terça-feira, 13 de março de 2012

O JORNALISMO EM QUESTÃO

Em 2000, uma aluna de jornalismo que tinha como professor um ex-companheiro meu de trabalho me ligou para marcar uma entrevista por indicação dele. O assunto, obviamente, seria a profissão que ela escolheu e para a qual eu já trabalhava há mais de dez anos. Lembro que marquei de encontrá-la no Centro Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio, onde eu assistiria à peça Insensatez, de Jean Cocteau, duas horas antes do início do espetáculo.
A menina, da qual jamais lembrarei o nome, gravou a entrevista, então há alguma possibilidade (embora considere remotíssima) de que ela possa ser confirmada. No fim do nosso papo, a estudante me perguntou como se poderia praticar o jornalismo independente e respondi que isso só seria possível se ela montasse um jornal - logicamente naquela época a internet não tinha a dimensão e a popularidade que ganhou nos últimos anos. E ainda assim, isso não seria garantia de nada, afirmei.
Prossegui: digamos que eu tivesse um jornal no meu bairro e um dia descobrisse que o dono do açougue (digamos) Boizão, principal patrocinador do meu pequeno e bravo veículo de comunicação, adulterara a balança do seu estabelecimento comercial para passar a perna nos fregueses e lucrar mais. Disse a ela: se eu publicasse matéria sobre isso - logicamente com a comprovação da fraude -, mesmo tendo como certa a perda da minha principal fonte de renda, agiria como jornalista. Porém, se optasse por deixar pra lá, seria qualquer coisa, menos jornalista.
Convidei-a a assistir à peça, mas ela recusou, dizendo que precisava ir para casa bater o trabalho que acabara de apurar. Então, me despedi da estudante dizendo que veria mais verdades na sala ao lado do que em todo noticiário do dia.
Veja também:
Adeus, Maracanã
A conversa continua
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos

quinta-feira, 8 de março de 2012

ELES NÃO NOS ENTENDEM*

Caí na besteira de aproveitar um gancho numa conversa de bar, quando já me despedia, para dizer a um americano que estava à mesa que nós brasileiros éramos desvirtuados por natureza. Eu, naquele momento ainda sob os efeitos do álcool (não muito, é bom que se diga!) e da verdadeira aula de cultura popular que acabara de presenciar no Largo do Curvelo, quis resumir numa palavra tudo aquilo que nossas elites e os gringos têm muita dificuldade de entender (alguns conseguem, é verdade, mas a dificuldade existe): somos diferentes, porque através de uma mistura de raças que não se esgota temos a mais rica e variada cultura do mundo, quer eles queiram ou não. Nosso desvirtuamento está exatamente neste ponto: passamos de síntese da cultura mundial para nos transformar em algo original. E não estou dizendo novidade alguma, é só lembrarmos de Darcy Ribeiro e a sua tese de que somos desíndios, desafricanos e deseuropeus.

Pois bem, dizia eu que caí na besteira de ter dito o que disse para um estrangeiro. E por quê? Porque o americano, talvez impregnado por sua cultura nacional de colonização e de especialização - o especialista, como se sabe, é aquele que sabe quase tudo sobre quase nada - logo quis me rotular de algo que minha ignorância não me permitiu perceber de primeira. Ele me disse com seu sotaque canhestro que eu deveria ser um seguidor de Oliveira Viana, que só depois que deixei o bar - socorrido por uma amiga - fui saber se tratar de um consultor do primeiro Governo Getúlio Vargas que defendia que uma minoria deveria conduzir o povo (sabe-se lá para onde). Como não sabia de quem se tratava, mas desconfiado de que coisa boa não deveria ser, rechacei a idéia do gringo dizendo que nunca ouvira falar de Oliveira Viana e que tinha o "péssimo" hábito de ter idéias próprias.

