quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

PESADELOS


Tenho acordado no meio da noite com pesadelos. Imaginários e reais. Terríveis, terríveis. Outro dia mesmo foram desesperadores os meus gritos, relatou-me minha mulher. Não me ouvi, só senti o coração aos pulos e os olhos despertos em hora errada, inesperada. A madrugada, antes minha amiga como tantos que acreditei ter, tem me apunhalado com sustos e tristezas nestes últimos duríssimos anos. Por sorte – e aqui peço perdão, mas me reservo a um "egoumbiguismo" de certa forma condenável, entretanto também compreensível - os sustos particulares no fim não trouxeram a pior notícia. Mas a morte rondou outras casas, outras muitas casas por essas madrugadas, noites e dias e arruinou vidas. A dos que se foram, claro, e dos que ficaram. Entristeço, solidarizo-me, porém também me distancio. Não por frieza, por autodefesa. 

Chapecoense, Mariana, Marielle, Museu Nacional, eleições, Brumadinho, CT do Flamengo, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, cidade e estado homônimos em belezas, sujeiras e desgraças. Diárias, diárias. E depois de já escrito o texto ainda veio esta do Boechat, a quem tive o prazer de conhecer e conversar algumas vezes no cafezinho das manhãs na redação do jornal O Globo. Ao que levam estas palavras, quase todas nomes próprios, todos sabem, conhecem, acompanharam desde a afobada pressa das primeiras informações, aos detalhes mais bem apurados depois. Porém, dos meus pesadelos, poucos sabem, alguns nem eu mesmo consigo mais me lembrar ou fiz questão de esquecer. Sofridos e esperançados dias têm passado por mim rotineiramente com lerdeza e velocidade. A extrema lentidão desesperadora quando se necessita tanto da resposta redentora. A rapidez que atropela afazeres, necessidades, desejos. Sublimes e funestas, funestos, eternos e efêmeros. 

Estou apreensivo. O que será que estes pesadelos todos querem me dizer, que sinais verdadeiramente me mandam? Um amigo que desiste da vida; o sonho que escapa das mãos por torpe e tripla rasteira; aquele que me desperta em desespero no meio da noite; os dias, os meses, os anos se sucedendo de bolsos vazios; a arma apontada para a barriga interrompendo a caminhada; o filho com o sangue se espraiando dentro da cabeça costurada, aberta posteriormente na mesa de operação; a decepção profunda pelas sombras em profusão que cobriram todo um país; uma enorme árvore que despenca a cinco passos daquele que seria o meu último passo; os gritos que invadem o sono pelas convulsões e o pulo da cama com a cabeça e o peito em chamas vão se misturando às tragédias lá fora. Todas tão distantes, tão próximas. Como eu, diante dos noticiários etudo o que me ocorre.

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Crônica que nasceu no Boteco Taco
Azul e branco
O escrever
Um sonho chamado Kurosawa
O caminhante

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

REENCONTRO

Levado com toda gentileza e alegria pelo meu filho mais velho e acompanhado de outro filho, meu irmão, sobrinhos e amigos fui visitar ontem um velho amigo que não via há dez anos. No mesmo endereço de sempre, onde estivera pela última vez, em 2009, quando houve apenas dois encontros, que já rareavam há muito tempo. Eu que estava aos poucos me afastando, talvez não visse mais tanta graça nas festas que promovia, andava mesmo saudoso dos velhos tempos ou já buscava novos lugares, outros sorrisos, outros encontros. Soube sim, claro, que ele reformara a casa, quebrando tudo por dentro e que rejuvenescera por uma dessas novidades que todas as modas das mais diversas áreas inventam para ditar novas regras, novos ditames, novas diretrizes. E daí, passado um tempo, mudar tudo de novo, com quase todos seguindo em frente sem nada questionar.

