UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #41

Uma coisa jogada com música - Capítulo #41

Brasil x Hungria, na Copa de 54: Castilho salta para defender a bola, acossado por Czibor. Os brasileiros Pinheiro (de bigode), Djalma Santos (2) e Bauer acompanham o lance. Foto: CBF

O heavy metal fez uma parte do público curtir e balançar cabeça no bar Além da Imaginação. Porém, outra parte se dispersou, foi ao banheiro, pegar um ar do lado de fora. Ceguinho Torcedor, então, deu como se fosse um passo, um passe pra trás, recuando um pouco com a intenção de o jogo abrir novamente.

Ceguinho Torcedor: - Aquele Santos era o maior do mundo, muito melhor que o escrete húngaro do Armando Nogueira!

João Sem Medo: - O escrete húngaro de 54 era espetacular, mas não era imbatível, Ceguinho. Tanto que perdeu, de virada, a final da Copa pra Alemanha Ocidental.

Idiota da Objetividade: - Os húngaros eram os campeões olímpicos e chegaram à final sem saber o que era derrota há mais de quatro anos, num total de 31 jogos invictos. Em novembro de 53, golearam por 6 a 3 os ingleses em Wembley, onde os donos da casa não eram derrotados por uma seleção não-britânica desde 1901. Este é chamado de O Jogo do Século, eleito pela Fifa como um dos mais sensacionais de todos os tempos. Na revanche pedida pelos ingleses, menos de um mês antes da Copa de 54, os húngaros fizeram ainda melhor, venceram por 7 a 1, em Budapeste. Esta é a pior derrota da história do futebol inglês até hoje.

Garçom: - Esse negócio de 7 a 1 eu não gosto muito, não.

Alguns riem, outros fazem cara feia.

Idiota da Objetividade: - Já no Mundial da Suíça, massacraram os alemães ocidentais na primeira fase, com uma vitória de 8 a 3.

Sobrenatural de Almeida: - Não estive na Suíça, mas foi assombroso. Deve ter sido algum parente distante meu que tirou aquele título da Hungria.

Ceguinho Torcedor: - Os húngaros eram favoritíssimos e abriram 2 a 0 no início da grande final.

Idiota da Objetividade: - Acabaram derrotados por 3 a 2. Mas teve um gol de Púskas invalidado no fim da partida que gerou muita discussão.

Sobrenatural de Almeida: - Foi um parente distante na Suíça, só pode.

Garçom: - O Brasil perdeu da Hungria naquela Copa, não foi?

Ceguinho Torcedor: - Perdemos. E por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Para nós brasileiros, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. E não era uma pane individual: era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, o técnico, o massagista. Mas quem perde e ganha as partidas é a alma. Foi nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai, em 50. Um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele.

Sobrenatural de Almeida: - Os psicólogos e as psicólogas já estão no futebol tem tempo, Ceguinho.

João Sem Medo: - Agora não tem mais desculpa. Se bem que tem uma turma de palestrantes motivacionais...

Garçom: - Melhor deixar quieto, seu João.

João Sem Medo: - É. Não compro mais briga por tão pouco.

Idiota da Objetividade: - A Hungria, sem Púskas, porque estava machucado, mas com Hidegkuti, Kocsis e outros grandes craques, eliminou a seleção brasileira nas quartas-de-final, com uma vitória de 4 a 2. Foi uma partida muito tumultuada e teve confusão no fim.

João Sem Medo: - Tínhamos grandes jogadores também, como Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Pinga, Julinho Botelho, mas a seleção não estava bem preparada.

Músico: - Seu João, desculpe interromper, mas antes daquela Copa, os paulistas, especialmente os corintianos, levavam muita fé no Baltazar, o Cabecinha deOuro...

Idiota da Objetividade: - Baltazar foi o autor do primeiro gol do Brasil naquele Mundial, na goleada de 5 a 0 sobre o México. Mas depois de enfrentar a Iugoslávia, ficou fora da partida contra a Hungria.

Músico: - Mas a esperança nos gols dele pela seleção eram tão grandes que o compositor e radialista Alfredo Borba, autor da música “Gol de Baltazar”, gravada por ElzaLaranjeira em 1953, em homenagem ao artilheiro do Corinthians, com citação a vários de seus companheiros, fez uma adaptação da música para a Copa de 54 e pôs o título de “Gol do Brasil”.