Foi muito divertido saber depois, descendo as belas ladeiras de Santa Teresa, que se tratava de um americano e, que quando nos despedíamos, ele tentava convencer sua namorada brasileira de que é moreno. Ora, um branquelo de cabelos claros e olhos azuis querendo convencer uma "morenaça" que é da mesma cor dela, como se isso fosse a prova cabal de que entendia o espírito brasileiro, foi hilariante. Foi exatamente neste momento que entrei com a história do desvirtuamento, porque mesmo ele estudando tudo sobre a nossa história e cultura (e quem sabe se tornar um dia um brasilianista) e querendo se tornar moreno (num processo inverso do seu falecido compatriota Michael Jackson), terá sérias dificuldades para nos entender, simplesmente porque não é brasileiro (e para isso, ressalto aqui, não basta nascer nesta terra).

O americano em particular e seus compatriotas, em geral, me perdoem, mas é muito mais fácil conseguirem se identificar aqui com governantes e pseudo-religiosos que não compreendem a nossa cultura, com tudo de ótimo e péssimo que possuem. Isso vale tanto para os atuais, como para os do início do século XX, que proibiam o samba e a capoeira nas ruas do Rio, e para os frustrados que não se conformam de terem nascido no Brasil.

* Este texto, com modificações feitas agora, foi originalmente escrito entre 1997 e 99. O evento no Largo do Curvelo mencionado no texto foi uma manifestação de músicos, artistas e público em geral contra a proibição de música ao vivo em Santa Teresa pelo então prefeito que prefiro não citar o nome.



Vídeo: "Querelas do Brasil" (Aldir Blanc), com Elis Regina.
Veja também:

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 10

BRASIL 2 X 1 URUGUAI - TAÇA DO ATLÂNTICO DE 1976

Todo mundo fala da corrida que Rivelino levou de Ramirez, mas quase ninguém se lembra do belo gol que ele fez nesta partida válida pela Taça do Atlântico de 1976. A briga começou a se desenhar depois que Keosseian foi expulso ao acertar o craque do Fluminense, que já havia se desentendido com Dario Pereyra (craque que jogou de zagueiro no São Paulo) no primeiro tempo. 

Em seguida, quase no fim do jogo, Zico fez uma jogada espetacular, driblando quatro uruguaios e sendo derrubado com uma falta violenta pelo quinto, Ramirez, que seria companheiro do Galinho no Flamengo pouco tempo depois. Armou-se uma confusão, com Rivelino aparecendo como o mais revoltado pelo sarrafo no então jovem camisa 8, no seu primeiro ano na Seleção principal.

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Marco Antônio cobrou a falta na trave esquerda do goleiro Corbo, que depois jogaria no Grêmio. Veja que além de Zico, Rivelino e Roberto Dinamite, ainda havia pelo menos mais um excelente cobrador de faltas na equipe brasileira. Logo depois, a partida acaba. Rivelino ia tranqüilamente para o vestiário, quando Ramirez sai feito um louco atrás do 10 brasileiro. Foi agarrado por Orlando Lelé e acabou apanhando muito de outros adversários. Um final lamentável que tornou este jogo histórico.

BRASIL 2 X 1 URUGUAI
Data: 28/04/1976
Competição: Taça do Atlântico/Taça Rio Branco
Local: Estádio do Maracanã - Rio de Janeiro
Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)
Times
BRASIL: Jairo, Toninho (Orlando), Miguel, Amaral e Marco Antônio; Chicão, Zico e Rivellino; Gil, Enéas (Roberto Dinamite) e Lula. Técnico: Osvaldo Brandão.
URUGUAI: Corbo; Ramirez, de los Santos, Chagas e González; Acosta, Jiménez e Dario Pereyra; Julio Rodriguez (Revetria), Morena e Daniel Torres (Keosseian).
Técnico: José María Rodríguez.
Gols: Daniel Torres, aos 15 minutos do primeiro tempo; Rivelino, aos 10, e Zico (pênalti), aos 27 do segundo tempo.
Cartão vermelho: Keosseian.


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PENSO, LOGO SINTO 6

Maus votantes e péssimos cidadãos devem ficar longe das urnas. Não existe democracia com voto obrigatório.



Vídeo: "Admirável gado novo", de e com Zé Ramalho.

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o que foi publicado em janeiro de 2011.

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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