quinta-feira, 29 de abril de 2010

O TEATRO E O FUTEBOL

Muito se fala e se escreve – é já um clichê – sobre a relação íntima entre a música e o futebol, especialmente no Brasil. E esta relação tem sido proporcional à pobreza que vem sendo apresentada na maioria dos casos em ambos os lados. Porém, apesar de mestres como Nelson Rodrigues - o maior exemplo - a intimidade da bola com as peças teatrais tem sido muito pouco explorada. Nem tanto nos palcos, já que Nelson (na foto ao lado com Zico e mais abaixo com a camisa do seu Fluminense), Plínio Marcos e outros já retrataram muito bem o futebol em suas obras. Mesmo assim, principalmente no caso de Nelson Rodrigues, ele se preocupou muito mais com a paixão clubística, a ótica das sensações e reações do torcedor do que com o jogo em si e os jogadores.
No campo dos boleiros, o que me motivou a escrever este texto que ensaio em minha cabeça há alguns anos foi uma matéria publicada no fim do ano passado pelo jornal “O Globo”, em que o ex-zagueiro e atualmente técnico Estevam Soares, então no Botafogo, relatava como conheceu Plínio Marcos (na foto abaixo retirada do seu site oficial), a forma que o dramaturgo encontrou para impedir que o então zagueiro do São Paulo perdesse uma das pernas e da sua conseqüente amizade com o “maldito” até a sua morte, em novembro de 1999.
Pois bem, nunca entendi por que o futebol sempre se manteve a uma distância – que vou chamar de respeitosa – do teatro. Num tempo em que alguns técnicos, muitos dos mais importantes que temos, parecem se achar os inventores da bola, vivem convidando palestrantes motivacionais com seus vídeos mirabolantes para tirar seus comandados do tédio das concentrações, viagens e treinos, sempre me perguntei – e a questão foi reacesa ao saber dessa amizade de Estevam com Plínio: por que nunca um diretor de teatro foi convocado?
As montagens de uma peça de teatro e a de um time de futebol se assemelham muito em vários aspectos – talvez a exceção esteja nos monólogos, mais afeitos aos jogadores de tênis ou a outros esportes individuais. As analogias entre o futebol e o teatro - e à própria vida, por que não? – são bastante plausíveis e a palestra de um diretor de teatro a um time de futebol ainda teria a vantagem de apresentar aos jogadores um mundo completamente desconhecido para muitos e tão fascinante quanto o seu.
A deixa de uma peça é como o passe no futebol. E para que sejam perfeitos não bastam talento e muitos ensaios (ou treinos). O entrosamento é algo que pode sim ser obtido com muitos treinamentos e ensaios; no entanto, para uma boa tabela, triangulação, para o ritmo não se perder e fluir com maestria é preciso aquele entendimento que vem do olhar, de um gesto, de uma expressão, que podem ser inesperados, não previstos nos treinos e ensaios. Nem falo aqui dos cacos, que são frases ou pequenos textos não escritos pelo dramaturgo ou diretor que são inseridos (criados) por um ator no meio de uma peça. Um caco num grupo sem entrosamento e ou talento, ou dito no momento errado, pode fazer uma peça - e até uma temporada - desandar. Assim como um passe errado ou não entendido por um companheiro pode pôr um jogo e até um campeonato a perder.
Por outro lado, uma atuação genial de um grande ator ou de um craque sempre dependerá dos companheiros. A deixa e o passe precisam ser bem feitos para que o espetáculo teatral ou o desempenho de uma equipe sejam um sucesso. A deixa pode em alguns casos nem ser dada pela última palavra da fala que cabe a um personagem, como normalmente acontece: pode ser uma reticência, uma vírgula, um olhar, um gesto, uma expressão facial ou corporal. Como um gol pode ser marcado sem um passe ou lançamento direto para o artilheiro, nascendo de um corta-luz, um drible de corpo ou um deslocamento que ludibrie a marcação adversária.
O diretor de teatro é o técnico do seu grupo. O seu “plano tático” é determinado por nuances estabelecidas pelo autor que o encenador pode respeitar ou criar em cima das rubricas do texto. As marcações de cena, assim como as deixas, as entonações, as entradas em cena, as expressões corporais e faciais, os olhares, a quem se dirige cada uma das falas, como utilizar o cenário ou o próprio figurino, tudo isso faz parte de seu “plano de jogo”. Assim como o treinador prepara seu time ensaiando jogadas, deslocamentos, formas de marcação sobre o adversário, a colocação da defesa nas situações defensivas e ofensivas e do ataque também, onde ficará cada um de seus jogadores na cobrança de um escanteio (seja de seu próprio time ou do adversário), por onde seguir nos contra-ataques, quem o puxará, quem abrirá pelas pontas, enfim uma gama de situações.
No entanto, cada partida de futebol e cada apresentação de teatro têm suas particularidades que as transformam em únicas, irrepetíveis, embora o texto e as regras do jogo sejam os mesmos e até a possibilidade de os atores e os jogadores serem os mesmos. O imponderável, o aspecto humano, a platéia, até o clima pode mudar tudo. Por isso, teatro e futebol sejam tão fascinantes, apaixonantes. Pena que em muitos casos tenham se afastado tanto da arte para se entregarem ao pragmatismo comercial dos resultados. Mesmo assim, ainda creio que ambos tenham muito a aprender um com o outro.

Obs: quem souber os créditos das fotos acima, por favor, me passem para eu publicá-los.
Texto também publicado no Futebloguices.
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