segunda-feira, 19 de julho de 2010

NINA SIMONE, A SACERDOTISA DO JAZZ


Muito mais que uma grande cantora. Quando Nina Simone, que o público brasileiro teve a oportunidade de assistir em algumas oportunidades, deixou este mundo, em 21 de abril de 2003, a música ficou mais pobre. Dona de uma voz privilegiada que passeava por vários estilos musicais, embora fosse mais conhecida como cantora de jazz, Simone foi uma artista que não se vendeu ao “american way of life”.
Chamada de a Sacerdotisa do Jazz e comparada a Billie Holiday, Nina Simone fugiu de rótulos com seu talento e, além de cantar e compor como poucos jazz e blues, recriou clássicos, baladas e rocks dos Beatles e de várias outras bandas americanas e inglesas. Simone apareceu para o público nos anos 50 e logo mostrou seu imenso talento como pianista, cantora, arranjadora e compositora. I Love You Porgy, da ópera Porgy and Bess (1959), de George Gershwin, foi seu primeiro grande sucesso.
Outros grandes momentos da carreira de Simone foram as músicas My Baby Just Cares for Me, gravada em 1966, e One Night Stand, um ano depois, além de clássicos de Bob Dylan, como Just Like a Woman; de George Harisson (Here Comes the Sun e My Sweet Lord); e de John Lennon e Paul McCartney (Revolution). Além disso, compôs trilhas para vários filmes.
Nina (pequena) e Simone, em homenagem à atriz francesa Simone Signoret, estudou piano na famosa escola de música Julliard, em Nova York, algo raríssimo para uma mulher negra na década de 50 nos Estados Unidos e começou a trabalhar como pianista. Em 1954, ao fazer um teste para tocar num bar irlandês de Nova Jersey foi obrigada a cantar pelo proprietário do estabelecimento. Sábia decisão deste anônimo.
De temperamento explosivo, Eunice Kathleen Waymon, como foi registrada, deixou o palco várias vezes, insatisfeita com a (ou a falta de) educação da platéia. Nina Simone nasceu no dia 21 de fevereiro de 1933 em Tryon, Carolina do Norte, sendo a sexta de oito irmãos (quatro meninas). As atitudes firmes desta artista, porém, não se restringiram aos palcos, pois lutou a vida inteira contra o racismo, uma das marcas de seu país natal, e pelos direitos humanos.
Aliás, foi exatamente por isso que saiu dos Estados Unidos e perambulou pelo Caribe e a África até mudar-se em 1995 para o sul da França, onde faleceu aos 70 anos. Ativista política, compôs Mississipi Goddam quando em 1963 quatro crianças negras foram mortas em um ataque a uma igreja em Birmingham. Obviamente, suas posições desagradaram conservadores e acabou recebendo críticas ácidas quando gravou Four Women, sendo acusada de incitar os negros à revolta.
“Paguei um preço muito alto por combater o sistema. O preconceito racial nos Estados Unidos hoje é maior do que nunca”, disse em entrevista concedida em 1998.
Nina buscava a liberdade e o sucesso passou em certo sentido a ser um peso para ela, pois se sentia manipulada pelos “marqueteiros” das gravadoras e do chamado show business. Em 1974 começou seu exílio voluntário, sobre o qual também escreveu várias músicas, por Barbados, no Caribe. Depois viveu na Libéria, na Suíça, em Paris, na Inglaterra, na Holanda e no sul da França.
Em 1990, fez uma participação no disco 25 Anos de Maria Bethânia, na faixa Pronta pra Cantar, de Caetano Veloso. No ano seguinte foi lançada, em vários idiomas, sua autobiografia. Sua última excursão ao Brasil ocorreu em abril de 2000, inclusive com apresentações no Rio de Janeiro. Público não faltou a Nina Simone nos seus últimos anos de vida, mas a sua saúde já não era a mesma. Ela, que trabalhava no álbum Simone Superstar, deixou uma filha, Lisa Celeste, com quem se apresentou algumas vezes, como no Festival de Blues de Dublin, na Irlanda.

Caricatura do publicitário e ilustrador Fábio (http://desenhafabio.wordpress.com/)
Vídeo: "Four Women", de e com Nina Simone
Veja também: Villa-Lobos, o Pai da MPB
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
Dois garotos