Quando ficamos doentes também nos tornamos mais emotivos. Já dava este dia como perdido, quase todo ele dormindo, impossibilitado de ir para o trabalho, quando à noite, já um pouco melhor, resolvi pôr no aparelho de DVD “Tempos de Paz”, um filme adaptado da peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, escrito por Bosco Brasil. É uma grande e emocionante homenagem ao teatro e a muitos artistas e cientistas que “a guerra tornou brasileiros”.
Como no texto de Brasil, em que as memórias de Segismundo (Ramos) e Clausewitz (Stulbach) são o centro da história, e o teatro, o elo que acabará os unindo, muitas lembranças me vieram. Abaixo, quando falo do filme “A Suprema Felicidade”, critico Stulbach, afirmando que ele já havia feito trabalhos bem melhores. E em “Tempos de Paz”, ele está magnífico e me comoveu muito, especialmente com seus gestos (os gestos do ator dentro do ator) em sua interpretação final. Um grande momento.
Mas, como dizia, talvez por estar mais emotivo neste dia quase perdido, muito pelos belos trabalhos não só dos dois atores principais, mas também do diretor do filme, Daniel Filho, recordei-me de quem me abriu as portas do teatro (tanto como espectador, como operador de som e autor) e como fui conhecendo textos, encenações, atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores... E como nasce uma peça, seu desenvolvimento, avanços e recuos, acréscimos e cortes, até ficar pronta para ser assistida pelo público.
Foi por intermédio de Cristine Cid, minha primeira mulher, mãe de meus três filhos, que conheci e me apaixonei pelo teatro. Uma das lembranças mais ternas que tenho dos meus primeiros contatos com aquele mundo até então desconhecido para mim é de quando eu a ajudava a passar os textos que estava encenando, fosse na faculdade ou nos cursos que fez.
Uma peça da qual tenho especial lembrança é “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, eu fazendo Stanley para que ela pudesse decorar o texto de sua Blanche Dubois. Foram muitos outros, textos de Nelson Rodrigues (“Vestido de Noiva”), Plínio Marcos (“Dois Perdidos Numa Noite Suja”), Federico García Lorca (“A Casa de Bernarda Alba”)...
Cristine, além de me abrir as portas do teatro, ainda teve a coragem de levar aos palcos a minha peça “Sentença de Vida”, que escrevi para ela atuar. Não foi possível, Denize Nichols fez o papel do monólogo, mas como diretora e produtora me deu este último grande presente antes de partir, há sete anos. Muito obrigado por tudo, o teatro pra mim é você.
Veja também:
O Teatro e o Futebol
Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
sábado, 4 de dezembro de 2010
HOMENAGEM AO TEATRO
Quando ficamos doentes também nos tornamos mais emotivos. Já dava este dia como perdido, quase todo ele dormindo, impossibilitado de ir para o trabalho, quando à noite, já um pouco melhor, resolvi pôr no aparelho de DVD “Tempos de Paz”, um filme adaptado da peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, escrito por Bosco Brasil. É uma grande e emocionante homenagem ao teatro e a muitos artistas e cientistas que “a guerra tornou brasileiros”.
Como no texto de Brasil, em que as memórias de Segismundo (Ramos) e Clausewitz (Stulbach) são o centro da história, e o teatro, o elo que acabará os unindo, muitas lembranças me vieram. Abaixo, quando falo do filme “A Suprema Felicidade”, critico Stulbach, afirmando que ele já havia feito trabalhos bem melhores. E em “Tempos de Paz”, ele está magnífico e me comoveu muito, especialmente com seus gestos (os gestos do ator dentro do ator) em sua interpretação final. Um grande momento.
Mas, como dizia, talvez por estar mais emotivo neste dia quase perdido, muito pelos belos trabalhos não só dos dois atores principais, mas também do diretor do filme, Daniel Filho, recordei-me de quem me abriu as portas do teatro (tanto como espectador, como operador de som e autor) e como fui conhecendo textos, encenações, atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores... E como nasce uma peça, seu desenvolvimento, avanços e recuos, acréscimos e cortes, até ficar pronta para ser assistida pelo público.
Foi por intermédio de Cristine Cid, minha primeira mulher, mãe de meus três filhos, que conheci e me apaixonei pelo teatro. Uma das lembranças mais ternas que tenho dos meus primeiros contatos com aquele mundo até então desconhecido para mim é de quando eu a ajudava a passar os textos que estava encenando, fosse na faculdade ou nos cursos que fez.
Uma peça da qual tenho especial lembrança é “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, eu fazendo Stanley para que ela pudesse decorar o texto de sua Blanche Dubois. Foram muitos outros, textos de Nelson Rodrigues (“Vestido de Noiva”), Plínio Marcos (“Dois Perdidos Numa Noite Suja”), Federico García Lorca (“A Casa de Bernarda Alba”)...
