênaltis contra o Flamengo?

Idiota da Objetividade: - Sim, o Flamengo perdia para o Palmeiras, por 1 a 0, quando o goleiro Zetti se machucou gravemente após choque com o atacante Bebeto. O time paulista não podia mais fazer substituições, então Gaúcho, falecido em 2015, vestiu a camisa de goleiro e levou o gol de empate, marcado pelo próprio Bebeto. Na disputa de pênaltis, no entanto, ele virou herói ao defender os chutes de Aldair e Zinho.

Sobrenatural de Almeida: - Dei uma grande ajuda pro Gaúcho naquela noite. Não foi Gaúcho?

O artilheiro se levanta rindo e não deixa barato.

Gaúcho: - Que nada, eu sempre fui bom goleiro.

Ceguinho Torcedor: - Assombroso!

Todos riem muito.

Gaúcho: - Na primeira bola eu levei o gol, mas consegui depois pegar os dois pênaltis que ajudaram o Palmeiras naquela noite no Maracanã.

Todos o aplaudem. Ele agradece e se senta novamente.

João Sem Medo: - Zetti, Bebeto, Aldair e Zinho foram campeões mundiais em 94.

Garçom: - E o Gaúcho, um dos heróis do Flamengo no Brasileiro de 92.

Idiota da Objetividade: - Foi sim, mas o grande nome daquele time de 92 foi o Júnior, que além de Maestro, foi o artilheiro do Flamengo, com 9 gols. Um a mais que o Gaúcho.

Gaúcho se levanta de novo.

Gaúcho: - Eu deixei essa pra homenagear o Maestro.

Risos na plateia.

João Sem Medo: - É, mas o Flamengo teve muito mais time no início dos anos 80.

Idiota da Objetividade: - Aquele time comandado por Zico foi campeão brasileiro em 1980, 82 e 83. Ainda venceu a Libertadores, o Carioca e o Mundial de Clubes em 81.

João Sem Medo: - Em Tóquio, Zico, Adílio, Júnior, Leandro, Andrade e Lico ficaram bem à vontade e puseram o Liverpool na roda. A vitória de 3 a 0 foi muito justa.

Garçom: - E a festa da torcida varou aquela madrugada, o bar em que eu trabalhava na época não fechou de sábado pra domingo. Se já era ídolo, Zico virou Rei.

Músico: - Merece música, né? Zico tem muitas pra contar e cantar.

Garçom: - Verdade! Vamos ouvir, então, uma do CarlinhosVergueiro, aqui no som, que se chama “Zico”.

Todos aplaudem a música, e Geraldo, muito amigo do Galinho de Quintino, aplaude de pé e é seguido por seu Antunes, dona Matilde, Antunes e Tunico e por outros ex-companheiros de Flamengo e seleção brasileira, como Figueiredo, Zé Carlos, Rodrigues Neto, Sócrates.

Idiota da Objetividade: - O Flamengo foi o primeiro time brasileiro a conquistar o Mundial Interclubes depois do Santos, que foi bicampeão, em 1962 e 63.

Ceguinho Torcedor: - O Santos de Pelé deu grandes exibições de futebol. Foi assim no título mundial de 62, quando goleou o Benfica, no Estádio da Luz, por 5 a 2. Só Pelé fez três gols. O Santos destroçou o Benfica de Eusébio. O Santos não, Pelé. Só o Negro Divino existiu naquela noite diante de uma multidão uivante de 80 mil pessoas, sem contar os caronas espectrais, os infantes, os Camões, o túmulo de Inês de Castro. Houve em Lisboa um silêncio de catástrofe, de estourar os tímpanos, como em 50, aqui. Ao terminar o jogo, a garotada invadiu o campo e Pelé foi caçado. Estraçalharam sua camisa, e os portugueses levaram os seus farrapos como se fossem trapos radiantes de um santo.

João Sem Medo: - Pelé foi o maior que vi jogar.

Garçom: - Falando no Rei...

Músico: - É, sem dúvida, o jogador que mais homenagens musicais recebeu até hoje.

Ceguinho Torcedor: - O Rei merece, por tudo o que fez pelo Brasil.

Garçom: - Então, vamos ver no telão, uma apresentação especial da Orquestra Sanfônica Balaio Nordeste tocando “A ginga do Pelé”, de João do Pife?

Todos respondem em coro um “sim” em alto e bom som.

Garçom: - Então, vamos lá!

