sábado, 11 de julho de 2015

A PROPÓSITO DO JORNALISMO, O QUE TENHO EU A DIZER

Foram 25 anos de respeito, carinho, muitas e importantes amizades, imensos aprendizados, ótimas oportunidades e abertura de portas. A última delas puxada e empurrada pela maçaneta com muito cuidado por minhas próprias mãos, em 1º de abril de 2013. No entanto, não houve amor. Por isso - e só por isso - afirmo que se encerrou. Hoje, dia 7 de abril*, soube que se comemora o dia do jornalista porque vi nas redes sociais e acabei sendo parabenizado por amigas e amigos que ainda me consideram jornalista. Não me considero mais, não por desprezo, rancor, nada disso, muito pelo contrário. É por respeito mesmo, por saber que embora tenha cumprido minha missão da melhor maneira que eu podia fazer dentro de redações - indo da máquina de escrever igual a esta da foto à internet - em estúdios de rádio (por pouco tempo), nas ruas, estádios, festivais etc, jamais tive o mesmo orgulho e paixão que colegas com muito mais talento e vocação que eu têm por esta profissão ao mesmo tempo tão nobre e tão miserável, como bem definia o falecido Nelson Silva.

Para começar, amava aquilo que me levou a fazer vestibular para jornalismo: o futebol. Como não tinha mais idade, nem tinha me dedicado o suficiente para me tornar jogador e a concorrência naqueles tempos (início dos anos 80) era “desleal”, optei pela profissão que poderia me proporcionar a chance de trabalhar com aquilo que tomava grande parte dos meus dias. Amava – e amo - a música também, mas ela não me levou ao jornalismo. A profissão que abracei de 1988 a 2013 me deu gigantescos presentes e só tenho a agradecer. Um deles foi (re)descobrir o amor pela literatura e a arte em geral, sendo que o teatro foi exceção, pois, como já escrevi aqui em outras oportunidades, foi presente de Cristine Cid, minha namorada e mulher nos seus últimos 15 anos de vida e mãe dos meus amados filhos**.

Ser repórter me deu a chance de entrevistar e, portanto, conversar com Oscar Niemeyer, Zico, Júnior e quase todo o time do Flamengo campeão do mundo em 1981, Telê Santana, Paulo Roberto Falcão, Carlos Alberto Parreira, Nelson Pereira dos Santos, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Carlos Eduardo Dolabella, Evandro Mesquita, Geovani, Antonio Soares Calçada, Eurico Miranda, Marcio Braga, Roberto Dinamite, Romário, Bebeto, Zagallo, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Paulo Cesar Caju, Sergio Cabral (pai), Luiz Mendes, Levir Culpi, Afonsinho, Bebeto de Freitas, Tande, Giovanne, Mauricio, Bernard, Luiza Parente, Mauricio de Sousa, Veronica Sabino, Ithamara Koorax, Carlinhos Brown e mais uma infinidade de nomes mais ou menos conhecidos, mais ou menos amados e odiados. Fora os que esqueci ou não tenho certeza.

Também me proporcionou histórias pitorescas e incríveis, umas que acabaram não publicadas, como a expulsão da sede do Bangu pelo então presidente do clube da Zona Oeste do Rio e atual mandatário da Federação de Futebol do Rio de Janeiro; outras que foram para as páginas de uma revista apenas parcialmente, como as voltas que dei para descobrir onde morava Jorge, lateral do Vasco na époda do Expresso da Vitória e da seleção nos anos 40 e 50, e como acabei sabendo que era na Praia de Botafogo, a poucos metros de onde estava, e que para saber disso fui via Embratel a Jaboatão, em Pernambuco, onde morava o filho dele de mesmo nome, com quem não falava havia 30 anos, e a de Kalu, já contada neste blog (para ver, clique aqui).

