quinta-feira, 29 de junho de 2023

A BANALIZAÇÃO DO APLAUSO *

A maior vitória conquistada pelos homens que amam o poder e dão a vida para mantê-lo é sem dúvida a imbecilização de seus subalternos. Investindo na falta de informação onde ela dificilmente chega e no treinamento por repetição, chamada pomposamente de educação democrática, nas áreas urbanas, onde a informação chega de qualquer forma - mesmo ao mais alienado dos seres -, os poderosos continuam vislumbrando um horizonte infinito à sua frente por vias democráticas. 

Críticas ao baixíssimo nível da televisão são freqüentes nos jornais desde sempre, por exemplo. Para se ter uma idéia, Nelson Rodrigues, em uma crônica nos fins dos anos 60 (portanto há mais de 30 anos) já perguntava como se poderia ter uma televisão de alto nível se o público telespectador era de baixo nível intelectual. Mudou algo de lá para cá?

Li certa vez uma entrevista do diretor de teatro Antunes Filho afirmando ser muito difícil fazer peças de boa qualidade no Brasil porque o público de teatro havia piorado muito. Ele, porém, dizia que, apesar disso, não iria dirigir peças somente para agradar as pessoas. O verdadeiro artista é como o verdadeiro amigo, deve dizer exatamente aquilo que sente e não somente o que agrada. 

No entanto, o que mais temos assistido por aí são “artistas” fazendo música, encenando peças, escrevendo livros para não decepcionar o seu público. E que público é este? Exatamente o mesmo que não tem qualquer tipo de exigência, nada questiona, tudo absorve e tem horror a algo diferente do padrão. E por quê? Porque foram treinados para serem assim. E assim são. E assim repetem os erros dos poderosos. E assim permitem aos poderosos continuarem onde estão. E o círculo se torna vicioso, nada muda.

Nada mais irritante numa sala de teatro do que a turminha do “urruu”. A turma que a tudo aplaude, mesmo que a peça tenha sido de baixíssima qualidade. Há logicamente uma parte dessa turma que é altamente hipócrita (que aplaude na frente para depois meter o malho por trás), mas a maioria vai na onda e o aplauso se banaliza. 

Vi recentemente uma peça no Rio que tinha um ótimo texto (“Esplêndidos”, de Jean Genet), mas que foi simplesmente arrasada por uma turma de atores que havia saído das academias de malhação, passando rapidamente pela telinha da tevê, para cair de pára-quedas no palco do CCBB. Até o excelente Nelson Xavier parecia estar sem a menor paciência de aturar aquela turma e tropeçava no texto, chamava dois personagens pelo mesmo nome, um desastre, enfim, salvo apenas pelo excelente texto, repito, e pelo cenário. Ao fim da peça foram aplaudidos de pé. De pé!

Outro dia, fui ao maltratado Teatro Dulcina para assistir a uma bela apresentação de “Anti-Nelson Rodrigues” e me irritei profundamente com um grupinho de três rapazes atrás de mim, que não paravam de rir de qualquer coisa na peça e ainda cochichavam o tempo inteiro. Por vezes não conseguia ouvir o que os atores diziam, por causa do tititi atrás de mim. Percebi antes da peça começar que eles eram de teatro, pois faziam referência a uma matéria de jornal que publicou uma foto deles. Pois é, futuros atores que não aprenderam sequer a ser platéia. Estamos feitos!

Não é a toa que nos campos de futebol os chutes nas canelas adversárias sejam mais freqüentes do que os belos lances. As torcidas organizadas e muitos dos que estão em volta nas arquibancadas estão mais dispostos à porrada do que a assistir um bom jogo de futebol. Quantas vezes Pelé, Garrincha e outros não foram aplaudidos por torcedores adversários? Quantas vezes uma torcida não vaiou seu time quando jogou muito mal e ganhou em outros tempos? 

Quando um time joga mal a torcida não pede talento, pede raça, embora ela muitas vezes não falte. Hoje a única exigência é a vitória a qualquer custo, mesmo que seja à base de pontapés. Os espetáculos só vem piorando, entre outras coisas, porque o público é de péssima qualidade. E a imprensa, que fabrica um ídolo por dia, é a grande responsável por tudo isso. Até porque tem uma intimidade muito grande com o poder.

* Este texto foi escrito provavelmente em 2000, portanto há cerca de 23 anos.