Garçom: - Por isso, vamos chamar a cantora Elza Laranjeira ao palco pra cantar esta versão pra gente, juntamente com o narrador Geraldo José de Almeida.

Elza e Geraldo se dirigem ao palco e chamam Baltazar pra ir com eles. Os três são muito aplaudidos.

Elza Laranjeira: - Muito obrigado. Foi uma honra muito grande gravar as duas versões desta música em homenagem ao grande artilheiro Baltazar.

Geraldo José de Almeida: - E de minha parte, um prazer enorme fazer a locução de um gol deste grande artilheiro pela seleção brasileira, mesmo sendo uma criação do Alfredo Borba, que ali está e gostaria que viesse ao palco também, por favor.

Alfredo Borba atende o chamado de Geraldo José de Almeida e também é muito aplaudido pelo público.

Baltazar: - Agradeço muito a Elza, ao Geraldo, ao Alfredo Borba e a todos vocês pela emocionante homenagem.


Todos aplaudem a apresentação de Elza e a bola volta ao João Sem Medo.

João Sem Medo: - A festa e a alegria aqui são muito bem-vindas, mas em 54, na Suíça, os dirigentes, o técnico Zezé Moreira e os jogadores não conheciam sequer o regulamento.

Idiota da Objetividade: - Depois de passar pela primeira vez por eliminatórias, com quatro vitórias em quatro partidas, contra Paraguai e Peru, a delegação brasileira também foi pela primeira vez de avião para uma Copa do Mundo. Na estreia, como já dissemos, a seleção venceu o México, por 5 a 0, na estreia na Copa de 54. Em seguida, enfrentou a Iugoslávia com ambas as equipes necessitando apenas de um empate para se classificarem.

João Sem Medo: - Um regulamento esdrúxulo, mas que os brasileiros tinham obrigação de conhecer.

Idiota da Objetividade: - Eram dois cabeças de chave por grupo e ambos não se enfrentavam; as outras duas seleções também não se confrontavam. No Grupo 1, o do Brasil, a França era a outra cabeça de chave. Como a seleção brasileira derrotou o México, e a Iugoslávia venceu a França,por 1 a 0, o empate classificava as duas equipes para as quartas-de-final.

João Sem Medo: - O regulamento ainda previa uma prorrogação, sabe-se lá por quê. O jogo estava 1 a 1, o time do Brasil se esforçando ao máximo pra tentar a vitória, enquanto os iugoslavos jogavam tranquilos, os brasileiros se desesperavam em campo achando que teriam de fazer um jogo extra três dias depois. Ninguém na delegação brasileira conhecia o regulamento da Copa. Enquanto ainda estávamos surpresos com a classificação, os iugoslavos bebemoraram e dançaram à vontade depois do jogo, no hotel em que estavam hospedados.

Idiota da Objetividade: - Os brasileiros só ficaram sabendo que a seleção estava classificada pelos repórteres que foram ao vestiário após o jogo. Ainda assim dirigentes foram atrás do árbitro da partida e o representante da Fifa para confirmarem a informação.

João Sem Medo: - Os dois ficaram horrorizados com o desconhecimento do regulamento por parte dos brasileiros. Isso mostra bem como estávamos na Suíça.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

Garçom: - O futebol brasileiro não foi bem na Suíça, mas não deixou de ter a alegria da tabelinha entre música e futebol naquele ano de 1954. Vamos ouvir, então, “O rei da bola”, de Luiz Antonio e Sebastião Nunes, na voz de Marly Sorel.

Fim do Capítulo #41

Episódio originalmente publicado em 9 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 22 de outubro de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #40

Uma coisa jogada com música - Capítulo #40

Almir se livra de um jogador do Milan, observado por Coutinho (9). Foto: Santos FC

Santos e Botafogo foram mesmo os principais times do Brasil nos anos 60. Portanto, o papo no bar “Além da Imaginação” acabou retornando ao clube paulista, que obteve conquistas mais expressivas que o carioca.

Idiota da Objetividade: - A confirmação de que o Santos era o melhor time do mundo no início dos anos 60 veio em 1963, com a conquista do bicampeonato mundial. Almir Pernambuquinho foi um dos grandes nomes daquela final, como já dissemos.

Garçom: - O Santos enfrentou qual time mesmo na final?