Cristine, além de me abrir as portas do teatro, ainda teve a coragem de levar aos palcos a minha peça “Sentença de Vida”, que escrevi para ela atuar. Não foi possível, Denize Nichols fez o papel do monólogo, mas como diretora e produtora me deu este último grande presente antes de partir, há sete anos. Muito obrigado por tudo, o teatro pra mim é você.
Veja também:
O Teatro e o Futebol
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
LHASA DE SELA JÁ SE FOI E EU NÃO SABIA

Surpreso, espantado, chocado mesmo. Foi desta forma que recebi a notícia da morte da cantora Lhasa de Sela, com quase 11 meses de atraso. Vim decidido para casa neste dia 22 de novembro de 2010 disposto a escrever sobre ela e colocar pelo menos dois vídeos desta extraordinária artista, que cantava em inglês, espanhol e francês. No entanto, assim que fui começar minha pesquisa, li: "Lhasa de Sela foi uma cantora..."
Como assim, foi? Para mim ela era mais nova do que os 37 anos que contava quando faleceu no primeiro dia deste ano de câncer de mama e achei se tratar de outra cantora, de quem talvez ela tivesse recebido o nome. Na verdade, não quis acreditar. Lamentável, mais uma grande cantora se vai no auge.
Conheci Lhasa por intermédio de uma grande amiga, que mora em Londres. Toda vez que ela vem ao Brasil me traz uma bela surpresa. Pode ser um CD de um artista que eu já conheça de nome, mas de quem não tenha quase nada ou nada ouvido, ou de um desconhecido. Este foi o caso de Lhasa.
Veja também:
Música pra viagem: Lascia Ch'io Pianga
Uma viagem no tempo e no espaço com Loreena McKenitt
O CD "The Living Road" fora encomendado por um amigo nosso em comum, que hoje está em São Paulo. Minha amiga, aproveitou a chance, e me trouxe um também. A novaiorquina da cidade de Big Indian (achava que era canadense) e sua voz incomum me arrebataram com su voz caliente na primeira audição: a música "Con Toda Palabra" (veja e ouça no vídeo abaixo), que abre o CD.
Depois de ouvir muitas e muitas vezes o disco, acompanhando o libreto trilíngüe, comecei a buscar vídeos dela no youtube e achei muita coisa bonita, tanto clips como apresentações ao vivo. Mas nunca encontrei um CD sequer dela à venda no Brasil e também, não sei por quê, jamais procurei mais informações sobre ela, só sabia que vivia em Montreal, Canadá. Quando resolvi saber mais dessa bela cantora, ela já havia partido.
Conta-me o Wikipedia de Lhasa que "sua ascendência era de um lado mexicana e de outro americano-judeu-libanesa. Filha de um professor, não convencional, que percorria os EUA e o México, difundindo o conhecimento, e de uma fotógrafa. Assim, passou sua infância, de maneira nômade, junto com seus pais ("hippies radicais", como ela os define) e suas três irmãs". Nascida em 27 de setembro de 1972, ela lançou três CDs: "La Llorona", de 1998; "The Living Road", de 2003, e "Lhasa", de 2009.

Encontrei uma entrevista que ela concedeu ao site português "TSF Rádio Notícia", em 2005, e meus olhos se encheram d'água. Diz ela, que falou o tempo todo em claro espanhol (mas revelando também cantar em português - Amália Rodrigues - armênio, russo e checheno), após ser perguntada pelo repórter Carlos Vaz Marques se a tristeza era mais bela que a alegria e dizer "não" três vezes:
"Eu sempre tive um sentimento de urgência muito forte de viver, de gostar, de compreender. E lido muito com a melancolia, com a tristeza, com as questões da vida e da morte, porque para mim parecia o caminho mais curto para tocar a essência da vida". E acrescenta depois que para se chegar à felicidade, é necessário passar pela tristeza. E é este o meu sentimento agora.
Para mais informações sobre Lhasa de Sela visite o site: www.lhasadesela.com.ca
Veja também:
Há 40 Anos, o Fim da Voz Rascante de Janis Joplin
Nina Simone, a Sacerdotisa do Jazz
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
A FORÇA NORDESTINA
A televisão fechada ainda apresenta programas de alta qualidade e em dois dias seguidos vi Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna, ambos nordestinos, representantes do que de melhor já se produziu em arte e cultura neste país. A força da cultura nordestina, com suas origens ibéricas e mouras, sempre me arrebatou. Vide o que escrevi sobre Antulio Madureira aí abaixo.
Então, decidi prestar uma pequena homenagem aos dois grandes escritores com esse vídeo aí acima. Nele estão duas grandes mostras da maravilhosa arte criada no Nordeste brasileiro: gravuras de Gilvan Samico e a música do petropolitano Guerra Peixe (1914-1993) interpretada pelo Quinteto Armorial, movimento criado justamente por Ariano.
