segunda-feira, 12 de setembro de 2016

AZUL E BRANCO

Por baixo desta pele fresca e arrepiada
por trás deste olhar atento e generoso
do furor com que vocifera
suas dúvidas e suas verdades
das palavras ternas e perturbadoras,
amenas e motivadoras,
por dentro desses braços e abraços
calorosos e acolhedores
deste ombro amigo
deste coração quente
destes ouvidos em forma de oráculo
por trás de tantos orgulhos feridos
existe uma geleira inacessível e indestrutível
onde não há amor ou ódio
desejo ou repulsa
apenas essa frieza inquebrantável,
serena, imperturbável
de um azul e branco vastos,
infinitos como o horizonte
de quem olha pra frente
e se esquece de onde pisa
que voa sem impulso
apenas flutua, levita
sem meditar
impõe sem forçar
desama sem odiar
se afasta sem se mover
que não se afeta
com tragédias pessoais ou coletivas
nem com ironias ou sarcasmos
apenas observa imóvel e compreende
o quão distante está
de certas pessoas tão próximas.

Foto: cena do episódio A Nevasca do filme Sonhos, de Akira Kurosawa.
Veja também:
Um sonho chamado Kurosawa
A brutal delicadeza de Kieslowski
Tecelã natureza