sexta-feira, 4 de novembro de 2016

QUE ME DIZ VOCÊ?

Versos sempre escrevi e ousei publicar por aí, em papéis diversos, reais e digitais, onde as portas se abriram e entrei com todo respeito e educação. Onde fecharam dei as costas e parti. Mas é com igual respeito, educação e amor que peço licença à musa Música para adentrar em seu maravilhoso recinto. Chego devagar, mas com certa audácia, pois não sou cantor e não toco qualquer instrumento. E peço desde já desculpas pela maneira como chego, não tão bem arrumado para a ocasião e com alguma fome e sede, mas - tenho a certeza - com a dignidade que não falta a quem um dia foi impelido a escrever e agora desandou a melodiar os versos seus. Eu, os meus. Isso mesmo, eu!

Parece absurdo, mas não é tanto assim. Afinal, venho de uma família com músicos, antepassados e presentes, e de muitos amadores da Musa Música. Nada mais natural que ela brote dentro de mim como os versos tantos que já publiquei. Uni um ao outro, de forma sutil e agradável. Enquanto atravessava um longo deserto, nasceram 16, 17. A aridez que me deu esses oásis sonoros para suportar melhor a longa e árdua jornada está chegando ao fim, e meus pés lanhados, com o solo do meu peito rachado, como relato em "Sequidão", estão cicatrizando aos pouquinhos.

Aqui, pergunto "Que me diz você?", pois dizer já disse e continuarei dizendo. Até cantando, mesmo sem ser cantador, mesmo sem ter um instrumento que me acompanhe. Estou quase solitário, como caminhei pelo deserto. Quase, porque amor não me faltou (nem me falta) para receber e dar também. E meu amor esteve de mãos dadas comigo o tempo todo. Foi o sentimento-mór o alimento diário que me proporcionou a força necessária para estar aqui depois de tantas pedras, dos mais variados tamanhos, vendavais, tempestades de areia. As intempéries, inesperadas em sua maioria, também me deram incomensuráveis forças. Portanto, agradecê-las-ei - sem temer - também.



QUE ME DIZ VOCÊ?

Que me diz você mais do que a morte,
a ressurreição e sua dança,
o aspirar um novo ar,
o banhar a alma
com uma chuva quente,
o respingar de gotas cintilantes,
todo ser em harmonia,
o libertar o corpo
de amarras invisíveis
E senti-lo crescer
Sem sair do lugar?

Apenas luta sem trégua,
Guerra civil do ser
sem fins, sem meios,
sem terras, sem gritos de liberdade,
Cadeias ou fugas,
Tronos ou poder;

Apenas a vida
pulsando na pele,
No coração e na mente,
Sem dispersão,
Tudo fluindo e confluindo,
Se expandindo e condensando
E vibrando, tremeluzindo
Rumo à essência do ser.

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