segunda-feira, 20 de abril de 2026

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #46

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46

Pelé, emocionado, é abraçado por Gylmar, enquanto Djalma Santos e Didi, à esquerda, e Orlando, comemoram o primeiro título mundial do Brasil, em 1958, na Suécia. Foto: Arquivo/O Globo

Após mais uma homenagem a Pelé, desta vez com a presença do Rei, também muito aplaudida pelo público, Sobrenatural de Almeida retoma a pelota pra falar do jogo contra País de Gales, em 58.

Sobrenatural de Almeida: - Mas teve quem achasse ruim a seleção naquele dia, contra Gales...

Ceguinho Torcedor: - Só mesmo Leônidas, que aqui está e merece todo o meu respeito e admiração pelo magnífico jogador que foi, é que achou que foi pouco esse gol tão sofrido, tão chorado por milhões de patrícios.

Todos os outros: - Patrícios, Ceguinho?

Ceguinho Torcedor: - Brasileiros, nossos compatriotas. Eu falei em uivo, em urro. Sim, amigos: foi um som jamais ouvido, desde que se inventou o Homem. Algo de bestial, de pré-histórico, antediluviano, sei lá. Foi um desses momentos em que cada um de nós deixa de ter vergonha e passa a ter orgulho de sua condição nacional.

João Sem Medo: - Didi teve excelente atuação, arrancando aplausos do público sueco algumas vezes naquele dia. Vavá não jogou, Mazzola é que atuou no ataque brasileiro contra Gales. E não jogou bem.

Idiota da Objetividade: - Com essa vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales, com gol de Pelé, aos 25 minutos do segundo tempo, a seleção brasileira se classificou para a semifinal, sem levar gol, e enfrentou a França. Venceu por 5 a 2, resultado que se repetiria na final, contra a Suécia.

Ceguinho Torcedor: - Que frieza, que objetividade, pra narrar as estupendas vitórias do Brasil.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso. Nenhuma emoção, sem qualquer vestígio de sentimento.

Idiota da Objetividade: - Estou narrando os fatos, o que aconteceu.

Ceguinho Torcedor: - Há muito mais do que os fatos narrados. E se os fatos me desmentirem, pior para os fatos.

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João Sem Medo: - Contra a França, Pelé fez três gols, Vavá e Didi os outros dois.

Ceguinho Torcedor: - Foi uma vitória “de gaulleada”.

João Sem Medo: - Em homenagem ao general De Gaulle?

Garçom: - Não foi ele que disse que o Brasil não era um país sério.

Idiota da Objetividade: - Há controvérsias...

Sobrenatural de Almeida: - Desconfio que o general em sua tumba ainda tenha razão...

Garçom: - Mas o assunto é futebol. E como nunca é demais, vamos a mais uma música sobre o Rei do Futebol?

Todos concordam, inclusive Pelé, que exibe aquele sorriso inconfundível ao agradecer com um aceno ao público que mais uma vez o aplaudiu.

Músico: - Então, gostaria de chamar ao palco o grande cavaquinista Jorge Pereira Simas, o querido Tico-Tico!

Tico-Tico vai ao palco, sob aplausos.

Tico-Tico: - Obrigado. Obrigado. O nosso rei merece sempre ser lembrado. Vou apresentar aqui “Ataca Pelé”, espero que ele e todos os demais aprovem.

A aprovação foi geral e Tico-Tico deixa o palco sob aplausos entusiasmados. Quando o público começou a se aquietar novamente, João Sem Medo distribuiu o jogo, destacando a qualidade ofensiva do time francês de 1958.

João Sem Medo: - O Brasil enfrentou um time que já tinha feito 15 gols em quatro jogos. Quase quatro por partida. O grande destaque era Fontaine, que acabou artilheiro daquela Copa com 13 gols...

Idiota da Objetividade: - É o jogador que mais fez gols numa edição de Copa do Mundo até hoje.

João Sem Medo: - Kopa era outro grande jogador.

