quarta-feira, 11 de novembro de 2009

OS MUROS

Agora em novembro, o mundo todo está celebrando os 20 anos da queda do Muro de Berlim, e fico me perguntando quantos muros – e grades pontiagudas – foram erguidos por aqui desde a década de 80. Incontáveis, e os piores deles não são os que enxergamos diariamente a olho nu, mas os que foram construídos ao longo do tempo dentro de cada um.
Com tantos muros feitos para proteger, esconder, o que afloram nos dois lados das imensas paredes são a mentira, as frustrações, a discriminação, a agressão, a multiplicação da violência e da estupidez. Da defesa para o ataque se parte aqui com uma rapidez que faria inveja aos melhores velocistas.
Assistia na TV por esses dias a um bom programa em que se questionava o fato de meninos e meninas serem submetidos a competições esportivas cada vez mais cedo. Isso me lembrou a Cortina de Ferro e sua máquina de fazer esportistas cientificamente - muitos formados à base das mais pesadas drogas - como propaganda dos governos comunistas em tempos de Guerra Fria. Propaganda de governo... alguém aí pensou em Copa 2014 e Rio-2016?
Bom, neste programa vi e ouvi as maiores sandices de pseudo-técnicos e pais sobre os “valores” que são passados para seus pupilos nos treinos e jogos. Muitos desses “ensinamentos” passados aos berros e com não poucos palavrões.
Nada surpreendente, basta ir a um jogo qualquer de futebol com meninos de 10, 11 anos (ou até menos), assistir a uma inocente aula de escolinha ou mesmo ir a uma festa junina de colégio. Prestem bastante atenção no comportamento dos pais e entenderão. Está aí o embrião da sociedade que vem sendo construída nos últimos 20, 30 anos, com os gigantescos muros da competitividade, que fazem do outro um inimigo, não um adversário, nem mesmo o próprio companheiro de equipe. Esses pais ensandecidos não matriculam seus filhos para praticarem um esporte, mas para se tornarem atletas, muitas vezes aqueles que eles não conseguiram ser por algum motivo qualquer. Desde que nasce, o pimpolho já é adestrado a pensar em vencer, somente em vencer. E a odiar ou desprezar quem perde. Ele já nasce se profissionalizando, já se preparando para o vestibular, aprendendo todos os truques e macetes para ser um vencedor. Custe o que custar.
Aprender a saber perder – e também a vencer com dignidade - a respeitar o companheiro e o adversário, o árbitro, os torcedores, ter liberdade para criar fora dos adestramentos mecanizados dos treinamentos - que devem ser repetidos nas partidas - nada disso é possível. As quadras que abrigam jogos infantis de futsal e basquete, por exemplo, são um microcosmo desta sociedade que passo a passo – cada vez mais velozes e violentos – caminha rumo à imbecilidade e à estupidez total.
Crianças são xingadas por treinadores e pais – às vezes os seus próprios, às vezes de outros, companheiros e adversários – todos ávidos por uma vitória redentora para suas vidinhas abaixo de medíocres. Uma legião de insanos! A “filosofia” é preparar o atleta, o profissional; a pessoa, o indivíduo, o cidadão, não importam. E essa criança, mesmo que não se torne no futuro um atleta profissional, será um ser competitivo ferrenho em todos os setores de sua vida, sem admitir derrota. Qualquer que seja ela – uma demissão, uma paixão frustrada, um gol contra numa simples pelada de fim de semana – será uma frustração inconcebível, que o levará à depressão ou à violência, certamente regada a entorpecentes dos mais variados tipos.
Que ironia, lembrei-me da Cortina de Ferro, mas é a sociedade estadounidense, de tantos jovens franco-atiradores, o nosso principal modelo. Há sempre maus elementos à espreita nos dois lados dos muros.

Vídeo: cena do filme "Pink Floyd - The Wall", dirigido por Allan Parker. Música: "Is there anybody out there?"
Ilustração: Gerald Scarfe, para o mesmo filme.
Veja também:
"Profano" Conquista Corações
Mais Uma Sobre Educação
A Arte Transgressora
Despedidas
O Fim de Tudo