Veja também:
Antúlio Madureira, um mestre de obras-primas
Brasil, Um Edifício que Cresce Sobre Frágeis Alicerces
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
ANTULIO MADUREIRA, MESTRE DE OBRAS-PRIMAS

Este texto abaixo escrevi em 18 de outubro de 2000 e foi publicado na coluna que tinha semanalmente no 2º Caderno do jornal "O Fluminense", de Niterói. Recentemente achei no youtube um vídeo editado, postado pelo próprio Antulio Madureira, em que aparecem cenas da sua participação no Programa do Jô e em outros. O vídeo está abaixo do texto.
Basta estar vivo para se deparar com uma surpresa a cada esquina. Como dizia Auguste Rodin, tudo é movimento, até um corpo morto, em seu processo de decomposição, produz movimento. Pois bem, e o que isso tem a ver com este artigo, você deve estar se perguntando? Respondo, respondo, calma. É o seguinte: o artigo desta semana já estava pronto e entregue, mas teve de ser adiado para a próxima semana por causa de uma pessoa, um artista, um músico que transforma sucatas e material de construção em instrumentos musicais e tira deles sons encantados, que em outros tempos fariam até defunto se levantar arrepiado de emoção. Não, não falo de Hermeto Pascoal, embora tenha uma profunda admiração por ele. Falo de Antulio Madureira. Quem? Pois é, infelizmente pouquíssimas pessoas deste país já ouviram falar desse maestro e vou falar dele hoje, porque, para minha surpresa ele se apresentou no “Programa do Jô” de terça-feira e, como não poderia deixar de ser, fez babar a platéia, os músicos do sexteto, o apresentador e o telespectador.
Estava para dormir depois de assistir à entrevista de Marília Pera no programa da outra Marília, a Gabi, quando resolvi dar uma olhada no Jô só para saber quem eram os entrevistados, sem grandes esperanças. Pois não é que logo o primeiro entrevistado foi o pernambucano Antulio Madureira, de quem ouvi falar pela primeira vez há uns três anos, quando se apresentou em um festival de jazz no Rio. Enquanto a música jazia com pseudo-astros internacionais, o que me chamava a atenção era o sobrenome Madureira, já que conhecia de discos Antônio, o maestro do Quinteto Armorial que mais tarde vim saber é irmão de Antulio. Para quem ainda não sabe, informo agora aos meus cinco leitores, o Quinteto Armorial foi um conjunto criado por Ariano Suassuna no início da década de 70 que buscava pesquisar e recriar músicas antigas de tradição ibérica e brasileira (fazendo uma ponte entre a música árabe e a nordestina do Brasil) e de onde surgiu Antonio Nóbrega, multiartista que somente agora está obtendo alguma fama. Portanto fiquei curioso para ouvir Antulio Madureira quando soube que ele inventava instrumentos, o que só ocorreu no ano passado quando passei a ter em mãos e ouvidos o magistral CD “Teatro Instrumental”, que dá nome ao seu espetáculo atual.
Fazendo instrumentos e tirando música de latas, fios, conduítes, garrafas, cabaças, bambus, arames, serrote, entre outros, Antulio é um mestre de obras-primas. Um maestro ignorado pela mídia, tão ocupada com os “tchans” da vida. E além do mais, ainda faz as vezes de ator e dançarino. Na parte musical ele não apresentou no programa, pela falta de tempo, nem um quinto do que é capaz. Mas foi o suficiente para arrebatar a todos. Se no Jô ele tocou no serrote “Ave Maria”, de Schubert, no CD ele toca a ária das Bachianas número 5, de Villa-Lobos. Antulio está em São Paulo, mas bem poderia dar uma passada pelo Rio (está aí uma grande sugestão para o Teatro Municipal de Niterói!). Parodiando Rodin, desse músico fantástico pode-se dizer o seguinte: tudo é música, até matéria aparentemente morta, em processo de composição, produz música.
Há 40 anos, o Adeus de Jimi Hendrix
Nina Simone, a Sacerdotisa do Jazz
Villa-Lobos, o Pai da MPB
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
Monólogos Os Sopros Mágicos de Carlos Malta
Assinar:
Comentários (Atom)
UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43
Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...
As mais visitadas
-
Ângelo, uma vítima da crueldade em campo Ângelo, meia do Atlético nos anos 70 Engana-se muito quem imagina ser o futebol atual mai...
-
Um movimento de clubes interessados no reconhecimento dos títulos da Taça Brasil e da Taça de Prata (Torneio Roberto Gomes Pedrosa) como leg...
-
Foto de Luiz Paulo Machado para a revista Placar No próximo sábado Pelé completará 70 anos de idade e as homenagens, que já começaram, serão...