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Ceguinho Torcedor: - O Brasil estava devendo a todos nós uma vitória como aquela. Vencemos contra tudo e contra todos. Contra os franceses, contra os bandeirinhas, contra o juiz e contra a Marselhesa. Nosso Hino Nacional foi apenas tocado. Não havia ali nenhuma multidão para soltar aos quatro ventos: “ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”. Ao passo que a Marselhesa foi cantada. Mas nosso Hino não se dobrou, mesmo com o juiz nos tirando dois gols e dois pênaltis. Aquele escrete era o escrete da coragem e creiam que Vavá, que voltou naquele jogo no lugar do Mazzola, com sua bravura louca, traduziu um perfeito, empolgante símbolo dessa coragem.

Idiota da Objetividade: - Uma curiosidade: Vavá marcou, logo a um minuto de jogo, o centésimo gol da História da Copa do Mundo.

João Sem Medo: - O jogo não foi disputado só na bola, não. Os franceses apelaram, mas três deles saíram machucados. O zagueiro Jounquet, que se contundiu aos 35 minutos do primeiro tempo... 

Idiota da Objetividade: - Jounquet fraturou a fíbula após um choque com Vavá.

João Sem Medo: - Pois, então, naquela época não era permitida a substituição, e o Jonquet ficou o restante do jogo fazendo número na ponta-esquerda. No lado do Brasil, Vavá saiu antes do fim da partida, mas ela já estava ganha. Bellini também se lesionou. Mas os dois jogariam a final contra os suecos.

Idiota da Objetividade: - E Vavá fez dois gols na decisão, com mais dois de Pelé e outro de Zagallo.

Sobrenatural de Almeida: - O Brasil jogou de azul a final. Diziam que daria azar...

Idiota da Objetividade: - Nas seis primeiras edições da Copa do Mundo, cinco vezes a seleção que vestia camisa azul venceu a final. Uruguai, em 30 e 50, a Itália, em 34 e 38, e o Brasil, em 58. Apenas em 54 venceu a Alemanha, de branco, derrotando a Hungria, que jogou de vermelho.

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Garçom: - Foi um carnaval em junho. Eu era pequeno, mas me lembro bem. Tomei um susto de ver tantos adultos chorando. Choravam de alegria.

Idiota da Objetividade: - Foi a primeira e até hoje única vez que uma seleção de fora da Europa venceu uma Copa no Velho Continente. A Suécia marcou o primeiro gol, aos 4 minutos, com Liedholm; o Brasil empatou e virou com Vavá, aos 9 e aos 32 da primeira etapa, Pelé marcou aos 10 da etapa final, Zagallo ampliou, aos 23; Simonsson fez o segundo da Suécia, aos 35, e Pelé, aos 45, deu números finais à partida.

Ceguinho Torcedor: - Meu caro Idiota da Objetividade, os 5 a 2, lá fora, contra tudo e contra todos, foi um maravilhoso triunfo vital, de todos nós e de cada um de nós. Do Presidente da República ao apanhador de papel, do Ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui perceberam o seguinte: é chato ser brasileiro! Já ninguém tinha mais vergonha de sua condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais andavam pelas calçadas com um charme de Joana D’Arc. O povo não se julgava mais um vira-latas. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra em todos os tempos. Pelo menos até ali. O escrete deu um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal, na Suécia.

Sem que ninguém percebesse seus movimentos enquanto todas as atenções estavam voltadas ao discurso eloquente e emocionado do Ceguinho Torcedor, Zé Ary preparou o aparelho de som e assim que o nosso amigo encerrou sua fala e o povo começava a aplaudi-lo, em alto e bom som “A Taça do Mundo é Nossa”, de Wagner Maugéri, Mageri Sobrinho, Victor Dagô e Lauro Muller, fez todo mundo pular, dançar, cantar e festejar como se 1958 fosse o agora, o momento de sempre. E foi mesmo eterna aquela grande conquista.

Fim do Capítulo #46

Episódio originalmente publicado em 14 de dezembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 20 de abril de 2026.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura brasileira.
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2 comentários:

  1. Caro Edu, onde você descobre essas músicas relacionadas com o futebol? Com o futebol do passado remoto!!🤓
    Imagino a pesquisa...🤔

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    1. Oi, meu amigo. Encontro em livros, sites, no YouTube. É pesquisa incansável, desde 2015. Obrigado pela visita e o comentário. Volte sempre. Abração.

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #46

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