terça-feira, 9 de agosto de 2016

ESPIRAL DO TEMPO *

... e ainda gira sobre seu próprio eixo
a gigantesca espiral do tempo...

e a vida, que anda pela hora da morte,
repete movimentos, locais e sensações
em momentos distintos, mas bem reconhecíveis
é o deja-vu aflorando a alma
em rascunhos de decisões nunca tomadas
em sonhos repetidos e palavras fugidias
em dores repentinas e medos paralisantes
localizados num ponto específico
deste imenso ciclo aberto no espaço
que se move vertiginosamente lento
como se estivesse estático

... mas ainda gira sobre seu próprio eixo
a gigantesca e enigmática espiral do tempo...

a vida caminha pela zona morta
numa lentidão vertiginosa
a lua e o sol se revezam no céu
e quando se encontram dançam na penumbra
a água em torno de si desce pelo ralo da pia
a folha, como um cone, se despede da árvore
a marimba roda para alcançar a pipa voada
que se enrosca na própria rabiola
a bailarina gira no ar e prepara o leve pouso no palco
o acrobata exibe sua pirueta no circo
a menina encantada em seu cavalo de mentira
brinca no carrossel do parque de diversões
o ginasta finaliza sua apresentação no salto mortal
a bola chutada com efeito, sai da linha reta do gol
para fugir do goleiro e ganhar a rede
o parafuso penetra a parede
a mola se solta e salta

... e ainda gira sobre seu próprio eixo
a gigantesca, enigmática e
indestrutível espiral do tempo...

e a vida desce a ladeira em ponto morto
Cronos convoca Hermes, que evoca Ares e Atena
o louco dança com sua solidão no quarto escuro
o corpo do enforcado gira de um lado para o outro
o torno na mão do carrasco tortura um anjo
o bêbado rega a calçada com sua tontura
a areia movediça engole um bicho
o redemoinho afoga um homem
a tormenta naufraga um barco
o assassino gira o tambor do revólver
antevendo o sangue da vítima
a roleta russa ganha esquinas
o automóvel capota na estrada
o avião abatido rodopia no ar
no horizonte se vê um cogumelo atômico
o tufão arrasta casas, prédios, carros, pontes
e devasta cidades

... e ainda gira sobre seu próprio eixo
 a gigantesca, enigmática,
indestrutível e infinita
 espiral do tempo...

* Esta poesia havia sido originalmente publicada neste blog em 9 de outubro de 2011. Foi publicada também na edição 4 do Jornal Portal, de novembro de 2014.

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