quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O ILIMITADO ABUSO DO HOMEM

A maré vermelha que tomou conta da Hungria já chegou ao Danúbio e a Europa está à beira de mais uma catástrofe ambiental, já que o segundo maior rio do continente banha mais seis países (Croácia, Sérvia, Romênia, Bulgária, Ucrânia e Moldávia). A lama tóxica que sangrou de uma fábrica de alumínio e já matou quatro pessoas e inúmeros seres vivos pode se espalhar ainda mais agora. A previsão do governo húngaro de um ano para a limpeza total dos vilarejos atingidos pode se estender e muito, porque a correnteza fará a substância tóxica e corrosiva chegar a outros países. Mais uma irresponsabilidade do homem, pela sua incomensurável ganância, vai destruindo a vida do planeta.


Há poucos meses foi o vazamento de petróleo no Golfo do México, o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. De abril a agosto vazaram diariamente entre 35 mil e 60 mil barris de petróleo do duto danificado da British Petroleum, manchando de negro o mar.


Isso tudo só este ano, sem contar outras catástrofes menos divulgadas. E as muitas que já ocorreram (lembram-se de Chernobyl,em 1986?) e continuam a ocorrer todos os anos. A estupidez do ser humano é ilimitada.

EM MEIO AO CAOS*

Crie em meio ao caos,
seja uma flor azul
que nasça no lodaçal.
Imagine a ternura,
a mais abstrata e verdadeira imagem
que puder gerar,
enquanto as TVs se exibem ininterruptamente
pra quem tem preguiça de criar.
Ouça flautas, violinos, violoncelos
no mesmo instante em que
motores, urros, batidas eletrônicas
se debatem histericamente
preenchendo todos os cantos.
Seja a ave sobrevivente
De um imenso desastre ambiental,
que mesmo coberta de óleo
resiste e entoa o seu mais belo canto.
Ouse e escreva o que ninguém mais queira ler,
diga o que pareça estranho a ouvidos viciados,
mas jamais deixe de criar em meio ao caos.

* Esta poesia está publicada no livro "Profano Coração", de minha autoria. Caso queira adquirir um exemplar, entre em contato comigo pelo e-mail edulamas20@hotmail.com


Fotos: 1- Lama tóxica no rio Torna, a 160 quilômetros de Budapeste (Agência AFP)
2- Pelicano na ilha East Grand Terre, Louisiana (agência AP)
Vídeo: "A Hard Rain's Gonna Fall", de e com Bob Dylan.
Veja também: o que foi publicado em outubro de 2009

sábado, 2 de outubro de 2010

HÁ 40 ANOS, O FIM DA VOZ RASCANTE DE JANIS


Alguns dias depois de a música perder Jimi Hendrix, com a mesma idade (27), ia embora Janis Joplin e sua voz única. Um som rascante, estranho, que se tornara brilhante pela forma como sua dona o fazia vibrar. Não vinha da garganta, nem do diafragma como ensinam os professores de canto e locução, mas do útero. 

E era lá que ela abrigava sua alma conturbada e fascinante, de onde concebeu pérolas que encantaram por tão pouco e intenso tempo platéias do mundo inteiro. Apesar de sua prematura morte, com apenas três LPs gravados, Janis permanece até hoje arrebanhando fãs das mais diversas idades. 


Embora tão breve, muito por viver sempre a 100, sua carreira também enfrentou altos e baixos. Mas quando ia fundo voltava ainda mais tenso, forte, emocionante.

Sempre cercada e assistida por muita, muita gente, Janis convivia com a solidão. Dizia ela que depois de um show e fazer amor com milhares de pessoas, voltava para casa e dormia sozinha.

"Por que não canto como as outras cantoras? Não sei, talvez porque não fique na superfície das melodias, porque eu entre na música, eu canto com a minha alma, com o meu corpo, com o meu sexo... Eu canto toda!" (Janis Joplin)


Vídeo: "To Love Somebody", de Barry e Robin Gibb, com Janis Joplin

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

REINALDO, O REI DO GALO MINEIRO

Para animar um pouco a entristecida torcida do Atlético-MG, aqui vai uma homenagem ao melhor centroavante que vi jogar. Sim, na minha opinião tecnicamente Reinaldo foi melhor do que Romário e Ronaldo. Infelizmente o Rei teve sua carreira encurtada pelas botinadas de péssimos jogadores, que contaram com a condescendência de árbitros igualmente péssimos.

Ele também não deu sorte de a medicina ser na década de 70 tão avançada como hoje. Qualquer lesãozinha no menisco obrigava o médico a tirá-lo por inteiro, por isso Reinaldo jogou boa parte de sua carreira sem os quatro meniscos e ainda assim não dava sossego mesmo aos melhores zagueiros do mundo.

Já na Copa de 1978 ele jogou machucado. A então CBD levou para a Argentina o Nautilus, uma aparelhagem monstrenga, para que o camisa 9 da seleção pudesse fortalecer os músculos das pernas e agüentar o tranco. O horrível gramado de Mar del Plata o derrubou.

Reinaldo foi um cracaço, um gênio, principalmente dentro da área, mas não deu muita sorte. Em 1981 foi um dos maiores responsáveis pela classificação do Brasil para a Copa de 1982 e faria na Espanha aquela Seleção de Telê tão lembrada ser ainda melhor do que foi. Muito, muito melhor, afinal jogaria no lugar de Serginho Chulapa, o homem que sorria a cada gol feito desperdiçado. Mas as lesões não deixaram.