João Sem Medo: - O Milan, que tinha um grande time. Os brasileiros Mazzola, que na Itália era conhecido como Altafini, e Amarildo, que havia substituído Pelé no Mundial do Chile, jogavam naquela equipe, que ainda tinha Rivera, Trappatoni e o Cesare Maldini, pai do Paolo Maldini, que disputou as Copas de 90 a 2002.

Garçom: - Lembro do Maldini filho, muito bom jogador. Foi vice pra gente, em 94.

João Sem Medo: - O pai dele também foi um grande jogador. Mas o Santos, mesmo sem Pelé, conseguiu superar o timaço do Milan.

Sem anunciar nada, Zé Ary põe no telão a versão de Zeca Baleiro pro hino mais popular do Santos, chamado de “O Leão do Mar” e que foi composto por Mangeri Neto e Mangeri Sobrinho.

O povo do bar assiste com atenção e quando o clipe acaba, João Sem Medo passa a bola pra Ceguinho Torcedor.

João Sem Medo: - O Santos conquistou aquele título de 63 no pau e na bola.

Ceguinho Torcedor: - O Santos era uma equipe assassinada pela desumanidade de seus dirigentes. Nenhuma equipe terrena pode jogar tanto sem morrer. E contra o Milan, o glorioso time santista ruía aos pedaços, estrebuchava, agonizava.

João Sem Medo: - Os times brasileiros eram obrigados a excursões extenuantes, com jogos de dois em dois dias, mais as viagens. Além do Pelé, o Santos jogou as finais de 63 no Maracanã sem o Zito e o Calvet.

Ceguinho Torcedor: - Nunca houve cansaço tamanho. E apesar disso ganhou do Milan na mais linda reação que se conhece. Ganhou duas vezes. No primeiro jogo, o Santos saiu pro intervalo perdendo por 2 a 0. Mas cai uma tempestade de 5º ato do Rigoletto no Rio de Janeiro e mudou tudo.

Como que por encanto, ouve-se um estrondo, um trovão com relâmpagos, e toda plateia fica arrepiada. Sobrenatural de Almeida dá sua gargalhada tenebrosa, cantarola um trechinho da ópera de Giuseppe Verdi e todos entendem que ele tinha atuado como sonoplasta da narração do Ceguinho Torcedor, que prossegue.

Ceguinho Torcedor: - O Santos virou e levou a decisão para a terceira partida. Houve quem dissesse que Almir era um delinquente irrecuperável e paranoico. Mas se Almir chutou o Amarildo no terceiro jogo, o que fez Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, que quebrou o Mendonça? Ninguém o chamou de delinquente e paranoico. Nem o próprio Amarildo, que quebrou o Jair Marinho, num Fluminense e Botafogo.

Didi, em sua mesa, ao lado de d. Guiomar, nada fala, apenas acompanha a resenha com atenção. Numa mesa próxima, Almir Pernambuquinho apenas sorri quando João Sem Medo começa a relatar o que viu naqueles jogos finais.

João Sem Medo: - A pancadaria comeu solta no Maracanã. Almir deu um chute em Amarildo logo no início do primeiro jogo no Maracanã. Almir, que aqui está e não me deixará mentir, confessou que jogou dopado e que foi pra vingar Pelé, por quem tinha grande respeito. Amarildo teria dito em entrevista que Pelé não era mais o Rei. E Pelé não pôde ir a campo em nenhum dos dois jogos. Almir foi em seu lugar e na partida que decidiu o título sofreu o pênalti de Maldini, que quis brigar e foi expulso. Dalmo pegou a bola que seria do Pepe e converteu o pênalti pra dar o título ao Santos.  Até o Lula, técnico do Santos, agrediu com um soco o Carniglia, treinador do Milan. O Trapattoni caçou o Almir em campo, mas ficou até o fim do jogo. Ismael deu uma cabeçada em Amarildo e também foi expulso.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso! Eu fiz plantão naqueles dois jogos e irritei muito os jogadores do time italiano. (dá outra gargalhada tenebrosa e volta a cantarolar um trecho do Rigoletto)

Idiota da Objetividade: - O Santos chegou à final do Mundial de 63 depois de conquistar a Libertadores daquele ano. Eliminou o Botafogo na semifinal, com um empate em 1 a 1, no Pacaembu, e goleada de 4 a 0, no Maracanã. Na final contra o Boca Juniors, da Argentina, venceu por 3 a 2 no Maracanã, e 2 a 1, em La Bombonera.