Ser jornalista me deu a oportunidade de, entre muitos eventos importantes, fazer parte da equipe de redação do Jornal dos Sports na cobertura da Copa do Mundo de 1990, na Itália; chefiar a equipe da Agência Sport Press na cobertura das Olimpíadas de 1992, em Barcelona, e das eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, disputadas no ano anterior; cobrir da redação do jornal O Fluminense a Copa dos Estados Unidos e as Olimpíadas de 2000; ser responsável pela equipe de redação do O Globo Online durante a Copa de 1998, na França; ser chefe de reportagem da Agência Lance! nas eliminatórias para Copa de 2002 e no próprio Mundial disputado na Coréia do Sul e no Japão, e fazer parte da equipe de redação do Globoesporte.com durante os Jogos Pan-Americanos Rio-2007, das Olimpíadas de 2008 (Pequim) e 2012 (Londres), além da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. 

O jornalismo me fez ler e procurar saber mais sobre assuntos que sempre adorei e também sobre aqueles que jamais despertaram meu interesse, como mercado financeiro, automóveis, informática, aviação. O jornalismo melhorou muito a minha escrita, até o ponto de me permitir criticar a forma como se escreve determinadas matérias e artigos. O jornalismo me apresentou o jornalista Gabriel García Márquez, o que me fez preferir seus "As aventuras de Miguel Littin Clandestino no Chile" e "Notícias de um Seqüestro" a "Cem Anos de Solidão" e "Amor nos Tempos do Cólera", ambos ótimos e justamente consagrados. O jornalismo me fez crescer profissional e pessoalmente graças aos muitos excelentes colegas com os quais tive a sorte de trabalhar na mesma equipe, na mesma empresa ou nas mesmas coberturas. Não citarei nenhum para não cometer injustiças.

Por essas e outras - que não relatei por esquecimento ou edição - pude reunir em 25 anos algumas amizades de inestimável valor, obter muitos aprendizados talhados por crassos erros e inesperados acertos, receber grandes oportunidades que foram bem aproveitadas umas, nem tanto outras. Foi eterno enquanto durou, por isso não foi amor, pois amor, o amor não acaba.



* Escrevi este texto no dia 7 de abril e ele ficou aqui no rascunho pra ser publicado posteriormente.
** Hoje, 11 de julho, dia em que finalmente publico este texto, Cristine Cid completaria 45 anos de idade.
Vídeo: "Feito Mistério" (Cacaso/Lourenço Baêta), com Boca Livre
Veja também:
A Terra de Salgado
Questão Em Questão 2
O Jornalismo Em Questão
O Escrever
Entressafra
Outras Considerações sobre o Escrever

quinta-feira, 18 de junho de 2015

ESTILHAÇOS 15

Se você olha para o céu e pensa na vastidão que nos cerca, que a Terra - com bem disse Carl Sagan - é apenas um pálido ponto azul, lembre-se da imensidão das coisas minúsculas que passeiam pelo ar, através do nosso corpo, abaixo de nossos pés, dentro da terra, da água, das células, das moléculas, dos átomos. Há neste mundo invisível, tão invisível quanto o grandioso universo e todas as suas galáxias, também muito de espantoso, terrível, maravilhoso e misterioso.



Veja também:
Estilhaços 11
Estilhaços 8
Penso, logo sinto 15

terça-feira, 9 de junho de 2015

MÚSICA PRA VIAGEM: UM A ZERO

Pixinguinha
Não há, no meu modo de ver, música que retrate melhor o futebol do que o choro "Um a Zero", de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Em especial o futebol brasileiro, aquele que durante décadas e mais décadas foi considerado por público e crítica o melhor do mundo (mesmo quando não vencia a Copa). Sempre que a ouço, nos mais variados arranjos, com os mais diversos feras do chorinho, logo me vêm à memória imagens de Garrincha dominando a bola, levando adiante, encarando um, dois, três marcadores, driblando, parando, fingindo avançar, voltando, colocando o pé sobre a bola, dando uma paradinha, um tapa nela pro lado direito e se livrando de mais um "joão", chegando fácil à linha de fundo e com a aproximação de mais um adversário, retorna para entrar na área...

