quarta-feira, 16 de novembro de 2016

PENSO,LOGO SINTO 27

O pior câncer do Brasil são os roubos feitos dentro da lei, de regulamentos, regimentos, normas, muitas vezes aprovados pelos próprios beneficiados. Refiro-me a todo tipo de mordomia, ganhos astronômicos, bolsas e auxílios extras (a parentes e amigos, inclusive), casas e apartamentos oficiais, carros, aposentadorias especiais, concedidas fartamente nos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) em municípios, estados e na federação e em empresas e órgãos públicos. É o pior câncer, porque é o mais difícil de extirpar, pois está enraizado na lei e na cultura da boquinha, do fisiologismo, do nepotismo, do cinismo e da hipocrisia. Esta é a verdadeira e duradoura crise deste país doente.

Para não dizer que não falei das flores, um ótimo e raríssimo exemplo do que deveria ser a regra: http://www.tribunadainternet.com.br/reguffe-do-pdt-abre-mao-de-todas-as-regalias-de-senador/

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

POESIA CANTADA: QUE ME DIZ VOCÊ?

Versos sempre escrevi e ousei publicar por aí, em papéis diversos, reais e digitais, onde as portas se abriram e entrei com todo respeito e educação. Onde fecharam, dei as costas e parti. Mas é com igual respeito, educação e amor que peço licença à musa Música para adentrar em seu maravilhoso recinto. Chego devagar, mas com certa audácia, pois não sou cantor e não toco sequer um instrumento. 

E peço desde já desculpas pela maneira como chego, não tão bem arrumado para a ocasião e com alguma fome e sede, mas - tenho a certeza - com a dignidade que não falta a quem um dia foi impelido a escrever e agora desandou a melodiar os versos seus. Eu, os meus. Isso mesmo, eu!

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Parece absurdo, mas não é tanto assim. Afinal, venho de uma família com músicos, antepassados e presentes, e de muitos amadores da Musa Música. Nada mais natural que ela brote dentro de mim como os versos tantos que já publiquei. Uni um ao outro, de forma sutil e agradável. 

Enquanto atravessava um longo deserto, nasceram 16, 17. A aridez que me deu esses oásis sonoros para suportar melhor a longa e árdua jornada está chegando ao fim, e meus pés lanhados, com o solo do meu peito rachado, como relato em "Sequidão", estão cicatrizando aos pouquinhos.

Aqui, pergunto "Que me diz você?", pois dizer já disse e continuarei dizendo. Até cantando, mesmo sem ser cantador, mesmo sem ter um instrumento que me acompanhe. Estou quase solitário, como caminhei pelo deserto. Quase, porque amor não me faltou (nem me falta) para receber e dar também. 

E meu amor esteve de mãos dadas comigo o tempo todo. Foi o sentimento-mór, o alimento diário que me proporcionou a força necessária para estar aqui depois de tantas pedras, dos mais variados tamanhos, vendavais, tempestades de areia. As intempéries, inesperadas em sua maioria, também me deram incomensuráveis forças. Portanto, agradecê-las-ei - sem temer - também.


QUE ME DIZ VOCÊ?

Que me diz você mais do que a morte,
a ressurreição e sua dança,
o aspirar um novo ar,
o banhar a alma
com uma chuva quente,
o respingar de gotas cintilantes,
todo ser em harmonia,
o libertar o corpo
de amarras invisíveis
E senti-lo crescer
Sem sair do lugar?

Apenas luta sem trégua,
Guerra civil do ser
sem fins, sem meios,
sem terras, sem gritos de liberdade,
Cadeias ou fugas,
Tronos ou poder;

Apenas a vida
pulsando na pele,
No coração e na mente,
Sem dispersão,
Tudo fluindo e confluindo,
Se expandindo e condensando
E vibrando, tremeluzindo
Rumo à essência do ser.

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É preciso respeitar a dor do universo
Nau Poesia: Esperar pelo sol
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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

NO BANCO DA PRAÇA

Foto: Fábio Rogério (Jornal Cruzeiro, Sorocaba-SP)
Andava sem rumo, pensativo, remoendo problemas e removendo alegrias do fundo do baú da memória, quando me vi dentro de uma ampla praça no centro de uma cidade que já não me reconhecia mais. Nem eu a ela. Reparei num lugar vago ao lado de um senhor e lá me sentei, sem a menor vontade de trocar sequer uma vírgula de idéia. Não com ele, especificamente, com ninguém. Mas ele falava, parecia um mantra, e tive de me curvar discretamente para ouvir e ele não perceber. O senhor repetia baixinho: "Coitado do povo, coitado do povo, coitado do povo...". Quando entendi o que dizia me postei virado para o lado oposto, o direito, para não correr o risco de ter as lamúrias voltadas para mim em busca de algum apoio ou mesmo de uma represália. Longe de mim, pensei. E ele se foi.

Resolvi ocupar o lugar em que o senhor estava. E voltei aos meus pensamentos e voei para um lugar no meu passado longínquo que já pensava - ou melhor, já não mais pensava - estar banido das gavetas das lembranças. E chegou outro senhor de cenho franzido, carrancudo. Sentou-se ao meu lado e começou a falar alto: "Maldito povo, maldito povo, maldito povo...". Virei-me desta vez para a esquerda, que era o lado oposto da vez. Ele parecia cego em seu ódio, nem reparou em mim, ainda bem. Não queria ter qualquer diálogo ou embate com aquele ser vociferante. Longe de mim, longe de mim. E ele se foi.

Desloquei-me ao centro do banco da praça. Quando pensei em voltar ao meu mundo imaginário, eis que os dois senhores se aproximam ao longe discutindo asperamente em minha direção. Fiquei paralisado, meio sem saber o que fazer. O lamuriento se sentou desta vez à minha direita e o raivoso, à esquerda. Só pararam de discutir, quando se sentaram e viram que eu estava entre eles e tinha posto as mãos tampando os ouvidos. O silêncio deles me despertou. Olhei para os dois, bem dentro de seus olhos e disse meio que para mim, meio que para eles, antes de me levantar e sair dali a passos apressados: "Vocês são o povo! Nós somos o povo! Bem feito pro povo!". 

E lá fui eu com as palavras "maldito" e "coitado" ressoando na minha cabeça ainda atormentada sem me deixar voltar aos meus problemas e às minhas alegrias.

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