João Sem Medo: - O Santos ganhou do Boca lá dentro, de virada, com gols de Coutinho e Pelé.

Idiota da Objetividade: - Pelé só jogou o primeiro jogo das finais do Mundial, em Milão, na derrota de 4 a 2. Ele fez os dois gols do Santos, de pênalti. Amarildo fez dois pro Milan. No Maracanã, diante de 132 mil pagantes, o Santos perdia por 2 a 0 no primeiro tempo, mas virou na segunda etapa para 4 a 2, com dois gols de Pepe, ambos de falta, um de Almir e outro de Lima. Foi necessário então um terceiro jogo, disputado dois dias depois, em 16 de novembro de 1963. Mais de 120 mil pessoas pagaram ingresso para ver quem seria o campeão. E numa partida marcada pela violência, como João já nos relatou, o Santos ganhou de 1 a 0, gol de pênalti marcado por Dalmo, aos 35 minutos de jogo.

Almir Pernambuquinho, enfim, pede a palavra de sua mesa.

Almir: - Entrei com tudo naquela partida, pra matar ou morrer. Eu só pensava no bicho, que dava pra comprar um Fusca do ano. Fui incentivado por um dirigente chamado Nicolau Moran. Ele me disse: “Você pode fazer o que quiser em campo, Almir. Você é rei lá dentro, faz o que achar melhor. O juiz não vai fazer nada”.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso, Almir. Assombroso.

O público ri e Zé Ary pede a palavra.

Garçom: - Como falamos muito do grande Santos bicampeão mundial, vamos fazer uma grande homenagem aqui com mais duas versões no telão do hino do clube: “Leão do Mar”, com Paulo Miklos, e o hino oficial com a Rygel, banda santista de heavy metal. Aguentem os ouvidos aí!

Músico: - Aumenta que isso aí é roquenrol!


Fim do Capítulo #40

Episódio originalmente publicado em 2 de novembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 22 de setembro de 2025.

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #39

Uma coisa jogada com música - Capítulo #39
O time do Santos campeão mundial em 1962: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Foto: Agência JB

A homenagem a Pelé é muito aplaudida pelo público presente ao bar Além da Imaginação. Após uma breve dispersada, Idiota da Objetividade começa a contar como o Santos conquistou o bicampeonato mundial de clubes.

Idiota da Objetividade: - No dia 11 de outubro de 1962, o Santos, que havia sido campeão da Taça Libertadores da América ao vencer o Peñarol do Uruguai, por 3 a 0, enfrentou o Benfica, no Estádio da Luz, em Lisboa, depois de ter vencido por 3 a 2, no Maracanã, na primeira partida da final do Mundial Interclubes. Diante de 80 mil presentes, o Santos sagrou-se campeão com a vitória de 5 a 2, com três gols de Pelé, um de Coutinho e outro de Pepe. Só nos cinco minutos finais, o time português descontou com Eusébio e Santana.

João Sem Medo: - Isso foi apenas quatro meses depois que o Brasil conquistou o bicampeonato mundial no Chile!

Ceguinho Torcedor: - E Pelé, que na Copa do Chile praticamente não jogou, pôde demonstrar mais uma vez o gênio que era.

Garçom: - Vamos, então, aproveitar pra ouvir outra música em homenagem ao Rei?

O “sim” forte e alto ecoa novamente no Além da Imaginação.

Garçom: - Jair Rodrigues, por favor, venha ao nosso palco!

Jair Rodrigues atende o pedido com o sorriso largo que todos se habituaram a ver. E é muito aplaudido.

Jair Rodrigues: - Muito obrigado, minha gente! Vamos aqui fazer uma dupla homenagem, ao Rei do Futebol e ao Rei do Baião. A música, de Durval Vieira e Reginaldo Santos, se chama “Rei Pelé, Rei Luís”. Vamos lá, rapaziada!


Sob aplausos, Jair Rodrigues agradece e, quando ia voltar à sua mesa, Zé Ary e os músicos pedem que ele aguarde um pouco. Ceguinho Torcedor retoma a pelota.

Ceguinho Torcedor: - Mil novecentos e sessenta e dois foi um ano glorioso para o futebol brasileiro. Na Europa só chamavam os jogadores do Santos de gênios, gênios. Técnicos ingleses, italianos, a imprensa portuguesa, todos se esbaldaram de elogios ao time brasileiro.