Obs.: a ortografia antiga foi mantida. Fica também como uma forma de protesto contra a mentira deslavada da padronização nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que certamente favoreceu gente do meio editorial e desgovernamental também (só cumprido e imediatamente adotado pelo Brasil, sil, sil, o acordo foi assinado em 2008 pelo mesmo presidente de agora).

segunda-feira, 26 de junho de 2023

TRECHO DO LIVRO "O NEGRO CREPÚSCULO"

O Negro Crepúsculo

 PRELÚDIO

Não costumo ser chamado pelo nome de batismo, então me apresento pelo artístico, c.j.marques - assim mesmo com minúsculas, igual ao poeta e.e. cummings. Entre meus colegas sou conhecido como Marques. E assim digo, no dia-a-dia, que é este o meu nome para as pessoas com as quais vou esbarrando por força do meu trabalho.

Completei 39 anos no mês passado, sou formado em Publicidade e Propaganda já há 14, mas nunca exerci a profissão. Fiz apenas um rápido estágio numa agência, mas me senti deslocado demais naquele mundo. Ou seja, percebi tarde demais que havia feito a escolha errada. Ainda morava com meus pais, mas queria ter minha vida independente e fui trabalhar com vendas, primeiramente no mercado formal, posteriormente no informal, para ter como me sustentar.

Acabei conseguindo juntar um dinheiro e comprei um carro, apesar do financiamento extorsivo de um banco, e virei taxista, minha profissão até hoje. Mas desde sempre escrevi e guardei aquelas folhas - antes reais, batidas à máquina de escrever, e agora virtuais - com a esperança de um dia publicá-las. Procurei várias editoras, recebi elogios, e foi só: ninguém se interessou pelo taxista, publicitário só por formação universitária, e um voraz leitor metido a poeta.

Tive um casamento frustrado, que durou pouco mais de quatro anos, sem filhos. Estou há cinco vagando por esta cidade que um dia deve ter sido mesmo toda maravilhosa (eu a reconheço em seus escombros e sombras sombrias de seus prédios, morros, vales e praias), levando pessoas daqui pra lá, de lá pra cá. Algumas vezes nem isso, prefiro ficar rodando sozinho, observando a paisagem noturna, recusando os sinais de algumas criaturas perdidas na noite. Erro por madrugadas e manhãzinhas nessas ruas esburacadas e imundas, não só no meu táxi, mas também a bordo de minha solidão. Quando achei que poderia encostá-la numa calçada da vida qualquer, numa festa na casa de um amigo conheci Alice.


“... (não sei dizer o que há em ti que fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas”

(e. e. cummings, em tradução de Augusto de Campos )


Quer ler a história inteira de c.j.marques, o dublê de taxista e escritor?
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Veja também:
"O negro crepúsculo" em destaque na mídia
"O negro crepúsculo" na Rádio Jornal, do Recife
"O negro crepúsculo", um livro muito bem recomendado
"O negro crepúsculo" pelo mundo

sábado, 24 de junho de 2023

FLAMENGO, BILIONÁRIO SOBERBO E PREGUIÇOSO

Flamengo, um bilionário soberbo e preguiçoso
Foto: Marcelo Cortes/CRF / Jogada10

Como ocorrera logo após o gol do inexpressivo Ñublense, na quinta-feira passada desisti de continuar assistindo a mais um vexame do meu time assim que o árbitro encerrou o primeiro tempo. Pelo whatsapp escrevi pros meus filhos: "Se o tal de Vitinho (Bragantino) fosse um pouquinho melhor, o Flamengo já estaria perdendo de 4". E foi de 4 que o bilionário elenco rubro-negro caiu em Bragança Paulista. Mais uma vergonhosa derrota para a já enorme coleção deste ano, que seguiria o anterior, não fosse Dorival Júnior e os dois títulos conquistados no segundo semestre de 2022, a Copa do Brasil e a Libertadores. Está certo, depois de várias ótimas apresentações, teve mais sorte do que juízo nas finais, principalmente contra o Corinthians, mas conquistou as taças. E a competição sul-americana de forma invicta, com 12 vitórias e apenas um empate em 13 jogos.

Então, por motivos até hoje não esclarecidos, o comando do futebol do clube passou a querer o treinador que havia sido superado duas vezes por Dorival, em 2022, e assim começamos o ano, acumulando derrotas, algumas escabrosas, não vou citá-las. A verdade é que o Flamengo se tornou um bilionário arrogante e modorrento que vendeu sua alma. O que se viu na quinta-feira (e estou falando apenas do primeiro tempo!) foi um bando de jogadores caminhando e olhando o adversário inferior técnica (pelo menos no papel) e financeiramente correr muito e jogar, com exceção do goleiro Matheus Cunha e mais um ou dois. 

O treinador, à beira do campo, de cabeça baixa, só andava de um lado para o outro, como aliás costuma fazer, sem qualquer reação. No fim, li apenas no dia seguinte, quando soube o resultado final, ele ficou surpreso. O cara teve 10 dias, tempo suficiente para arrumar a equipe, depois da vitória pra lá de enganosa sobre o Grêmio. Mas o time piorou. Aliás, é uma constante também no Flamengo, voltar ainda pior depois de paradas como esta última para treinar. Será que treinam mesmo ou só enrolam? A dúvida me é permitida, pois os treinamentos são fechados para a imprensa, portanto para o público. 

