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| Em sua estreia na Copa de 58, Garrincha enlouquece a defesa soviética e chuta a bola na trave de Yashin |
Após todo mundo, especialmente Didi e dona Guiomar, se
divertirem com “O nosso dia chegou”, João Sem Medo retoma a pelota.
João Sem Medo: - É bom que o brasileiro saiba que a Europa se atrasou perante nós por causa de uma guerra que dizimou quase toda a juventude entre 15 e 45 anos. Isso não se refaz com decreto-lei nem com planos quinquenais. É preciso esperar que nasçam outros, formem-se e reaprendam. A Europa teve grandes prejuízos com a Guerra, o que nos permitiu um avanço enorme. Quando pegamos a Europa em 58 e 62, ela estava, exatamente, num período de decadência esportiva, porque lhe faltou a juventude que tinha morrido na guerra. E foi uma vantagem que nós tivemos. Nosso futebol, no entanto, é do melhor nível. Nós estamos na primeira turma do futebol mundial e nos mantivemos nela ao longo do tempo, ainda que a duras penas nos últimos anos.
Ceguinho Torcedor: - Desde 50 que o nosso futebol tinha o pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios foi uma humilhação nacional, que, imaginávamos, jamais seria superada. Porém, até o mais vertiginoso e convicto pessimista não conseguiria prever algo como o que ocorreu na última Copa, com aquele estrondoso, retumbante, escandaloso, histérico 7 a 1 para os alemães. Mas em 58, negávamos o escrete porque a frustração de 50 ainda funcionava. Havia um pânico de uma nova e irremediável desilusão.
João Sem Medo: - Era o complexo de vira-latas, né, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Sim, João. A inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, face ao resto do mundo em todos os setores, sobretudo, no futebol. O problema do escrete não era de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. Era um problema de fé em si mesmo.
Garçom: - Hoje em dia acho que muitos jogadores da seleção se acham importantes e bons demais pro que realmente são.
Ceguinho Torcedor: - Eles têm um complexo de vira-latas às avessas.
João Sem Medo: - Complexo de lulu de madame.
Todos riem.
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Idiota da Objetividade: - Em 58 a
seleção brasileira foi para a Suécia desacreditada.
Ceguinho Torcedor: - Aqui o escrete já se sentia no
estrangeiro; lá, é como se estivesse em casa. Esse foi o drama da seleção:
encontrar lá fora o tratamento humano que lhe negamos aqui.
Idiota da Objetividade: - O Brasil estreou na Copa com uma vitóriade 3 a 0 sobre a Áustria, com dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos.
Ceguinho Torcedor: - Mazzola arrombou duas vezes a rede
adversária e Nilton Santos fez um gol fulgurantíssimo.
Todos os outros: - Fulgurantíssimo, Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Muito mais que espetacular. Ele se
desgarrou da defesa, foi dizimando até meter o gol. Mas Gylmar defendeu tudo,
até pensamento.
Idiota da Objetividade: - Na segunda partida, a seleção brasileira empatou sem gols com a Inglaterra.
João Sem Medo: - Gylmar fez outra grande partida,
salvando inclusive um gol contra de Orlando no fim do jogo. O goleiro inglês
McDonald também teve grande atuação. O Brasil foi melhor no primeiro tempo, os
ingleses, na etapa final.
Ceguinho Torcedor: - Feola, que já havia trocado Dida
por Vavá para enfrentar os ingleses, mudou mais três jogadores para a partida
contra a Rússia e tivemos os três minutos mais sensacionais da história do
futebol. Nos primeiros três minutos da batalha, já o Garrincha tinha derrotadoa colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E bastava o empate.
Idiota da Objetividade: - O técnico Vicente Feola tirou o
volante Dino Sani e os atacantes Joel e Mazzola para as entradas de Zito,
Garrincha e Pelé.
Ceguinho Torcedor: - Garrincha não acreditava em empate
e foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua
penetração, fantástica, driblou até as barbas de Rasputin.
O público se diverte, principalmente Garrincha, que dá uma
sonora gargalhada.
Garçom: - Vamos aproveitar pra ver no telão lances maravilhosos desses 3 minutos estupendos e outros da vitória sobre a União Soviética, em 1958, com narração em francês.
Ceguinho Torcedor: - Amigos, a desintegração da defesa russa começou exatamente na primeira vez que Garrincha tocou na bola. O jogo Brasil e Rússia acabou nos três minutos iniciais. Só um Garrincha poderia fazer isso contra o time poderosíssimo da Rússia. Porque Garrincha não acreditava em ninguém, só em si mesmo.
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Angelita é muito aplaudida e deixa o palco. O jogo Brasil x
URSS volta à mesa de nossos amigos.
Ceguinho Torcedor: - Calculo que lá pelas tantas os
russos, na sua raiva obtusa e inofensiva, devem ter imaginado que o único meio
de destruir Garrincha fosse caçá-lo a pauladas. Talvez nem assim. No segundo
tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. As
cinzas do czar devem ter ficado humilhadíssimas. O marcador do “seu” Manoel já
não era um: eram três. E então começou a se ouvir aqui no Brasil, na Praça da Bandeira,
a gargalhada cósmica, tremenda, do público sueco.
Todos riem e aplaudem. Garrincha se levanta novamente e
agradece.
Garrincha: - Seu Ceguinho, o senhor é craque! Muito obrigado.
Ceguinho Torcedor: - Não chego a seus abençoados pés, Mané!
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Garçom: - Aquela foi mesmo uma atuação
histórica! De recuperar o orgulho brasileiro, não é “Seu” Ceguinho?
Ceguinho Torcedor: - Aqui, em toda extensão do
território nacional, começávamos a desconfiar que era bom, que era gostoso ser
brasileiro.
Idiota da Objetividade: - E foi a primeira vez que Garrincha
e Pelé jogaram juntos numa Copa do Mundo.
Garçom: - Então, como Garrincha já foi homenageado, agora será a vez de Pelé. Aliás,
já soube que ele virá aqui mais tarde.
O público vibra.
Fim do Capítulo #44
Episódio originalmente publicado em 30 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 8 de março de 2026.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Uma coisa jogada com música - Capítulo #43
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Boas histórias...você sabia que Vittorio Pozzo, com a Itália, em 1934 e 1938, foi o único técnico a ganhar duas Copas do Mundo?
ResponderExcluirVicente Feola, campeão com o Brasil em 1958, quase alcançou o feito, mas, em 1962, adoeceu e acabou sendo substituído por Aymoré Moreira.
É verdade, amigo. O Feola dirigiu a seleção em várias oportunidades, mas enfrentava problemas de saúde. O mais incrível pra mim foi Osvaldo Brandão, técnico da seleção em 55, 56, e novamente 20 anos depois.
ResponderExcluirCaro amigo, 24 anos depois do último título, e de muitos fracassos, receio que não possamos mais reunir histórias como essas da seleção que já jogou o melhor futebol do mundo. Personagens de um tempo em que o futebol ainda se praticava com pouco dinheiro e muito amor à camisa.
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