João Sem Medo: - Foi glorioso para o Botafogo também, que conquistou o bicampeonato carioca em cima do Flamengo.

Ceguinho Torcedor: - É verdade, com um show de Garrincha, deu de 3 a 0 no Flamengo, que jogava pelo empate.

Garçom: - Depois daquele jogo, o Gerson resolveu sair do Flamengo, né?

João Sem Medo: - Foi escalado de ponta-esquerda e ficou tentando ajudar o Jordan a marcar o “imarcável” Garrincha, que fez dois gols. O outro Vanderlei jogou contra a própria rede após chute do Mané.

Garçom: - Na década de 60, Botafogo e Santos eram os melhores times do Brasil e formaram a base da seleção.

João Sem Medo: - Isso mesmo. Mané, venha aqui, por favor. Quero lhe dar mais um abraço. Enquanto isso, o Zé Ary vai convocar outra música.

Garçom: - É verdade, seu João. Vamos agora homenagear os nossos dois maiores gênios da bola e todos os que sonharam e ainda sonham ser um craque da bola, novamente com o grande Jair Rodrigues.

Jair Rodrigues: - Bom, rapaziada, Mané, muito prazer revê-lo aqui. Vamos rolar a bola, então, com “Pelés e Manés”, de Chico Xavier, que não é o  médium mineiro, mas o compositor cearense.

Ao fim da apresentação de Jair Rodrigues, a emoção tomou conta de todos no bar. Garrincha subiu ao palco para abraçar o cantor e todos aplaudiram de pé. Os aplausos foram bem demorados e muitos dos presentes se dirigiram a Jair e Garrincha para cumprimentá-los.

Fim do Capítulo #39

Episódio originalmente publicado em 26 de outubro de 2022 e republicado totalmente modificado em 3 de setembro de 2025.

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #38

Uma coisa jogada com música - Capítulo #38 <
Gaúcho, no Palmeiras, defende um dos pênaltis cobrados pelo Flamengo em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro de 1988, no Maracanã. Foto aprimorada por IA 

A música de Marco Ferrari atraiu a atenção de grande parte do público e de nossos amigos. Após o burburinho dos comentários, Zé Ary manteve o tema e lançou a bola na área.

Garçom: - Não foi naquele mesmo Campeonato Brasileiro, em 88, que o Gaúcho defendeu dois pênaltis contra o Flamengo?

Idiota da Objetividade: - Sim, o Flamengo perdia para o Palmeiras, por 1 a 0, quando o goleiro Zetti se machucou gravemente após choque com o atacante Bebeto. O time paulista não podia mais fazer substituições, então Gaúcho, falecido em 2015, vestiu a camisa de goleiro e levou o gol de empate, marcado pelo próprio Bebeto. Na disputa de pênaltis, no entanto, ele virou herói ao defender os chutes de Aldair e Zinho.

Sobrenatural de Almeida: - Dei uma grande ajuda pro Gaúcho naquela noite. Não foi Gaúcho?

O artilheiro se levanta rindo e não deixa barato.

Gaúcho: - Que nada, eu sempre fui bom goleiro.

Ceguinho Torcedor: - Assombroso!

Todos riem muito.

Gaúcho: - Na primeira bola eu levei o gol, mas consegui depois pegar os dois pênaltis que ajudaram o Palmeiras naquela noite no Maracanã.

Todos o aplaudem. Ele agradece e se senta novamente.

João Sem Medo: - Zetti, Bebeto, Aldair e Zinho foram campeões mundiais em 94.

Garçom: - E o Gaúcho, um dos heróis do Flamengo no Brasileiro de 92.

Idiota da Objetividade: - Foi sim, mas o grande nome daquele time de 92 foi o Júnior, que além de Maestro, foi o artilheiro do Flamengo, com 9 gols. Um a mais que o Gaúcho.

Gaúcho se levanta de novo.

Gaúcho: - Eu deixei essa pra homenagear o Maestro.

Risos na plateia.

João Sem Medo: - É, mas o Flamengo teve muito mais time no início dos anos 80.

Idiota da Objetividade: - Aquele time comandado por Zico foi campeão brasileiro em 1980, 82 e 83. Ainda venceu a Libertadores, o Carioca e o Mundial de Clubes em 81.