domingo, 8 de novembro de 2009

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 3

FLAMENGO 6 x 0 BOTAFOGO - CAMPEONATO CARIOCA DE 1981

No dia 8 de novembro de 1981, o Flamengo que pouco mais de um mês depois ganharia o Mundial Interclubes em Tóquio realizaria talvez a sua mais épica jornada, também num domingo, no Maracanã. O Dia da Vingança, como ficou conhecido pela devolução dos engasgados 6 a 0 de 1972 ao Botafogo de Jairzinho foi completo quando o já veterano Furacão da Copa de 70 entrou em campo no segundo tempo. Ele quase estragou a festa rubro-negra e a minha previsão feita num bolão do colégio um mês antes (tenho pelo menos quatro testemunhas que podem confirmar a minha façanha de vidente.rsrs). Foi a única vez que chorei no Maracanã. Não foi a conquista de um título, mas foi bem mais, uma aula de futebol e de respeito à torcida, que implorava por seis. Se fosse sete, oito, não valeria, nem 6 a 1, como o time da Gávea conseguiu fazer quatro anos depois. Tinha de ser igual a 1972, um patrimônio que os alvinegros em tempos de jejum de títulos ostentavam com merecido orgulho em todos os jogos contra o Fla. 
Pena que não encontrei vídeo com as imagens do jogo, somente com fotos e as narrações dos gols e a ficha técnica dos 6 a 0 do Botafogo, que não assisti nem ouvi e só fiquei sabendo quando comecei a freqüentar o Maracanã, mas que também deve ter sido uma tarde gloriosa para os torcedores alvinegros e para o timaço que tinham, até porque foi num 15 de novembro, data de aniversário do Flamengo. A foto (que peço a quem saiba a quem pertence me diga para eu pôr o devido crédito) e a ficha do jogo de 72 estão abaixo.
Não quero que este espaço seja reservado para manifestações clubísticas, apenas mostrar a arte do futebol e dar um depoimento pessoal sobre a minha relação com o jogo ou a época em que ele ocorreu. Desfrutem lá embaixo a aula de bola de Zico e Cia, com as belíssimas imagens do inesquecível Canal 100.
Ficha técnica da partida
08/11/1981 - Maracanã - Rio
Flamengo 6 x 0 Botafogo
Juiz: Édson Alcântara do Amorim (MG)
Renda: Cr$ 15.031.600
Público: 69.051 pagantes
Gols: Nunes 7, Zico 27, Lico 33 e Adílio 40 do 1o. Zico (pênalti) 30 e Andrade 42 do 2o;
Cartões Amarelos: Júnior e Perivaldo
Flamengo: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani
Botafogo: Paulo Sérgio, Perivaldo, Gaúcho, Osvaldo e Jorge Luiz; Rocha, Mendonça e Ademir Lobo; Édson (Jairzinho), Mirandinha e Ziza. Técnico: Paulinho de Almeida.

BOTAFOGO 6 X 0 FLAMENGO - CAMPEONATO BRASILEIRO DE 1972

Ficha técnica da partida
15/11/1972 - Maracanã - Rio
Juiz: José de Assis Aragão
Público: 46.279 pagantes.
Gols: Jairzinho, aos 16 minutos; Fischer, aos 35 e 41, do primeiro tempo; Jairzinho, aos 23 e aos 38, e Ferreti, aos 42 do segundo tempo.
Botafogo: Cao, Mauro Cruz, Valtencir, Osmar e Marinho Chagas; Nei Conceição, Carlos Roberto e Ademir (Marco Aurélio); Zequinha, Jairzinho e Fischer (Ferreti). Técnico: Sebastião Leônidas.
Flamengo: Renato, Moreira, Chiquinho, Tinho e Rodrigues Neto; Zanata (Mineiro) e Liminha; Rogério (Caio), Fio, Humberto Redes e Paulo Cesar. Técnico: Zagallo.

Foto do Jornal dos Sports
Veja também:
Futebol-arte: Cruzeiro 5 x 4 Internacional
Futebol-Arte: Holanda 2 x 0 Uruguai
Tudo o que foi publicado em novembro de 2008

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"PROFANO" NO GRAJAÚ. CALOROSA NOITE


O livro "Profano Coração", de Eduardo Lamas, teve uma noite muito especial no dia 7 de novembro, na Casa Cultural Anitcha, no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro. Gostaria de agradecer imensamente a presença de todos que enfrentaram o violento calor e compareceram com seu carinho e sua força na celebração de poesia e música. Obrigado a Renata por ter aberto a casa pra mim desde o primeiro momento e a Sônia pelo trabalho e dedicação. E muito obrigado ao grande violonista Vicente Paschoal que nos brindou com música de primeira qualidade. Ótima sorte na Espanha, meu parceiro! Agora o Profano Coração atravessará a Baía de Guanabara para no próximo dia 27 pulsar em Niterói. Até lá!

Leia abaixo depoimentos de quem já leu o livro:

Adriana Barreiros: "Seu livro de poesia é visceralmente honesto, de uma verdade bela e vivível. Lê-lo foi uma viagem incrível! Obrigada por capitaneá-la!"

Alexandre de Sá: "Fora a poesia da Oferenda, as outras que mais gostei foram: Dedo e A Ronda da Morte... Todas realmente são espetaculares. A última Em Meio ao Caos caiu perfeitamente também para fechar o livro! Parabéns ai pelo livro. Muito legal mesmo!"

Ana Melão: "Amei seu livro. A capa adianta o que as páginas detalharão."

Bruno Lobo: "Finalmente, Eduardo Lamas, esse poeta de mão cheia, conseguiu publicar sua primeira obra. Tenho certeza que daqui para a frente, com o sucesso garantido de "Profano Coração", muitos outros livros virão. Matéria-prima é o que não falta."