Andei afastado, mas vez por outra eu o via pela televisão com um ar rogante que não condizia muito com o que sempre me fez admirar aquele amigo. Antes era convidativo sem precisar chamar, era simples, como sua casa, não exibia conforto, porém tinha acolhimento, informalidade, alegria, e as festas... Ah, que festas inesquecíveis tive a sorte de presenciar. Lembro hoje com ternura, já sem a amargura daqueles instantes hoje passados, até das conquistas alheias, mesmo as que tiraram de mim aquela que se tornara a minha obsessão. Chorei em minha casa depois, na dele só uma vez e foi de imensa felicidade. No entanto, quantas vezes mais saí de lá prolongando a festa para depois da festa. Belas tardes-noites de domingo, velhos tempos, belos dias.

Cheguei diferente. Não fui fazendo barulho, cheio de intimidades com o anfitrião, como antes ocorria. O afastamento criou uma certa timidez em mim. Timidez não é bem o termo, na verdade a relação esfriou, embora estivesse fervendo por lá ontem. Fui sem saber direito como seria recebido. Afinal, torci o nariz com certo desprezo quando soube das reformas, na casa, no anfitrião. Antigamente, eu era um frequentador assíduo, então era como se fosse minha segunda casa, entrava sem qualquer formalidade e me deslocava lá dentro como queria. Muitas vezes vinha uma outra turma, grande, embora nunca tanto como a minha, mas os espaços eram respeitados e cada um fazia a sua festa da forma como gostava. É, às vezes, rolavam brigas. Brigas feias, até. Mas nunca participei de nenhuma, embora tenha levado estocadas, nas costas e na barriga, sem gravidade alguma, portanto, serviram mais pra que eu tivesse mais histórias pra contar. A tragédia veio já no tempo em que passei a ir menos lá, não estava presente. Foi muito triste e a casa foi fechada e muitas obras vieram, sendo a mais recente a que mudou tudo. 

Voltei e, como de certa forma já esperava, estranhei muito. O anfitrião de quase 70 anos com cara de quarentão e a casa cheia de cadeiras, sem espaço para dançarmos, pularmos, mudarmos de lugar como sempre ocorreu. A pista de dança da bola ficou menor, porém agora dá pra se ver melhor o que acontece por lá, embora o que se veja não seja lá mais tão bonito. Na chegada, apesar do aperto, do extremo calor, e de não haver espaço pra me sentar, fui recebido com simpatia, cordialidade, respeito, carinho até. E me senti bem, mais pelas lembranças do que vivi naquela casa, que já foi gigantesca e hoje se parece com um enorme salão. Valeu, valeu muito. Mesmo completamente diferentes, o meu amigo, a casa, consegui rememorar alguns grandes momentos que vivemos e pude conversar com conhecidos e desconhecidos, como sempre se fez por lá. E, muito agradecido ao meu filho Lucas, pela tarde-noite de ontem e por tantas maravilhosas que lá passei, pude dar pessoalmente o meu adeus ao Mario Filho, o Maracanã.

