quarta-feira, 23 de março de 2011

A MIDIOTIZAÇÃO

Vinha eu dia desses caminhando pelas fétidas, esburacadas e lotadas ruas do centro do Rio de Janeiro (o lado modernoso que tombou o antigo) e não conseguia – na verdade, nem tentava - tirar da cabeça um pensamento profético de Nietzsche: "Mais um século de jornais e as palavras se corromperão". Muitas coisas se passaram na minha cabeça em torno disso, não propriamente sobre os jornais, mas sobre as palavras. As palavras não como símbolos da Comunicação, mas como expressão de algum sentimento, de alguma ação, comportamento, expressão, manifestação.

Assim, como de relâmpago, voltei ao pensamento nietzschiano e me lembrei que ele não contava (e nem poderia!) com a participação decisiva da televisão, muito menos da internet. O que os jornais levaram cem anos para fazer (talvez até menos), a TV realizou com absurda competência em poucas décadas. E a internet parece realizar em poucos segundos, embora por outro lado ela seja uma brecha interessante para quem não deseja se entregar a qualquer lixo e se manifestar - e espero que este blog seja um bom exemplo.

A era da rapidez da informação on line também expande as imbecilidades com muita pressa. E vejo diariamente em tempo real a mídia eletrônica vilipendiar a escrita automática, expressão criada por Maurice Blanchot. Automática sim, mas livre e espontânea, jamais.

Juntando tudo e voltando às palavras da forma como as citei, fui observando as pessoas nas ruas (o que já vinha fazendo desde o momento em que iniciei minha caminhada sob sol escaldante). E descobri que a TV fez muito mais que os jornais: ela corrompeu pessoas.

Percebi com bastante clareza que não há quase diferença entre gestos, modo de falar, andar, vestir (provavelmente também despir), o comportamento, enfim, das gentes nas ruas. Não há diferença sequer entre as putas da Praça Tiradentes e as dos escritórios e das faculdades. Nem entre os contínuos e os engravatados, ambos suando em bicas. Talvez a única diferença residisse nos mendigos, mas eles não valem, pois não assistem à TV com regularidade e nem chegam perto da internet. E olhei pra mim, que andava na contra-mão do fluxo, para ver se também eu não havia me corrompido, igualado, pasteurizado...

Diante de tudo isso, fiquei me indagando e até agora não encontrei resposta definitiva (e existe resposta definitiva para algo?): será que ainda há nesses turbulentos tempos em que vivemos espaço para manifestações espontâneas? Artísticas, principalmente, será? Sem a massificação de atitudes, conseqüência do máximo e praticamente único interesse comercial, é bem difícil identificar. É complicado até identificar quem pelo menos tenta, com honestidade, se livrar dessas amarras que a sociedade globalizada criou. De minha parte, continuarei a lutar ferozmente contra as mediocridades, inclusive - e principalmente - as minhas. Acabo de desligar mais uma televisão que esqueceram tagarelando sozinha...


Vídeo: "Televisão", de Marcelo Fromer, Tony Belotto e Arnaldo Antunes, com Titãs.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O ESCREVER


Escrever para mim é pôr a alma pelos poros. Obviamente que, como jornalista formado desde março de 1988, quase sempre tive de escrever para sobre(sub)viver como a puta que, enquanto dá, lê um gibi. Não acredito em profissão, creio em vocação, esse instinto de animal voraz que rosna com dentes afiados dentro de cada ser criador. O grande mal de nossos tempos é que existem profissionais demais e amadores de menos. Amadores não no sentido que lhes grudaram, de despreparados, inexperientes, mas sim daqueles que amam o seu ofício.


Amador é aquele que não precisa do dinheiro como combustível para exercer seu trabalho, embora seja muito bem-vindo para que possa fazê-lo menos preocupado com as contas a pagar. Pratica-o sempre, não o deixa jamais, até porque ele o acompanha onde quer que vá, como uma sombra que se confunde com o próprio corpo que a produz. E para isso é necessário que haja a luz eterna da vocação.

Os profissionais, por melhores que sejam, se não tiverem essa iluminação, jamais conseguirão transpor um milímetro sequer as cercas eletrificadas da mediocridade que os envolvem. Até para ser boa puta é preciso ter vocação! Mas para ser puta da informação, basta ser profissional.
Ilustração: "Drawing Hands', de M.C. Escher.
Veja também:
Um Sonho Chamado Kurosawa
A "Arte Transgressora"
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SONHOS E PESADELOS NOS QUADROS DE CLÁUDIO NEIVA, O REPRESENTANTE DA PINTURA NUMA FAMÍLIA DE ARTISTAS


Em um almoço no segundo dia deste ano, meu primo João Arthur me disse algo que nunca havia me dado conta inteiramente: nossa família, a Neiva, de meu saudoso pai (Sebastião), tem representantes vivos em quase todas as artes. Que eu saiba, ainda não temos um cineasta - quem sabe um dia emplaco um dos roteiros que já escrevi - e um escultor, considerando-se as sete artes tradicionais (música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema).