João Sem Medo: - Em Tóquio, Zico, Adílio, Júnior, Leandro, Andrade e Lico ficaram bem à vontade e puseram o Liverpool na roda. A vitória de 3 a 0 foi muito justa.

Garçom: - E a festa da torcida varou aquela madrugada, o bar em que eu trabalhava na época não fechou de sábado pra domingo. Se já era ídolo, Zico virou Rei.

Músico: - Merece música, né? Zico tem muitas pra contar e cantar.

Garçom: - Verdade! Vamos ouvir, então, uma do CarlinhosVergueiro, aqui no som, que se chama “Zico”.

Todos aplaudem a música, e Geraldo, muito amigo do Galinho de Quintino, aplaude de pé e é seguido por seu Antunes, dona Matilde, Antunes e Tunico e por outros ex-companheiros de Flamengo e seleção brasileira, como Figueiredo, Zé Carlos, Rodrigues Neto, Sócrates.

Idiota da Objetividade: - O Flamengo foi o primeiro time brasileiro a conquistar o Mundial Interclubes depois do Santos, que foi bicampeão, em 1962 e 63.

Ceguinho Torcedor: - O Santos de Pelé deu grandes exibições de futebol. Foi assim no título mundial de 62, quando goleou o Benfica, no Estádio da Luz, por 5 a 2. Só Pelé fez três gols. O Santos destroçou o Benfica de Eusébio. O Santos não, Pelé. Só o Negro Divino existiu naquela noite diante de uma multidão uivante de 80 mil pessoas, sem contar os caronas espectrais, os infantes, os Camões, o túmulo de Inês de Castro. Houve em Lisboa um silêncio de catástrofe, de estourar os tímpanos, como em 50, aqui. Ao terminar o jogo, a garotada invadiu o campo e Pelé foi caçado. Estraçalharam sua camisa, e os portugueses levaram os seus farrapos como se fossem trapos radiantes de um santo.

João Sem Medo: - Pelé foi o maior que vi jogar.

Garçom: - Falando no Rei...

Músico: - É, sem dúvida, o jogador que mais homenagens musicais recebeu até hoje.

Ceguinho Torcedor: - O Rei merece, por tudo o que fez pelo Brasil.

Garçom: - Então, vamos ver no telão, uma apresentação especial da Orquestra Sanfônica Balaio Nordeste tocando “A ginga do Pelé”, de João do Pife?

Todos respondem em coro um “sim” em alto e bom som.

Garçom: - Então, vamos lá!

Todos aplaudem muito.

Garçom: - Ainda falaremos muito de Pelé e ouviremos muitas músicas sobre ele, que virá aqui, com certeza.

Fim do Capítulo #38

Episódio originalmente publicado em 19 de outubro de 2022 e republicado totalmente modificado em 13 de agosto de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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NAU POESIA: POESIA SEM VERSOS*

Nau Poseisa: Espiral do Tempo
a existência é um imenso vazio recheado de tudos recheado de nadas as árvores das ruas as copas das árvores as folhas das copas as copas flanantes bailantes sensíveis à mais leve brisa vento vento vento voa gaivota voa a vida voraz, efêmera e eterna a esperança alimento luz e energia viva desesperança também por que não a chance uma pequena viva cor viva incendeia o esmaecido solo que pisamos que deitamos em que nos ralamos a ferida aberta a dentadas a unhadas sangue brotando e escorrendo denso e fluido onde a vida começa e termina no círculo não há início, meio ou fim não há rumos não há objetivos não há alvos somente caminhar o eterno retornar o passar para deixar algo de si desmantelado esfacelado poeira suspensa que parece cair que parece levitar

Ilustração produzida com auxílio de IA



Vídeo:
"So What", Miles Davis e John Coltrane


"Poesia sem Versos" faz parte do livro Profano Coração, que está à venda, em todas as versões digitais, na Amzon do Brasil e de mais 13 países. Para adquirir no Brasil o seu ebook, clique na capa acima. Lançado originalmente em 2009 por uma editora que posteriormente não teve escrúpulos e continuou a vendê-lo após o término do contrato, em 2011, sem repassar qualquer percentagem das vendas ao autor, o livro foi muito elogiado. Para ler algumas opiniões sobre ele, clique aqui.

Poesia publicada originalmente no dia 26 de agosto de 2010.

Ilustração produzida com auxílio da IA

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