Garrincha em ação na Copa de 1962
Porém, as imagens que fizeram a música surgir são bem mais antigas. Em 1919 - portanto 14 anos antes de Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha, nascer em Pau Grande, interior do Rio de Janeiro -, o mestre Pixinguinha, um dos maiores compositores da História da música, e seu parceiro Benedito Lacerda compuseram "Um a Zero" em homenagem à vitória da seleção brasileira sobre o Uruguai, na final do Campeonato Sul-Americano, pelo placar que dá título à obra-prima. A dramática partida foi realizada no dia 29 de maio daquele longínquo ano, no estádio das Laranjeiras, construído especialmente para aquela competição, que reuniu ainda argentinos e chilenos. O gol da vitória foi marcado na segunda prorrogação, aos 122 minutos de jogo (!), por Arthur Friedenreich, "El Tigre", apelido que ganhou dos uruguaios justamente por este feito histórico. Friedenreich já foi tido como o maior artilheiro da História do futebol, mas há muitas controvérsias em relação ao número de gols que marcou ao longo de sua carreira, no período amador do futebol brasileiro, que vai até 1933.

Friedenreich

Certamente a emoção da conquista, a segunda da seleção brasileira (a primeira foi a Copa Roca de 1914), inspirou os dois artistas a criarem uma música à altura. Conseguiram, talvez até tenham superado. Muitos anos depois Nelson Angelo pôs letra neste chorinho, porém isso nem sempre me agrada, prefiro quase sempre a versão instrumental. Mas esta é outra discussão para uma outra hora. Fiquem abaixo com Pixinguinha neste clássico "Um a Zero".


Veja também: 
Músicas que nos fazem viajar
Garrincha, 77
Agradecimento a Altamiro

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A TERRA DE SALGADO

"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez" (Jean Cocteau ou Mark Twain)

Nunca programei com tanta antecedência assistir a um filme como O Sal da Terra. Desde que li em setembro do ano passado uma matéria de capa na Ilustrada (caderno de cultura da Folha de S.Paulo) acerca do documentário sobre Sebastião Salgado, dirigido pelo seu filho, Juliano, e Win Wenders, tive tanta vontade de vê-lo que me antecipei e comecei a buscar vídeos no youtube de entrevistas e especiais sobre o estupendo fotógrafo e humanista brasileiro. 

Desde então, Sebastião Salgado passou a ser mais uma grande referência para mim. Não que desconhecesse o trabalho dele, mas passei a conhecê-lo com mais profundidade: o artista, sua obra e, principalmente, sua visão de mundo e o seu legado para o Brasil e a Humanidade.

Pois bem, só consegui ir ao cinema ontem, dia 20 de maio de 2015, acompanhado de minha mulher, já com algumas semanas de exibição nas telas do Rio (a esmagadora maioria localizada na Zona Sul da cidade). Este tempo em cartaz é na verdade outro grande feito, pois é raríssimo um documentário sobre um ilustríssimo brasileiro que, infelizmente pouquíssimos conterrâneos sabem de quem se trata, não ser retirado poucos dias depois de sua estréia. E o melhor é que a pequeníssima sala 2 do Estação Botafogo estava lotada.

O que me mostrou o filme já não me era totalmente ignorado, justamente pelo imenso interesse que tive por ele desde que soube de seu lançamento na Europa. Porém, ainda assim me surpreendeu, ensinou, me comoveu, me modificou para melhor. 


Apesar de algumas fotos fortíssimas, de gente com fome, assassinada por inanição, bala ou facão, cenas de refugiados de guerra, nada é repetitivo ou cansativo. A vida e a obra deste brasileiro – sempre acompanhado e auxiliado por sua espetacular mulher, Lélia -, expulso de seu país por se opor à nefasta ditadura militar que nos abateu a partir de 1964, é sempre tão surpreendente quanto as suas fotos.