Celeste Azeredo: "Maravilhoso seu livro. Impressionante como você tem o poder de jogar com as palavras, de uma forma crua, porém doce; misteriosa sem ocultar sentimentos... Adorei ,adorei e adorei..."

Cídine Almeida: "...Gostei muito de Oferenda e de Canção para Geisa, Mata Fechada também. É muito bom!"

Denise de Oliveira: "Eduardo Lamas é uma revelação na escrita. É acido, sem perder a doçura...achei que isso seria impossível, mas lembrei da maravilhosa mistura do morango com o chocolate: é perfeito! Parabéns pelo belo trabalho. Você está na categoria dos raros."

Fernando Cid: "Cara adorei essa!!! "Deus foi criado pelo homem a sua imagem e semelhança: Ao mesmo tempo piegas e cruel" Gostei muito do livro, abraços!!!!! Parabéns novamente!!!! É o Livro da moda."

Ithamara Koorax (ouça aqui um pouco do belo trabalho dessa grande cantora): "Lindo e muito tocante. É difícil encontrar as palavras certas nessas horas. Você contorna tantas situações da vida e da morte, da dor, do sangue, enfim, realmente é um Profano Coração. Belo demais. Ficarei relendo e descobrindo novas sutilezas. Gostei muito também da capa e das ilustrações, realmente são sensacionais. Parabéns ao Sóter, cujo trabalho eu não conhecia."

Paula Tavares: "Ser surpreendida por palavras traz um suspiro que a vida vale a pena... Edu obrigada por me surpreender!!!"

Priscila Cardoso: "Profano Coração é uma grata surpresa. São emoções cotidianas, traduzidas em palavras extraordinárias, que nos fazem reviver de forma singular sentimentos outrora esquecidos ou banalizados. Adorei o livro e mal posso esperar pelo próximo!"

Raphael Santos (editora Multifoco): ""Profano Coração" é um livro que traz poemas de Eduardo Lamas em uma linguagem capaz de cativar os mais gélidos humanos. Com sua poesia direta, objetiva, cortante e, paradoxalmente, cicatrizante Eduardo mostra que é possível arrancar deste órgão os mais belos versos para conduzir a vida em um eterno poema."

Rosângela Aleixo: "Edu, seu livro é maravilhoso! Li e estou relendo com muita alegria! Você merece todos elogios do mundo! Ameiiiiiiiii!!! Parabéns, sucesso!"



Para comprar Profano Coração basta CLICAR AQUI! Se você já tem o seu, aproveite e dê este presente de coração.

Leia aqui Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado), um dos destaques de "Profano Coração".

domingo, 18 de outubro de 2009

OS INFERNOS DE SÃO SEBASTIÃO

Por mim se vai à cidade dolente,
por mim se vai à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.

Justiça moveu o meu alto feitor;
fez-me a divina potestade,
a suma sapiência e o primeiro amor.

Antes de mim não foram coisas criadas
se não eternas, e eu eterna duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais.
(A Divina Comédia, Canto III, Inferno, Dante Alighieri)


Toda vez que algo mais grave que o habitual ocorre na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro as autoridades e alguns transeuntes correm logo a dizer que foi um fato isolado e que toda cidade grande do mundo é violenta. Então, se os fatos são isolados, nós cariocas não vivemos num inferno, mas em vários infernos. Junte Dante, Kurosawa, Pasolini e outros mais pra descreverem isso aqui. Eu sugiro portais dantescos para a província olímpica: “Vós que entrais deixai toda a esperança”.

Mas os entusiastas da vencedora candidatura olímpica e os turistas que pretendem vir em 2016 podem ficar tranqüilos. Em épocas de grandes eventos os canalhas oficiais e os extra-oficiais entram em acordo e nada de mais grave costuma acontecer. Há bons antecedentes: a Rio-92 e o Pan-2007. O problema é o antes e o que vem depois.

Veja também:


Permitam-me por fim um depoimento pessoal para ilustrar um pouco mais este quadro grotesco. No campo de futebol onde o helicóptero Esquilo caiu e se consumiu em chamas com dois soldados dentro estive na metade final dos anos 80 com meu time de rua para um “amistoso” contra o Sampaio. Tudo ia bem até que viramos em pouco tempo o placar para 2 a 1. 

Saímos ilesos (menos um que quase teve a perna fraturada e não terminou o jogo), pois ao percebermos a presença de “autoridades” extra-oficiais bem junto à lateral do campo - já esburacado como permanece até hoje pelo que vi na TV – cedemos o empate mais ou menos como ocorreu naquele jogo do Maranhão, mas por motivos menos torpes. Assim já era o espírito olímpico do local onde se debruça o Morro São João.

Onde moro avança-se o sinal vermelho
Para se manter vivo
Onde moro se pratica o suborno
Para se garantir direitos
Onde moro se erguem muros e grades
Para se ter liberdade.

Ilustração: Akira Kurosawa
Vídeo: Episódio do filme "Sonhos", de Akira Kurosawa

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

Uma coisa jogada com música - Capítulo #43 Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem ...

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