A minha referência mais antiga de artista na família era o meu avô paterno, Geraldo, que tocava clarinete e compunha, embora eu não tenha chegado a conhecê-lo. Agora já soube por intermédio de meu tio Edson Cláudio Neiva, personagem principal deste espaço, que um tio-bisavô chamado Edimundo Barros era um grande compositor de músicas sacras, e que meu bisavô Francisco Marçal, além de barbeiro, também era clarinetista e regente da banda da terra de meu pai, Itaverava (MG), no início do século passado. Uma viagem e tanto no tempo.

Há bailarina (minha prima Luciana Bagby, irmã de João Arthur), atriz (Camila Meskell, prima), músico (meu irmão Léo Neiva, contrabaixista), cantora (minha tia e madrinha, Elza Neiva), escritor e o pintor das obras expostas aqui.

Cláudio Neiva, como assina, tem um belo e vasto trabalho que merece ser mais conhecido e valorizado. Desde 1981 expõe suas pinturas e desenhos, especialmente no Rio de Janeiro e em Brasília, onde mora, e já teve suas obras adquiridas por colecionadores das mais diversas partes do planeta. Num mundo que hoje valoriza mais o entretenimento do que a arte, está com seus quadros em seu próprio estúdio na capital federal desde 2002.

Porém, falar desse trabalho que revela sonhos e pesadelos, reais e imaginários, os inconscientes coletivos e individuais, é muito pouco, por mais que se escreva um livro. É preciso mostrá-lo cada vez mais para que as pessoas que ainda têm interesse em arte possam conhecê-lo, valorizá-lo e divulgá-lo, e é isto que me proponho aqui.

Aproveitem bem esta mini-exposição. Quem quiser saber mais sobre Cláudio Neiva, que também é arquiteto, e ver fotos de outros quadros seus é só visitar o endereço http://www.multistudio.arq.br/. Alguns quadros do artista, inclusive alguns destes aqui, estão inscritos no evento Artists Wanted 2010: http://www.artistswanted.org/portfolio.php?preview=true&artist=Neiva. Lá você pode dar a sua avaliação para o conjunto de obras, de uma a cinco estrelas, quantas vezes quiser (uma por dia). Já votei várias vezes nas 5 estrelas, porque é a nota máxima que ele merece.




Quadros (fotos da Multistudio):
1- Sonhando com os Pássaros - acrílico sobre tela (1995)
2- Rumo Inevitável - óleo sobre duratex (1987)
3- Mãos Suplicantes - óleo sobre duratex (1987)
4- Horizonte da Metrópole - óleo sobre tela sobre duratex (2000)
5- Eolo e os Filhos de Ícaro - óleo sobre tela (2000)

Veja também:
Poesia Sem Versos
Um Sonho Chamado Kurosawa

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SETENTA ANOS DO CANHOTINHA DE OURO

O grande comandante daquela que é considerada a maior seleção de todos os tempos completou nesta terça-feira 70 anos de idade. Gérson, o Canhotinha de Ouro, que desde 1974 comenta jogos em rádio e televisão, sempre com seu jeito irreverente, merece ser lembrado como um dos mais talentosos e importantes jogadores da História do futebol.

Praticamente não vi Gérson jogar. Os lances que guardei na memória desde pequeno são praticamente dos lançamentos e gols da Copa do Mundo de 1970, no México. Na época em que ainda sonhava me tornar jogador de futebol, eu procurava imitar o Canhotinha - geralmente com o pé direito - na hora de fazer lançamentos longos. Buscava sempre copiar a forma como ele batia por baixo da bola para que ela chegasse limpa ao companheiro. 

Não cabe aqui dizer se fui bem ou mal-sucedido nas minhas tentativas nas muitas peladas que joguei em campos esburacados ou nas ruas de terra e de asfalto, mas o fato de muito novo ainda eu imitar um jogador que nunca havia visto jogar ao vivo já demonstra o respeito que sempre tive por ele. Um grande maestro da bola.

Veja também:


No vídeo abaixo está a homenagem que o "Esporte Espetacular", da TV Globo, fez a Gérson no último domingo, com imagens raras e sensacionais. Mas há um erro no início da matéria do excelente Renato Ribeiro: ele diz que Pelé empatou de cabeça a final contra a Itália, em 70, e que Gérson virou o jogo. Não, o Brasil abriu o marcador e a Itália empatou no fim do primeiro tempo. 

Apenas um detalhe que não chega a atrapalhar a bela homenagem ao cracaço que lançava a bola com precisão milimétrica. Que o digam Pelé, Jairzinho, Tostão, entre outros.

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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