Bom, gastei meu precioso tempo vendo a primeira etapa daquela enganação de quinta, mais ainda para batucar este texto aborrecido e vou dar um bom tempo de Flamengo, vou ver Palmeiras x Botafogo apenas. Acho que a torcida rubro-negra deveria fazer uma greve para ver se espanta a preguiça dos preguiçosos, mas o torcedor apaixonado vai em qualquer circunstância ao estádio, nem que seja apenas para resmungar, xingar, protestar. Eu prefiro ser mais criterioso na escolha do gasto de minhas energias e dos meus programas. Ler um bom livro é o melhor deles. 

Amanhã, contra o combalido e desesperado Santos, estarei longe da partida e só devo saber o placar na segunda-feira, quando for ao noticiário, o que faço todas as manhãs. O time sem alma não terá minha audiência por um bom tempo. Sei bem que não fará qualquer diferença para eles, pois dinheiro não lhes falta, talvez vergonha na cara. Pelo menos me aborreço menos.

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sexta-feira, 23 de junho de 2023

TRECHO DO EBOOK "VELHOS CONHECIDOS"

"Velhos conhecidos" é a peça de minha autoria mais recente, ainda inédita como todas as outras, com exceção da de estreia, "Sentença de vida". Abaixo, você poderá ler o trecho inicial da obra e clicando aqui poderá saber mais sobre o ebook que está à venda na Amazon do Brasil e de mais 13 países, além de estar disponível no sistema Kindle Unlimited.


Personagens:

Pedro de Albuquerque
Carlos Alberto Fanzini

Dois idosos numa casa ampla. De móveis antigos, mas muito bem cuidados. Sala em penumbra.

Pedro: - Eu...

Carlos: - Ahn. (pausa) O que foi?

Pedro: - Eu...

Carlos: - Sim, o que tem você?

Pedro: - Um momento.

Pedro vai vagarosamente à janela e a escancara. Uma luz forte invade violentamente a sala.

Carlos (tapando os olhos): - Meu Deus, Pedro, assim você me deixa cego.

Pedro: - Gosto de claridade.

Carlos: - Essa luz toda me agride.

Pedro: - Vou fechar um pouco a janela... Não, essa cortina vai amenizar um pouco essa luminosidade que te violenta tanto.

Carlos (entre aborrecido e sarcástico): - Ah, muito obrigado.

Pedro: - Eu...

Carlos: - Porra, Pedro, desembucha. Eu, o quê?

Pedro: - Você sempre ansioso... Bom, eu não sei como consegui chegar até aqui, aos 70 anos. Sinceramente não sei.

Carlos: - Eu também não. Sinceramente.

Pedro: - Creio que isso deva surpreender mais a você do que a mim.

Carlos: - Ah, é? Por quê?

Pedro: - Porque você não fez metade do que eu fiz e era previsível que chegasse aos 80.

Carlos: - Tenho 72. E não meço tua vida pela minha. Aliás, se fosse comparar...

Veja também:
Trecho do ebook "Atrasado"
"O negro crepúsculo", um trabalho de 11 anos

Pedro: - Eu achava que nem passaria dos 18.

Carlos: - Ah, não exagera!

Pedro: - Verdade. Mas era mais por uma intuição besta, um medo. Naquela época ainda não tinha mergulhado fundo...

Carlos: - Nas drogas, nas orgias, na gastança...

Pedro: - É... aquela grana do meu avô...

Carlos: - Uma belíssima grana que você poderia ter investido na sua formação, num apartamento.

Pedro: - Porra, Carlos, olha bem pra mim, vê se eu tenho... Ou melhor, se eu tinha... Se eu tinha cara de empresário.

Carlos: - Não, mas você desperdiçou tudo.

Pedro: - Depois recuperei. E vivi, ah, como vivi...

Carlos: - Como bon vivant... Pra mim foi “mau” vivant.

Pedro: - Ah, vai ter ataques de ciúmes, inveja, novamente?

Carlos (dá uma sonora risada): - Eu!? Inveja, ciúmes de você? Tenha a santa paciência, né? Tá querendo tirar um sarro da minha cara a esta altura do campeonato?

Pedro: - Parece.

Carlos: - Parece o quê?

Pedro: - Que você está com inveja do que eu vivi.

Ficou com curiosidade pra saber até onde essa conversa vai?
Clique aqui e saiba como ler o texto inteiro desta peça de teatro ainda inédita.

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