Todos aplaudem muito.

Garçom: - Ainda falaremos muito de Pelé e ouviremos muitas músicas sobre ele, que virá aqui, com certeza.

Fim do Capítulo #38

Episódio originalmente publicado em 19 de outubro de 2022 e republicado totalmente modificado em 13 de agosto de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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NAU POESIA: POESIA SEM VERSOS*

Nau Poseisa: Espiral do Tempo
a existência é um imenso vazio recheado de tudos recheado de nadas as árvores das ruas as copas das árvores as folhas das copas as copas flanantes bailantes sensíveis à mais leve brisa vento vento vento voa gaivota voa a vida voraz, efêmera e eterna a esperança alimento luz e energia viva desesperança também por que não a chance uma pequena viva cor viva incendeia o esmaecido solo que pisamos que deitamos em que nos ralamos a ferida aberta a dentadas a unhadas sangue brotando e escorrendo denso e fluido onde a vida começa e termina no círculo não há início, meio ou fim não há rumos não há objetivos não há alvos somente caminhar o eterno retornar o passar para deixar algo de si desmantelado esfacelado poeira suspensa que parece cair que parece levitar

Ilustração produzida com auxílio de IA



Vídeo:
"So What", Miles Davis e John Coltrane


"Poesia sem Versos" faz parte do livro Profano Coração, que está à venda, em todas as versões digitais, na Amzon do Brasil e de mais 13 países. Para adquirir no Brasil o seu ebook, clique na capa acima. Lançado originalmente em 2009 por uma editora que posteriormente não teve escrúpulos e continuou a vendê-lo após o término do contrato, em 2011, sem repassar qualquer percentagem das vendas ao autor, o livro foi muito elogiado. Para ler algumas opiniões sobre ele, clique aqui.

Poesia publicada originalmente no dia 26 de agosto de 2010.

Ilustração produzida com auxílio da IA

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #37

Uma coisa jogada com música - Capítulo #37
Waldir Perez foi o destaque do São Paulo na disputa de pênaltis que decidiu o Brasileiro de 77, contra o Atlético-MG, do zagueiro Márcio. Foto do arquivo do SPFC, aprimorada com IA

A discussão sobre a final do Brasileiro de 77 tomou conta do bar “Além da Imaginação”.

Idiota da Objetividade: - Aquela final foi a primeira do Brasileiro a ser decidida na disputa de pênaltis.

João Sem Medo: - E foi um festival de pênaltis perdidos. No fim, o São Paulo, que tinha um time mais pesado e se aproveitou do campo encharcado para se defender, acabou levando a taça. 

Houve mais um burburinho, com os atleticanos reclamando muito da arbitragem. Então, Zé Ary interveio.

Garçom: - Minha gente, já que aquela decisão terminou nos pênaltis, vamos aproveitar para ouvir uma música aqui no som sobre o tema, até pra acalmar os ânimos que estão ficando muito exaltados. É “O medo do artilheiro na hora do pênalti”, de DJ Dolores, Lúcio Maia e Pio Lobato, com DJ Dolores e a Orchestra Santa Massa. Vamos lá!

O pessoal se diverte com a música e tudo fica mais sereno, quando João Sem Medo retoma a pelota.

João Sem Medo: - Meus amigos, eu falava antes dos nossos dirigentes, dos nossos maus dirigentes. A tabela, o número de clubes e o regulamento do Campeonato Brasileiro foram mudados diversas vezes.

Garçom: - Até hoje se discute quem foi o campeão de 87: Flamengo ou Sport.

Idiota da Objetividade: - E, por isso, quem deveria ficar com a Taça das Bolinhas, Flamengo ou São Paulo. A CBF instituiu esta taça para ficar com o primeiro clube que conquistasse primeiro três títulos seguidos ou cinco alternados. Mas isso, antes de reconhecer os títulos da Taça Brasil e do Robertão, pois se fosse depois, teria de ficar com o Palmeiras.

Garçom: - Que confusão!

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

João Sem Medo: - Eles ataram o nó e o futebol conseguiu ficar mais desorganizado que o país naquela época. Depois da Copa doMéxico, em 86, levaram todos os nossos jogadores para a Europa, com exceção do goleiro, e ficou por aqui o segundo escalão e as revelações. Não era mais possível aguentar competições deficitárias, nem estádios vazios. Aí veio o Clube dos 13, selecionaram 16 times, o que me pareceu certo, mas não era lá muito justo. Sport e Guarani resolveram melar a final do Grupo Amarelo e deixaram o juiz sozinho em campo. Enquanto isso, o Flamengo dava a volta olímpica no Maracanã carregando uma taça e o mérito de campeão brasileiro.