Serginho também levou a melhor sobre Reinaldo cinco anos antes, na final do Brasileiro de 77, que na verdade foi disputada em 5 de março de 1978(!). Ambos não jogaram a partida decisiva por estarem suspensos, mas o São Paulo, do Chulapa e dos violentíssimos Neca e o falecido Chicão, que literalmente quebraram o talentoso meia Ângelo (também já falecido), acabou campeão nos pênaltis. Nenhum time merecia mais aquele título que o Galo mineiro, que terminou a competição invicto. Mas o futebol, como a própria vida, não costuma levar muito em conta a palavra justiça.

Na sensacional e conturbada decisão do Brasileiro de 1980, ele fez os três gols do Atlético-MG. No primeiro jogo, no Mineirão, local em que a violência novamente tirou um jogador de campo por alguns meses, desta vez o zagueiro Rondinelli, do Flamengo - atingido por um soco desferido até hoje não se sabe se por Palhinha ou Éder - ele fez o único da vitória do Galo, que partiria para o Rio com a vantagem do empate. No Maracanã abarrotado, com mais de 154 mil pagantes quatro dias depois (1º de junho de 1980), ele por duas vezes empatou a partida e deixou apreensiva a torcida rubro-negra. O detalhe é que quando fez o segundo já se encontrava machucado.

Acabou expulso de campo após comemorar o segundo gol. De acordo com o zagueiro Marinho (em entrevista recente ao jornal "O Dia", do Rio), Reinaldo ia levar o vermelho antes de fazer o segundo gol por ter "falado um monte de besteiras" para o árbitro José de Assis Aragão. O ex-atacante nega e não se conforma com sua expulsão até hoje. Nunes desempatou, e sem Reinaldo o Galo não voltou a empatar, embora tenha tido uma chance quase no fim, com Pedrinho. Segundo Manguito, o outro zagueiro do Fla, que falhou no lance: "Se fosse o Reinaldo..."

Embora não tenha conseguido ser campeão brasileiro, Reinaldo foi por muitos anos o maior artilheiro em uma edição da competição, em 77, com 28 gols em 18 partidas. Foi superado por um gol por Edmundo, em 1997, mas o então vascaíno fez muito mais jogos (29) e a média de gols do Rei por partida obtida no Brasileiro de 33 anos atrás é até hoje a maior.

Reinaldo é o maior artilheiro da História do Atlético Mineiro, com 255 gols em 475 partidas. Pela seleção brasileira ele fez 14 em 37 jogos. Esses dados são do Wikipedia. Curta agora belos momentos do Rei em campo nos dois vídeos encontrados no Youtube.



Veja também:

Parabéns, Dejan Petkovic
Ganso, o Mestre-Sala da Vila
Beckenbauer, A Elegância do "Kaiser"
O Teatro e o Futebol

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ADEUS, MARACANÃ!


Muito provavelmente o estádio que será reaberto no início de 2013, como está prometido já com grande atraso, após as reformas exigidas pela Mrs. Fifa, será mais vistoso, moderno, limpo, até seguro, mas certamente não será mais o Maracanã. Pelo menos não aquele que passei a freqüentar no início dos anos 70, ainda muito garoto para assistir à chegada de Papai Noel, e depois para ver os mais variados jogos de futebol de 1974 em diante - com muito pouca presença, admito, nos últimos dez, 12 anos. A emoção de entrar pelo túnel na arquibancada e ver o imenso gramado e as torcidas, como me aconteceu tantas e tantas vezes, ficará guardada na minha memória como os antigos retratos que vão amarelando com o tempo.

A arquibancada de cimento, onde já couberam 90 mil pessoas (14 mil a mais que a capacidade inteira do novo estádio) e a geral, onde muitas vezes se apertaram 30 mil ou mais, já não existiam há muito tempo. Várias obras foram feitas, como a que vedou a ventilação do estádio com suntuosos camarotes no alto das arquibancadas, mas o aspecto e principalmente a alma do ex-maior estádio do mundo permanecia, a essência era a mesma. Porém, ele foi sendo morto aos poucos e agora receberá o tiro de misericórdia: depois de mais de dois anos fechado, virá outro em seu lugar. Outro sim, não mais o Maracanã. Por justiça deveriam trocar seu nome.

O Maraca não será implodido fisicamente como sugeriu certa vez João Havelange, e posteriormente seu ex-genro Ricardo Teixeira, mas de certa forma ele será demolido por dentro e desaparecerá levando junto a sua alma. Determina o tombamento de monumentos históricos que sua fachada deve ser mantida. Pois no Mário Filho, o que menos importa é a sua carcaça. A magia estava dentro, com seu gigantismo que fez muitos jogadores, dos mais modestos pernas-de-pau aos mais decantados craques, tremerem ou se consagrarem.
Que o mudassem por fora, criando novas rampas, entradas e saídas mais largas, mas derrubar suas arquibancadas, depois de já terem levado a geral, e ainda reduzir o campão de 110x75 para 105x68, é tirar tudo de mais sagrado e fascinante que existia no Maracanã. Um desconhecido surgirá em seu lugar. E, por mais esforço que façam as torcidas cariocas, reviver a magia anterior será impossível. Talvez outra seja criada, pois aquela que perdurou até Flamengo 0 x 0 Santos, jamais. Jamais!




* Este texto foi publicado originalmente no extinto Futebloguices e foi revisado e levemente ampliado em 28/9/2011.

Veja também:
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