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

UMA VIAGEM NO TREM AZUL, DE BH A LIVERPOOL

O Brasil, em especial o Rio de Janeiro, pode estar (e está!) muito maltratado, mas vive um momento extremamente feliz nos projetos musicais que vêm lotando casas de todos os tamanhos e públicos, e emocionando pessoas de todas as idades. Sejam nas telas de cinema, da TV ou na internet, sejam nos palcos, no formato teatral ou de shows, não falta variedade unida à qualidade. Depois de acompanhar esse movimento, mesmo um pouco à distância na maior parte dos casos, assistir a "Para Lennon e McCartney - os Beatles e o Clube da Esquina" me fez voltar ao blog para exaltar este momento, o mesmo em que paralelamente os maiores sucessos populares em TV, rádio e streaming são o que de pior existe. Mas deixemos a maioria se locupletar com efêmeras vitórias e vamos ao que é eterno e indestrutível, a Arte.
"Para Lennon e McCartney" é uma feliz união entre o Fab Four, influenciador de gerações e gerações e gerações do mundo inteiro, e os geniais mineiros do Clube da Esquina, uma das grandes dádivas da música brasileira para o Planeta. No palco, Deco Fiori (voz, violão, piano, mandolin e arranjos), Dudi Baratz (voz, baixo, guitarra e arranjos), Eduardo Braga (voz, violão, piano e arranjos), Sérgio Sansão (voz, sopros, percussão, baixo e arranjos), Jefferson Vieira (bateria), João Freire (guitarra) e Lourival Franco (piano e teclados) brindam o público com grandes interpretações, ideias e várias surpresas.
É um espanto encantador a cada junção que surge de uma música dos mineiros com a do quarteto de Liverpool. Por exemplo: "Um girassol da cor do seu cabelo" (Lô Borges/Márcio Borges) com "While my guitar gently weeps" (George Harrison) ou "Maria, Maria" (Milton Nascimento/Fernando Brant) com "All you need is love (John Lennon/Paul McCartney) ou ainda "O trem azul" (Lô Borges/Ronadlo Bastos) e "Something" (Geroge Harrison). E tem muito mais.
Confesso que, na plateia do ótimo Imperator (Centro Cultural João Nogueira), a convite da Portal Produções, muitas vezes tentei acompanhar cantando as músicas, mas acabava interrompido porque a voz embargara. É uma linda viagem no trem azul para se apreciar pela janela lateral as paisagens sonoras do mais alto grau de beleza, que parte de Belo Horizonte em direção a Liverpool. O espetáculo vai agora para dois fins de semana no Teatro Café Pequeno, no Leblon, e depois para a Sala Baden Powell, em Copacabana. Quem ainda não foi, deve ir. Quem já foi, deve voltar. Muitas vezes.
      

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Tostão, Milton e Kid Morengueira no Jogada de Música
Para Milton e nossos amigos
John Lennon, 70 anos

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

NAU POESIA: A IGNORÂNCIA INSTRUÍDA


Um filme sem fim
Um mundo doente
e mal-educado
A ignorância instruída
A culta estupidez
gerando gerações perdidas
Décadas e décadas
de infância sem esperança
de crianças sem infância
de expectativa de morte
a cada esquina
O revólver apontado
pra cabeça
numa roleta-russa
a cada amanhecer
As balas traçando
rumos incertos
atingindo pequenos corpos 
mal-nutridos
corpos desamparados
almas despedaçadas
no morro, nas vielas,
nos becos,
nas estradas, ruas, avenidas,
casas, apartamentos
e atrás das grades, cercas e muros
Olhares perdidos e fixos
no nada que cria
no tudo que destrói
dia após dia
O que se esconde
e o que se mostra
em berros que escapam
de gargantas roufenhas
em urros desumanos
em gritos desesperados
em tiros a esmo
de canos de armas
cuspindo ininterruptamente
na correria sem rumo
na disputa por um 
pedaço de dignidade
que nunca se conquista
que sempre escapa
em maços de altas notas
para as mãos e 
os bolsos privilegiados
a indignidade monetária
financiando a doença
e a ignorância
no rádio, nos jornais,
no cinema, nas ruas, na TV,
na grande rede que nos rodeia,
A ignorância instruída
repugnando tudo aquilo
que patrocina
conivente com governos,
desgovernos, empresas,
e astros da TV
O cinismo gentil,
a juventude senil
implorando por um deus
que a conduza à salvação
A ignorância instruída
cega em meio ao tiroteio
atira para todos os lados
e se protege nas
cavernas estilizadas
da modernidade
fazendo propaganda
de seus próprios defeitos
como se fossem grandes virtudes
babando ao falar de ética
e cuspindo no prato carcomido
da estética
Um filme sem fim...

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Uma coisa jogada com música - Capítulo #41 Mario Vianna , entre o capitão suíço ...

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