Alguns torcedores e ex-jogadores do Sport presentes protestam, mas João Sem Medo prossegue.

João Sem Medo: - Uma coisa é certa, foi justo virar a mesa e se insubordinar contra os campeonatos do Otávio Pinto Guimarães, Caixa D’Água, Rubens Hoffmeister e outros dirigentes que usufruíam do esporte na época todas as mordomias possíveis e imagináveis. O Clube dos Treze virou uma das mais sujas mesas da história de nosso futebol. O público prestigiou as duas partidas finais e deu o recado: queria assistir a grandes jogos.

Houve mais alguns protestos.

Idiota da Objetividade: - Em 1986 a CBF declarou que não tinha dinheiro para organizar o Campeonato Brasileiro com 40 times. Os principais clubes do Brasil, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio, Inter e Bahia, então se reuniram, fundaram o Clube dos 13, obtiveram verba com patrocinadores e transmissão pela TV. Com o aval da CBF realizaram a Copa União, com mais três clubes: Goiás, Santa Cruz e Coritiba. Guarani, vice-campeão em 86, e o América do Rio, o quarto colocado, ficaram fora.

Ouvem-se protestos no público quando América e Guarani são citados.

Garçom: - Foi mesmo injusto com os dois clubes. Mas senhor...

Ceguinho Torcedor: - Idiota da Objetividade, prossiga, por favor...

Idiota da Objetividade: - A CBF montou um torneio paralelo, chamado de Módulo Amarelo, com os outros principais clubes, mas o América do Rio se recusou a participar. O Sport entrou no lugar do Inter de Limeira, campeão paulista doano anterior. Para valorizar o seu torneio, a CBF sugeriu em reunião que o campeão e o vice do Módulo Amarelo disputassem o título brasileiro com o campeão e vice do Verde, que era a Copa União. O representante do Clube dos 13, Eurico Miranda, do Vasco, aceitou, mas a diretoria do Clube dos 13, presidido por Marcio Braga, do Flamengo, decidiu recusar a proposta. O impasse não foi resolvido até hoje.

João Sem Medo: - Acabou que o Sport e o Guarani disputaram a final da CBF, já em 88, e o time pernambucano foi o vencedor.

Garçom: - E os dois disputaram a Libertadores daquele ano, né?

Idiota da Objetividade: - Sim, e oficialmente não foi aceito nem pelo Supremo Tribunal Federal a divisão do título entre Flamengo e Sport, proposto pela CBF em 2011.

Sobrenatural de Almeida: - Isso sim é assombroso.

Idiota da Objetividade: - O campeonato de 88 também foi chamado de Copa União, teve a participação do América do Rio e serviu para apaziguar os ânimos. Ao todo, foram 24 equipes que disputaram a primeira divisão daquele ano.

João Sem Medo: - A competição também só terminou no ano seguinte e teve uma série de confusões.

Idiota da Objetividade: - Sim, uma delas ocorreu logo na primeira rodada. A CBF decidiu o regulamento em cima da hora, com três pontos para o vencedor e dois pontos para o time que vencesse a disputa de pênaltis, no caso de empate no tempo normal. Fluminense e Botafogo, que jogaram no Maracanã, tentaram se insurgir e não fizeram a disputa depois do jogo terminar empatado em 1 a 1. Houve depois um acordo e os dois times voltaram no meio desemana ao Maracanã apenas para a disputa de pênaltis.

Garçom: - Que confusão!

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

João Sem Medo: - Uma barbaridade!

Ceguinho Torcedor: - Eu fui lá, os portões foram abertos e vi o meu tricolor vencer nos pênaltis. Se bem que eu já não precisasse dos portões abertos pra entrar no Maracanã.

Todos riem.

Garçom: - Bom, se o assunto voltou a ser pênalti, músicas não faltam. Vou colocar mais uma aqui pra tocar: se antes foi o artilheiro, agora é “O medo do goleiro diante do pênalti”, de e com MarcoFerrari.


Fim do Capítulo #37

Episódio originalmente publicado em 12 de outubro de 2022 e republicado totalmente modificado em 29 de julho de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país. Saiba mais clicando aqui. 

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