segunda-feira, 7 de abril de 2008

OFERENDA (ou CANÇÃO DE UM SER DILACERADO)


Transpasso meu ser rompendo barreiras sensitivas
e caminho a passos largos rumo aos estágios mais elevados da loucura, da insanidade total, tangencio a alienação bestial, a genialidade que contém todo o mal que há em si,
resvalo pelas sombras abjetas dos meus desejos, dos meus esgares, das minhas margens, dos meus interiores mais recônditos, mais pervertidos, mais funestos.
Corto o meu elo comigo mesmo com as pontas de uma faca de dois gumes,
Reparto meus restos com as unhas arranhando o chão áspero, o solo impenetrável que me foi concedido por mim mesmo, por mim a mim.
Desejos retesados explodem pelos meus poros,
guitarras distorcidas espancam meus tímpanos,
roncos de motor sacodem minha cabeça:
É o seu corpo nu em oferenda.
O corpo que você me oculta, mas que eu vejo, eu toco, sem olhos e sem mãos.
Meu corpo não se move mais ao meu comando:
É ser independente.
Eu o afasto do que verdadeiramente sou
e agora as sensações das imagens são novas, não só visão,
são imagens, as suas imagens, vertiginosas imagens
muito além de cor e forma:
Imagens de odores exóticos,
Imagens de toques profundos
que acariciam a mais profunda região de minha alma, o meu ser.
Imagens de sons que arrepiariam meu corpo inteiro se ainda o tivesse,
Imagens de sabores mais extravagantes
que nenhuma língua ousará degustar.
Não tenho mais língua, não tenho mais corpo que me acorrente,
que me ate, que me amarre, que me asfixie de tanto desejo.
Sou livre, sou onipresente, sou inumano, sou demente,
louco, louco, louco,
desvairado, livre e louco.
Sem corpo, sem matéria, sem a carne perecível que me enjaulava,
sem os nervos que acendiam a qualquer pensamento,
sem músculos másculos para exibir uma força nada duradoura.
Livrei-me da carne imunda que carregava em mim,
da podridão das tripas das quais sempre fiz coração,
do coração retumbante a qualquer sinal seu.
Sem corpo, só alma,
a flutuar, a levitar, a bailar
por entre as coxas mais lisas e roliças,
lambendo os quase imperceptíveis pêlos;
por entre os seios mais provocantes,
mordendo de leve os bicos rijos;
na nuca mais sedutora,
roçando atrás das orelhas;
nas costas mais macias,
percorrendo lentamente o quase imperceptível vão;
por entre a bunda mais saliente,
eriçando seus mais brilhantes pêlos,
provocando o frêmito de seus orifícios;
por entre as pernas mais supremas, que se abrem como uma flor em botão,
desabrochando vagarosamente, vagarosamente,
por entre os pêlos do seu sexo;
pelos lábios carnudos e sedentos de seu sexo;
pelo corte delicado de sua delícia,
pelo líquido que “oferenda”.
Agora que não sou mais corpo finalmente a penetro
com a volúpia de um adolescente,
com a calma de um amante profissional,
com a insistência de um obstinado,
com o balançar de uma cobra sedosa,
com o roçar dos pêlos de um felino,
com o planar das imensas asas de uma bela ave.
Você é toda oferenda,
mas não possuo mais um corpo, nem ele mais me possui:
não transbordo mais como uma cachoeira,
não tenho mais o vigor e a beleza aterradora de uma cascata,
não tenho mais a exuberância de uma gigantesca árvore,
tenho apenas a minha potência.
Sou agora
o frio na sua espinha,
o seu arrepio repentino,
o arder de suas entranhas,
o frescor de sua pele,
o suor de todo o seu corpo,
a lágrima que lhe escapa,
o seu gozo em êxtase, afinal.
Sou, enfim, as suas próprias oferendas.
A quem quer que seja!


* Ilustração de Soter França Júnior
** Vídeo: Requiem de Mozart (Introit, Kyrie e Dies Irae), com a Washington Metropolitan Philharmonic, regência de Mark Whitmire

Esta poesia faz parte do livro "Profano Coração", de Eduardo Lamas, que está à venda aqui, em todas as versões digitais
http://bit.ly/1L3rcqW. 

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