quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A DANÇA DA CHUVA

A chuva dança lentamente
e encharca o quintal,
a terra, as telhas, as árvores

As folhas arqueiam
sob o peso de gotas
que se aglomeram
– para cair –
em outras folhas,
as mãos verdes em concha
abarcando com sorrisos
a água enviada dos céus
que sempre lhes escapa

Os galhos são prolongamentos
do dorso nu e suado
deste frondoso vegetal,
são braços estendidos
pousados no ar tentando tocar
em algo inatingível, incompreensível
como se encontrassem extenuados
de um esforço aparentemente inútil
Percorrem-lhes pingos de suor de chuva
que despencam pouco a pouco
tal qual loucos suicidas
lançando-se na incerteza da queda,
perdidos num vão aberto no espaço
que tanto pode ser uma pequena fenda
quanto um imenso rasgo no infinito
Porém na certeza de que
jamais retornarão à plataforma
de onde saltaram
pois serão sugados pela terra
enquanto outros tomarão seus lugares...

Esta poesia faz parte do livro "Profano Coração", de Eduardo Lamas. Caso queira adquirir o seu, ele está à venda em todas as versões digitais, aqui: http://bit.ly/1L3rcqW.

Veja também:
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Nada Mais
Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado)
Tardes de Outono