quarta-feira, 6 de julho de 2011

RIO DE JANEIRO, UM DOENTE EM ESTADO GRAVE

O Rio de Janeiro ainda possui traços de um belo corpo, que no entanto está exaurido, gravemente enfermo. Um corpo tão usado e abusado, torturado, estuprado, mutilado tantas e tantas vezes e por tanto e tanto tempo, por mais resistente que seja, não pode suportar incólume eternamente. Já se podem ver enormes feridas em carne viva e fraturas expostas, que as várias cirurgias plásticas a que foi submetido não conseguem esconder. Muitos de seus órgãos internos estão podres - exalam no mau hálito diário! - e roubam dos que ainda não foram atingidos o pouco de vitalidade que possuem para tentar, como se fosse possível, uma sobrevivência espúria.

Vários sintomas vêm se manifestando ao longo dos anos, mas poucos prestam atenção. E a alma e o espírito cariocas, sempre tão afeitos a fantasias, ilusões, tentam compensar, mas só agravam a situação. Um curativo aqui, um remendinho ali, e de paliativo em paliativo o belo corpo foi adoecendo, sem que se atacassem as causas, buscando sempre atenuar os efeitos. Ele agora está empanzinado, cheio de gases, que seus orifícios expulsam cada vez mais violentamente.

Que este corpo já fedia há tempos, basta ter os sentidos em dia para se perceber, e não só pelo olfato. Agora, a violência das flatulências e dos arrotos nas suas vias, ainda que esparsos, certamente vão se intensificar se continuarem com os paliativos e a exauri-lo, usá-lo, abusá-lo, torturá-lo, estuprá-lo, mutilá-lo.

Se o doente não for muito bem cuidado, com urgência, se é que ainda há chance de recuperação, aí virá uma sofrida e lenta morte, com hemorragias internas e externas, intensos vômitos e seguidas diarréias.


Vídeo: "O Pulso", Titãs.
Foto: achei-a na internet e não havia crédito, gostaria de dá-lo.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

BELEZA E CAOS: ARTE EM TODA PARTE

Diz-se dos artistas de um modo geral e dos poetas especificamente que eles têm uma proximidade muito grande com assuntos que dizem respeito ao divino, que enxergam o invisível, o abstrato, a alma das matérias. Disse o americano Ezra Pound, com toda autoridade que lhe é conferida pela sua obra, que o poeta é a antena da raça. Muitas poesias e obras literárias anteciparam acontecimentos, ou revelaram algo que ninguém – ou quase ninguém - podia ou conseguia enxergar.

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A beleza e também o horrendo – por que não? – estão à nossa volta o tempo inteiro. Talvez seja melhor dizer a ordem natural e o caos, que tanto podem produzir o belo como o horror. Depende de como se veja. Estão em toda parte, concreta e abstratamente, talvez em maior quantidade e intensidade no mundo em que olhos nus não alcançam.
A Física já se aproximou muito da arte e da espiritualidade como já nos mostrou Fritjof Capra. Não existe divisão, departamentos, seções, classificações na natureza. Tudo é um todo. Quem divide, departamentaliza, secciona e classifica é o homem, que facilita seu entendimento, mas se esquece que uma parte não vive sem a outra, que uma interfere na outra, mesmo sem conexões plausíveis, proximidades. É como aquilo que um dia li em algum lugar (já não me lembro quem disse ou escreveu): “uma batida de asas de uma borboleta na América pode ser o princípio de um vendaval na Ásia”.





A vida ainda traz muitos mistérios que o homem nem ousa chegar perto, mesmo os cientistas mais aclamados ou santos e sacerdotes mais próximos do que chamam Deus. A vida está em constante movimento, produzindo beleza e caos, com a contribuição ativa do ser humano, tanto para um – cada vez menos – como para o outro – cada vez mais. Uma ótima ilustração é o pensamento do escultor Auguste Rodin: “Tudo é movimento, até um corpo morto, em seu processo de decomposição, produz movimento”.
Mas se a vida é eterna, infinita, o que dizer da morte? Outro dia li uma frase de Walt Withman, o poeta americano que revolucionou a língua inglesa, especialmente em seu país. Do meu modo de entendê-las, Withman retrata muito bem o que significam: “A vida é o pouco que nos sobra da morte”.

E respaldado pelas palavras de dois gigantes da poesia e um das artes plásticas, além de um físico fora do comum, posso terminar este texto que muito me honrou ter escrito para a Coluna do LAM dizendo duas coisas que acredito muito no meu ofício de escritor e poeta. Uma é que o verdadeiro artista não expressa apenas aquilo que o público quer, mas aquilo que é necessário. Fazer só o que o público deseja é ser o bobo da corte. E para fechar: poesia sem filosofia é mero jogo de palavras.

* Este texto foi originalmente publicado no antigo site do jornalita Luiz Antonio Mello, Coluna do LAM. Atualmente, Coluna do LAM é um blog

Ilustrações (por ordem, de cima para baixo): Ezra Pound; capa do livro Ponto de Mutação, de Fritjof Capra; Fritjof Capra; retrato de Auguste Rodin feito por seu xará Renoir, e Walt Whitman.

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