É necessário que se veja e reveja por muitas e muitas vezes este filme e a obra de Sebastião Salgado. Além de um fotógrafo de extrema sensibilidade, coragem, talento e precisão, ele é um humanista e ambientalista – assim como Lélia Werneck Salgado, é sempre bom que se frise - que deixará para os mais jovens e as futuras e futuras gerações o Instituto Terra (www.institutoterra.org). 

Este projeto replantou em Aimorés, cidade mineira do Vale do Rio Doce, no então ressecado solo da fazenda onde Salgado foi criado por seus pais, juntamente com as seis irmãs, 2,5 milhões de árvores desde 2001, transformando o que era pasto novamente em floresta (como na sua infância), recuperando assim uma parte da Mata Atlântica que tinha sido arrasada pela estupidez humana.

E a estupidez humana foi o que mais este xará do meu falecido pai presenciou e documentou desde que, no início da década de 1970, resolveu abandonar a promissora e segura carreira de economista para se lançar na incerta e autônoma profissão de fotógrafo, ainda mais incerta pelos perigos que teve de enfrentar para mostrar ao mundo o que se passava onde  ninguém gostaria de estar. 

E de tanto retratar os malefícios humanos nos quatro cantos do mundo, mergulhou no mais profundo poço do ser, afundou nos mares turvos da depressão, desiludido por completo da capacidade de nossa raça merecer viver, de estar na Terra. No entanto, foi este momento de crise, agravado pela morte de seu pai, que o fez retornar às suas origens, à Natureza. 

E, por encampar uma ideia aparentemente estapafúrdia de Lélia, construiu a sua maior obra. Ainda mais gigantesca que a sua imensa e importantíssima coleção de fotografias, penso eu. 

Isso se refletiu inclusive na escolha do seu mais recente projeto: Genesis. Revela Salgado que originalmente o planejamento era fotografar mais uma vez a horrenda influência humana na Terra, desta vez na poluição do planeta. Porém, a escolha recaiu sobre a esperança, e ele foi buscar as origens da Terra, onde ela ainda preserva características dos seus primórdios. E produziu mais um belíssimo trabalho, certamente o menos sofrido.

Veja também:
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
Beleza e caos: Arte em toda parte


Sebastião Salgado, como tantos outros brasileiros de primeira grandeza, são infelizmente escondidos pela nossa mídia, com raríssimas exceções, claro – elas sempre confirmam as regras. Gente como ele, que retratou o sofrimento e a beleza dos povos do mundo inteiro e reconstruiu com a contribuição valiosíssima de sua mulher uma parte da Mata Atlântica, têm pouquíssimo espaço para a divulgação de tão grandioso trabalho. Ao contrário de pseudo-heróis criados pelo pobre jornalismo nosso de cada dia, eles, os verdadeiros gênios da raça, estão no quase anonimato.

Este filme, O Sal da Terra, deveria ser exibido em rede nacional no horário nobre por todas as emissoras de televisão, incluindo as pagas, de preferência no lugar do tragicômico horário eleitoral gratuito. Quem sabe assim, nosso rude, bruto, cruel e ao mesmo tempo fútil, infantil e carente país se sensibilizasse, do mais humilde ao mais pseudo-poderoso cidadão. E então, conscientes de seus irrisórios propósitos rotineiros, os abandonassem e se levantassem para fazer disso aqui um lugar mais justo e verdadeiramente saudável e feliz.

Lélia e Sebastião na Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG)

"... Vamos precisar de todo mundo / Um mais um é sempre mais que dois / Pra melhor juntar as nossas forças / É só repartir melhor o pão / Recriar o paraíso agora / Para merecer quem vem depois..."
(O Sal da Terra, Beto Guedes/Ronaldo Bastos)




Fotos: a primeira, terceira, quarta e quinta fotos são de Sebastião Salgado.


UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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